2 de março de 2018

Capítulo 11

Fletcher se levantou e endireitou os ombros, derrubando o diabrete no chão. Este ganiu em protesto e disparou para um canto dos fundos do mausoléu.
— É você, Fletcher? — indagou Didric, estreitando os olhos para enxergar nas trevas. A entrada era a única parte da câmara visível sob o tênue luar, então Fletcher provavelmente não passava de um vulto escuro nas sombras. Didric começou a avançar em sua direção.
— O que você quer, Didric? Já não passou da sua hora de dormir? — perguntou Fletcher, com a voz carregada de uma confiança que ele não sentia. Era melhor se anunciar agora do que permitir que Didric chegasse mais perto para investigar. Ele queria manter a lápide entre os dois.
— O ordinário está aqui! — gritou Didric, desnecessariamente; Jakov e Calista já estavam ao seu lado. As silhuetas negras do trio estavam bem marcadas contra o cemitério ao luar, dando a Fletcher a pequena vantagem de saber exatamente a posição dos três. Mas o fato de que eles estavam bloqueando a saída definitivamente não ajudava.
— Pego como um rato na ratoeira! — exclamou Didric com alegria sádica. — Onde está sua esperteza toda agora, Fletchy?
— Vejo que você trouxe as duas babás junto — comentou Fletcher, fazendo um esforço hercúleo para pensar em algum jeito de fugir. — Três contra um, é? Por que você não me enfrenta como um homem? Ah, espera aí... a gente já tentou isso.
— Cale a boca! — explodiu Didric. — Você me pegou de surpresa. Se tivesse sido uma luta justa, eu teria feito picadinho de você. — A voz dele estava tensa, com orgulho ferido e raiva.
Fletcher sabia que sua única escapatória seria enfrentar Didric um contra um.
— Então lute comigo agora. Deixe Jakov e Calista verem o que teria acontecido se não fosse de surpresa — retrucou Fletcher, com o máximo de convicção que conseguia juntar. Cerrou os punhos e deu um passo à frente. Houve silêncio por um momento, seguido de uma risada.
— Ah, não, Fletcher, eu sei o que você está tentando fazer. — Didric riu. — Não vou lutar com você hoje. — O gargalhar ecoou pela câmara, fazendo um arrepio correr pela espinha do garoto.
— Tudo bem, não lute comigo. Vamos acabar logo com essa briga. Eu tenho mais o que fazer — desafiou Fletcher, acima da risada de Didric.
O rapaz passou a mão pela borda da pedra que cobria a entrada da cripta abaixo, calculando freneticamente. Ele sabia que havia outra entrada para as catacumbas subterrâneas, numa capela abandonada logo na saída do cemitério. Se ele conseguisse de alguma forma abrir aquela passagem, talvez conseguisse escapar por ali. Sentiu a rachadura abaixo que lhe dizia que uma laje pesada selava a entrada. Era uma possibilidade remota, mas ele teria que afastar a tampa muito lentamente para que os outros não percebessem. Ainda bem que Didric era apaixonado pelo som da própria voz.
Quando Jakov e Calista se juntaram à risada, Fletcher empurrou a laje um pouquinho para trás, estremecendo ao ouvir o arranhar de pedra contra pedra. Aquilo demoraria mais do que ele esperava.
— Seu idiota, também não estamos aqui para lhe dar surra nenhuma — afirmou Didric rindo, mal se contendo de felicidade. — Não, estamos aqui para matar você, Fletcher. Você fez uma boa escolha vindo a um cemitério esta noite. Esconder seu corpo vai ser fácil.
O sangue de Fletcher congelou quando ouviu o som de espadas sendo desembainhadas. Trincou os dentes e fez força, empurrando a laje por mais outro par de centímetros, mas ainda não era suficiente.
Precisaria de mais tempo.
— Me matar? Com os Pinkertons na cidade? Você é mais idiota do que eu pensava. Berdon sabe onde estou, ele irá direto falar com eles se eu não estiver em casa em breve — blefou.
Didric o ignorou e deu meio passo à frente.
Fletcher continuou tentando:
— Metade da vila viu nossa briga ontem à noite. Vocês vão passar o resto das suas vidas na prisão por conta de uma discussão que só começou há dois dias? — indagou em voz alta, tentando abafar o rilhar das pedras ao empurrá-la por mais alguns centímetros. Didric fez uma pausa e riu.
— Ah, Fletcher. Meu querido pai tem os Pinkertons comendo na palma da mão. Eles prefeririam prender um ao outro a prender o filho do novo parceiro de negócios deles — afirmou Didric, despreocupado.
Fletcher parou e tentou pensar. Parceiro de negócios? Do que diabos ele estava falando?
— De fato, talvez eu lhe conte o que ocorreu no jantar algumas horas atrás, para que você fique sabendo o que vai acontecer com sua querida vila depois que você estiver a sete palmos — continuou Didric, bloqueando a passagem de Jakov e Calista com os braços quando eles começaram a avançar. — E vocês vão aprender por que ficar ao meu lado fará bem às suas carreiras.
— Vamos lá, então. Me esclareça, por favor — zombou Fletcher, empurrando a laje de pedra o bastante para que houvesse algum espaço aberto. O menino captou uma baforada de ar preso na cripta abaixo, envelhecido como um pergaminho antigo.
— Como eu sei muito bem que aquele soldado fraudulento lhe contou, criminosos condenados serão alistados obrigatoriamente no exército. Uma péssima ideia, na minha opinião, mas onde outros veem burrice, meu pai vê oportunidades — gabou-se Didric, apoiando-se na espada. — Os prisioneiros serão transportados de dia, dormindo na prisão de cada cidade à noite, onde estarão  sãos e salvos. Porém, quando alcançarem a cidade de Boreas, a mais setentrional, ainda faltarão mais dois dias de viagem até as linhas de frente élficas. Isso significa que terão de pernoitar na floresta, o que não é nada ideal. Ora, qualquer bando de malfeitores poderia atacar o comboio no meio da noite, e não haveria celas de cadeia para evitar que os prisioneiros fugissem. Mas você sabe o que fica entre Boreas e a fronteira? Nossa bela vila de Pelego, é claro.
Fletcher estava ficando farto do tom pretensioso de Didric, mas também sabia que a própria vida dependia da jactância do menino.
— E daí? Eles não podem ficar aqui. É pequeno demais. O que vocês vão fazer, alugar alguns dos quartos vazios na sua casa? — indagou Fletcher.
Ele conseguiu enfiar as mãos no espaço vazio e agarrar a parte de baixo da tampa de pedra, conseguindo dessa forma uma alavancagem. Poderia jogar a tampa para longe em um único movimento e mergulhar no buraco, mas preferia esperar até Didric estar com a falação a toda e conseguir uma vantagem silenciosa na corrida. Ele provavelmente precisaria dela, pois a laje que cobria a outra saída da cripta também teria de ser removida.
— Você não entendeu o plano, como eu sabia que iria acontecer! — exclamou Didric com irritação exagerada. — Vamos cobrar nossos empréstimos, Fletcher. Confiscar as casas de todo mundo e transformar esta vila inteira numa prisão. Imagine só, exigir o mesmo preço que uma estalagem de luxo enquanto servimos grude e oferecemos camas de palha. Lotação esgotada todas as noites, todos os pagamentos garantidos pelo Tesouro do rei. Pense nos lucros! Nossos guardas excedentes se tornarão os carcereiros e as paliçadas manterão pessoas dentro, e não fora! E, se um prisioneiro escapar, os lobos o comerão, isso se ele não se perder na floresta. Os Pinkertons já assinaram o acordo. Mesmo que a lei não siga adiante, nossa prisão será a mais segura e remota jamais construída, distante do povo de bem das cidades.
Levou alguns segundos para entenderem. O belo lar deles, com centenas de gerações de idade, transformado numa prisão. A maioria dos aldeões teria suas casas confiscadas, incapazes de quitar as dívidas que eram dez vezes maiores do que o valor originalmente emprestado. Era horrível demais até para se contemplar, porém Fletcher se ateve a uma última esperança, um problema gritante que Caspar devia ter deixado de notar.
— Nunca vai dar certo, Didric. A frente élfica não precisa de recrutas. Eles mandam o refugo lá em cima para que espere a aposentadoria. E nem essa ralé visita Pelego. Preferem viajar a noite toda ou acampar na floresta para não ter que pagar uma estalagem — apontou Fletcher, empurrando a laje o bastante para que pudesse descer pela fresta. Mas o rapaz esperou... precisava saber mais. Os aldeões tinham que ser avisados.
— Você não é tão burro assim afinal, Fletchy. Mas está enganado. Fatalmente enganado. — Didric riu com a piadinha e brandiu a espada de forma ameaçadora. — Veja bem, a frente élfica é o lugar perfeito para um campo de treinamento. Preparar criminosos para a guerra num lugar relativamente seguro, com guerreiros experientes para lhes ensinar, e depois despachá-los para o sul quando estiverem prontos. Não, Fletchy, perfeito. Mas tem uma coisa que eu não lhe contei. Acho que você vai gostar. — Didric fez uma pausa, esperando que o outro lhe perguntasse o que era.
Fletcher se desesperou. É claro, se os prisioneiros fossem direto à frente órquica, seria o caos. O exército do rei não poderia lutar uma guerra e tentar conter milhares de criminosos recém-libertados ao mesmo tempo. Se houvesse uma revolta, os soldados acabariam lutando em duas frentes. Melhor ensinar disciplina aos novos recrutas e doutriná-los ali no norte antes de mandá-los reforçar as forças assediadas de Hominum ao sul.
— O que é, Didric? — rosnou Fletcher. Ele poderia sentir a raiva borbulhando, cáustica e quente no seu peito. A família de Didric era como um bando de carrapatos, sugando a vida de Pelego. E agora eles estavam infectando a vila também.
— Bem antes que o acordo fosse fechado, eu me lembrei de você, Fletchy. De você e daquele imenso imbecil, Berdon. Avisei meu pai que os novos recrutas precisariam de equipamento, então sugeri uma solução bastante elegante. Foi aí que os Pinkertons fizeram um adendo ao contrato, concedendo a nós os direitos exclusivos de venda aos novos alistados na frente élfica. Somente armas e armaduras comercializadas pela minha família poderão ser compradas pelos intendentes. Começaremos a trazer armas de Boreas na semana que vem, e pode confiar em mim quando eu lhe digo que, nas quantidades que vamos comprar, nossos preços serão a metade do que Berdon está cobrando. Então, veja bem, enquanto aquele idiota ruivo estiver de luto pela sua morte, também ficará sem um tostão. Quem sabe, talvez deixemos que ele trabalhe como cavalariço. É só para isso que ele serve, afinal.
Mesmo nas trevas, Fletcher conseguia ver o sorriso satisfeito no rosto de Didric. A raiva ardia no peito do rapaz como a fornalha de Berdon, acelerando-lhe o coração até que ele quase ouvisse o sangue correndo pelas orelhas. O ódio estremecia seu corpo, cada batida do coração pulsando nas têmporas. Ele nunca quis matar ninguém antes, mas agora entendia a compulsão. Didric precisava morrer.
Ao pensar naquilo, Fletcher sentiu a ligação entre si mesmo e o diabrete, como se o bicho fosse uma imensa aranha pendurada num fio de teia. A raiva fluiu pela conexão com uma ferocidade potente, e o menino sentiu a consciência do demônio ser preenchida com a própria intenção. Didric era um inimigo, uma ameaça.
— Nada a dizer? Isto não foi tão satisfatório quanto achei que seria. — Didric suspirou e olhou os demais, ao erguer a espada deu um passo à frente. — Certo... vamos matá-lo.


8 comentários:

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!