13 de março de 2018

Capítulo 13

A dor tinha quase passado, um mero latejar nas trevas. Seria tão fácil se render. Ser infinito e nada, tudo ao mesmo tempo. Ser livre.
Mas algo o chamou, nas trevas infinitas. Outra alma, perdida como ele. Ignácio.
Havia amor ali, que impediu Fletcher de se deixar cair, por mais que ele se inclinasse sobre o abismo. Ignácio o chamava. O rapaz sentiu que a conexão entre eles se desenredava, enfraquecia. Só que Ignácio não o soltava. O filamento final se manteve forte e o puxou de volta do limite. Fletcher abriu os olhos.
As paredes e o teto do aposento eram feitos de madeira lisa e sem verniz, decorada com os padrões rodopiantes das fibras da lenha. Não havia exatamente uma porta; apenas uma abertura que levava a um corredor escuro. O mais estranho era a iluminação do quarto: jarras com bolinhas amarelas, fulgurantes de luz, que esvoaçavam aleatoriamente em seu interior, como fogos-fátuos.
Ele estava deitado num tipo de cama. Grossos pelames de cervo o envolviam como a um bebê, encasulando-o numa crisálida de calor.
— Você acordou — disse uma voz suave e musical.
Um rosto dotado de um par brilhante de olhos azuis surgiu acima de Fletcher, e ele descobriu que a própria cabeça repousava no colo de alguém. Cabelos da cor de ouro branco faziam cócegas no seu queixo, e ele entendeu que estava olhando para Sylva, de cabeça para baixo.
— Sylva! — exclamou Fletcher, então se encolheu de dor ao sentar. O corpo doía, como se tivesse acabado de acordar de uma luta de boxe que perdera.
E feio.
— Relaxe — aconselhou a elfa, empurrando-o de volta com um toque suave. — Você recebeu uma dose completa de veneno de Mantícora. Deixe que eu fale por enquanto.
Fletcher se deitou de volta, relaxando na suavidade do colo da elfa. Sentiu os dedos de Sylva afastando as madeixas rebeldes do rosto, seguidos por uma esponja macia a limpar-lhe a testa.
— Você deu sorte de estar tão perto da nossa fronteira. Usamos medicamentos élficos para purgar o veneno do seu corpo. Algo que nem o feitiço de cura de que vocês tanto dependem em Hominum poderia consertar.
Fletcher sorriu para a amiga, que desta vez permitiu que ele se sentasse devagar e colocasse as pernas para fora da cama. Estavam numa estranha protuberância em formato de prateleira, que parecia ter brotado da própria parede. Uma espessa camada de musgo verde e macio lhe servia de colchão.
Por um momento, Fletcher corou ao perceber que vestia apenas um simples gibão e calças azuis, com chinelos macios de feltro nos pés. Ele se perguntou distraidamente quem o teria vestido, esperando que não tivesse sido Sylva.
— É bom te ver — disse ele, finalmente, abraçando-a. Ela retribuiu o gesto, e os dois ficaram ali por um tempo, curtindo o reencontro.
Fletcher contemplou a velha amiga. Sylva vestia uma túnica de veludo verde, com bordas de pelo e bordada com cervos saltitantes, detalhados tão intrincadamente quanto as mais belas pinturas.
Fletcher não sabia bem se era porque fazia mais de um ano que ele não via uma garota da sua idade, mas Sylva lhe parecia mais linda do que nunca, especialmente vestindo o tradicional traje élfico.
Evitando o olhar franco do rapaz, ela saltou da cama e assoviou bem forte com os dedos.
Sariel chegou saltando pela porta. A Canídea de pelos dourados, que estava maior do que quando ele a vira pela última vez, farejou seus pés com animação. Fletcher evitou a tentação de tocá-la, pois sabia das implicações de acariciar o demônio de outro conjurador. Em vez disso, estendeu a mão para que Sariel cheirasse, e ela lhe tocou os dedos carinhosamente com o focinho molhado.
O breve contato demoníaco o lembrou de conjurar Ignácio, e a Salamandra se materializou com um trinado alegre. Fletcher o abraçou, apertando o demônio contra o peito.
— Então... seu remédio me salvou. Não sou um nobre, afinal — comentou Fletcher, rompendo o silêncio constrangido.
Sentiu uma pontada de decepção. Por um momento, pensou ter descoberto quem eram seus verdadeiros pais.
— Não exatamente. Sei que é muita coisa para processar. O rei Harold está esperando e vai explicar tudo quando o encontrarmos. Acha que já consegue andar?
— Posso tentar.
Balançou meio sem jeito ao se levantar, então Sariel passou o focinho por baixo do braço dele, de modo que Fletcher se apoiou nas costas do demônio como a uma muleta. Ignácio assumiu sua posição de costume no pescoço do mestre. Fletcher se apoiou em Sylva, e eles saíram.
A jovem elfa tomou a dianteira, pegou uma das jarras da parede e agitou. Minúsculos vagalumes flutuaram enquanto outros ficaram no fundo, alimentando-se de um líquido gosmento.
— Néctar — explicou Sylva ao notar Fletcher espiando a jarra com curiosidade. — Usamos para prendê-los ao anoitecer, depois os soltamos de manhã. Nada de tochas fumarentas para nós.
Mas Fletcher mal escutava, pois agora tinham saído para a luz. Ele cambaleou de novo, dessa vez um gesto sem relação com seu estado frágil. Viu que estavam a centenas de metros de altura, num galho tão grosso quanto um enorme tronco de árvore.
Por todos os lados, havia uma rede de estruturas semelhantes, com largas folhas de carvalho, grandes o bastante para servir de telhado a uma casa. Fletcher se virou para ver que eles tinham saído de uma imensa árvore, com tronco mais espesso que o mais alto prédio de Corcillum. Por toda volta, outras árvores, tão grandes quanto aquela onde ele se encontrava, estendiam-se para o céu. A cena inteira estava banhada em luz crepuscular alaranjada, pois o sol já se punha.
— A Grande Floresta. Nosso lar — declarou Sylva com orgulho. Ela o guiou por uma trilha larga.
Nos galhos cobertos por musgo acima e abaixo, Fletcher via outros elfos caminhando serenamente de um lado para o outro. Vários pararam e o encararam de longe, alguns acenando, outros balançando a cabeça. O rapaz se perguntou quando teriam visto um humano pela última vez. Ele mesmo nunca vira outro elfo além de Sylva, e considerou fascinante que todos compartilhassem da mesma delicada estrutura óssea e cabelos claros.
— Cuidado por onde anda — avisou Sylva, indicando uma ponte que conectava um galho ao outro. Fora construída com estranhas raízes similares a cipós, torcidas juntas para criar um caminho completo com corrimãos dos dois lados. Pareciam sólidas sob os pés, como se esculpidas em pedra. Caminharam em silêncio por algum tempo, enquanto a luz dourada do sol poente era filtrada pelas copas das árvores. A jornada os levou para mais perto do solo, por mais que Fletcher desejasse poder subir até o topo, para olhar por sobre a Grande Floresta e captar um relance das montanhas Dente de Urso.
Finalmente, eles pararam e Sylva chamou um elfo próximo quando eles alcançaram o galho seguinte, usando uma linguagem musical. O elfo se curvou respeitosamente, depois saltou para o galho abaixo, ágil como um esquilo.
— Perdoe meu élfico — disse Sylva, corando. — Fui educada em várias línguas, até mesmo nas runas órquicas, mas os outros elfos não tiveram a mesma sorte. Eu o mandei para buscar seu rei.
— Não se preocupe — respondeu Fletcher, com um sorriso. — Gostei de ouvir.
Eles estavam num galho liso e plano, a meras dezenas de metros do chão. Sylva o levou até a beirada, onde se sentaram juntos, contemplando o piso da floresta.
— Eu queria que você visse isso — disse Sylva, indicando a planície abaixo com um aceno.
Rebanhos de cervos se moviam lentamente, uma procissão incontável de cascos. Nas beiradas, grandes machos travavam batalhas com os chifres, investindo e se esquivando, lutando pela atenção das fêmeas que pastavam por perto.
Uma mistura de manchinhas cinzentas, castanhas e brancas; cervos pequenos, cervos grandes e enormes alces com passos fortes e rápidos.
O chão estava coberto de uma grossa camada de musgo verde brilhante, o mesmo que tinha lhe servido de colchão em seu leito de convalescença. Os cervos pareciam gostar, aparando a camada superior, como se fosse grama, e mastigando até lentamente transformá-la numa polpa que manchava os cantos da boca de verde.
— Este é o tesouro do nosso povo. Os Grandes Rebanhos da floresta. Criamos todas as espécies de cervo que existem — contou Sylva, com a mão estendida para os cervos abaixo.
Fletcher olhou atrás de si e viu uma hoste sem fim de cervos, desaparecendo nas profundezas da floresta. Deveria haver milhares deles, de todos os tamanhos e raças, desde os muntiacus, que latiam com seus longos dentes superiores, aos veados-vermelhos, que corriam de um lado para o outro, cruzando as pesadas galhadas em justas violentas.
— Veja aqueles corcinhos, tem pelo menos uns cem — comentou Fletcher, apontando um grupo de cervos na beira da manada. Eles eram minúsculos, só pouco maiores que uma lebre selvagem. — Onde estão as mães deles?
— Aqueles não são corços, são pudús — riu Sylva. — Está vendo as duas pontas nas cabeças de alguns deles? São os chifres dos machos.
— Ah! — exclamou Fletcher, maravilhado com as criaturas minúsculas. — Vocês realmente têm todas as espécies.
— Os rebanhos nos dão tudo de que precisamos: pele e couro para roupas e cobertores, carne e leite para nossas mesas, ossos e chifres para entalhar, tendões e couro cru para nossas cordas de arcos e para costurar. Nós até usamos a gordura para fazer sebo, sabão, velas e colas.
Ela apontou as os limites distantes dos rebanhos, onde Fletcher conseguia avistar elfos montados nos mesmos alces que tinham aparecido na memória de Ignácio, grandes quanto cavalos, só que com largas galhadas usadas para jogar e empurrar uns aos outros. Ignácio ganiu ao reconhecê-los, assustando os cavaleiros abaixo.
Os elfos traziam arcos nas costas, além de longas varas flexíveis com laços na ponta, que agitavam gentilmente para conduzir cervos errantes de volta ao rebanho. O cabelo deles era longo, caindo nos ombros em ondas negras, ruivas e douradas, ao contrário dos elfos que Fletcher vira nas árvores. Vestiam mantos de pele de lobo, com a mandíbula superior das feras pousadas sobre a cabeça, como elmos.
— Nossos elfos silvestres mantêm os rebanhos em segurança, cuidam dos ferimentos e ajudam a parir as crias, guiam todos pelas trilhas seguras e os protegem dos predadores da floresta.
Enquanto Fletcher observava, uma enorme ave mergulhou do alto e pousou no pulso de um dos elfos. Cravou as garras numa grossa munhequeira de couro, e o elfo lhe ofereceu um pedaço de carne crua como recompensa.
— Vocês usam águias como animais de estimação? — indagou Fletcher. — Por quê?
Por um momento, o rapaz se perguntou se estaria sendo inquisitivo demais, mas Sylva respondeu prontamente. Ela parecia feliz que ele se interessasse tanto pela cultura de seu povo.
— Usamos raposas também, como vocês fazem com cachorros. Só que uma águia é suficientemente grande para espantar um lobo, se for necessário, e ficam de olho nas centenas de alcateias que vagueiam eternamente atrás dos rebanhos. Nós nunca podemos manter todos os cervos seguros, porém; é simplesmente comida demais num lugar só.
Fletcher observou um elfo silvestre próximo golpear o cajado para baixo, a fim de passar o laço pelas pernas de um corço errante e puxá-lo de volta à segurança do rebanho, amarrado como uma galinha.
O rapaz queria perguntar mais, porém ouviu um pigarro atrás de si.
— Obrigado por trazê-lo, Sylva — disse o rei Harold. — Nós nos vemos na reunião do conselho.
— Reunião do conselho? — indagou Fletcher, mas Sylva apenas sorriu e lhe deu um apertão no ombro enquanto se levantava.
Então ela havia partido, e Fletcher se viu sozinho com o rei.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!