13 de março de 2018

Capítulo 12

Fletcher mal conseguia pensar com todo ruído que irrompeu ao seu redor, os gritos de homens e mulheres raivosos afogando-lhe os pensamentos.
Caiu de joelhos e cobriu os ouvidos, tentando entender a história de Sir Caulder. Com o coração acelerado, repassou cada fato, ignorando o matraquear do martelo e os rugidos de Zacarias.
Ele sabia que aquilo não passava de uma tentativa desesperada de salvá-lo, mas não pôde deixar de sorver a ideia por um momento. Se ele fosse o filho de Raleigh, isso explicaria sua habilidade de conjurar, encontrada tão raramente dentre os plebeus não aparentados à nobreza. As datas se encaixavam, mais ou menos. Só que isso era tudo. Assim como a teoria de Arcturo de que ele seria seu meio-irmão, havia enormes lacunas que precisavam ser explicadas... tal como Rook estava ansioso para apontar.
— Isso é risível — afirmou o inquisidor, quando o burburinho começou a morrer sob o olhar severo do rei Harold, que tinha se levantado novamente para silenciar a multidão. — Mesmo que acreditássemos em você, e temos motivos para suspeitar de que mentiria para proteger Fletcher, por que o tal bebê teria acabado na fronteira norte, quando Raleighshire fica no extremo sul de Hominum? Que motivo poderia Edmund Raleigh ter para mandar seu filho para tão longe?
— Ele não sabia em quem confiar! — rosnou Sir Caulder, socando o púlpito. — Alguém queria a família dele morta; algum aliado havia levado os orcs até a porta da sua casa. Lorde Raleigh sabia que o filho não estaria seguro em nenhum lugar de Hominum, então o mandou ao único lugar onde ele sabia que nem o rei poderia encostar no menino: aos elfos.
— E então? O demônio o deixou em Pelego porque se perdeu no caminho? — escarneceu Charles.
— Lorde Raleigh tinha morrido. O Griforuja estava se esvaindo de volta ao éter, como acontece a todos os demônios quando seus mestres morrem, sem ter mais uma conexão ao nosso mundo. Ele não conseguiria alcançar a fronteira élfica; aposto que teve sorte de chegar tão longe quanto as montanhas do Dente de Urso — declarou Sir Caulder. Fletcher percebeu que vários nobres concordavam com acenos de cabeça. — Então ele deixou o menino o mais perto que pôde da fronteira, num lugar onde seria descoberto; logo diante dos portões de Pelego. Nu e sozinho, mas chorando alto o bastante para que o ferreiro local o encontrasse.
Fazia sentido, percebeu Fletcher, se alguém estivesse disposto a acreditar. Mas o menino poderia ter sido mandado a qualquer lugar: um orfanato, a casa de um amigo. Teria mesmo lorde Raleigh mandado o filho para os elfos? E isso se Sir Caulder estivesse contando a verdade, em primeiro lugar.
Fletcher balançou a cabeça. Aquilo não bastaria, mesmo que ele torcesse no fundo do coração para que fosse verdade.
— Por quê?! — exclamou Charles. — Por que você não contou isso a ninguém? Sobre o bebê, a entrada secreta, tudo!
Sir Caulder suspirou e deixou os ombros caírem, evitando o olhar de Fletcher. Baixou a cabeça, completamente drenado de coragem.
— Eu tive medo. Medo de que, se eu tentasse contar a alguém, o traidor me mataria para evitar suspeitas e encobrir seu crime. Medo de que, se descobrissem que o menino tinha escapado, saíssem procurando por ele. Foi por isso que assumi minha posição em Vocans, na esperança de que ele, de alguma forma, acabasse chegando à academia. E foi o que aconteceu.
Houve gritos alarmados quando Zacarias se levantou de repente, livrando-se da mão do rei Harold ao avançar contra Sir Caulder.
— Não acredito numa palavra. Você tramou essa história para salvar a pele do seu amigo, à custa da memória do meu amigo morto! — Ele urrou as últimas palavras na cara de Sir Caulder, socando as mãos dos dois lados do pódio. Sir Caulder nem piscou, limitando-se a limpar calmamente um pouco de cuspe do rosto.
— Isso quem vai decidir é o rei. Ele pode acreditar que Fletcher é um nobre e perdoá-lo destas acusações falsas em honra aos pais do jovem... Ou pode não fazer nada e deixá-lo morrer — afirmou Sir Caulder. Ele sustentou o olhar de Zacarias até que o nobre lhe deu as costas, enojado.
— Você acredita nisso, Harold? — indagou Zacarias, incrédulo. — O sujeito está claramente louco. Não corrompa a memória de Edmund e Alicepara que este velho louco possa salvar a vida de um assassino.
Fletcher percebeu a esperança nos olhos do rei enquanto ele se levantava e, com um suspiro profundo, juntava-se a Zacarias diante da mesa alta.
Fletcher sentiu aquela esperança refletida no próprio coração.
Mas, antes que Harold pudesse falar, Sir Caulder fez um último apelo, com a voz tremendo de emoção.
— Meu rei. Eu amava os Raleigh como se fossem meu próprio sangue. Devo a eles minha vida e mais, devido ao meu fracasso como protetor. Faço o que faço pela família, para que o filho deles possa viver, não por lealdade a um estudante.
Harold ergueu a mão, calando o velho cavaleiro.
— É uma história difícil de acreditar, uma história que eu queria ter ouvido há muitos anos — censurou o rei Harold. — Declaramos uma guerra devido aos eventos daquela noite. Ter contado uma versão incompleta dos acontecimentos é quase traição.
— Isso mesmo! — exclamou Zacarias, concordando com a cabeça.
— Porém... não posso mandar o rapaz para a morte em sã consciência, mesmo que não haja como provar a ascendência dele. Você, Zacarias, mais que qualquer outra pessoa, deveria entender. Considero o menino um nobre e lhe concedo o perdão completo, em honra à memória de Edmund e Alice Raleigh.
Era o fim. O estratagema de Sir Caulder funcionara. Fletcher sentiu uma onda de alívio e a mão de Otelo batendo em suas costas. O primeiro pensamento foi sobre Berdon. Havia tanto que Fletcher queria lhe contar. Sentiu-se tonto de felicidade. De alguma forma, tinha vencido.
Até que uma voz fria e trêmula cortou o ar.
— Só que há como provar a ascendência.
Era o velho rei. Fletcher observou enquanto ele se levantava com ajuda de lady Faversham. Agora que tinha visão completa da senhora, Fletcher notou que ela deve ter sido muito bonita quando jovem, com delicadas maçãs do rosto e uma cascata de cabelos prateados descendo até a cintura. Os olhos, porém, demonstravam que a beleza era só superficial, pois estavam carregados de ódio.
— Os Raleigh tinham um demônio único, entregue de geração a geração, até que acabou morrendo há alguns séculos. É por isso que o emblema no uniforme de Sir Caulder traz a imagem de uma Mantícora, não é, meu filho? — continuou o velho rei Alfric. Ele pegou uma longa bengala ao lado do assento e mancou até se colocar ao lado dos outros. Era esse o homem que o rei Harold tanto temia? O velho franzino diante dele não parecia um oponente tão formidável. — Você se lembra daquela velha história, aquela do segundo filho que foi ferroado pela Mantícora do irmão mais velho e herdou o dom por meio do veneno? Bem parecido com nosso amigo lorde Cavell, que se tornou um conjurador ao ser queimado pelas chamas da Salamandra do criminoso — disse o velho rei Alfric, indicando Didric com um aceno da cabeça.
— Rei Alfric, eu lhe imploro... — começou Arcturo, mas foi silenciado por um chute que Jakov lhe acertou nas costelas.
— Por fim, o irmão mais velho morreu na primeira rebelião enânica, deixando o segundo filho como herdeiro — continuou Alfric, ignorando Arcturo. — Daí em diante, todos os descendentes primogênitos dele, os Raleigh, tornaram-se imunes ao veneno de Mantícora.
— Isso é uma fábula, uma lenda — argumentou Harold, sorrindo para o pai. — Nem Edmund acreditava nela. Um dedal de veneno de Mantícora basta para matar dez homens. Só o mestre de uma Mantícora poderia sobreviver a tal ferroada e, mesmo assim, só se fosse aplicada pela própria Mantícora, da mesma forma que o dono de um Caruncho ou Arach é imune ao veneno do próprio demônio.
Fletcher notou que Harold falava aquilo para que a plateia entendesse. O rapaz já sabia tudo aquilo das aulas de demonologia, quando acreditara que não passassem de informações inúteis. Como estivera enganado!
— Não ouse me dar uma aula como se eu fosse uma criança incompetente — ralhou Alfric.
O velho rei, então, mancou até Fletcher e lhe examinou o rosto. Tinha olhos frios e calculistas, que faiscaram com sadismo.
— O moleque claramente deve ser executado, um castigo bem justo para seu crime hediondo. Não vou admitir sua fantasia. É absurdo acreditar que esse pivete imundo seja o filho dos grandes Edmund e Alice Raleigh. Para mim, o fedor dele já mais do que basta como prova. — Alfric riu consigo mesmo e se virou para o filho.
O sorriso do rei Harold se apagou um pouco, e ele lançou um olhar preocupado para Fletcher.
O desespero agarrou o coração do rapaz novamente, apertando cada vez mais, como um torno. Os joelhos vacilaram, e ele teria caído se não fosse a mão firme de Otelo.
— Tenho uma proposta — anunciou Alfric, tocando o queixo e contemplando as vigas do teto. — Vamos aplicar a ferroada. Se o moleque morrer, bem, ele nunca foi o filho de Raleigh e mereceu a morte decretada pelo júri. Se ele sobreviver... você terá minha permissão para perdoá-lo.
Harold ficou vermelho ao ser tratado com tamanho desrespeito. Afinal de contas, ele era o rei, além de um homem adulto. Não precisava da permissão do pai para fazer nada. Por um momento, Fletcher observou Harold lutando contra a indecisão, até, por fim, deixar os ombros caírem em derrota e lançar um curto aceno de cabeça ao pai. Não podia desafiar abertamente o velho rei, não tão publicamente e não ainda.
— Sou obrigada a me opor — declarou a capitã Lovett, ainda sentada no banco. — O ferrão de uma Mantícora é uma morte terrível. Pode demorar horas, horas de completa agonia.
— Então lhe daremos uma dose completa! — rosnou Alfric. — Assim ele morrerá bem rápido.
— Não foi isso que eu quis dizer... — começou Lovett, mas foi interrompida pela mão erguida do velho rei.
— Felizmente há um conjurador neste aposento que possui uma Mantícora. Não é verdade, Charles? — afirmou Alfric, apontando para o inquisidor de cabelos negros.
— Um presente que minha mãe me deu quando entrei para a Inquisição — disse Charles Faversham, baixando a cabeça. — Creio no entanto que Vossa Majestade lhe presenteou com o demônio.
— De fato, eu o dei à minha prima — confirmou o velho rei Alfric. — Não posso negar que sinto falta de Xerxes; foi um dos meus favoritos por alguns bons anos. Por que não o conjura? Aposto que faz um bom tempo que ele não ferroa nada.
— Sim, Majestade — respondeu Charles, ajoelhando-se.
Estalou os dedos para um dos guardas, que foi atrás da mesa alta e trouxe de volta um longo tubo. Com habilidade vinda da experiência, Charles tirou um rolo de couro de dentro e o abriu no chão. Pousou as mãos no pentagrama gravado no couro e fechou os olhos. Franziu a testa, concentrado. O pentagrama zumbiu ao ganhar vida, emitindo uma tênue luz azul que brilhava até no tribunal bem-iluminado.
Filamentos de luz branca surgiram, tecendo-se e fundindo-se numa massa amorfa que lentamente tomou forma. Em momentos, uma enorme criatura tinha se materializado, e Fletcher ficou sem fôlego.
Xerxes era tão grande quanto um cavalo puro-sangue, muito mais alto que Fletcher. Seus membros e corpo tinham a musculatura de um leão, coberto num grosso pelame violeta-escuro. A juba era negra e cheia e, entre os pelos, havia espinhos assustadores que chocalhavam quando a criatura balançava a cabeça leonina. Ele tinha um focinho curto com boca larga, e os olhos pareciam quase humanos, com íris azuis que se cravaram nos olhos de Fletcher com uma curiosidade voraz.
Só que nada disso se comparava a cauda negra de escorpião que se erguia da base da coluna vertebral, oscilando hipnoticamente, como uma cobra prestes a investir. Uma gotícula se formava no ferrão reluzente, amarela como pus e muito mais viscosa.
— Ah, eis aí o danadinho! — exclamou Alfric, chegando mais perto e acariciando a cauda da Mantícora. — Um belo espécime. Fico feliz de você ter cuidado tão bem dele.
— Danadinho? — comentou Otelo. — É um monstro!
Alfric fixou o olhar em Otelo.
— Guardas, levem o anão daqui, e um de vocês segure o mestre Wulf. Quero mosquetes apontados para os capitães Arcturo e Lovett. Os sentimentos dos dois pelo rapaz podem motivá-los a fazer algo de que se arrependeriam.
Fletcher ouviu o clique de pederneiras sendo engatilhadas quando os guardas ergueram as armas.
Otelo praguejou ao ter os cabelos pegos por Jakov e ser arrastado para fora, as correntes raspando o chão.
Mas Fletcher não conseguia registrar nada além daqueles olhos estranhos e hipnóticos da Mantícora que se aproximava.
— Sugiro que todos observem atentamente — disse Charles jovialmente. — Não é sempre que se vê veneno de Mantícora em ação, especialmente não uma dose completa. Por outro lado, talvez seja melhor que aqueles que têm estômago fraco saiam do aposento.
O ferrão balançou, dobrando-se como um arco completamente distendido.
Então parou, perfeitamente imóvel, enquanto Xerxes esperava pelo comando do mestre. Charles ergueu a mão, pronto para dar a ordem.
A Mantícora ronronou de empolgação, e Fletcher sentiu que alguém lhe segurava o braço. Didric rosnou em seu ouvido:
— Fique bem parado. Nós não queremos que ele erre, não é?
Outra mão, esta maior, passou por sobre o ombro e abriu a veste de Fletcher com um puxão, rasgando o tecido desgastado e expondo o peito.
— Seu sacrifício será em vão, Fletcher — sibilou Zacarias, e Fletcher sentiu seu bafo quente na nuca. — Você não fez nada além de adiar o inevitável. Os anões estarão no seu lugar mais cedo ou mais tarde. É uma pena que você não estará aqui para ver.
Os dois nobres puxaram os braços de Fletcher, até parecer que eles se soltariam dos ombros. O rapaz se ajoelhou, e a Mantícora deu um último passo adiante.
— O prisioneiro está pronto, Majestade! — bradou Charles, a voz aguda de empolgação. — Podemos começar o teste?
— Sim — respondeu Alfric, simplesmente.
Charles baixou o braço, e o ferrão desceu junto, sibilando no ar. Houve um estalo grotesco quando a ponta rompeu a pele abaixo do esterno de Fletcher, que gritou, pois teve a sensação de ser trespassado por uma espada. Então o ferrão bulboso pulsou ao injetar o veneno.
Fletcher desabou para o chão, sentindo o líquido se infiltrar em seu corpo, como ácido no sangue. A dor o dominou então, como se a carne dentro dele fosse assada por dentro. Os nervos berraram de agonia, e os músculos enrijeceram e sofreram espasmos, fazendo o rapaz se debater no chão frio do tribunal.
Ele sentiu as trevas se aproximando e as recebeu de braços abertos. Qualquer coisa seria preferível àquele tormento. Até a morte.
Conforme o alívio abençoado da inconsciência o levou, Fletcher ouviu Didric gargalhando, como se estivesse muito longe.
— Adeus, Fletcher Wulf!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!