22 de março de 2018

Capítulo 12


De manhã os orcs partiram. Pria os viu saírem à primeira luz da manhã, voando baixo pelo desfiladeiro. Foi uma sorte, porque Sheldon chegou à entrada do desfiladeiro uma hora depois. Ao chegar, o Zaratan parou para pastar nos limites da floresta, como se soubesse que haveria pouca vegetação disponível durante o restante da jornada.
O grupo saltou para o chão e se espalhou, atentos para o caso de toparem com algum dos demônios orcs deixados como sentinelas. As cinzas das fogueiras ainda estavam quentes ao toque, e o esterco das Serpes deixara um fedor forte e pungente no ar.
— Eles devem saber que estamos indo naquela direção — disse Fletcher, balançando a cabeça. — O Ahool deve ter farejado nosso rastro. Só temos sorte de eles terem pensado que somos mais velozes que de fato somos, pois nos ultrapassaram.
— Se estivéssemos a pé, ainda estaríamos no pântano — disse Otelo, esfregando os olhos para afastar o sono. — Se estivéssemos a bordo de algum outro animal que não um Zaratan, como um Kirin ou um Hipalectrion, estaríamos muito para a frente. Eles acham que temos montarias, como o Corpo de Dracons.
— Foi por isso que ficaram tão empolgados ao ver aquelas marcas de cascos no chão — supôs Sylva, agachando-se perto dos sulcos que os xamãs haviam examinado. — Por sorte, um bando de demônios selvagens deve ter passado por aqui recentemente.
— Sim — concordou Cress, cutucando uma pilha de esterco de Serpe com um graveto. — Eles devem achar que temos demônios grandes de nível elevado como montarias... afinal, ninguém mandaria um bando de aluninhos com apenas um ou dois anos de experiência para a cova do leão, certo?
Fletcher sorriu com o sarcasmo, ainda que dentro de si existisse um turbilhão. Não fazia mal que seus perseguidores superestimassem seu poder, mas em algum momento eles poderiam pensar melhor e dar meia-volta. Para piorar, a equipe já não tinha mais a cobertura das árvores e teria de ficar naquela trilha ao longo de muitos quilômetros. Demônios em migração ficariam afunilados no desfiladeiro, de matilhas de Canídeos selvagens a Mantícoras nômades em busca de um parceiro. Aquilo não o agradava, mas eles não tinham outra escolha. O tempo se esgotava depressa.
Como se Sheldon pudesse ler sua mente, engoliu o restante da polpa das folhas que estivera arrancando da orla da floresta, e começou a entrar vagarosamente no valado, ignorando as paredes altas e acidentadas da montanha que o flanqueava. O grupo apressou-se em subir no casco trêmulo que se inclinava de um lado para o outro, os pés pendurados acima do chão.
Logo estavam todos de volta ao casco de Sheldon com Alice, que agora contava também com Tosk no grupo de demônios enrodilhados a ela, como se encontrassem tranquilidade em seu temperamento calmo. Ignácio chegava até mesmo a trazer-lhe tiras de carne-seca quando o grupo fazia as refeições, e passava a maior parte do tempo em seu colo: agora que haviam apagado a fogueira, sua temperatura voltara ao normal.
Cress parecia não se importar que seu demônio agora tivesse uma nova companheira ao dormir — ela mesma passava a maior parte do tempo atrás do pescoço de Sheldon, coçando-o de vez em quando e falando sozinha com ele. Tinha se afeiçoado bastante ao gigante gentil, queixando-se muitas vezes por ele ser de um nível alto demais para ela.
Fletcher achou graça daquele monte de demônios afeiçoados à mãe e a beijou na testa. Caminhando em direção à frente do casco, perguntou-se se seria estranho mostrar tamanha ternura por ela, mas aquilo lhe parecia natural e certo.
— É o lugar perfeito para uma emboscada — comentou Sylva, interrompendo os pensamentos do jovem e parando a seu lado.
A elfa tinha razão. Estavam em um precipício serpenteante que acompanhava a fissura natural na rocha, com curvas fechadas que não lhes permitia enxergar mais que uma dúzia de metros à frente. Mais acima, deformações nas paredes do desfiladeiro criavam plataformas e reentrâncias ideais para as Serpes emboscá-los.
— Vamos colocar Pria para vigiar — sugeriu Fletcher. — Assim pelo menos teremos alguma espécie de aviso.
Pria era a única entre os demônios que não seria reconhecida, pois todos os outros poderiam ser identificados pelos Nanauês ou goblins com quem tinham lutado na pirâmide. Otelo lhe roçou a grande pedra de visualização e entregou o cristal para Fletcher. O anão sentia-se relutante em se afastar de Pria; tinha passado uma hora experimentando suas transformações, impressionado com a miríade de padrões que ela podia imitar com a carapaça.
Pria saiu voando por cima deles, e Fletcher achou estranho ver-se espelhado no cristal, impressionado com a mudança em sua aparência. Suas roupas e seu rosto estavam sujos de terra, sangue e suor seco: não tomava banho havia dias, limitando-se a uma breve lavagem com a água das poças acres pelas quais Sheldon passava. O que não estava manchado estava rasgado pelos galhos espinhosos das selvas dos orcs e das florestas do éter. Seu cabelo estava sebento, grudado na testa, como se tivesse sido mergulhado em piche.
Ele jogou o cabelo para trás com a mão e depois limpou o rosto disfarçadamente, até receber um olhar divertido de Sylva. Ela conseguira, ele não sabia como, arrumar uma maneira de manter-se apresentável. O rosto estava limpo e fresco, e o cabelo, cuidadosamente trançado, embora o estado de suas roupas fosse apenas ligeiramente melhor que o das dele.
— Venha cá — disse ela, puxando Fletcher para que ele se sentasse de pernas cruzadas a seu lado.
Derramou um pouco de água em um pano razoavelmente limpo e foi lhe lavando o rosto, observando-o, a ponta da língua saindo pelo canto da boca.
— Se não encontrarmos nenhum vulcão do outro lado das montanhas, não vamos ter muitas opções — disse ela, em voz baixa.
— Achei que não teríamos nenhuma opção — respondeu Fletcher, sem saber para onde olhar quando ela se inclinou em sua direção para lhe limpar o rosto.
Ele percebeu que a pele de Sylva, que em geral era macia e branca, estava ligeiramente bronzeada e com uma nuvem de sardas, graças aos dias que passara na floresta dos orcs.
— Teremos de nos arriscar e voar em busca de um vulcão — murmurou ela, aproximando-se mais dele para que os outros não pudessem ouvir. — E levar algumas pétalas para a jornada.
— E abandonar os outros? — perguntou Fletcher, horrorizado.
— Vamos trazer as flores para eles, depois que encontrarmos um vulcão — retrucou Sylva, balançando a cabeça. — É nossa única chance. Naquele dia, quando precisamos de comida, nós nos dividimos para caçar; será igual, só que um pouco mais demorado.
— E como vamos nos reencontrar? — Quis saber Fletcher. — Dessa vez não estaremos separados por poucos metros de distância.
— Vamos dar um jeito — disse Sylva, franzindo o cenho.
Ele balançou a cabeça. Não queria abandonar a mãe, mas talvez fosse o único jeito.
— Bem, vamos torcer para que as coisas não cheguem a esse ponto — disse ele.
Ao falar isso, percebeu que estava ignorando o cristal em seu colo e olhou para baixo. O que viu fez seu estômago se revirar.
— Gente, vocês precisam ver isso — chamou Fletcher, o coração acelerado.
Ao dizer as palavras, soube que era tarde demais: Sheldon tinha acabado de virar pesadamente uma curva do caminho, e as paredes da ravina desabaram, revelando o que Pria acabara de ver momentos antes.
Um cânion. Um espaço gigantesco e vazio que se alargava e, em seguida, estreitava-se de novo, estendendo-se ao longe do outro lado. Entretanto, não era isso que o alarmava.
Ossos imensos assomavam acima, espalhados, feito os pilares destruídos de um templo esquecido. Eram grossos e altos como troncos de árvores, cada qual embranquecido até um tom ofuscante pelos anos de exposição à luz.
— O que é esse lugar? — perguntou Sylva, com voz vacilante, inclinando o pescoço para o lado enquanto eles passavam por baixo de uma caixa torácica.
Os ossos curvavam-se a seu redor, como os mastros de uma fragata encalhada, lançando faixas de sombra sobre o grupo. Mais adiante, uma caveira com um olhar malicioso nas órbitas os recebia sem o maxilar inferior, os dentes afiados enterrados na areia. Era tão larga e alta quanto o corpo inteiro de Sheldon, as cavidades oculares grandes o bastante para que Lisandro voasse por elas sem tocar os lados. Outros crânios entulhavam o caminho, revelando que dezenas de demônios tinham perecido naquela imensa ravina.
— Parece um cemitério de elefantes — disse Otelo. Inclinou-se para fora e bateu com o punho fechado em um dos ossos, fazendo o som oco ecoar por todo o cânion.
— Isso não são elefantes — refutou Cress.
E de fato não eram. Aqueles demônios eram muito maiores que um elefante. Fletcher não conseguia imaginar como teriam chegado àquele lugar, pois mal teriam conseguido passar pela ravina. Pria, que ainda voava acima, já chegara ao outro lado do desfiladeiro, e ele viu a resposta a sua pergunta: a trilha era bem mais larga ali, grande o suficiente para que uma frota inteira de navios a atravessasse.
— Não havia nenhuma descrição de demônios tão grandes assim em nossas aulas de demonologia — comentou Sylva, ainda horrorizada com o tamanho daqueles enormes esqueletos.
— Sei o que eles podem ser — arriscou Otelo, hesitante. — Existem lendas de criaturas deste tamanho, mas nenhum avistamento confirmado. Algumas pessoas dizem que estão extintas. Li sobre elas em um livro antigo da biblioteca, quando estávamos estudando para os exames ano passado.
Ele olhou mais de perto a caveira ao passarem por ela.
— Os dentes são de um herbívoro, achatados e com ranhuras — disse ele, pensando alto. — Olhem os ossos da canela. Pelo seu tamanho, essa criatura devia ter sido alta o bastante para comer a copa das árvores. São os comedores de árvore. Beemotes.
— O que foram ou deixaram de ser não importa; aqui é assustador para caramba — retrucou Cress, estremecendo de medo e indo, em seguida, sentar-se ao lado de Alice, que parecia não se incomodar a mínima com aquele cemitério macabro.
Eles passaram a meia hora seguinte em estado de alerta, mas o terreno era tão sem vida e imóvel quanto os ossos que os rodeavam. Apesar disso, foi um alívio quando deixaram para trás o ossário silencioso e entraram na larga ravina do outro lado.
Sheldon apertava o passo, como se estivesse ansioso para alcançar a orla das montanhas. Devia estar desidratado, pois, embora os outros pudessem beber água de seus cantis, a última vez que ele havia tomado água fora de manhã, em uma poça estagnada da floresta. Para piorar, o tempo tinha mudado: o céu se tornava mais claro e quente a cada minuto.
O casco oscilava sob eles, e as paredes do desfiladeiro estavam afastadas demais para fornecer cobertura contra o calor opressivo do céu brilhante.
Logo eles caíram em silêncio, agachados juntos sob a pele do Catoblepas para aproveitarem a fraca sombra. Parecia que, apesar de estarem distantes a apenas poucos quilômetros umas das outras, as diferentes regiões do éter tinham climas vastamente distintos.
Então eles viram algo reluzir vivamente como vidro, ondeando e rodopiando na pedra de visualização, conforme Pria voava do amplo desfiladeiro na montanha.
Era uma lagoa, preenchida por metros e mais metros de água de um tom azul intenso, rodeada por imaculada areia branca e rochosas paredes de terra cheias de trepadeiras. Mata verde rodeava suas margens, e um igarapé tortuoso estendia-se à esquerda, migrando em direção ao oceano distante, correndo ao longo da cadeia montanhosa até se unir às águas. À direita, cachoeiras caíam das formações salientes de rocha negra, alimentando as calmas lagoas menores que a cercavam.
Enquanto Sheldon se apressava na direção da água, o ar começou a ficar úmido, tanto que o cabelo ruivo de Cress se pôs a ficar arrepiado bem diante dos olhos de Fletcher. Sheldon soltou um gemido de felicidade, e o casco se balançou enquanto ele caminhava pesadamente à frente, as paredes da montanha cercando-o.
— Acho que chegamos ao destino — disse Cress, contente, saindo de baixo da tenda de pele e engatinhando até a frente do casco. Ela deu um tapinha carinhoso, alegremente, no pescoço do Zaratan, rindo em seguida quando ele caiu na água, molhando-a. Sheldon se deliciou ali, enterrando a cabeça sob a superfície. O pescoço pulsava com seus goles. Cress esticou o braço e levou a mão em concha aos lábios. — É água doce! Podemos tomar.
Fletcher não precisou que dissessem duas vezes: saiu correndo e saltou para dentro d’água, tão clara que dava para ver o fundo. Sentiu um choque pelo frio, mas logo a sensação do líquido gelado em sua pele se tornou deliciosa, banhando seu couro cabeludo sebento e fazendo seus cabelos flutuarem levemente.
A água se agitou a seu lado quando Sylva mergulhou ali perto, deixando um rastro de roupa branca e bolhas na água. Ela estava só com a camiseta de baixo e as calças curtas que iam até o joelho e que usava embaixo dos calções.
Fletcher subiu em busca de ar, e a elfa, gargalhando, atirou água em seu rosto.
— Você está parecendo um rato afogado! — provocou ela, sorrindo e tornando a atirar água.
Do outro lado do casco, Cress e Otelo já tinham entrado na água, e, apesar de não os ver, conseguiam ouvir seus gritos de alegria. Fletcher sabia que eles deviam estar inspecionando o horizonte em busca de um vulcão, mas naquele momento não dava a mínima. Isso podia esperar. A única coisa que via eram os olhos azuis cintilantes de Sylva. Ele lhe jogou água nas costas — e o olhar de ultraje incrédulo em seu rosto quando ele o fez acabou rendendo gargalhadas.
— Ok, foi você quem pediu — avisou Sylva, fingindo estar brava.
Ela enfiou a cabeça de Fletcher embaixo d’água, mas ele lhe passou uma rasteira e a arrastou consigo para o fundo. Os dois lutaram ali embaixo, peito contra peito, os braços e pernas magros da elfa envolvendo os do rapaz enquanto eles disputavam posição. O coração de Fletcher batia com força quando eles caíram aos trambolhões na areia do leito da lagoa, até que a necessidade de respirar os trouxe de volta à superfície.
Eles irromperam da água e se separaram, para recuperar o fôlego enquanto observavam o esplendor dos arredores uma vez mais. O céu reluzia, de modo que a água cintilava como um punhado de diamantes. Por um instante apenas, os temores dos últimos dias pareceram insignificantes diante de tamanha beleza.
Fletcher lhe atirou água de novo, só para garantir, depois nadou na direção de uma cachoeira cujas águas caíam de uma rocha escura ali perto.
Por um breve momento desfrutou do impacto da água sobre as costas cansadas, mas Sylva investiu contra ele, derrubando-o dentro da caverna vazia situada atrás da torrente de água cascateante.
Ele caiu sobre um rochedo plano que tinha se tornado liso e arredondado pela ação da água. Ela montou seu peito, com uma perna de cada lado, e imobilizou seus braços, a água caindo às costas, como uma parede que os isolasse do resto do mundo, uma cortina reluzente e ondeante que ecoava na câmara sombria. O único som era o das águas e do anel de gotículas que caía das estalactites acima. Ela levantou as sobrancelhas triunfalmente e, então, quando Fletcher começava a levantá-la de cima do corpo, ela se inclinou para baixo... e o lugar escureceu. Otelo emergiu pela cascata, balançando a cabeça, como um cachorro molhado.
— Vocês dois, Sheldon está partindo — disse ele, borrifando neles a água de seu cabelo comprido e sua barba.
Sylva se empertigou, sentada.
E assim, subitamente, aquele instante especial terminou.

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