13 de março de 2018

Capítulo 14

— Então, Fletcher, você ainda está conosco — comentou Harold. Os dois estavam sentados, observando os rebanhos de cervos abaixo. O sol tinha quase se posto, lançando sombras malhadas no solo lotado, e Fletcher ouviu o uivo lamurioso de um lobo ao longe.
— Parece que sim — respondeu Fletcher, evitando o olhar do rei.
— Você ficou em estado crítico por um tempo. Não achei que sobreviveria. Se contorceu de dor quase a noite inteira.
— Eu devo muito aos elfos. E à Vossa Majestade também, aparentemente. Não posso imaginar como o senhor convenceu todo mundo a me mandar para ser tratado pelos elfos, depois que descobriram que eu não era imune — disse Fletcher, sem emoção na voz.
— Ah, não. Você é imune, sim. Só que, quando se injeta tanto líquido ácido e tóxico no corpo de alguém, essa pessoa não vai simplesmente sair andando feliz, imune ou não. Você deveria ter morrido minutos após aquela dose, mas depois da sua primeira hora estremecendo no chão, entendemos a verdade. Os elfos só ajudaram a expulsar o veneno do seu sistema.
Fletcher estava atordoado. Ele era imune. Ele era um Raleigh. Parecia irreal. Impossível.
— Eu lhe concedi o perdão, mas você também precisa saber que sua culpa ainda é debatida pelos outros nobres. Ou seja, é bem possível que você ainda sofra certa hostilidade no futuro — continuou Harold. — A maioria concorda que você estava apenas defendendo seu amigo anão. E já pode adivinhar de que lado seus primos estão, é claro.
— Primos? — indagou Fletcher, ainda tonto com a notícia.
— Os Forsyth. Sua finada mãe e a mãe de Tarquin e Isadora eram gêmeas idênticas, Alice e Josefina Queensouth; gêmeos são uma tendência na família, pelo jeito. Seu pai, Edmund, se casou com Alice, enquanto Zacarias desposou Josefina. Éramos todos amigos de infância, naqueles tempos; todo mundo sabia que eles iam se casar... Mas não foi disso que eu vim falar com você. Quero conversar sobre a sua herança, ou, na verdade, a falta de uma.
Fletcher continuou calado, tanto feliz quanto entristecido pelas novidades. Os pais o quiseram de verdade. Não o tinham abandonado para morrer... mas para viver. Por outro lado, ele jamais os conheceria nem ouviria suas vozes.
— Eu não ligo para minha herança — resmungou Fletcher. — Eu já estava muito bem antes.
— Seja como for, você merece saber o que aconteceu ao patrimônio da sua família. Como parentes mais próximos, os Forsyth herdaram todo dinheiro, terras e propriedades. — Harold fez uma pausa desajeitada e pigarreou. — Dado o seu suposto crime, eles afirmaram que você não deveria estar vivo e, assim sendo, não merece receber nada de volta. Eu me opus. Então chegamos a um acordo. Eles ficam com todo o dinheiro e as terras férteis no centro de Hominum. Em troca, devolveram-lhe sua terra natal: Raleighshire.
Fletcher arregalou os olhos.
— O que isso quer dizer? — Ele sabia tão pouco sobre as terras de Hominum, praticamente nada sobre os Raleigh.
— Depois que seus pais e o povo deles morreram, as construções caíram em decadência e as aldeias próximas foram abandonadas — contou Harold, balançando a cabeça com tristeza. — Afora as tropas que protegem a passagem montanhosa e a entrada não-tão-secreta, não há vivalma num raio de centenas de quilômetros. É uma terra deserta, sem dúvida. Mas é sua, para que você faça o que quiser dela. É o mínimo que posso fazer, depois do sacrifício que você fez por mim. Não me esquecerei disso tão cedo.
Fletcher assentiu. Não parecia real para ele. Era terra; algo que já estava lá antes, e lá estaria muito tempo depois que ele morresse. Que diferença faria quem a possuía? Ninguém nem vivia lá.
— Tenho mais uma coisa para você. Como posso explicar...? — continuou Harold, esfregando os olhos. — Você já se perguntou alguma vez como os demônios são passados de geração a geração, nas famílias nobres, mesmo quando o pai ou mãe morrem longe de casa? O demônio deveria evanescer de volta ao éter com a morte do mestre, correto?
Fletcher fez que sim com a cabeça.
— Nós, conjuradores, sabemos o risco que corremos, sempre lutando em guerras por aí. Por isso, um conjurador sempre deixa os pergaminhos de conjuração dos seus demônios com um amigo de confiança, para que, no caso de sua morte precoce, o filho possa receber o pergaminho e conjurar o demônio de volta do éter. No caso do seu pai, esse amigo de confiança era eu.
Harold se levantou, e Fletcher fez o mesmo, inseguro de como reagir. O rei pôs a mão no bolso e tirou um rolo de pergaminho, firmemente amarrado com uma fita vermelha. Do outro bolso, tirou um couro de conjuração, completo com um pentagrama chaveado marcado no centro, e o abriu com cuidado no meio do galho.
— O Canídeo de Edmund morreu no ataque, tal como o Vulpídeo de sua mãe. Mas o Griforuja que o levou até Pelego ainda pode estar vivo, em algum lugar do éter. Aqui está seu pergaminho. O couro de conjuração tem um pentagrama chaveado; como você bem sabe, um destes é necessário para conjurar um demônio do éter.
As mãos de Fletcher tremeram enquanto ele desamarrou a fita, tomando cuidado para não rasgar o material poeirento enquanto o desenrolava. A tinta estava esmaecida, quase marrom, mas as palavras eram claramente legíveis.
— Eu infundiria sua Salamandra primeiro — sugeriu Harold, antes que Fletcher começasse a ler. — Não é incomum que um demônio recém-conjurado ataque um demônio desconhecido antes de estar completamente sob o controle do mestre.
Fletcher assentiu, lembrando-se de como Ignácio tinha atacado Didric por conta própria. Relutante, infundiu Ignácio num clarão de luz roxa.
— Comece — instruiu, indicando aprovação com um aceno da cabeça.
— Doh rah go si mai lo go. — A voz de Fletcher foi ficando mais confiante com cada palavra, ficando mais e mais alta até que os cervos abaixo se dispersaram, confusos. — Fai lo go di ai lo go.
O pentagrama fulgurou com luz roxa, e a visão de Fletcher se saturou com cores, tal como acontecera anos antes no cemitério de Pelego. Um orbe violeta apareceu logo acima da estrela, expandindo-se até ficar largo como uma roda de carruagem, girando lentamente. Houve um som de rugido, e Fletcher ouviu os gritos de elfos silvestres quando todo o rebanho de cervos começou a trotar pelas planícies, assustados com as luzes e barulhos.
— Lei go si mai doh roh!
Quando as últimas palavras foram ditas, o orbe desapareceu, deixando uma criatura esvoaçante no lugar.
— Minhas desculpas! — riu o rei enquanto os elfos silvestres abaixo lançavam contra eles dois o que só poderiam ser ofensas élficas.
Mas Fletcher ignorava tudo ao seu redor, pois a nova consciência em sua mente não era como nada que ele jamais encontrara. Enquanto a psique de Ignácio era uma mistura gentil de emoções e intenções, a mente daquela criatura era tão afiada quanto rápida, saltando de pensamento em pensamento com claridade absoluta.
O demônio se parecia muito com uma coruja-das-torres, com um rosto em forma de coração, plumagem branca na barriga e penas castanho-amareladas no dorso. Porém, ao contrário de uma coruja, tinha quatro pernas felinas, completo com um rabo, orelhas e garras de gato, além de pelo misturado à plumagem fofa. O mais adorável eram os expressivos olhos redondos, tão azuis quanto os de Sylva, que focalizaram em Fletcher com curiosidade.
— Griforujas são incrivelmente raras, então você pode não ter ouvido falar nelas antes — comentou Harold, afastando-se do demônio, que emitia um guincho aborrecido. — Como você já pode ter adivinhado, são bem como um híbrido de coruja e gato, de nível quatro. Seu pai a batizou de Atena.
— Ela é linda! — exclamou Fletcher. Exerceu o controle que tinha aprendido em Vocans. Puxou a conexão com Atena e pulsou suas intenções para ela, permitindo que a Griforuja as lesse como ele lia as dela.
A criatura inclinou a cabeça para um lado e, com um bater de asas, pousou no ombro de Fletcher. Tomou o cuidado de não apertar forte demais com as patas, que traziam uma mistura afiadíssima de garras felinas e de coruja. Ao perceber uma pontada de dor em Fletcher, Atena as retraiu de volta às patas com um ruído suave.
— Você provavelmente deveria infundi-la antes que alguém veja — comentou o rei, olhando em volta com cautela. — Os elfos pediram que todos os demônios estrangeiros permaneçam infundidos o tempo todo. Eu deveria ter esperado, mas quis lhe entregar o demônio antes que Zacarias reivindicasse o pergaminho. Desejo tudo de melhor para os dois.
Fletcher ficou desapontado, pois queria conhecer melhor o demônio, mas, mesmo assim, apontou a palma acima do ombro. O pentagrama fulgurou em violeta até que ele sentiu seu contorno, quente contra a pele. Com um puxão mental, Atena se dissolveu em filamentos de luz branca que dispararam para a palma do rapaz. Fletcher cambaleou com a poderosa euforia da primeira infusão, conforme sua consciência se fundia com a dela, como o encontro de dois rios.
Dentro de si, o rapaz sentiu a reserva de mana duplicar em tamanho, e os filamentos que conectavam mestre e demônios pareceram se trançar e entrelaçar. Ele se sentiu mais poderoso com a energia elétrica que pulsava pela conexão, como um coração batendo.
Quanto às psiques dos dois demônios, elas continuaram separadas uma da outra, incapazes de sentir os pensamentos uma da outra. Ainda assim, ele podia sentir as intenções de ambos conforme observavam o mundo pelos seus olhos.
A mente de Fletcher parecia meio sem foco, puxada em todas as direções pela consciência dos dois. Ele se lembrou de quando Serafim um dia descrevera um conjurador que tinha dezenas de Carunchos. Mal podia imaginar quão confuso isso seria.
— Ótimo! — exclamou Harold, pegando o couro de conjuração antes de empurrar Fletcher ao longo do galho sem que o rapaz pudesse recuperar o fôlego.
O sol já tinha se posto quase completamente, e o rei lançou um grande fogo-fátuo para clarear o caminho adiante conforme eles andavam.
Ainda atordoado pela infusão, Fletcher viu outras luzes ganhando vida nos galhos em volta, iluminando os elfos que ainda vagueavam acima deles. Mas aqueles não eram fogos-fátuos.
Cogumelos luminescentes, que antes não passavam de comuns franjas marrons crescendo pelas fissuras da casca coberta de musgo, brilhavam com uma feroz luz verde. Acima deles, um tom de azul irradiava da parte de baixo dos galhos — pirilampos com fios de seda incandescentes que pendiam num azul diáfano. Enquanto Fletcher se maravilhava, os vaga-lumes subiram do piso de madeira abaixo, uma nuvem de fagulhas alaranjadas que rodopiava ao redor deles. Era um caleidoscópio de cores, que decorou toda a rede de galhos com uma luz fantasmagórica e tremeluzente.
— Incrível, não é? — disse o rei. — Edmund me escreveu sobre isso, anos atrás. Ele vinha muito à Grande Floresta naqueles tempos para negociar um acordo comercial com os clãs élficos. Arcos, couros, pelos e remédios; todos eram mercadorias necessárias em Hominum. Ele sonhava com uma sociedade onde elfos e homens poderiam andar nas terras uns dos outros, com livre circulação de bens e pessoas. É claro, tudo se esfacelou quando ele morreu.
Fletcher ouviu com atenção, devorando cada migalha de informação sobre os pais. Desejou saber qual tinha sido a aparência deles. Com uma pontada de dor, ele percebeu que, de certa forma, já sabia.
Não tinha visto a esposa de Zacarias na plateia durante o Torneio e o julgamento? A memória era indistinta, mas ele conseguia quase mentalizar a imagem de uma dama loira, sentada bem perto de lorde Faversham. Imaginou que devia ter herdado os cabelos negros do pai.
— O senhor poderia me contar mais... sobre os meus pais? — pediu Fletcher, tímido.
Harold deu um suspiro alto e levou Fletcher até outro galho por uma ponte.
— Edmund era meu amigo mais próximo, e Alice... bem... se as coisas tivessem se desenrolado de outra forma, ela poderia ter sido a minha esposa. Mas eu jamais poderia ter ficado no caminho da felicidade deles. Você é tudo que resta das duas pessoas que eu mais amei.
Fletcher fitou o rosto de Harold e viu seu sofrimento; talvez uma tristeza que ele mantivera escondida por um longo tempo, inclusive dos nobres que ele considerava seus amigos. Não era apropriado que um rei demonstrasse as próprias emoções.
Fletcher sempre o imaginara como uma figura calculista e indômita. Em vez disso, acabara encontrando um homem de bom coração, dono de um profundo senso de moralidade, que se via absolutamente sozinho e impotente para fazer as mudanças com as quais sonhava.
— Eu queria poder ajudar o senhor — afirmou Fletcher. — Posso enfrentá-los abertamente, enquanto o senhor faz o mesmo das sombras. Mas sou só um menino. Não há muito que eu possa fazer.
— Você é um Raleigh agora; pode fazer muitas coisas — discordou Harold, e o galho pelo qual andavam desembocou num grande cômodo oco no centro de um tronco particularmente largo. — A primeira das quais seria lançar seu voto como membro do conselho, um direito que conquistou ao vencer o Torneio. Os chefes de clãs élficos e os anciãos anões também estarão presentes. É a primeira vez que isso acontece na história dos nossos povos. Chegou a hora de solidificar a aliança de homens, anões e elfos, de uma vez por todas.
Fletcher engoliu em seco enquanto os dois atravessavam a entrada sombreada do tronco.
— E quando será isso?
— Agora mesmo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!