31 de março de 2018

Capítulo 12

JAFIR

— Você é um lobo solitário, sempre saindo sozinho. — Fergus jogou um cobertor no lombo de seu cavalo. — Vai cavalgar com a gente hoje.
Eu já tinha prometido a Morrighan que a encontraria cedo e nós iríamos até a cachoeira, onde a fallopia crescia. Ela vira em um dos nossos passeios. Se eu tivesse sorte, poderia pescar um peixe nas águas também.
Fergus me acertou com o dorso da mão, empurrando-me aos tropeços para o meu cavalo. Recuperei o meu equilíbrio e senti o gosto de sangue na boca. Meus dedos se fecharam em punhos, mas eu sabia que não era uma boa ideia atacar o líder do clã.
— Qual é o seu problema? — ele gritou. — Você está me ouvindo?
— Não tem nada de errado em caçar sozinho. Eu sempre trago comida para alimentar a todos.
— Coelhos! — Steffan zombou, preparando seu próprio cavalo. — Ele não é um lobo solitário! Está mais do que um pato. Sempre na água.
— Isso se chama banho! — Laurida gritou de onde estava junto aos fornos com Glynis e Tory. — Ajudaria muito nossos narizes se vocês seguissem o exemplo de Jafir.
O resto do clã, que também estava montado, riu. Fergus ignorou Laurida, olhando-me em vez disso, com uma escuridão em seu olhar.
— Nós não caçaremos hoje. Cavalgaremos. Liam viu uma tribo ontem.
— Uma tribo? Onde? — perguntei.
Ele confundiu minha resposta rápida com ânsia e sorriu. Era uma visão rara em seu rosto, especialmente se dirigido para mim.
— Uma hora de viagem para o norte — ele respondeu. — Suas barrigas estavam gordas e as cestas, cheias.
Eu respirei aliviado. A tribo de Morrighan ficava ao sul e depois oeste. Nosso clã não atacava um acampamento desde a primavera passada. As tribos se tornaram melhores em se esconder ou se afastar de nós.
— Você não precisa de mim — falei, olhando para Piers, Liam e o restante. — Tem gente o suficiente...
Fergus agarrou minha camisa, me puxando para perto, sua expressão uma tempestade ameaçadora.
— Você irá conosco. Você é meu filho.
Não havia como fazê-lo mudar de ideia. Acenei com a cabeça, e ele me soltou. Fitei-o enquanto ele montava, imaginando o que ele havia comido. Não era como se ele se lembrasse que era meu pai.
Eles não lutaram de volta. Me enojava como ele tirava facilmente a comida dos outros. Era uma pequena tribo, apenas cerca de nove pessoas, mas nenhuma defendia seu terreno. Um atiçador de ferro estava perto da fogueira, uma faca descansava sobre uma mesa bamba de madeira, mas ninguém levantou uma mão em nossa direção.
Lutem contra nós, eu queria dizer, mas sabia que se o fizessem, nós os mataríamos. Nem todos, mas o suficiente para enviar a mensagem. Não lutem. Nós temos fome como vocês, e merecemos essa comida tanto quanto vocês, mesmo que tenha sido recolhida por suas mãos. Sempre fez sentido para mim antes, mas agora as palavras pareciam confusas, diferentes, como se tivessem sido reorganizadas.
São eles ou nós. O sussurro era fraco agora, e eu me perguntei se alguma vez já tinha prestado atenção. Eu não conseguia mais lembrar do rosto dela, nem da cor de seus cabelos, mas ainda sentia os lábios da minha mãe contra minha orelha, quente, doentio, o cheiro azedo da morte, sussurrando as maneiras do clã. As tribos têm um saber sobre eles, uma forma de conjurar alimentos das gramíneas secas das colinas. Já que os deuses os abençoaram, também deveriam nos abençoar.
Amarrei um saco de bolotas no lombo do meu cavalo, enquanto o resto do clã saqueava ou brandia suas armas como aviso. Mantive meu olhar abaixado, concentrando-me em apertar a corda, evitando olhar para qualquer um deles, mas não pude ignorar os gemidos de alguns. Essas bolotas, reunidas por outro alguém, não eram nenhuma benção para mim, e a bile subiu pela minha garganta. O desprezo do meu pai surgiu de novo. Qual o problema com você?
Steffan observou uma garota que estava encolhida atrás das mulheres mais velhas da tribo.
— Venha aqui — ele a chamou.
Ela balançou a cabeça com força, os olhos arregalados. As mulheres se aproximaram, ombro a ombro.
— Venha! — ele ordenou.
— Nós terminamos aqui — eu disse, agarrando seu braço. — Deixe a garota em paz.
— Não se meta, Jafir! — ele exclamou. Ele se libertou e foi em direção à garota, mas Piers entrou no caminho dele.
— Como seu irmão disse, nós terminamos aqui. — Steffan já havia batido de frente com Piers antes, mas Fergus, Liam e Reeve não estavam por perto. Os outros também estavam montando em seus cavalos para sair.
Steffan olhou para a menina.
— Eu voltarei — ele avisou e partiu com o resto de nós.
Nós viajamos rapidamente sobre as pastagens e colinas de volta ao acampamento, e a cada quilômetro, minha raiva crescia. Lutem. Palavras em conflito se chocavam em minha cabeça. Eles ou nós.
Quando chegamos ao acampamento, apenas uma coisa era certa para mim. Eu nunca cavalgaria com eles novamente. Eu veria meus parentes morrer de fome primeiro.
Voltei ao acampamento atacado no dia seguinte, sozinho, com dois pavões que me tomaram o dia todo para caçar. Tudo o que restava de seu acampamento eram as cinzas frias de uma fogueira e restos dispersos deixados para trás pela pressa.
A tribo havia mudado para algum lugar onde não os encontraríamos novamente, e fiquei feliz em vê-los desaparecer.

* * *

Nosso clã do norte chegou no dia seguinte. Fergus havia dito a eles que viessem. Liam estava bravo. Os números deles eram maiores que os nossos, mas a maioria era de mulheres e crianças. Bocas que deveriam ser alimentadas. Enquanto tínhamos oito homens fortes em nosso clã de onze, eles só tinham quatro em seu clã de dezesseis.
— Eles são nossos parentes — argumentou Fergus. — Os números nos fortalecerão. Olhe para Harik, o Grande. O número de seus parentes chega às centenas, e isso significa poder. Ele poderia nos esmagar de uma só vez. A única maneira de escapar é nosso clã ter um número maior de pessoas.
Liam argumentou que havia comida suficiente nas colinas apenas para alimentar o nosso clã.
— Então vamos encontrar novas colinas.
Olhei para as crianças amontoadas que temiam falar, seus olhos fundos de fome e cansadas dos dias de caminhada. Laurida jogou água na caldeira sobre o fogo para fazer o ensopado render mais e depois adicionou dois grandes punhados da carne salgada que roubamos da tribo. A mãe de uma das crianças começou a chorar. O som me cortou, estranhamente familiar, eles ou nós, e por um momento fugaz, fiquei feliz pelo o que roubamos.
A noite passou, irritante e desconfortável, as crianças comendo em silêncio, as palavras acaloradas entre Liam e Fergus pesando sobre o resto, Liam ainda lançando olhares aos recém-chegados. Com a sopa terminada, as crianças e as mães encaravam sombriamente o fogo. O silêncio era sufocante. Eu preferia disputas e brigas ao silêncio tenso.
A raiva brotou em mim e eu sussurrei para Laurida:
— Por que nunca contamos histórias?
Laurida deu de ombros.
— Histórias são um luxo dos bem-alimentados.
— Pelo menos as histórias preencheriam o silêncio! — exclamei. — Ou nos ajudariam a entender o nosso passado! — E, em seguida, me abaixei, enquanto respirava olhando para o chão. — Eu nem sei como a minha própria mãe morreu.
As botas de Fergus de repente preencheram o meu campo visão. Virei para cima. Os olhos dele brilhavam de raiva.
— Ela morreu de fome — ele disse. — Ela guardou sua cota de comida e deu a você e a Steffan. Morreu por causa de vocês. Essa é a história que você queria ouvir?
Em uma noite diferente, eu poderia ter sentido as costas de sua mão novamente, mas sua expressão estava tão cheia de desgosto; o esforço para me atingir não deve ter parecido valer a pena, então ele apenas deu as costas.
Não, não era a história que eu queria ouvir.

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