22 de março de 2018

Capítulo 14

Fez-se a noite, e, enquanto eles voavam para os céus escuros, o frio e o vento tornaram-se uma bênção disfarçada — eram uma desculpa para que Fletcher e Sylva não precisassem conversar. Era estranho, agora, abraçar a cintura da elfa. Ele odiou aquilo. Odiou tanto que quase não viu a fumaça.
Um fino traço negro, muito ao longe, apareceu no revestimento da pedra de visualização. Seria o vulto sombrio de uma montanha lá embaixo? Pela primeira vez em muitas horas, ele falou:
— Ali — indicou, apontando.
Sabia que Sylva não era capaz de ver o que tinha avistado, mas seu estômago revirou quando Lisandro corrigiu o curso.
Minutos se passaram enquanto eles voavam, olhando para a escuridão. O primeiro raio de luz já sinalizava a chegada da aurora. O tempo estava acabando.
— Meu Deus — sussurrou Fletcher, conforme a esperança o inundava, como se fosse uma droga. — Acho que conseguimos.
O traço se transformara em uma coluna de fumaça negra que se ampliava enquanto subia e se tornava um cogumelo cinzento que se perdia nos céus do éter. Embaixo havia um único pico, irrompendo do solo em uma vasta pirâmide, recoberto com florestas verdejantes e escuro solo vulcânico. O brilho alaranjado do zênite ficava mais visível à medida que se aproximavam; a lava derretida iluminando uma enorme caldeira. O lago de lava era tão grande quanto o átrio de Vocans, e a cúpula de terra onde ele se despejava tinha o dobro do tamanho.
Enquanto Lisandro voava em direção à orla da cratera, o calor os atingiu como uma onda. Os pelos dos antebraços de Fletcher se encolheram na aterrissagem e, então, bum: Fletcher virou a cabeça de lado quando uma nova onda de calor se irradiou do vulcão e atingiu seu rosto com força total.
Havia um trecho espesso de solo fumegante ao redor da boca da cratera onde as botas mal conseguiam pisar, cheio de grandes rochas espalhadas, as superfícies pareciam cera de abelha. O lago vermelho alaranjado de lava borbulhava e fervilhava, atirando gotas de rocha derretida que caíam sobre a terra com um chiado. O solo onde estavam inclinava-se em direção ao lago mortal, e a mente de Fletcher inundou-se do medo irracional de que eles fossem sugados na direção daquele centro incandescente.
— Como alguma coisa cresce em um lugar desses? — perguntou Sylva, erguendo a voz de modo a ser ouvida por cima do rugido trovejante da lava.
— Precisamos nos separar — avisou Fletcher, convocando Ignácio. Sabia que aquilo era um risco, depois do que tinha acontecido na última vez que o demônio estivera perto de lava.
Apesar dos pesares, entretanto, a Salamandra tinha sido feita para esse tipo de busca, pois era capaz de se aproximar de regiões tão quentes que nem ele nem Sylva poderiam alcançar. Ele adivinhou que, se fosse preciso, ele poderia usar um laço cinético para arrancar o demônio da lava, tal como fizera da última vez.
As garras de Lisandro não eram capazes de sentir a temperatura do chão, nem as de Atena, portanto os dois demônios ficaram acomodados na beirada da cratera em um merecido descanso. O Grifo estava exausto; as noites terríveis de voos extensos e sono intermitente fizeram com que fosse deitar-se na parte mais fresca do chão, os olhos fechados de esgotamento.
Ignácio correu na frente de Fletcher quando ele e Sylva se separaram. Foram obrigados a se abrigar atrás de rochas ao rodearem os limites da caldeira, correndo de rocha em rocha, usando-as como cobertura do calor radiante enquanto caçavam as flores escondidas. Não avistavam nada além da terra nua e fumegante.
O desespero começou a se instalar enquanto Fletcher inspecionava lentamente a caldeira do vulcão. Nada. Apenas terra, pedra e fogo. Eles estavam condenados a morrer naquele mundo, sufocados com o ar venenoso enquanto seus pulmões paralisavam.
Sylva devia ter gritado, mas, graças ao barulho da lava, ele só percebeu isso quando olhou para cima e a viu acenando para ele, do outro lado do lago de lava. Levou cinco minutos para que chegasse até lá; silvando de dor a cada vez que vencia o espaço entre uma rocha e outra para se abrigar atrás delas.
Seu coração fraquejou quando viu o que Sylva encontrara, a imagem borrando-se quando seus olhos começaram a lacrimejar por causa da secura opressiva. Um punhado de talos quebrados, era tudo o que havia descoberto, crescendo perto de uma grande rocha, abrigados do vento. As flores tinham sido removidas, arrancadas grosseiramente. Aqui e ali havia um fragmento de pétala amarela, rasgado e insubstancial, mas o suficiente para confirmar que eram as plantas que estavam procurando.
— Eu tentei fazê-las reviverem — gritou Sylva, arrasada. — Mas não funcionou.
— Pode haver outro grupo de flores nas proximidades — respondeu Fletcher, olhando ao redor em desespero. Ignácio estava se aproximando, vindo do outro lado, depois de ter vasculhado a área que ele e Sylva ainda não tinham visto. O demônio guinchava, e Fletcher sentia sua frustração.
Nada lá também.
Ele caiu de joelhos e apertou os olhos com força. Eles haviam chegado tão perto.
— Eu pensei que o diário de Jeffrey ia nos salvar — grunhiu Sylva, a voz mal discernível sobre o rugido do vulcão. — Mas ele só serviu para desperdiçarmos o pouco tempo que ainda nos restava.
Ela organizou os fragmentos restantes de amarelo na palma da mão até que assumissem a forma de uma pétala intacta. Então ela os levou até a boca e mastigou lentamente.
— É uma Euryale mesmo — disse ela, balançando a cabeça cheia de desapontamento. — O bastante para cinco horas.
Mal se ouvia sua voz baixa por sobre o barulho do vulcão, mas Fletcher não estava prestando atenção. Jeffrey... O nome havia lhe provocado uma memória. De maneira perversa, o traidor os ajudara a chegarem até ali. Agora, ele involuntariamente os ajudaria mais uma vez, com o feitiço que ensinara em seu primeiro dia nas selvas dos orcs. O feitiço de crescimento.
— Espere! — disse, erguendo a mão suja de terra e fez um desenho no ar.
Um símbolo gradualmente começou a se formar, similar a uma folha oval, com direito a veios que se espalhavam do talo central. Fletcher o fixou no lugar e depois o apontou para o trecho cheio de talos murchos.
— Espero que isso funcione — rezou, enchendo o corpo com mana.
Um fluxo de luz esverdeada fluiu de sua mão, fazendo uma linha de base para os talos quebrados. Seu mana foi drenado do corpo mais depressa que nunca, porém o efeito foi quase instantâneo. Os talos desabrocharam: pétalas gordas e cerosas se abriram e retorceram-se, como um botão em formato de concha.
— Fletcher, seu gênio! — gritou Sylva, abraçando-o com toda a força. Por um momento ela deixou as reservas de lado e se apertou a ele; somente quando Fletcher hesitantemente devolveu seu abraço, é que ela se afastou.
Envergonhada, ela evitou os olhos do rapaz e arrancou um botão de uma das hastes. Descoladas do talo, as pétalas se separaram em uma pilha sobre sua mão. Havia uma dúzia delas. Olhando para as vinte e poucas flores, Fletcher calculou que tinham ganhado mais uns...
— Dez dias — disse ele, pensando em voz alta. — Não é suficiente.
— Não, Fletcher, você não entende? — indagou Sylva, sorrindo de orelha a orelha.
Ela já havia removido a maioria das flores, enchendo os bolsos com elas. Fletcher a ajudou, sem entender nada.
Ela ergueu os dedos depois que as últimas pétalas foram colocadas na mochila de Fletcher. Dessa vez, ela mesma desenhou o feitiço de crescimento no ar, apontando para as plantas que tinham acabado de desflorar.
O entendimento se espalhou pelo rosto de Fletcher quando outro clarão esverdeado fez com que as plantas florescessem mais uma vez.
— Vinte dias. — Ela deu uma piscadela, curvando-se para colhê-las outra vez.
Fletcher enfiou mais algumas pétalas no bolso. Depois parou... algo estava errado.
— Ignácio.
Ele girou o corpo, bem a tempo de ver a Salamandra travessa saindo em disparada em direção à lava, atravessando poças nas fronteiras do lago principal. Fletcher se levantou de um pulo e saiu correndo atrás do demônio, ignorando a explosão de calor que envolveu seu corpo quando ele deixou o abrigo na rocha.
— Pare! — gritou, a voz rouca pelo ar seco.
Lançou um laço cinético, mas a Salamandra já estava distante demais.
Ignácio se atirou para um lado, desviando com facilidade da linha translúcida de mana reluzente. Fletcher caiu de joelhos. Era a segunda vez que um de seus demônios o desobedecia. Eles não tinham tempo para desperdiçar assim.
Fechou os olhos e se concentrou, agarrando-se à conexão de sua mente com a de Ignácio e ordenando que ele parasse. A consciência do demônio, no entanto, estava tão escorregadia quanto uma enguia, escapando de seu controle.
— Fletcher! O que você está fazendo? — berrou Sylva.
Ignácio estava no centro da poça de lava agora — Fletcher podia ver a cabeça rubra do demônio oscilando no líquido, como uma lontra nadando em um lago. Nunca conseguiria alcançar aquele alvo pequenino e longínquo com um laço cinético.
Pior: ele não podia se aproximar mais; era demasiado quente, seus pés já queimavam, mesmo através do couro que os protegia, e ele mal conseguia manter os olhos abertos sob a opressão daquele calor seco.
E se usasse o feitiço de escudo para se proteger do calor?
Então, para sua surpresa, a cabeça sumiu. Ignácio mergulhara. Não havia nada que Fletcher pudesse fazer agora. A única coisa que lhe restava era esperar.
Ele se levantou, trêmulo, e virou-se, a temperatura opressiva tão esmagadora que ele tinha a impressão de que as sobrancelhas chamuscavam no rosto. Xingando, voltou correndo até o abrigo da grande rocha e deixou-se cair em sua sombra.
— Maldito diabinho travesso! — grunhiu. — Ele escapou de novo para nadar na lava.
Sylva estava guardando pétalas na mochila. Estranhamente, ela havia retirado cada uma das plantas pelas raízes, deixando blocos de terra presos a elas. Viu a expressão no rosto de Fletcher e deu de ombros.
— Meu mana acabou, mas temos mais trinta dias no éter agora — disse ela. Em seguida, apontou para as plantas. — Se as levarmos conosco, talvez possamos replantá-las mais tarde.
— Será que não irão morrer sem o calor do vulcão? — indagou Fletcher. — Talvez seja melhor eu também usar meu mana para fazê-las crescer de novo, já que Ignácio vai exaurir tudo mesmo.
Porém ele não chegou a ouvir resposta de Sylva.
Medo. Súbito e total, preenchendo todo o seu corpo. Atena avistara algo, e a cobertura rosada de seu cristal entrou em claro foco quando ele começou a buscar o que era. Ficou paralisado.
Serpes. Elas estavam se dirigindo direto para o vulcão, já tão próximas que Fletcher conseguiu distinguir os cavaleiros espalhafatosos que as montavam e as caudas compridas que chicoteavam o ar. Na frente do bando estava o vulto pálido do orc branco, cavalgando o Ahool, de porte menor.
— Sylva, eles nos encontraram — disse Fletcher, enfiando freneticamente as plantas e pétalas na mochila. — Precisamos partir, agora!
Era tudo tão óbvio. As flores arrancadas... poucos demônios enfrentariam o calor e a altura de um vulcão para comê-las. Haviam sido os orcs. Eles tinham vindo até ali para colher e depois ficar à espreita, sabendo que os fugitivos precisariam das pétalas cedo ou tarde.
Ouviu-se um baque quando Lisandro pousou a seu lado, curvando-se sob o abrigo da rocha. Sua plumagem estava chamuscada e fumegando: ele voara diretamente sobre o centro do vulcão.
Atena saltou das costas dele, e Fletcher rapidamente a infundiu. Seu peso adicional não os ajudaria em nada. Peso...
— Suba! — berrou Sylva, montando em Lisandro com o alforje pendurado de lado em seu ombro. — Mais tarde a gente volta para pegar Ignácio.
Mas Fletcher não podia fazer isso. Em um dia bom, Lisandro era mais veloz que as Serpes, talvez até mesmo que o Ahool e as dúzias de demônios menores que havia no séquito das Serpes. Porém, com o peso sobre suas costas e em seu atual estado de exaustão? Não havia a menor chance.
— Jamais conseguiremos — disse Fletcher, as palavras como pedras em sua boca. — Não se formos nós dois. Ele está exausto.
Fletcher viu a compreensão nos olhos de Sylva, mas ela balançou a cabeça, como se para negar a verdade de suas palavras.
— Você está enganado — disse ela, e Fletcher viu uma lágrima abrindo uma trilha no rosto manchado de fuligem. Ela o encarou desafiadoramente.
— Não posso deixar Ignácio para trás — respondeu o rapaz, quase com suavidade.
Naquele momento, ele entendeu. Talvez sempre tivesse entendido, lá no fundo. Khan jamais conduziria pessoalmente todo o seu exército aéreo em uma missão perigosa pelo éter em busca de cinco simples fugitivos. Ou, pelo menos, não por tanto tempo, nem para tão longe.
Ele estava ali por causa de uma profecia. Pela Salamandra que tinha sido vista na batalha da pirâmide, a mesma que ele vira entalhada nas paredes de seu local mais sagrado. Ele estava ali por Ignácio.
As Serpes chegariam a qualquer instante. Fletcher deu um tapa no flanco de Lisandro, e o Grifo saltou para cima, como um cavalo assustado.
— Cuide de minha mãe! — berrou.
— Eu voltarei para te buscar! — gritou Sylva, as palavras quase se perdendo no ar.
E, então, desapareceram.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!