22 de março de 2018

Capítulo 11

Pria esvoaçou de um lado para o outro, a barriga tornando-se azul-acinzentada para camuflar-se com o céu, e a parte superior de seu corpo assumindo um tom misto de verdes a fim de se misturar à copa das árvores — a camuflagem ideal caso algum predador que estivesse voando no alto olhasse para baixo.
Quando Otelo lhe roçou a grande pedra de visualização contra a cauda, Pria saiu em disparada até o céu, muito mais depressa do que Fletcher esperaria. Tivera sorte em capturá-la.
De início, eles viram uma imagem cristalina da floresta; em seguida, Otelo grunhiu, e a imagem tremulou em tons de vermelho, amarelo e laranja quando a Pyrausta deslizou ao vento, muito acima das árvores.
— Ela é capaz de enxergar o calor — explicou o anão, cheio de orgulho. — É como um interruptor em sua mente. Esperem, vejamos...
A pedra mudou mais uma vez. A floresta se tornou fantasmagórica, substituída por uma estranha massa ondeante de formas negras e brancas.
— Movimentos de som e ar, como os daquele demônio morcego. — O rosto de Otelo se retorceu quando ele tentou se lembrar do nome. — Como ele se chama mesmo?
Fletcher se lembrou dos gigantes morcegos peludos que alguns xamãs usavam como montaria, e estremeceu.
— Não importa. Ande rápido — incitou Fletcher. — Um Pyrausta raramente se arrisca acima da segurança das árvores. Se ela for avistada, pode levantar suspeitas.
Otelo assentiu, e em breve Pria deslizava pouco acima da linha das árvores, mudando a visão de vez em quando para verificar a presença de predadores. Acima, a cadeia vermelha estendia-se até o horizonte, devorando o céu que se acinzentava. Fletcher viu-se procurando um sol que sabia não estar ali; a fonte de luz do éter ainda não havia sido determinada.
— O que é isso? — murmurou Otelo, desacelerando Pria ao se aproximar da base da montanha.
As árvores paravam abruptamente quando começavam as rochas vermelhas, como se os sedimentos ferruginosos as repelissem. Olhando de perto, pareciam arenito — ásperas e cobertas por uma fina camada de poeira que, para Fletcher, lembrava as terras áridas do éter. Mas não tinha sido isso que chamara a atenção de Otelo.
Havia uma rachadura na rocha, tão estreita que eles não a viram a distância. Era como se um terremoto tivesse dividido a serra impenetrável, deixando uma trilha fina no meio da cadeia. Sua largura mal comportava Sheldon, mas a trilha parecia bastante gasta; gerações de cascos, garras e patas haviam aberto um caminho livre no chão através da cadeia de montanhas.
— Bem que eu dis... — começou Fletcher, mas de repente Otelo levantou a mão, os olhos arregalados com pânico.
— Algo vem vindo — sussurrou ele, como se estivesse com Pria.
A tela reluziu em tom vermelho quando a Pyrausta voou a toda velocidade até um rochedo próximo, o maior e mais alto em meio a um monte de destroços que se espalhava ao redor da rachadura nas montanhas. Ela modificou sua visão para aquela estranha e sombria perspectiva de mundo, e voltou os olhos para o horizonte acima das árvores. Havia ondas bem alto no ar, como se ocorresse naquele instante uma grande perturbação no céu.
A visão retornou ao normal, revelando um grupo de sombras negras em formação de V ao longe, ainda distante demais para identificação. No início, Fletcher pensou que fossem demônios pássaros, talvez Picanços. Porém, à medida que se aproximavam, percebeu que eram grandes demais.
Eram Serpes. Fletcher contou sete — grandes monstros reptilianos, com asas unidas e chifres —, voando em uma espiral descendente, na direção do desfiladeiro das montanhas. Eram tão grandes quanto um trio de cavalos, e aterrissaram com impacto seco, fazendo o rochedo estremecer e a imagem do cristal balançar. Sulcos se abriram no chão quando elas foram deslizando até parar, as garras das patas de trás encurvadas e as asas abrindo ranhuras na terra.
Otelo estremeceu quando seus cavaleiros ficaram à vista: xamãs orcs, resplandecentes com cocares chamativos e cheios de penas, os torsos, pernas e braços desenhados com espirais de cores vivas. Cada um estava armado com uma aljava cheia de dardos e um macaná — um porrete de guerra achatado, com lascas de obsidiana incrustadas nas laterais.
Outros demônios aterrissaram no meio deles, atrás das Serpes. Vespes — híbridos de vespas tão grandes quanto pombos. Estirges — demônios de quatro patas semelhantes a corujas, com penas de pontas vermelhas e bicos assustadores. Foi outro demônio, no entanto, que chamou a atenção de Fletcher, ainda circulando acima, como se relutando em desistir da busca.
Era menor que uma Serpe, mas seu coração parou quando o monstro por fim veio descendo. Ele assomava gigantesco no cristal ao aterrissar no rochedo acima de Pria. A Pyrausta estava completamente imóvel.
— Mas que droga! — exclamou Cress.
Era um Ahool; o nome que Otelo tentara se lembrar antes surgiu de repente na cabeça de Fletcher. Parecia um morcego gigante com a musculatura, a pelagem e a boca ampla de um gorila macho, farejando o ar através de um focinho de porco e retorcendo as orelhas pontudas. Duas presas saíam dos cantos da boca, mais afiadas que agulhas e compridas o bastante para atravessar o peito de um ser humano.
Então o cavaleiro saltou das costas do demônio e aterrissou no chão, agachado.
O orc branco. Khan.
— Que os céus nos ajudem — disse Cress, em um fio de voz engasgada.
Khan parecia gritar, a pele perolada cintilava em contraste com o céu cinzento. Sua longa juba se agitava ao ar enquanto ele caminhava de um lado a outro, ordenando que os xamãs descessem das montarias, com os latidos guturais que Fletcher sabia ser a língua dos orcs.
Logo os xamãs vasculhavam a clareira, examinando o chão próximo do desfiladeiro na montanha. Não demorou para que determinassem que não havia pegadas, embora parecessem ficar empolgados com as marcas de cascos na terra seca. O orc branco bateu palmas ao vê-las e, em seguida, enxotou os xamãs da frente a fim de examiná-las por conta própria. Os xamãs retornaram às Serpes e as alimentaram com nacos vermelhos de carne retirados de cestos presos às costas dos demônios.
— Ei... eles não irão embora — comentou Cress, apontando para o cristal.
Os xamãs não levantavam tendas, abrigando-se, em vez disso, embaixo das asas de suas Serpes e montando pequenas fogueiras com feitiços invocados por símbolos tatuados na pontas dos dedos. Khan se juntou a um deles, agachando-se sobre suas ancas compridas e aquecendo os dedos junto às chamas.
— Por que Khan está aqui? — Sylva estremeceu, horrorizada ao ver o orc alto e branco. — Há uma guerra em nossa dimensão, e ele perdendo tempo nos caçando aqui. Não faz sentido!
Khan não usava nada além de uma tanga lisa, um contraste gritante com os xamãs espalhafatosos com suas penas de várias cores e pinturas corporais chamativas. Seu corpo era formado de músculos magros e atléticos, e seu cabelo comprido parecia quase feminino em comparação à mistura de coques masculinos, cabeças parcialmente raspadas e cabelos com corte de cuia.
— O que eu faço? — sussurrou Otelo, apontando para a imagem do Ahool no cristal. O demônio montava guarda, a cabeça balançando vagarosamente para a esquerda e a direita. — Assim que Pria se mexer, ele sentirá sua presença. Caramba, estou surpreso de que não a tenha farejado ainda.
— Os Ahools têm vista ruim — explicou Sylva. — Deve sentir seu cheiro, mas não sabe onde ela está.
— Precisamos dela ali — sugeriu Fletcher. — Se esses orcs ainda estiverem lá pela manhã, poderemos topar direto com eles. Ela pode ficar vigiando.
— Sim — concordou Otelo, enxugando o suor da testa.
O grupo ficou sentado em silêncio, horrorizado, enquanto o céu começava a escurecer e os demônios menores dos orcs se acomodavam nos limites da floresta, em vigília.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!