2 de março de 2018

Capítulo 12

No instante em que as palavras deixaram os lábios de Didric, o diabrete saltou das trevas. Ele guinchou ao cravar as garras no rosto do menino rico, arranhando e rasgando. Didric deu um berro e largou a espada, que caiu com um estrépito enquanto o garoto girava pela câmara como um possuído.
— Tira isso, tira isso! — uivou ele, o sangue escorrendo em abundância pelo rosto.
Jakov e Calista bateram no diabrete com os punhos, tentando não ferir Didric. Com cada soco Fletcher sentia um clarão tênue de dor nos limites da consciência, mas o demônio se manteve agarrado com obstinação, urrando de raiva. A ira de Fletcher continuava radiando dele como um fogo crepitante, enchendo o peito de fúria justiceira. Ao ápice de tal sentimento, o menino teve aquele momento de clareza mais uma vez, e o sangue negro de Didric se tornou vermelho-rubi na visão.
O diabrete se calou, em seguida abriu a boca tão largamente quanto uma cobra. Fogo líquido irrompeu da bocarra da criatura, fluindo sobre a lateral do rosto de Didric e incendiando-lhe o cabelo. Um incandescer sobrenatural e alaranjado clareava a caverna enquanto Didric desabava, seu grito engasgado interrompido quando a cabeça se chocou contra o piso de mármore. Jakov e Calista se ajoelharam e bateram nas chamas tremeluzentes, tentando apagá-las e gritando o nome de Didric.
O diabrete saltou para os braços de Fletcher, que se deixou cair na cripta abaixo e correu em direção à saída; o coração batia no peito como um pássaro engaiolado.
Estava negro como breu lá embaixo, o ar morto e gelado. O menino correu sem parar, mergulhando nas profundezas da terra. Prendendo com força o livro debaixo do braço, Fletcher sentiu a mão tocar em pilhas de ossos ao tatear pelas trevas em busca do caminho; pilhas contidas por arame enferrujado e séculos de poeira. Ele derrubou um crânio da alcova ao enganchar o dedo na órbita vazia. A caveira quicou corredor abaixo e se estilhaçou em fragmentos grotescos. Fletcher esmigalhou os cacos ao avançar aos trancos e barrancos, desesperado para sair dali. O ar era abafado, e Fletcher sentia-se sufocar com cada respiração carregada de poeira. O demônio não estava ajudando em nada, cravando as garras no tecido da camisa e fungando de desconforto.
Depois do que pareceu uma eternidade, Fletcher bateu com a canela de forma dolorosa numa borda de pedra. Tateou adiante e descobriu outra. O alívio o inundou quando ele percebeu que tinha encontrado o que só poderia ser a escada para a capela. Estendeu a mão para o alto e sentiu a superfície lisa de outra laje de pedra. Com um esforço colossal, Fletcher a empurrou para cima e para o lado, jogando-a no chão com um estrondo.
O brilho fraco da lua lhe pareceu glorioso ao entrar pelas janelas quebradas da capela, banhando Fletcher em prata. O menino engoliu golfadas de ar fresco, feliz em estar livre daquela armadilha mortal. Porém, mesmo enquanto começava a relaxar, lembrou-se do que tinha acontecido. Precisava voltar a Berdon o mais rápido possível; o ferreiro saberia o que fazer.
Fletcher correu pela escuridão, usando o luar para se orientar pela trilha de cabras. Tinha certeza de que os outros estariam logo atrás, provavelmente carregando Didric. Ele teria no máximo dez minutos antes que a notícia se espalhasse. Se os guardas ouvissem que um dos seus tinha sido atacado, independentemente das circunstâncias, era improvável que Fletcher vivesse o bastante para ir a julgamento. E, mesmo se o fizesse, com as conexões de Caspar ele jamais teria uma chance justa; as únicas duas testemunhas não se incomodariam em mentir.
A vila estava quieta como uma sombra; todos dormiam em suas camas. Ao se aproximar correndo dos portões principais, Fletcher ficou imensamente feliz ao notar que a casa do portão acima estava vazia. Um dos agressores devia ter abandonado seu turno para caçá-lo.
A forja estava iluminada pelo incandescer suave dos carvões, que soltavam uma leve fumaça enquanto queimavam. Berdon estava adormecido na cadeira de vime, exatamente na mesma posição em que Fletcher o deixara ao se esgueirar para fora.
Não havia tempo a perder; o menino precisava escapar. A ideia de abandonar Pelego o feria até a alma, seu coração se apertava só de pensar. Por um momento, Fletcher entreviu a vida de vagabundo que o aguardava, vagando de vila em vila, mendigando por sobras. Balançou a cabeça para afastar tais pensamentos. Uma coisa de cada vez.
Com o coração pesado, Fletcher chacoalhou Berdon para acordá-lo.
— O que foi? — indagou o ferreiro com a voz arrastada, dando um tapa nas mãos de Fletcher. — Estou dormindo. Me acorda amanhã. — Fletcher o chacoalhou de novo, desta vez com mais força.
— Acorda! Preciso de ajuda. Não temos muito tempo — insistiu o menino. — Vamos lá!
Berdon ergueu o olhar, levando um susto quando o diabrete curioso pulou do ombro de Fletcher para seu peito.
— O que diabos é isso? — gritou, inclinando-se para o mais longe possível. O demônio grasnou com o barulho e deu um tapa pouco convincente na barba de Berdon.
— É uma longa história, mas eu vou ter que abreviar. Você precisa saber que eu serei obrigado a sumir da vila por um tempo — começou Fletcher, pegando o diabrete e o colocando no ombro. O bicho se enrodilhou no pescoço do menino e soltou um ronronar suave.
Fletcher explicou tudo o mais rápido possível, omitindo os detalhes mas se assegurando de que Berdon compreendesse todos os fatos.
Ao relatar o acontecido, Fletcher percebeu como tinha sido idiota de ir ao cemitério passando pelo centro da vila, onde qualquer um poderia vê-lo. Ao terminar, ficou ali parado, rígido, tentando recuperar o fôlego e baixando a cabeça envergonhado enquanto Berdon corria de um lado para o outro, acendendo uma tocha e arrumando coisas numa bolsa de couro. O ferreiro só fez uma pergunta:
— Ele está morto? — indagou, olhando nos olhos de Fletcher.
— Eu... não sei. Ele bateu a cabeça bem forte. Seja o que for, seu rosto vai ficar bem queimado. Vão dizer que eu o ataquei com uma tocha; que o atraí até o cemitério e depois tentei matá-lo. Eu decepcionei você, Berdon, fui um idiota — chorou Fletcher.
As lágrimas se acumularam nos olhos quando Berdon lhe entregou uma bolsa grande, a mesma em que ele levara as espadas à frente élfica.
Jogou o livro no fundo com um soluço, desejando que nunca tivesse chegado às suas mãos. O desespero parecia esmagar seu coração como um torno. O homenzarrão pousou as mãos nos ombros de Fletcher e segurou com força, lançando o demônio ao chão.
— Fletcher, sei que nunca lhe disse isso, mas você não é nem meu aprendiz nem um fardo. Você é meu filho, Fletcher, mesmo que não tenhamos o mesmo sangue. Estou orgulhoso de você; mais orgulhoso do que nunca. Você foi determinado e se defendeu, e não tem nada do que se envergonhar. — Berdon o envolveu num abraço de urso, e o menino enterrou o rosto no ombro do ferreiro, soluçando. — Tenho alguns presentes para você — anunciou Berdon, enxugando lágrimas do rosto.
Ele desapareceu no próprio quarto e voltou com dois grandes embrulhos. Meteu os dois na bolsa de Fletcher e lhe deu um sorriso forçado.
— Eu ia lhe dar essas coisas no seu décimo sexto aniversário, mas é melhor que as receba agora. Abra quando estiver bem longe daqui. Ah, e você vai precisar de proteção. Tome isto.
Havia um cavalete de armas na parede oposta. Berdon selecionou uma espada curva dos fundos, onde ficavam os itens mais raros. Ele a ergueu contra a luz.
Era uma peça estranha, que Fletcher nunca vira antes. O primeiro terço da lâmina era como o de qualquer espada, uma empunhadura de couro seguida de dez centímetros de aço afiado. Mas a parte seguinte da espada se curvava num crescente, como uma foice. No fim da curva a espada continuava com uma ponta aguda novamente.
— Você não recebeu treinamento formal, então se você se meter em encrencas... bem.. nem vamos pensar nisso. Esta espada-foice é uma arma imprevisível. Inimigos não vão saber como aparar seus golpes. Você pode prender a lâmina deles na curva da foice, então avançar além da guarda e golpear com o gume traseiro. A ponta é longa o bastante para estocadas, então não tenha medo de usá-la assim também.
Berdon demonstrou, cortando o ar para baixo e para o lado, em seguida trazendo o gume de trás para cima até a altura da cabeça e estocando violentamente.
— A borda exterior da foice é curva como uma boa cabeça de machado. Você pode usá-la para rachar um escudo ou até para derrubar uma árvore, se precisar, muito melhor do que qualquer outro tipo de espada. Dá para separar a cabeça de um homem dos seus ombros com um bom golpe.
Berdon entregou a arma a Fletcher, que a prendeu às costas da bolsa com um cinto de couro.
— Mantenha a espada oleada e fora da umidade. Por causa do formato, ela não encaixa em bainhas convencionais. Você vai ter que mandar fazer uma, quando tiver a chance. Diga ao ferreiro que é um khopesh de tamanho padrão, e ele saberá fazer uma, se conhecer o ofício — explicou Berdon.
— Obrigado. Vou fazer isso — respondeu Fletcher agradecido, acariciando o pomo de couro.
— Quanto ao demônio, mantenha-o escondido — instruiu Berdon, fitando os olhos de âmbar do diabrete. — Você nunca passaria por nobre, nem deveria tentar. Mesmo que a pessoa não tenha ouvido falar em Didric, é melhor não chamar atenção.
Fletcher segurou o demônio nos braços e o examinou, perguntando-se como exatamente poderia manter a criatura indisciplinada fora de vista.
Subitamente, os sinos começaram a tocar, o som metálico reverberando pelas ruas. Mesmo com o clamor dos sinos, Fletcher podia ouvir gritos distantes rua acima.
— Vá! Mas não para a frente élfica, é para lá que esperam que você fuja. Vá para o sul, para Corcillum. Vou barrar a porta da forja, fazer com que pensem que você ainda está aqui. Vou contê-los o máximo que puder — afirmou Berdon, empurrando o menino para fora da forja, para o ar frio da noite. — Adeus, filho.
Fletcher olhou pela última vez o amigo, mentor e pai, uma silhueta à porta. Então ela se fechou e ele estava sozinho no mundo, apenas com a criatura adormecida ao redor do pescoço. Um fugitivo.


16 comentários:

  1. Espero q não aconteça nada com o pai adotivo T_T

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  2. Eu tipo imagino o mini demônio como o banguela de como treinar o seu dragão,só que vermelho escuro e mais delgado kkk

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  3. Uma khopesh, lembrei de As crônicas dos Kane agora kkkkk

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  4. Fico imaginando, por mais que seja um demônio ele devia ser fofo e super protetor. Fletcher deve ser filho de alguém muito poderoso.

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    1. SIM,ACHO QUE FOI UM MAGO QUE ESTAVA FUGINDO(OU UMA MAGA NO CASO SKSSKKS),OU ATÉ MESMO UM NOBRE

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  5. Só sei q se acontecer alguma coisa com o Berdon, cabeças vão rolar (mais especificamente do escritor)

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    1. Mary Gray: conjuradora das trevas, bruxa no último ano em Horgwarts, vampira(melhor amiga do Jacob Black), peculiar, filha de Poseidon,sanguenova, caçadora de sombras, protegida de durga, divergente,tordo, anjo caido,narniana,esfinge ( e outros títulos intermináveis) u.u17 de julho de 2018 18:00

      Kkkk tão eu pensando nesse exato segundo kkk

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  6. Ah, cara, Berdon é um baby
    Que homem, meus amigos!
    Que homem...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!