22 de março de 2018

Capítulo 13

O sol havia se posto, e eles estavam sentados, em situação lamentável, no centro do casco, enrolados na pele do Catoblepas. Suas roupas continuavam úmidas, pois a luz do dia não durara o bastante para que pudessem se secar. Os únicos ruídos eram os que Sheldon fazia suavemente ao cruzar a lagoa. O ritmo era vagaroso e preguiçoso, sem nenhuma direção clara. Ele parecia estar à espera de algo. Não havia sinal de nenhum vulcão, e o humor do grupo era cabisbaixo, apesar de agora estarem limpos. Até a mãe de Fletcher tinha melhorado a aparência — Cress discretamente a banhara à luz fraca do anoitecer, enquanto os outros estudavam a paisagem.
Na distância à frente, as florestas davam lugar à areia vermelha, revelando as terras áridas, um deserto sem vida de areia. Mais além, a terra caía na escuridão sobre a orla curva, onde o disco do éter terminava, e onde começava o Abismo.
— Vou sair com Lisandro — avisou Sylva, quebrando a calma contida. — Se eu voar longe o bastante, poderei avistar a coluna de fumaça de um vulcão.
Ela abriu caminho para fora do manto de pele de animal e se levantou, espreguiçando-se. Lisandro olhou para ela ao ouvir o seu nome e soltou um pio triste. Pressentira as intenções de Sylva e não queria se separar do grupo.
— Como assim... agora? — perguntou Cress, alarmada com aquela decisão repentina. — Neste exato instante?
— Sabemos que orcs não viajam à noite. É o melhor momento. Vou me esconder sob a copa das árvores quando o dia raiar.
— E como vai se localizar no escuro? — perguntou Otelo. — Grifos não têm uma boa visão noturna. Você nunca conseguirá encontrar um vulcão, muito menos achar o caminho de volta.
— Fletcher... — Sylva hesitou, como se já não estivesse mais tão certa. — Fletcher virá comigo. Lisandro pode transportar nós dois, e usaremos Atena para enxergar na escuridão. Sua visão noturna é melhor que a de qualquer um dos outros demônios, inclusive a de sua Pyrausta.
— Conseguiremos encontrá-los seguindo a cadeia de montanhas até avistarmos a lagoa novamente — acrescentou Fletcher. — Sheldon vai demorar ainda um pouco. Parece que ele está esperando alguma coisa.
Enquanto os outros ruminavam aquelas palavras, Fletcher se pôs a pensar: por que Sylva teria hesitado? Ela não desejaria ir embora sozinha, não é? Seria devido ao que tinha acontecido na cachoeira? Ou melhor, do que não tinha acontecido? Fletcher sentiu uma pontada de arrependimento no peito. Independentemente de qual fosse o motivo, ela já estava apanhando sua parte do suprimento de pétalas do estoque diminuído do grupo, e dividindo-o em montinhos iguais de cinco. Fletcher enfiou alguns punhados de carne-seca na mochila e encheu o cantil com água da lagoa.
Depois de prender bem a espada, o arco e as armas, deu um abraço forte em sua mãe, desejando que seus braços sem forças o envolvessem também.
— Vamos levá-la de volta para casa, mãe — sussurrou, beijando-lhe a testa.
Um aperto de mão pouco à vontade de Otelo logo se transformou em um abraço de urso. Cress lhe beijou os dois lados do rosto, e ele sentiu a umidade de lágrimas no rosto da amiga. Foi tudo muito rápido, uma decisão tomada sem aviso. O tempo estava se esgotando.
Ele roçou o cristal de visualização em Atena e o prendeu no próprio olho, sentindo a vista se tingir de roxo quando ela pousou em seu ombro. Depois de um instante de hesitação, ele apontou a palma da mão para Ignácio, e a Salamandra dissolveu-se em um clarão de luz branca.
Então Fletcher içou o corpo para subir em Lisandro, a espinha vertebral com crista e o pelo cheio de penas deslizando desconfortavelmente embaixo de suas coxas enquanto a musculatura do Grifo se movimentava e flexionava.
— Pétalas, água, comida, armas — enumerou Sylva, baixinho.
Ela correu os dedos pelos arco e falx embainhados às costas. O cabo da espada bloqueava a visão de Fletcher; então, Atena saltou para o colo de Sylva, estremecendo de dor quando a tala da asa se chocou contra o ombro da elfa. Sua visão era clara no cristal de tom rosado, como se o mundo estivesse iluminado por uma dúzia de luas.
— Nós voltaremos — assegurou Sylva, embora falasse tão baixo que Fletcher não teve certeza se ela o dizia apenas para si mesma.
Otelo começou a dizer alguma coisa, mas Lisandro saltou para o ar. As palavras do anão se perderam conforme eles se lançavam aos céus, ascendendo em grandes movimentos das poderosas asas do Grifo.
Fletcher estava abraçado à cintura de Sylva, mas isso pouco o ajudou a se equilibrar; ela estava equilibrada tão precariamente quanto ele. Ele se inclinava para a esquerda e a direita a cada bater de asas, e os músculos de sua coxa doíam enquanto ele se agarrava desesperadamente ao corpo de Lisandro. Foi somente quando o Grifo deslizou ao vento, bem acima da selva, que o coração de Fletcher desacelerou.
Lá embaixo, a lagoa diminuíra até atingir o tamanho de uma moeda de prata, e uma linha fina indicava um rio serpenteante que despejava suas águas no vasto oceano a oeste. A cadeia de montanhas atrás deles se curvava em um semicírculo, e a mancha escura ao sul indicava o ponto onde começavam as terras pantanosas. Fletcher sabia que o território dos orcs situava-se em algum local mais além, e que provavelmente ali deveria haver flores Euryale. Apesar de as Serpes já os terem passado, não parecia bom voltar tanto e entrar em um território onde outros xamãs podiam estar a sua procura.
— Vamos para leste — decidiu Sylva, a voz mal discernível por causa do vento forte.
E, assim, Lisandro inclinou-se, e eles a reboque, as asas em uma curva fechada, de dar frio no estômago. Logo acompanhavam um arco áspero da serra, o mundo passando abaixo como um tapete rústico de copas de árvore.
Fletcher examinou o horizonte, desesperado para ver um sinal claro de pináculo rochoso a distância. Até observou a cadeia de montanhas, torcendo contra todas as probabilidades para que avistassem uma coluna de fumaça. Porém, em vez disso, continuaram voando para dentro da noite, a cadeia de montanhas curvando-se às costas da dupla até sumir ao longe. Lá embaixo, a floresta parecia não ter fim, interrompida apenas pelo deserto de areias vermelhas das terras áridas à esquerda, e o Abismo que assomava na extremidade deste.
Fletcher estremeceu ao ver a escuridão interminável ao longe, lembrando-se das criaturas atormentadas e cheias de tentáculos que ali ficavam à espreita. Os Ceteanos.
— Consegue avistar alguma coisa? — gritou Sylva, as palavras chicoteando sobre o ombro de Fletcher.
Nada. Nada além do constante alvorecer acima deles. Ele berrou a resposta no ouvido da elfa e lhe ouviu o som abafado do grunhido de frustração.
Seguiram em frente, com Lisandro subindo cada vez mais a fim de ver mais à frente. A temperatura caiu até que cada fôlego se tornasse uma nuvem de fumaça, nuvens brancas apanhadas pelo vento. Apesar disso, eles continuaram prosseguindo, tremendo juntos de frio enquanto corriam os olhos pela paisagem. Que bom seria se tivesse o relógio de pulso de Cress, pensou Fletcher — a única coisa que lhe informava havia quanto tempo procuravam era a luz acima. Teria sido duas horas? Três?
Sylva prosseguiu até os últimos vestígios do céu escuro terem se tornado do mesmo tom de mel da aurora. Então, finalmente, eles começaram a descer em espiral até o calor úmido da selva abaixo.
— Ali! — gritou Fletcher, apontando, enquanto a visão aguçada de Atena focava uma abertura no meio da cobertura de vegetação. Escolher uma clareira lhe parecia melhor, pois, depois de aterrissarem ali, teriam certa visão caso fossem abordados por predadores. Não era incomum que os caçadores acabassem sendo vítimas de emboscadas sob a copa das árvores.
Contudo, à medida que o ar quente soprava sobre eles e seu destino se aproximava, Fletcher avistou um brilho na clareira para onde se dirigiam.
Rochas brancas, reluzindo à luz da manhã.
— Que diabo é isso? — perguntou Sylva, enquanto Lisandro descia naquela direção. Ele pousou com as garras abertas arranhando o solo, deslizando sobre mármore polido.
Fletcher se deixou cair com um ruído seco, e a rocha achatada machucou seus joelhos. Esforçou-se para se levantar e olhou em torno.
Pilares de pedra clara estendiam-se para o alto, segurando um teto que já não estava mais ali, transformado que fora em uma pilha de destroços espalhados pelo piso de mármore. Havia estátuas quebradas, desgastadas por anos de abandono, organizadas em um formato de meia-lua à frente.
Trepadeiras cascateavam pelas orlas da selva, enrodilhando-se ao redor das colunas e paredes em ruínas, na direção da luz fraca filtrada através do teto quebrado. Havia símbolos entalhados ao longo de toda uma abóbada que se curvava entre dois pilares, mas não eram semelhantes a nada que Fletcher tivesse visto antes.
— Quem construiu esse lugar? — sussurrou Sylva. — Os orcs não poderiam ter feito isso. Poderiam?
Sua voz ecoou em torno dos dois. Estava tudo mortalmente silencioso, as paredes bloqueando os ruídos da selva. Parecia um santuário, construído para deuses esquecidos havia muito.
Sentindo-se vulnerável, Fletcher convocou Ignácio. A luz violeta brilhou de modo fantasmagórico no templo escurecido, e a Salamandra surgiu no chão.
Sempre curioso, Ignácio seguiu adiante para explorar o terreno. Fletcher o seguiu, até que os dois se aproximaram das estátuas em meia-lua. A luz filtrada pela copa das árvores os iluminava, atuando como uma claraboia natural.
Havia dez estátuas, todas sobre pedestais, cada qual de formato e tamanho diferentes. Fletcher se aproximou das cinco situadas na extremidade esquerda. A parte superior de todas era humana — duas de mulheres e três de homens. Em vez de pernas, o primeiro homem tinha a cauda de um peixe, perfeita, com escamas curvas e barbelas. A mulher a seu lado era semelhante, porém com as nadadeiras e o corpo inferior de uma foca. Eram lindas, e cada qual trazia na cabeça uma coroa de conchas.
A estátua seguinte era de uma mulher com narinas feito fendas; as pernas, semelhantes à cauda de uma serpente, envolviam o pedestal. Ela usava uma coroa em formato de serpente, e seu cabelo era espesso e lustroso. O olhar de aço fez Fletcher estremecer e passar para a estátua seguinte.
Era de um homem com chifres de bode, os pés eram cascos peludos, as pernas exibiam articulações esquisitas. Ao lado, um homem de cabelos compridos com corpo inferior de cavalo, o torso humano surgindo sobre as pernas dianteiras do animal. Os dois tinham coroas de espinhos.
— São... demônios? — sussurrou Fletcher.
Havia uma enorme estátua ao lado de uma bem menor ao centro; a primeira, um gigante imenso, seu rosto desfigurado parecia o de um ogro. A seu lado, uma mulher pequenina com traços minúsculos e asas de borboleta ocupava orgulhosamente o próprio pedestal.
— Eu sei o que eles são — disse Sylva num fio de voz, apontando para a fila de estátuas examinadas por Fletcher. — Um Tritão, uma Selkie, uma Lâmia, um Sátiro e um Centauro.
— E aquele ali é um gigante, aquela uma fada — acrescentou Fletcher, apontando com a cabeça para as duas do centro, embora jamais tivesse ouvido falar das outras criaturas que Sylva mencionara. As duas que ele conhecia vinham das histórias infantis de Berdon. O que estariam fazendo ali, nas profundezas do éter?
— São do folclore de meu povo. Minha mãe costumava me falar sobre eles, mas não eram reais — explicou Sylva, os olhos arregalados de surpresa. — Sabe o que é isso?
Ela apontou para um grande humanoide, tão alto quanto um orc. Parecia um gorila de pelos compridos que conseguia se pôr de pé como um ser humano. Os olhos da criatura eram gentis, e ela não usava coroa alguma.
— Não... mas aquele é... é um anjo, certo? — respondeu Fletcher, olhando para a estátua no penúltimo pedestal. Era um homem, só que usava saia e couraça peitoral. Sua coroa estava cravejada com o que deviam ter sido um dia joias, mas o que se destacava eram as gigantescas asas que emergiam de suas costas, com penas longas e elegantes como as de um cisne.
— Do mito de criação do mundo de sua religião — explicou Sylva, levantando uma sobrancelha para Fletcher.
— Ninguém se lembra mais dessas coisas — disse Fletcher
E, de fato, a religião de Hominum não passava de uma sombra do que fora, as antigas histórias quase apagadas da memória, restando apenas um vago conceito de paraíso e inferno. Os sacerdotes pregavam, e os idosos iam às congregações, mas as complexidades dos pecados e acordos que aqueles homens descreviam estavam além da compreensão de Fletcher.
Pouca coisa restara no último pedestal. Praticamente sobravam apenas os tocos deformados do que antes deviam ter sido os pés da estátua. Algo ou alguém havia destruído aquela estátua cujos fragmentos no chão haviam sido quebrados novamente até se transformarem em pequenos cacos.
— Se um dia eu voltar para casa, pode apostar que a dama Fairhaven vai querer saber sobre essas estátuas — disse Fletcher, lembrando-se da boa bibliotecária.
— Acho que todos vão querer saber — argumentou Sylva, correndo os dedos pela fada esculpida.
Apesar de o vento e a chuva terem desgastado a imagem, os detalhes ainda estavam visíveis o bastante para que se pudessem ver os dedinhos minúsculos. Ela era muito pequenina, mal alcançando um palmo de altura.
— A gente devia descansar aqui — sugeriu Fletcher, apontando para o canto do templo, onde um pedaço do teto e as duas paredes ainda estavam de pé, e a luz era fraca por causa de sua sombra. — Parece que nenhum demônio se abriga neste lugar... não há ossos nem fezes no chão. É seguro.
Sylva concordou, distraída, sem conseguir tirar os olhos das estátuas à frente.
— Você acha que eles existiram um dia? — indagou ela, apontando para as imagens.
— Talvez. Mas este lugar não é tocado há centenas de anos, talvez milhares — respondeu Fletcher, pensando alto. — Seja lá quem o construiu, sumiu faz muito tempo.
Eles caminharam juntos até o canto e se acomodaram, fazendo da mochila um travesseiro improvisado, e, dos casacos, cobertores. Lisandro se enrodilhou a seus pés, o corpo grande os protegendo, como um casulo. Atena ficou de vigia, pois a asa quebrada doía demais para que conseguisse dormir.
Por um instante, Fletcher pensou que Ignácio tentaria enrolar seu corpo, agora maior, em seu pescoço, mas o demônio se acomodou entre ele e Sylva, o que o irritou mais do que ele gostaria de admitir. Ele ficaria feliz em deitar ao lado de Sylva, ainda que ela não aquecesse tanto quanto o diabrete crescido.
Estava quieto e silencioso no templo, e Fletcher se viu satisfeito por dormir sem ouvir os estranhos gritos dos demônios selvagens da selva, mesmo que estivessem no meio do dia.
Os minutos passaram. Eles ficaram ali deitados em confortável silêncio, aquecidos e satisfeitos. Ou, pelo menos, no que Fletcher acreditava ser um confortável silêncio. Sylva pigarreou.
— Fletcher. Sabe, sobre ontem — gaguejou ela, fazendo em seguida uma pausa estranha.
— Hmmm? — murmurou Fletcher, sem jeito. Estava semiadormecido, mas, quando a lembrança dos dois na cachoeira subiu à superfície, rapidamente despertou.
Sylva pareceu refletir um instante, mas em seguida continuou.
— Em minha cultura... quando um... se um alto elfo e um elfo silvestre se juntam, os dois são banidos. Desprezados pelo próprio povo e até mesmo pela própria família. Pedem a eles para sair da Grande Floresta. Então os mandam sair. Então os forçam a sair.
Ela falava em rompantes rápidos, como se fosse um esforço forçar as palavras para fora.
— Certo — disse Fletcher.
— Não gostam que as castas se misturem — continuou Sylva, e Fletcher escutou em sua voz uma nota de vergonha.
— Me parece Jeffrey — comentou Fletcher. — Ele não queria nenhuma mistura também.
Pelo canto do olho ele viu o rosto de Sylva se retorcer ao ouvir o nome do traidor.
— Sim, como Jeffrey — concordou, em voz baixa.
— Por que está me contando isso? — perguntou Fletcher.
Silêncio.
— Que eles não gostam que se misturem... — murmurou ele.
Deixou a frase solta no ar. A compreensão se assentou como uma pedra fria em seu estômago.
— Eu só... eu não posso — sussurrou Sylva, tão baixinho que Fletcher não soube se ela queria ter sido ouvida.
Ficar com ele poderia destruir a vida da elfa. Era isso que estava dizendo.
Ela se virou de lado, para que ele não pudesse ver seu rosto. Fletcher se sentiu muito idiota.
— Achei que era contra isso que estávamos lutando — disse ele, enfim, sem conseguir disfarçar a amargura na voz.
Ela não respondeu. Era doloroso demais falar nesse assunto. Ele queria fingir que ela só estivera lhe contando coisas a respeito de sua cultura, que isso não significava o que ele sabia que significava, mas as palavras não ditas pareciam ainda mais altas que se tivessem sido pronunciadas.
Ele apanhou Ignácio, deixando um vazio entre ele e Sylva.
Passou-se um longo tempo antes que conseguisse adormecer.

3 comentários:

  1. Ai meu Deus sempre tem que ter alguma coisa pra impedir o casal de ficar junto aff

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  2. Eles precisam ficar juntos!

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!