13 de março de 2018

Capítulo 11

O veredicto ecoou nas vigas do tribunal como sinos fúnebres, e Fletcher pensou que bem poderia ter sido. O silêncio pesou no salão; algumas pessoas estavam chocadas, outras esperavam para ver a reação do rapaz.
Então uma sequência de xingamentos irrompeu bem no fundo do tribunal. Fletcher virou e se deparou com o vulto familiar e torto de Sir Caulder pisando duro para atravessar o tribunal. A perna de pau martelava o piso de pedra conforme o homem se aproximava, sem nunca cessar as ofensas.
— O que você está fazendo? — gritou Rook, batendo o martelo. — Guardas, expulsem-no deste tribunal imediatamente.
— Diabos, eu tenho algo a dizer e vou jarretar o primeiro guarda que chegar perto de mim — rosnou Sir Caulder, tirando uma espada curta da bainha do cinto. Vestia o velho uniforme, de cota de malha com o tabardo azul e prateado da casa nobre à qual servira um dia. Os guardas hesitaram, então ergueram os mosquetes.
Zacarias Forsyth balançou a cabeça, enojado, levantou num salto e se virou ao dirigir-se à multidão.
— Vocês dariam a esse velho boca-suja um palco para despejar suas maluquices? O julgamento acabou; vamos deixar esse louco sozinho com seus pensamentos desvairados.
Estava claro, porém, que Zacarias não avaliara bem a multidão. Ansiosos por mais entretenimento, eles o ignoraram, e alguns até gritaram para que se sentasse. O rei Harold se levantou e olhou feio para a audiência até que o silêncio reinou de novo.
— Estou inclinado a concordar com Zacarias — anunciou o rei.
Fletcher ficou chocado. Por que Harold tomaria o partido de Forsyth? Será que tudo aquilo fora uma tramoia para que ele confessasse?
— Porém... — continuou o rei. — Eu pessoalmente fiz de Sir Caulder um cavaleiro e o nomeei mestre de armas da Academia Vocans. Ele é um bom homem, de mente sadia. Por respeito a um cavaleiro do reino, devemos ouvi-lo.
O rei sentou, encerrando o assunto, e Zacarias foi forçado a fazer o mesmo, incapaz de contradizer seu monarca em público. Fletcher suspirou de alívio e voltou-se para o velho mestre de armas.
— Muito obrigado, meu rei — disse Sir Caulder, inclinando a cabeça.
Ele pigarreou e começou numa voz alta e clara:
— Há vinte e um anos, comecei a servir a família Raleigh, protegendo suas terras ancestrais de Raleighshire. A propriedade da família ficava nas cercanias de uma vila à beira da selva e sofria com incursões frequentes dos orcs, mas era fácil de defender. Só havia uma forma de os orcs penetrarem nosso território: uma passagem pela montanha, onde meus cinquenta homens poderiam conter um exército órquico inteiro se fosse necessário. Por anos defendi aquela passagem, com nada mais que algumas poucas escaramuças como resultado.
Ele engasgou e fez uma pausa, levando um momento para se recompor. Fletcher não estava entendendo. Sir Caulder estava ganhando tempo, mas, para quê, o rapaz não saberia dizer. Será que o guerreiro os estava enrolando para que Uhtred pudesse posicionar seus anões? Ele olhou na direção das portas de entrada, torcendo para que não tivessem levado adiante aquele plano imbecil.
— Era uma noite como qualquer outra. As sentinelas estavam acordadas, com suas tochas acesas. Não havia movimento algum na linha das árvores. Não sabíamos o que estava acontecendo até que um servo moribundo cambaleou pela entrada dos fundos do nosso acampamento da montanha com uma lança na barriga. Ele nos disse que os orcs tinham aparecido do nada e estavam massacrando todo o condado. Quando chegamos, era tarde demais. A família e aldeões estavam mortos ou morrendo, e uma centena de orcs investia contra nós. Fui o único sobrevivente do ataque.
Sir Caulder brandiu o gancho que tinha no lugar da mão para que todos vissem.
— Perdi uma das mãos e uma perna, mas isso não foi nada comparado a perda de vidas naquela noite. Todos os homens, mulheres e crianças na aldeia foram decapitados, e seus crânios empilhados na praça central. A família Raleigh e seus servos foram empalados em estacas e deixados para apodrecer à margem da selva, um aviso ao Império para que ficasse fora das terras órquicas. Quando foram retirados das estacas e postos para repousar, estavam irreconhecíveis.
O inquisidor Rook grunhiu em voz alta e olhou para o teto, exasperado.
— Todos já ouvimos essa história antes, Sir Caulder; foi o evento que serviu de estopim para a guerra, depois de oito anos de atritos. Não tenho paciência para um velho relembrando suas falhas passadas. Ande logo com isso.
Sir Caulder olhou furioso para o pálido inquisidor, mas, com visível esforço, virou-se para a plateia novamente.
— Aquela passagem que defendíamos era o único caminho óbvio para Raleighshire. Mas havia outra. Uma passagem secreta sob a montanha, conhecida apenas pelos Raleigh e seus amigos. Alguém os havia traído. Provavelmente alguém que está neste aposento neste exato momento.
As palavras foram ditas com calma, sem acusação, mas fizeram o salão ser tomado pelo zumbido de conversas aos sussurros.
Zacarias se levantou num salto, com o dedo apontado para Sir Caulder, como uma pistola carregada.
— Você ousa manchar a memória de Edmund e da família dele com suas mentiras? — sibilou, com a ponta do dedo brilhando azul. — Eu deveria matá-lo agora mesmo!
O rei Harold pousou a mão no ombro do lorde furioso e o empurrou gentilmente para que voltasse a se sentar.
— Por favor, Zacarias, deixe o homem terminar. Ele foi a única testemunha da morte do nosso amigo. — O rei se virou para a audiência. — O que Sir Caulder diz é verdade. Muitas crianças nobres brincavam no túnel secreto. Eu me lembro de nos desafiarmos para ver quem ousaria ir mais longe na selva até correr de volta para a segurança da entrada oculta. Edmund sempre vencia.
Harold sorriu com a memória, e Fletcher viu alguns outros nobres assentindo em concordância. Não parecia ser um grande segredo para eles.
— Foi culpa minha que não tivéssemos homens suficientes para proteger o local — lamentou Sir Caulder, esfregando os olhos como se buscasse conter lágrimas. — Diabos, ela deveria ter sido bloqueada anos antes. Foi por isso que eu jamais neguei as acusações contra mim, de que eu tinha sido negligente no meu dever.
Houve um murmúrio de solidariedade pelo velho homem, e Fletcher não teve como não sentir pena. Era um erro fácil de se cometer.
— Fico feliz que tenha conseguido desabafar seus fracassos... Espero com sinceridade que isso torne sua vida miserável mais suportável — comentou Rook, abrindo as mãos. — Mas nada disso tem a ver com o julgamento. Agora saia daqui antes que eu mande meu Minotauro arrastar você para fora pelos cabelos.
— Ah, mas isso tem tudo a ver com Fletcher. Este julgamento foi uma farsa desde o começo — retrucou Sir Caulder, avançando até o pódio das testemunhas. — A Inquisição não tem autoridade alguma sobre o menino. Um júri não pode condenar um nobre de um crime; só o rei pode julgá-los.
O cavaleiro assumiu seu lugar e olhou com expectativa para Charles, que já se aproximava do velho esguio e começava a falar.
— Você está, se não me engano, referindo-se às alegações de que Fletcher seria o filho ilegítimo do meu pai e meu...
— Nunca aleguei nada disso! — berrou Fletcher.
— ... meio-irmão. Uma afirmação absurda que, mesmo verdadeira, não faria de Fletcher um nobre. Apenas um bastardo.
Sir Caulder balançou a cabeça e riu, depois estapeou contra Charles com o lado chato da espada, fazendo o inquisidor cambalear para fora do alcance.
— Por mais que fosse um prazer expor as indiscrições de seu pai, Fletcher não é um dos bastardos de lorde Faversham; se me perdoa o termo, capitão Arcturo.
Arcturo, que finalmente tinha conseguido se libertar das garras de Jakov, apenas balançou a cabeça, o rosto pálido.
— Não. Vou admitir que, por algum tempo, acreditei que Fletcher pudesse muito bem ter sido seu meio-irmão, Inquisidor. Porém, foi só depois que eu falei com o pai adotivo dele, Berdon, que descobri sua verdadeira origem — afirmou Sir Caulder, erguendo a voz para que todos pudessem ouvir. — Foi-me dito ontem à noite que encontraram Fletcher nu na neve, logo ao lado dessa exata vila. Não havia bilhete, cobertor ou cesta. Que pai ou mãe deixaria sua criança assim, para morrer na mata? Por que ao lado de uma vila tão remota quanto Pelego, tão distante que se encontra junto à fronteira élfica? O que vou lhes contar explicará tudo isso e muito mais.
Pela primeira vez, Sir Caulder fitou Fletcher. Havia tristeza em seus olhos, até uma pontada de arrependimento.
— Enquanto eu jazia com meus membros destroçados na lama ao lado da mansão Raleigh, um demônio saiu voando da janela do quarto do lorde. O Griforuja de lorde Raleigh, segurando algo nas garras.
Ele olhou para Fletcher com expectativa, mas o rapaz só conseguiu devolver um abano confuso da cabeça.
— E o que seria? Uma carta? Dinheiro? Um Griforuja é só um pouco maior que a ave que lhe deu o nome; não poderia carregar nada de muito diferente — zombou Charles.
Sir Caulder abriu um sorriso lamentoso para Fletcher.
— Um bebê. Com apenas uma semana de vida e nu como no dia em que nasceu.

7 comentários:

  1. Agora sim. Ele também é nobre, um belo de um tapa na cara desses asquerosos!

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  2. Sabia desde a primeira vez que Sir Caulder falou dessa família nobre morta mas nunca que eu teria pensado em um jeito melhor de revelar👏👏

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  3. Aeee caramba eu SABIAAAAAAA toma essa seus podres

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