31 de março de 2018

Capítulo 11

MORRIGHAN

— O que tem além das montanhas, Ama?
— Nada para nós, criança.
Nós nos sentamos à sombra de um sicômoro, cheio e frondoso com o verão, triturando a última de nossa semente de amaranto até formar um pó.
— Tem certeza? — perguntei.
— Já te contei as histórias sobre isso antes. Foi de onde o Pai veio. Somente ele e alguns outros conseguiram. A devastação era ainda pior. Muito mais brutal do que qualquer coisa deste lado da montanha. Ele viu muitos morrerem.
Ela me contou sobre as nuvens sufocantes, os incêndios, o chão tremendo, os animais selvagens. As pessoas. Todas as coisas que o Pai lhe dissera.
— Mas ele era apenas uma criança, e isso foi há muito tempo — falei.
— Não há tempo suficiente — ela replicou. — Lembro-me do medo nos olhos do Pai quando contou. Ele estava feliz por estar onde estamos agora, deste lado.
Enxerguei a velhice de Ama. Ela ainda era saudável, robusta para uma mulher da sua idade, mas o cansaço formava linhas em seu rosto. Seguir em frente e manter a tribo segura era uma jornada sem fim para ela. Aqui, neste vale, ela encontrou descanso por quase dois anos agora, mas ultimamente eu a via olhando para as colinas e escarpas circundantes. Ela sentia alguma coisa? Ou era apenas um antigo hábito de examinar os arredores? Ela estava com medo de acreditar que a paz poderia durar?
Eu queria dizer-lhe desesperadamente Os abutres estão indo embora. Nossa paz e limites só crescerão se ficarmos. Mas ela se perguntaria como eu sabia, e eu não podia dizer que Jafir me dissera, que a nossa ameaça mais próxima poderia desaparecer para sempre. Seu clã queria ir embora. Eles falavam em ir ao outro lado das montanhas. Talvez até além. Eu vira a preocupação em seus olhos quando ele me contou. Senti em meu coração. Se eles fossem embora, ele também iria?
— Que tipo de animais? — perguntei.
Ama fez uma pausa na moagem e olhou para mim. Me analisou.
— Eu só estou curiosa — falei e triturei minhas sementes com mais fervor.
— Eu não conheço todos os nomes — ela respondeu. — Um se chamava tigre. Era menor do que um cavalo, mas com os dentes de um lobo e a força de um touro. O Pai viu uma dessas criaturas arrastar um homem pela perna, e não havia nada que pudessem fazer para detê-lo. Os animais também estavam com fome.
— Se os Antigos eram como deuses e construíram torres que alcançavam o céu e voaram entre as estrelas, por que eles tinham animais tão perigosos que não podiam ser controlados? Eles não tinham medo?
Os olhos cinzentos de Ama se tornaram aço. Sua cabeça virou um pouco para o lado.
— O que você acabou de dizer?
Olhei para ela, imaginando o que causou a severidade súbita em sua voz.
— Você os chamou de Antigos — continuou ela. — Onde aprendeu esse termo?
Engoli em seco. Era o termo que Jafir usava.
— Eu não tenho certeza. Acho que ouvi Pata falando. Ou talvez tenha sido Oni? É uma boa descrição, não é? Eles são um povo do passado.
Eu podia vê-la analisando minha explicação em sua cabeça. Seus olhos amornaram novamente, e ela acenou com a cabeça.
— Às vezes me esqueço de quanto tempo se passou.
Fui mais cuidadosa com minhas palavras depois disso, percebendo que havia muitos termos que aprendi com Jafir. Não fui só eu quem o ensinara. Arroio, planalto, paliçada, savana. As palavras deles eram palavras de um mundo aberto. Eu o assistia viver de novas maneiras quando cavalgamos por uma planície ou quando ele conduzia habilmente seu cavalo numa encosta rochosa. Este era o mundo dele, e tinha confiança, não era mais o garoto estranho que às vezes me beijava em um cânion apertado.
Eu vivia essas experiências com ele, permitindo-me acreditar, por mais brevemente que fosse, que também era meu mundo, que nossos sonhos se esticavam ao longo da próxima colina, ou da próxima, e nós tínhamos asas para nos levar até lá. Mas eu sempre olhava por cima do ombro, sempre me lembrava de quem eu era, e aonde eu estava destinada a voltar, um mundo escondido onde ele nunca se encaixaria.
Não há futuro para nós, Morrighan. Nunca haverá. Jafir também sabia disso. Era uma coisa que nós dois sabíamos, mas em que eu não queria pensar.

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Boa leitura! E SEM SPOILER!