2 de março de 2018

Capítulo 13

Dois dias se passaram. Dois dias em fuga, fazendo e refazendo o caminho para deixar trilhas falsas.
Sem comer, sem dormir; só bebendo água quando vadeava pelos córregos da montanha, tentando despistar o cheiro e evitar pegadas. Sempre que parava para descansar, ouvia os latidos dos cães de caça ao longe.
À noite, Fletcher escalava até o topo de uma árvore alta para conferir a direção usando as constelações do céu. Ao fazê-lo, via o cintilar das fogueiras dos acampamentos nos vales acima. A guarda inteira da vila e provavelmente a maioria dos caçadores o perseguiam. O pai de Didric, Caspar, devia ter oferecido uma recompensa enorme pela sua cabeça.
Agora, na terceira noite, o menino via apenas pontinhos minúsculos a meio caminho montanha acima. Eles tinham dado meia-volta, perdido a trilha. Fletcher soltou um suspiro aliviado e começou a longa descida até o chão, tomando cuidado para não perder o equilíbrio. Qualquer ferimento, mesmo um tornozelo torcido, poderia significar a morte.
O rapaz não se permitiu ficar muito complacente. Lorde Faversham, um nobre poderoso, era proprietário da maior parte das terras nos contrafortes do Dente do Urso. Ele era conhecido por mandar os próprios homens patrulharem a floresta em busca de caçadores clandestinos. Fletcher teria dificuldades em explicar a eles por que estava viajando sozinho, tão distante das trilhas seguras da montanha.
O demônio sibilou com irritação ao ser incomodado quando Fletcher pulou para o chão. O diabrete tinha ficado na posição costumeira ao redor do pescoço do menino desde que tinham deixado a vila. Fletcher estava feliz por isso. Tivera o corpo frio e encharcado por tempo demais, mas a fornalha na barriga do demônio mantinha pelo menos seus ombros e nuca quentes.
Fletcher olhou em volta e decidiu que a base do carvalho era um lugar tão bom quanto qualquer outro para montar acampamento. O solo era plano e coberto por musgo macio. A copa da árvore o protegeria do pior se alguma chuva caísse e, por mais que fosse tarde demais para construir um abrigo, havia galhos mortos mais que suficientes nos arredores para se fazer uma pequena fogueira.
O rapaz montou uma pilha de gravetinhos e aparas, então usou uma pederneira e o aço da lâmina para lançar fagulhas.
— Você não poderia me emprestar um pouco daquele fogo agora, né? — perguntou Fletcher ao demônio, as folhas úmidas ignorando as fagulhas.
O diabrete se desenrolou ao som da voz do menino, descendo pelo braço dele até o chão. A criatura bocejou e o encarou, curioso, inclinando a cabeça para o lado como um cachorrinho confuso.
— Vamos lá, deve ter algum jeito de a gente se comunicar — disse Fletcher, curvando os dedos sob o queixo do diabrete e dando uma coçadinha. O demônio chilreou e esfregou a cabeça na mão do menino. Com cada esfregada, Fletcher sentia uma pontada de satisfação profunda no limiar da consciência, como uma comichão sendo coçada. — Fogo! — anunciou Fletcher, apontando a pilha de madeira.
O demônio latiu e girou.
— Shhh! — exclamou o garoto, atravessado por um lampejo de medo. Os baixios das montanhas eram notórios pelos lobos que os habitavam. Fletcher já tinha ouvido os uivos ao longe. Os dois haviam sido sortudos em tê-los evitado até então.
O diabrete se calou e se encolheu, rastejando por entre as pernas do rapaz. Ele tinha entendido?
Fletcher se sentou de pernas cruzadas no chão úmido, estremecendo ao molhar a calça. Fechou os olhos e fez um esforço de memória, tentando lembrar se Rotherham tinha mencionado alguma coisa em suas histórias sobre como os conjuradores controlavam os demônios.
Ao fazê-lo, sentiu a consciência do demônio, tão confusa, assustada e solitária quanto a própria. Ele mandou uma onda de conforto ao bichinho e sentiu o diabrete enrijecer, então relaxar, com o medo e a solidão substituídos por simples cansaço e fome. Foi aí que Fletcher percebeu: ele não entendia as palavras, mas sentia suas emoções!
Fletcher mandou ao demônio uma sensação de frio, mas o bicho simplesmente trilou em desconforto e se enrolou na perna do rapaz. Considerando como o corpo do diabrete era quente, Fletcher suspeitava que ele não se sentiria muito à vontade com qualquer temperatura que não fosse calor. Talvez... uma imagem? Ele imaginou fogo, trazendo de volta memórias da fornalha quente na forja de Berdon.
O diabrete trinou e piscou os olhos ambarinos e redondos para o rapaz. Talvez aquela imagem fizesse a criaturinha lembrar de casa. Fletcher esfregou as mãos, frustrado; aquilo seria mais difícil do que tinha imaginado. Ele se curvou e puxou o casaco puído.
— Se eu tivesse conseguido comprar aquela jaqueta no mercado, a gente nem precisaria de fogo — grunhiu Fletcher.
O menino encarou a pilha de madeira, desejando que ela queimasse. Sem aviso, uma labareda foi disparada do colo dele, incendiando a madeira úmida e transformando-a numa fogueira crepitante.
— Sua coisinha esperta! — comemorou Fletcher, puxando o diabrete para perto e abraçando-o com força.
O rapaz já podia sentir o calor voltando aos braços e pernas gelados. Ele sorriu conforme a luz agradável do fogo lhe trouxe de volta memórias queridas da forja de Berdon.
— Isso me lembrou de uma coisa — comentou Fletcher, soltando o demônio no colo e remexendo a bolsa. Com a perseguição constante, ele quase tinha se esquecido dos presentes de Berdon. Pegou o maior dos dois embrulhos e o rasgou, com mãos ainda desajeitadas por causa do frio.
Era um arco, laqueado com verniz transparente e encordoado com uma excelente trança de couro cru condicionado. A madeira era entalhada intrincadamente, as duas metades se curvando para dentro e então para fora nas pontas, fornecendo mais força ao disparo. Era teixo, uma madeira cara que Berdon devia ter comprado de um mercador no ano anterior; ela não crescia nas montanhas. O ferreiro tinha tratado e tingido a madeira para que o arco pálido se tornasse cinzento, evitando que chamasse a atenção quando o caçador estivesse escondido nas sombras. Era uma arma bela e valiosa, do tipo que um mestre caçador pagaria uma fortuna para possuir. Fletcher sorriu e olhou para o topo do Dente de Urso, agradecendo silenciosamente a Berdon. Devia ter levado meses para produzir o arco, trabalhando em segredo quando Fletcher saía para caçar. Havia até uma aljava delgada de boas flechas de penas de ganso. O rapaz provavelmente conseguiria caçar uma lebre da montanha na manhã seguinte.
Com esse pensamento, o estômago de Fletcher roncou. Pôs o segundo presente de lado e remexeu no fundo da bolsa, puxando um pacote pesado, embrulhado em papel marrom. Abriu este com mais cuidado e sorriu ao ver a carne ressecada do alce que Didric tentara roubar. Colocou algumas tiras no fogo para aquecê-las, depois passou outra para o demônio.
A criatura farejou a carne cautelosamente, em seguida deu o bote e a abocanhou. Ergueu a cabeça para trás e engoliu o pedaço inteiro de uma só vez como um falcão.
— Quase arrancou meus dedos, hein? — comentou Fletcher enquanto o aroma de cervo assado flutuava sob suas narinas.
O rapaz enfiou a mão na bolsa para ver que outros alimentos encontraria. Sentiu algo que tilintava e puxou uma pesada bolsa de moedas.
— Ah, Berdon, você não deveria — murmurou Fletcher, espantado.
Não deveria, mas fez. Pelo que Fletcher podia ver, eram mais de mil xelins, quase dois meses do faturamento de Berdon. Mesmo sabendo que seu ganha-pão logo estaria correndo risco, o homem lhe dera uma bela porção de suas economias. Fletcher quase desejou poder voltar e devolver, então se lembrou dos trezentos xelins que tinha economizado para a jaqueta, ainda esquecidos no seu quarto.
O menino tinha esperanças de que o ferreiro encontrasse a quantia, e o resto das posses de Fletcher provavelmente também lhe renderiam algum dinheiro.
— O que mais você me deu... — sussurrou Fletcher. Pegou o segundo presente e chacoalhou, sentindo algo macio e leve. Havia um bilhete alfinetado ao pacote, que Fletcher arrancou e leu ao tremeluzir da fogueira.


As lágrimas pingaram na carta quando Fletcher a dobrou, com o coração cheio de saudades de casa. Ele abriu o embrulho e soluçou ao ver a jaqueta que queria, enterrando as mãos no forro macio.
— Você foi um pai melhor para mim do que meu pai verdadeiro jamais poderia ter sido — sussurrou Fletcher, olhando para as montanhas. De alguma forma, as palavras que ele tinha deixado não ditas ao longo dos anos eram do que mais se arrependia.
O demônio começou a miar com a angústia de Fletcher, lambendo-lhe os dedos em solidariedade.
O rapaz lhe deu tapinhas carinhosos na cabeça e se aproximou do fogo, permitindo-se alguns minutos de tristeza. Então enxugou as lágrimas, vestiu a jaqueta e puxou o capuz sobre a cabeça. Com o coração cheio de determinação, ele iria construir uma nova vida, uma da qual Berdon se orgulharia.
Ele iria chegar a Corcillum.


13 comentários:

  1. achei bem interessante....vamos ver qual vai ser o desenrolar

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  2. que triste, sera que eles se rencontraram depois

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  3. Tô adorando o livro <3 Mas ainda não consegui me ligar muito ao personagem. A personalidade dele é um mistério pra mim, só não sei se esse era o objetivo do autor :v

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  4. Eu não consigo imaginar como esse demonio é, ele mia, late chilrea(eu acho que é assim que tava escrito).

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  5. Nha... Que bonitinho :3 É triste, mas mt lindinho.

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  6. Eu tinha minhas suspeita que um dos presentes era a jaqueta pq berdon viu o esforço que ele fez pra arruma o dinheiro pra jaqueta

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  7. Chorar eu vou 😭😭😭💜💜💜💜💜

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  8. 😭😭😭😭
    Espero que ele reencontre o pai
    Muito bonito oq Berdon fez pelo fletcher😍😍

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  9. Emocionada...
    Tão lindo. Ver esse amor incondicional. Ele o adotou como filho. E espero que se vejam novamente. 🤗😭❤📚😍

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Boa leitura, E SEM SPOILER!