22 de março de 2018

Capítulo 10

O Pyrausta tinha se tornado do mesmo tom intenso de vermelho-borgonha da pele de Ignácio quando a Salamandra chegou, segurando vitoriosamente o prisioneiro em pleno ar. O couro de conjuração de Otelo já havia sido colocado ao lado do fogo; fora o único que restara depois que perderam os suprimentos no pântano.
— Cacete, um Pyrausta! — exclamou Otelo, com um pouco de inveja. — Vai servir perfeitamente.
Fletcher se ajoelhou e esfregou a cabeça de Ignácio, depois recuou um passo e olhou para a palma da mão, atônito. A pele da Salamandra parecia fria ao toque.
— Ele está frio — comentou Fletcher, franzindo a testa. — Ele nunca fica frio.
— Que estranho — disse Sylva, agachando-se a seu lado. — Posso?
Em geral não era permitido tocar o demônio de outro conjurador; pelo menos não de propósito. Fletcher fez que sim, e ela passou a mão ao longo da espinha vertebral de Ignácio. Fletcher sentiu um pulso involuntário de prazer e corou. Virou a cabeça para o lado e se ocupou logo em ajeitar a jaqueta de couro em torno dos ombros de sua mãe, esperando que Sylva não tivesse percebido nada.
— É estranho mesmo — murmurou a elfa, endireitando o corpo. — Mas é uma sorte; provavelmente foi por isso que ele conseguiu capturar o Pyrausta.
— Como assim?
— Bem, a maioria dos conjuradores teoriza que os Pyraustas conseguem detectar muitas coisas com suas antenas. O calor deve ser o indicador mais óbvio para eles. Há quem diga que eles também são capazes de sentir a menor vibração no ar, e inclusive detectar umidade. A maioria concorda que seus sentidos de olfato, audição e paladar são tão bons ou até mesmo melhores que os de um Canídeo. O corpo frio de Ignácio deve ter confundido o Pyrausta; aposto que não existem muitos demônios de sangue frio por aí.
Fletcher sorriu e olhou para o Pyrausta. Era de fato uma presa de sorte.
— Você acha que Ignácio é capaz de mudar de temperatura voluntariamente ou foi outra coisa? — perguntou ele.
Estudou a cauda de Ignácio, que parecia ainda mais comprida que antes. Estariam suas omoplatas mais proeminentes também, como as da Salamandra negra de Khan?
— Sylva, você acha que ele está se tornando maior?
A elfa não escutou a pergunta, ocupada inspecionando o belo demônio Pyrausta.
— Hã? — resmungou ela, olhando para Ignácio. — Acho que sim. Ele acabou de fazer uma bela refeição.
Fletcher não entendia. Talvez fosse uma estranha reação ao que acontecera na poça de lava embaixo da pirâmide... ou seria por ele haver retornado ao éter? Ou por comer a carne de um demônio? Sabia-se tão pouco sobre as Salamandras que podia ser uma combinação de todos esses fatores.
— E aí, quem vai conjurá-lo? — perguntou Cress, cheia de ansiedade.
— Eu não — respondeu Sylva, afagando a cabeça de Lisandro. — Este belo Grifo é um nível dez. Duvido que me restem níveis de realização para capturar um Pyrausta, seja lá a graduação.
— Se bem me lembro, essa espécie é nível dois — disse Otelo, ajoelhando-se e inspecionando o demônio capturado. — Talvez três. Quem tem níveis de realização excedentes? Eu conferi meu realizômetro antes do Torneio... agora sou nível catorze.
— Eu ainda sou dez... restam cinco níveis para mim — disse Cress, parecendo esperançosa.
— Quem acha leva, certo, Fletcher? — disse Sylva, balançando a cabeça.
Fletcher, entretanto, não tinha tanta certeza. Otelo precisava de um demônio como um Pyrausta, algo veloz e leve e útil. Salomão, por mais poderoso que fosse, não era um demônio versátil. O Golem era uma marreta, e o Pyrausta, um bisturi.
Otelo era seu melhor amigo, seu aliado em tudo. Ele devia muito ao anão e a sua família. E que utilidade um Pyrausta teria para Fletcher? Ele seria pouco útil em uma batalha com uma arma que parecia semelhante ao ferrão de um Caruncho, e Atena, embora ferida, era uma grande batedora. Fletcher não precisava de outro. Não. O Pyrausta tinha de ser de Otelo.
— Ele é seu, Otelo — decidiu Fletcher, sorrindo. — Você precisa mais que eu, e, de qualquer maneira, nem sei se meu nível de realização está alto o bastante. Ano passado eu era nível nove, e já usei tudo.
— Eu aumentei em três níveis desde então — interveio Sylva, exasperada com a generosidade de Fletcher. — E Otelo, quatro. Faça uma tentativa!
— Está tudo bem, Sylva — assegurou Fletcher. — Ele precisa do Pyrausta. Salomão é mais lerdo que um bando de tartarugas.
— Você está falando sério? — indagou Otelo, os olhos iluminados com empolgação.
— Sim, ele é seu. Vá em frente, Ignácio irá segurá-lo sobre o pentagrama.
Otelo não precisou de mais convencimento: ajoelhou-se ao lado do pentagrama e sorriu pesarosamente quando Cress gemeu de modo invejoso.
— Eu o entregarei de novo a Fletcher se ele mudar de ideia — garantiu Otelo, notando as sobrancelhas erguidas de Sylva.
Fletcher pensou em outro motivo e falou depressa antes que a elfa pudesse dizer qualquer coisa.
— E, se acabarmos nos separando, todos terão demônios capazes de voar ou escalar bem alto para ajudar a nos reunirmos. Faz sentido.
Sylva suspirou e acenou para que prosseguissem, balançando a cabeça para Fletcher. Parecia de certa maneira desapontada com ele. Talvez Fletcher estivesse sendo bonzinho demais, mas ele não se importava.
Ignácio caminhou todo orgulhoso até o couro de conjuração e levantou o Pyrausta sobre ele. Um segundo mais tarde, o pentagrama reluzia em um tom de violeta enquanto Otelo o energizava. Capturar um demônio era bem parecido com infundir um, só que muito mais difícil. Imobilizá-lo costumava ser, em geral, a parte mais problemática.
Otelo tensionou e depois relaxou as mandíbulas. Uma veia latejava em sua testa, e ele deixou que a respiração lentamente silvasse por entre seus dentes enquanto se esforçava para realizar a tarefa, os dedos gorduchos pressionando o couro com força.
— Vá, você consegue — encorajou Cress, ao aproximar-se e espiar o Pyrausta.
Devagar, muito devagar, o demônio começou a se dissolver em faixas de luz branca. Otelo grunhiu alto, o rosto corando, enquanto esforçava-se para conjurar aquele demônio. Por fim, quando ele estava tão vermelho que Fletcher já começava a se preocupar, a última faixa de luz translúcida desapareceu no couro.
Otelo caiu para trás, o peito ofegante com o esforço. Então um olhar cheio de alegria apareceu em seu rosto quando a euforia de infundir um novo demônio tomou conta dele.
— Muito bem! — elogiou Fletcher, dando um tapinha no ombro de Otelo. — Quer saber, você é o primeiro aqui a capturar um demônio selvagem.
— Semicapturar, na verdade — corrigiu Sylva, mas a contragosto sorriu para Otelo.
Otelo levou alguns instantes para se recuperar, então o Pyrausta foi conjurado novamente. Sentou-se no centro do tapete assim que se materializou, trêmulo.
— É tão estranho — murmurou Otelo. — Minha mente parece tão... cheia.
— Nem me fale — disse Fletcher. — Mas você se acostuma. Acha que pode controlá-lo o suficiente para mandá-lo como batedor?
— Sim — respondeu Otelo, estendendo a mão.
O Pyrausta flutuou até lá e aterrissou em seus dedos, olhando para ele com seus olhos estranhos.
— Ah, e ele é ela, na verdade — continuou o anão, erguendo o demônio até a altura de seu rosto e olhando para ela cheio de admiração. — Vou chamá-la de Pria.

4 comentários:

  1. Aah, eu não consigo gosta da Sylvia e olha que adoro elfos. Ela é muito egoísta, qual o problema do Fletcher da o demônio para o melhor amigo dele? Ainda mais que o Otelo precisa.

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!