2 de março de 2018

Capítulo 15

Fletcher usou o tempo que tinha antes da chegada dos ladrões para convencer o demônio a subir no seu ombro. O diabrete cravou as garras no couro da jaqueta, sentindo a agitação do menino.
— Fique preparado, amigo; acho que a coisa vai ficar feia — murmurou Fletcher, preparando uma flecha no arco e se ajoelhando para mirar melhor. Os três viraram a esquina e pararam, encarando o menino. — Caiam fora ou meto esta flecha no seu olho. Não tenho o menor problema em acabar com um ladrão — gritou Fletcher, espiando o maior dos três por cima da flecha. Seu alvo sorriu, mostrando uma boca cheia de dentes amarelados.
— É, não duvido não. Mas, veja só, a gente não é exatamente ladrão; estamos mais para cortadores de garganta, se é que cê me entende. — O homem fez uma careta de desprezo e ergueu uma lâmina curva. — Só passa a bolsa de dinheiro que a gente cai fora, sem crise.
Ele deu alguns passos à frente, ficando a três metros de Fletcher. O demônio sibilou e soprou rajadas gêmeas de chamas das narinas, que flamejaram a centímetros do rosto do homem, fazendo com que ele cambaleasse de volta até os outros.
— Não estou de brincadeira. Caiam fora, ou vocês vão se arrepender! — gritou Fletcher de novo, a voz tremendo.
Ele olhou as casas vazias ao redor. Por que ninguém tinha ouvido? Alguém precisava chamar os Pinkertons. Que desgraça seria chegar tão longe só para morrer num beco imundo na primeira noite.
— Ah, um conjurador. Tu é um dos aprendizes da Academia Vocans, né? Já não passou um pouco da sua hora de dormir? — zombou o ladrão, limpando as roupas com as mãos.
— Suma! — exclamou Fletcher, percebendo que o demônio só poderia cuspir fogo até uma determinada distância. Ele não queria testar esses limites naquela noite.
— Muito bem, tu já mostrou o seu, agora me deixa mostrar o meu — retrucou o homem, em seguida sacando uma pistola e apontando para o peito de Fletcher. O rapaz quase disparou a flecha ali mesmo, mas perdeu a mira quando o assaltante avançou novamente. — Agora, qual que tu acha que é mais rápido, a pistola ou esse teu arco? — inquiriu o homem com confiança genuína.
Fletcher avaliou a arma de fogo. Era uma coisa feia, com metal enferrujado e o cano rachado e gasto.
— Não me parece muito precisa — comentou o rapaz, recuando.
— É, tu tem razão. Mas, digamos que ela erre, e tu meta aquela flecha no meu olho? Meus dois amigos aqui vão partir pra cima de tu todos cheios de faca e te cortar de orelha a orelha. A gente pode morrer aqui, ou tu pode facilitar o serviço e dar pra gente o que a gente quer. Não tem nada que feitiço ou demônio possam fazer contra uma bala, conjurador — afirmou o homem, com voz constante e confiante. Alguma coisa dizia a Fletcher que aquele sujeito já tinha feito aquele jogo antes.
— Prefiro correr meus riscos — retrucou Fletcher, disparando a flecha.
A pistola cuspiu fumaça com um estrondo, e o rapaz ouviu o baque de um impacto próximo ao peito. Um clarão de luz atravessar sua visão, porém Fletcher não sentiu dor alguma; talvez esta parte viesse depois. Os guinchos do demônio lhe soaram nos ouvidos enquanto ele desabava ao chão, sorrindo cruelmente ao ver o assaltante cair com uma flecha no crânio. Os dois homens atrás do bandido ficaram paralisados; não tinham esperado que Fletcher cumprisse a ameaça.
— Errado, na verdade — afirmou uma voz elegante das sombras no fundo do beco. — Há muito que a feitiçaria pode fazer. Como erguer um escudo, por exemplo.
O oficial de rosto marcado que Fletcher vira na taverna emergiu, caminhando por entre os dois homens que ainda restavam. Um rosnado soou das trevas detrás dele, tão alto que Fletcher quase o sentiu reverberando no peito.
— Eu correria, se fosse vocês — aconselhou o oficial. Sem olhar de novo, os homens se viraram e saíram correndo pela esquina. Pelo que Fletcher escutou, eles não foram muito longe. Um segundo rosnado alto ecoou fora de seu campo de visão, seguido de gritos que logo se tornaram um horrível som gorgolejante.
Fletcher cobriu o rosto com as mãos e respirou fundo, quase soluçando, repetidas vezes. Aquela tinha sido por pouco.
— Aqui — disse o oficial, estendendo a mão. — Você não está ferido; meu escudo cuidou disso.
Fletcher aceitou a ajuda e foi posto de pé pela mão surpreendentemente macia do homem.
Apalpou o peito, sem encontrar ferimentos. Em vez disso, uma rachadura luminosa parecia pairar no ar diante dele, como gelo partido num lago opaco. Estava embebida num oval grande e translúcido, que flutuava à sua frente. Mal era perceptível a olho nu. Mesmo quando o rapaz estendeu a mão para tocá-lo, o escudo desapareceu. Fletcher notou que a bala tinha caído no chão, a forma redonda achatada pelo impacto.
— Siga-me — chamou o oficial, seguindo sem olhar para trás. Fletcher fez uma pausa por um momento, então deu de ombros. O homem tinha lhe salvado a vida; o rapaz não iria questionar suas intenções.
O diabrete escalou as costas de Fletcher e se enfiou no capuz enquanto o menino seguia o oficial, exausto com a adrenalina do combate. Fletcher ficou feliz, pois o oficial vinha fitando o demônio intensamente.
— Sacarissa! — gritou o oficial.
Uma sombra se separou das trevas e esfregou o focinho na mão do mestre. Este soltou um “tsc” de nojo quando o nariz da criatura ensanguentou seus dedos. Em seguida, puxou um lenço do bolso e limpou a mão meticulosamente. Fletcher arriscou uma olhadela no demônio e viu uma criatura de aspecto canino com quatro olhos; um par normal e outro menor, uns três centímetros mais atrás. Entretanto, as patas eram mais felinas que caninas, com garras de mais de dois centímetros de comprimento, cobertas de sangue. O pelo era negro como uma noite sem estrelas, com uma juba espessa que corria ao longo da espinha até uma cauda felpuda que lembrou a Fletcher uma raposa. Era tão grande quanto um cavalo pequeno; seu dorso batia na altura do peito do rapaz.
Ele tinha imaginado que os outros demônios fossem do mesmo tamanho que o dele, porém este era grande o bastante para servir de montaria. Os flancos da enorme criatura ondulavam com músculos conforme ela espreitava ao seu lado, fazendo Fletcher quase ter pena dos homens que tinham morrido em suas garras.
Ele e o oficial caminharam em silêncio. Fletcher considerou o homem alto ao seu lado. Era um sujeito de rosto severo, porém bonito, provavelmente nos seus 30 anos. A cicatriz de guerra que lhe adornava a face preenchia a imaginação de Fletcher com imagens de batalhas acirradas, com flechas sobrevoando os combatentes.
As ruas já estavam começando a se esvaziar, e, mesmo que a criatura atraísse alguns olhares furtivos, eles logo se viram sozinhos ao sair da via principal e virar numa rua vazia.
— Que tipo de demônio é esse? — perguntou Fletcher, para quebrar o silêncio.
— Um Canídeo. Se você prestasse atenção nas aulas, saberia disso. É provavelmente o primeiro demônio que eles apresentam, Deus sabe que é o mais comum. Então... você é um gazeteiro e um aluno relapso! Eu expulsaria você sumariamente se não precisássemos de todos os adeptos que pudermos encontrar, não importando quão ineptos forem.
— Eu não sou da escola. Só cheguei na cidade esta manhã! — retrucou Fletcher, indignado.
O oficial parou completamente e se virou para encará-lo. O olho turvo e implacável do homem se fixou no rapaz por um momento, antes que continuasse:
— Nossos Inquisidores disseram que todos os plebeus identificados como adeptos nos testes chegaram à escola semana passada — afirmou o oficial. — Se você não é um deles, então quem é? Um nobre? E quem lhe deu esse demônio?
— Ninguém me deu o demônio. Eu o conjurei sozinho — explicou Fletcher, confuso.
— Ah, então você é um mentiroso — disse o oficial, como se tivesse finalmente entendido, e continuou andando.
— Não sou, não! — grunhiu Fletcher, segurando o homem pela cauda da casaca.
Num instante o oficial tinha o rapaz contra a parede, segurando-o pelo cangote. O diabrete sibilou, mas um único rosnado de advertência de Sacarissa o calou.
— Nunca mais ouse me tocar de novo, seu moleque arrogante. Acabei de salvar sua vida e você então decide me contar uma mentira absurda. Todo mundo sabe que os conjuradores precisam receber um demônio de presente de alguém para poder capturar o próprio. Ora, logo você vai me dizer que entrou no éter pessoalmente e colheu um demônio como uma fruta no pé. Agora me diga, qual conjurador lhe deu o demônio?
Fletcher chutou o ar, sufocando com a traqueia esmagada. Um nome flutuou espontaneamente em sua cabeça.
— James Baker — conseguiu dizer, arfando e batendo nas mãos do oficial. O homem o soltou e alisou amassos imaginários no próprio uniforme.
— Perdoe-me, deixei que a raiva me dominasse — desculpou-se, com uma expressão cheia de arrependimento ao ver as marcas que os dedos deixaram no pescoço de Fletcher. — A guerra cobra um preço caro demais de nossas mentes. Deixe-me fazer algo para compensar meus atos. Vou lhe reservar um quarto na minha taverna e mandá-lo à Academia Vocans amanhã numa das carroças de suprimentos. Meu nome é Arcturo, e o seu? — Ele estendeu a mão.
Fletcher aceitou o cumprimento, a violência esquecida instantaneamente com a menção à academia. Sua reputação era lendária; o campo de treinamento dos magos de batalha desde a fundação de Hominum. O que acontecia lá dentro era um segredo muito bem guardado, até mesmo dos soldados que lutavam ao lado dos magos. O convite de Arcturo ia muito além de qualquer coisa que Fletcher tivesse sonhado para si e seu demônio.
— Fletcher. Não se preocupe; eu teria algo bem pior que um pescoço roxo se não fosse por você. A forma como recebi meu demônio é um tanto complexa, e foi por isso que fiquei confuso com sua pergunta. Explicarei tudo esta noite, se você me deixar — respondeu Fletcher, estremecendo ao esfregar a garganta.
— Sim, você pode me contar durante um jantar e um drinque. Por minha conta, é claro. Se me recordo bem, James Baker não foi um conjurador muito poderoso, então capturar um raro demônio Salamandra como o seu certamente estaria além das possibilidades dele. Eu desconfio que ele teria ficado com a criatura para si mesmo, se tivesse conseguido uma — raciocinou Arcturo, seguindo rua abaixo.
— É isso que ele é? — perguntou, olhando o próprio demônio. O rapaz sorriu ao ver Arcturo entrar numa estalagem de aparência cara, sentindo o cheiro revelador de comida sendo preparada.
Naquela noite ele iria se empanturrar de comida e afogar os problemas num banho quente. Então, no dia seguinte, partiria à academia!


6 comentários:

  1. Me lembrei do natsu😂

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  2. Véi, eu acho que Fletcher esqueceu que está com o livro, nunca mais leu nem nada, se não já saberia se defender!

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    1. meu parceiro, o livro era um diario de pesquisa não um manual de tutorial avançado para magos

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Boa leitura, E SEM SPOILER!