31 de março de 2018

Capítulo 13


MORRIGHAN

— Onde você estava? — perguntei, correndo para encontrá-lo quando ele saiu desceu do cavalo. Ele não viera por três dias, e eu temia o pior.
Ele me puxou para dentro de seus braços, segurando-me de forma estranha e desesperada.
— Jafir?
Ele se afastou, e foi quando vi o lado de seu rosto, um hematoma púrpura colorindo seu rosto até o maxilar, circulando sob seus olhos.
O medo desapareceu do meu peito.
— Que besta fez isso? — perguntei, alcançando sua bochecha. Ele afastou minha mão.
— Não é nada.
— Jafir! — insisti.
— Não foi uma besta. — Ele amarrou o cavalo na cerca. — Foi meu pai.
— Seu pai? — Não consegui esconder meu choque, nem queria. — Então ele é o pior tipo de animal.
Jafir se virou, esbarrando em mim.
— Ele não é um animal, Morrighan! — E então, mais baixo: — Nosso clã do norte chegou. Há muitas bocas para alimentar. Ele deve mostrar força, ou todos nos tornaremos fracos.
Olhei para ele, o medo correndo através de mim. Não era mais apenas conversa. Eles atravessariam as montanhas. Mantive a minha voz uniforme, tentando esconder meu medo.
— Você vai embora com eles?
— Eles são meus parentes, Morrighan. Há crianças pequenas... — ele balançou a cabeça e, com um tom que arrependimento e resignação, acrescentou: — Eu sou o melhor caçador do clã.
Isso porque os parentes dele eram preguiçosos e impacientes. Eles queriam o que não tinham trabalhado. Eu tinha visto Jafir colocar cuidadosamente suas armadilhas, afiar suas flechas pacientemente, analisar o campo com o olho firme de um falcão, procurando o menor sussurro.
— Antes de irem embora, você poderia ensiná-los. Você poderia...
— Eu não posso ficar neste cânion, Morrighan! Para onde eu iria?
Eu não precisava dizer as palavras. Ele as viu nos meus olhos. Venha comigo para a minha tribo. Ele balançou a cabeça.
— Eu não sou como vocês. — E então mais acentuadamente, quase como uma acusação. — Por que vocês não carregam armas?
Eu me arrepiei, puxando de volta meus ombros.
— Nós temos armas. Nós simplesmente não as usamos contra as pessoas.
— Talvez se usassem, não seriam tão fracos.
Fracos? Meus dedos se fecharam em um punho, e mais rápida do que uma lebre, eu o golpeei no estômago. Ele grunhiu, se dobrando.
— Isso parece fraco para você, Abutre? — fiquei nervosa. — E lembre-se, nossos números são o dobro dos seus. Talvez sejam vocês quem deveriam seguir nossa deixa.
Sua respiração voltou, e ele olhou para mim, os olhos brilhando com uma vingança divertida. Ele pulou, me derrubando no chão, e nós rolamos no prado até eu ficar presa sob ele.
— Como é que eu nunca vi esse ótimo acampamento de vocês? Onde fica?
Um membro da tribo nunca deveria revelar a localização do restante, mesmo que fosse pego. Sempre. Ele viu minha hesitação. O canto de sua boca mostrou a decepção de eu não ter confiado nele. Mas eu confiava, confiava minha vida a ele.
— Fica num vale — falei. — A uma curta caminhada daqui. Um dossel de árvores esconde o acampamento das ribanceiras acima. — Eu disse a ele que pegava a crista estreita logo à entrada deste cânion para chegar lá. — Não fica longe. Quer vir comigo para vê-lo? — perguntei, pensando que ele havia mudado de ideia.
Ele balançou a cabeça.
— Com mais bocas para alimentar, há mais caça a ser feita.
Um nó cresceu em minha garganta. Seus parentes precisavam dele. Eles o levariam para longe de mim.
— Passando as montanhas há animais, Jafir. Tem...
— Shh — ele disse, seu dedo descansando nos meus lábios. Sua mão se abriu gentilmente até cobrir todo o meu rosto.
— Morrighan, a menina da lagoa, dos livros e da sabedoria. — Ele olhou para mim como se eu fosse o ar que ele respirava, o sol que aquecia suas costas e as estrelas que indicavam seu caminho, um olhar que dizia: eu preciso de você. Ou talvez essas fossem as coisas que eu queria que ele visse nos meus olhos. — Não se preocupe — ele falou depois de um tempo. — Não iremos embora por enquanto. Temos que arrumar mais suprimentos para essa jornada, e com tantas bocas para alimentar, será difícil guardar. E alguns no clã se opõem à jornada. Talvez nunca aconteça. Talvez haja uma maneira para continuarmos como estamos.
Eu me agarrei a essas palavras, querendo que fossem verdadeiras. Tem que haver uma maneira, Jafir. Um jeito para nós ficarmos juntos.
Atravessamos as clareiras e os desfiladeiros, deixando armadilhas, perseguindo aves e passando pelas margem dos lagos, soltando raízes com os dedos dos pés. Nós rimos, brigamos, nos beijamos e nos tocamos, pois a exploração nunca terminava. Havia sempre novas maneiras de nos conhecer. Finalmente, com seis aves e um saco de raízes pendurado na parte de trás de sua sela, ele me disse que havia outro pedaço de seu mundo que ele queria que eu visse.

* * *

— É magnífico — falei. Estranha e bizarramente magnífico.
Nós estávamos à beira de um lago raso, a água batendo em nossos pés descalços. Jafir estava atrás de mim, seus braços ao redor da minha cintura.
— Eu sabia que você ia gostar — ele respondeu. — Deve haver uma história por aqui.
Eu não podia imaginar exatamente o que seria, mas tinha que ser uma história sobre chance, sobre sorte e destino.
Em uma colina no meio do lago havia uma porta, certamente tendo feito parte de algo maior um dia, mas o resto foi varrido. Um lar, uma família, vidas que importam para alguém. Se foram. De alguma forma, apenas a porta sobreviveu, ainda pendurada no batente, uma sentinela improvável de outra época. Ele balançou à brisa como se dissesse Lembre-se. Lembre de mim.
A madeira da porta era branca de tão desbotada, tão branca quanto a grama seca do verão. Mas a parte que me deixou mais admirada foi uma janela pequena, não maior do que a minha mão, na parte superior da porta. Era feita de vidro vermelho e verde, unidas de forma a ilustrar frutas maduras.
— Por que isso sobreviveu? — perguntei.
Senti Jafir balançar a cabeça suavemente. E então o sol da tarde mergulhou mais baixo e os raios atravessaram o bidro, assim como Jafir prometeu que fariam, lançando luzes lindas sobre nós.
Senti a magia daquele lugar, a beleza de um momento que em breve acabaria, e que eu queria que durasse para sempre. Eu me virei e olhei para o prisma de cor que refletia nos cabelos de Jafir, em seus lábios, minhas mãos nos seus ombros, e o beijei, pensando que talvez alguma magia pudesse fazer o aquele momento durar para sempre.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!