31 de março de 2018

Capitulo 10

MORRIGHAN

Desde que eu era pequena, Ama contou as histórias de Antes. Centenas de histórias. Às vezes era para me impedir de chorar e revelar o nosso esconderijo na escuridão, quando os abutres se aproximavam demais, sussurros desesperados na minha orelha que ajudavam a me manter em silêncio. Mais frequentemente, no final de um longo dia, ela nos contava para me satisfazer quando não havia comida para encher minha barriga.
Eu me agarrei às suas histórias, mesmo que fossem de um mundo que eu não conhecia, um mundo de luz cintilante e torres que chegavam ao céu, de reis e semideuses que voavam entre as estrelas — e as princesas. Suas histórias me tornaram mais ricas do que um governante em um grande reino. As histórias eram a única coisa que ela me deu que não poderiam ser roubadas, nem mesmo por um abutre.

Era uma vez, criança,
Há muito, muito tempo,
Sete estrelas que pendiam no céu.
Uma para chacoalhar as montanhas,
Uma para revirar os oceanos,
Uma para afogar o ar,
E quatro para testar os corações dos homens.
Mil facas de luz
Cresceram até formarem uma nuvem rolante e explosiva,
Como um monstro faminto.
Apenas uma princesinha achava graça,
Uma princesa como você...

Ama disse que a tempestade durou três anos. Quando acabou, poucos ficaram para contar. Menos ainda se preocuparam em falar disso. Sobrevivência era tudo o que importava. Ela era apenas uma criança pequena quando as tempestades começaram, sua memória faltando, mas ela preenchia os detalhes com o que aprendeu ao longo do caminho, mais partes preenchidas pela necessidade do momento e pela mensagem que era sempre era a mesma. Um Remanescente abençoado sobrevivia — sempre sobreviveria — não importa as dificuldades.
Outras coisas sobreviveram também. Coisas que nós deveríamos observar. Coisas que às vezes fizeram minha fé nos Remanescentes vacilar, como quando o Pai foi abatido, pisoteado por um cavalo; quando a Venda foi roubada; quando Rhiann perdeu um filhote de cabra e sua vida com um único golpe de uma faca.
Estas também se tornaram histórias, e Ama nos cobrava que deveríamos contá-las, dizendo: Nós já perdemos demais. Nunca devemos nos esquecer de onde viemos, para não repetir a história. Nossas fábulas devem ser passadas de pai para filho, de mãe para filhapois, com apenas uma geração sendo pulada, a história e a verdade são perdidas para sempre
E então contei as histórias para Jafir enquanto explorávamos o pequeno cânion que era nosso mundo.
— Nunca ouvi falar de torres de vidro — disse ele quando contei sobre onde Ama já tinha morado.
— Mas você viu as ruínas, não é? Os esqueletos que uma vez mantiveram as paredes de vidro?
— Eu vi os esqueletos. Isso é tudo. Sem histórias junto. — Eu podia ouvir a vergonha em seu tom, o menino na defensiva que conheci há tanto tempo.
Coloquei meu braço ao redor de sua cintura, trazendo o calor de suas costas contra minha bochecha.
— As histórias devem começar em algum lugar, Jafir — falei gentilmente. — Talvez eles possam começar com você?
Senti o endurecimento de seus ombros. Um dar de ombros. Ele soltou-se do meu abraço, virando de repente.
— Vamos dar uma volta. Quero te mostrar uma coisa.
— Onde? — perguntei com desconfiança. Não havia um canto desse pequeno cânion fechado que não tivéssemos explorado.
— Não é longe — ele disse, pegando minha mão. — Eu prometo. É um lago que...
Fiz uma careta e puxei minha mão. Tivemos essa conversa antes. Os limites da pequena caixa que era o cânion pareciam diminuir a cada dia. Jafir explorava além dos limites. Ele costumava andar livremente nas planícies e campos abertos, um risco que eu não podia correr.
— Jafir, se alguém me vir...
Ele me puxou para perto, seus lábios roçando nos meus, impedindo que as minhas palavras saíssem.
— Morrighan — ele sussurrou contra meus lábios — eu arrancaria meu próprio coração antes de deixar que qualquer mal aconteça com você. — Ele estendeu a mão, acariciando minha cabeça. — Eu não arriscaria um único fio de cabelo, ou um único cílio seu. — Ele me beijou com ternura, e o calor inundou-me.
De repente, ele saltou para trás, levantando os braços para o lado para mostrar seus músculos.
— E olhe! — Ele disse, com um sorriso provocador no canto da boca. — Eu sou forte! Eu sou feroz!
— Você é um tolo! — Eu ri.
Ele fez uma expressão surpresa, fingindo medo e olhando para o céu.
— Cuidado com os deuses!
Talvez eu tenha contado histórias demais para ele.
Seu sorriso desapareceu.
— Por favor, Morrighan — ele pediu em voz baixa. — Confie em mim. Ninguém nos verá. Deixe-me cavalgar com você e mostrar-lhe algumas das coisas que eu amo.
Meu coração bateu, o familiar “não” por trás disso, mas... Eu adorava montar com ele. No começo, eu tinha medo, mas Jafir era um bom professor, me colocando gentilmente nas costas de um animal enorme, e rapidamente descobri que adorava a sensação de seu cavalo abaixo de nós, os braços fortes de Jafir ao meu redor, a estranha sensação de que estávamos conectados, para sempre inseparáveis enquanto montávamos juntos. Adorava o sentimento vertiginoso enquanto o prado se borrava abaixo de nós, com a sensação de que tínhamos asas, que éramos rápidos e poderosos e que nada no mundo poderia nos impedir.
Olhei para ele e assenti com a cabeça.
— Só dessa vez — falei.
— Só dessa vez — ele repetiu.
Mas eu sabia que estava abrindo outro tipo de porta, e, como antes, era uma que nunca mais poderia ser fechada novamente.

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