13 de março de 2018

Capítulo 10

Fletcher não recebeu mais nenhuma visita naquela noite. Quando o sono não veio, ele conjurou Ignácio, e os dois brincaram de um jogo bobo de pique-pega em volta da mesa; deixou Fletcher com as canelas cheias de hematomas, mas foi uma distração bem-vinda frente ao que viria.
Chegou uma hora, porém, em que Fletcher não tinha mais nada a fazer além de ficar sentado em silêncio, observando Ignácio dormir, feliz porque o demônio adormecido não podia sentir o desespero que o tomara.
Jakov e os guardas chegaram cedo, fazendo um estardalhaço e gritando ao entrar na cela, esperando ter que arrastar um condenado aterrorizado da cama.
Em vez disso, encontraram Fletcher parado sozinho ao lado da porta, pronto para o que a manhã traria.
Apesar do horário, o tribunal estava lotado, com mais nobres e generais na plateia, e até mesmo alguns soldados. Nada disso ajudou a tranquilizar os nervos de Fletcher, mas a lembrança das consequências da inação reforçou sua determinação.
O que ele estava prestes a fazer inocentaria Otelo de todos os crimes. Deixaria o Triunvirato sem sua vitória e evitaria uma guerra que despedaçaria o Império.
E só lhe custaria a vida.
Arcturo parecia exausto ao sentar-se à mesa da defesa. Ele segurava uma grande pilha de anotações e papéis junto ao peito. A capitã Lovett não parecia nada melhor, sentada atrás dele no banco da frente, espremida de forma desconfortável entre Zacarias Forsyth e o velho rei Alfric, com uma cadeira de rodas de aparência frágil por perto.
Enquanto Rook e Charles esperavam que a plateia se acomodasse, Otelo foi arrastado tribunal adentro até ser agrilhoado ao lado de Fletcher. Dessa vez, ele se manteve altivo, de cabeça erguida e olhos faiscando em desafio.
Fletcher ficou preocupado com a possibilidade de Uhtred ter contado seus planos a Otelo. Com a possibilidade de ainda levarem a revolta adiante. A ameaça contra a vida do filho tinha desgastado muito o bondoso anão; seria melhor que Fletcher agisse logo, por via das dúvidas.
— Otelo, preciso que você me prometa uma coisa — murmurou ele. — O rei veio falar comigo ontem à noite. Ele está do nosso lado e tem um plano. Não tenho tempo para explicar, mas, aconteça o que acontecer, você precisa seguir a deixa.
Otelo ergueu as sobrancelhas e lançou um sorriso confiante para Fletcher. Era estranho ver tanto do rosto de Otelo. A mandíbula era forte e quadrada como o contorno de uma bigorna.
— Que bom que alguém tem um plano — sussurrou Otelo de volta. — Depois da... explosão de meu pai ontem à noite, eles nos puniram proibindo Arcturo e Lovett de nos ver... Ouvi os dois discutindo com os guardas diante da minha cela. Meu pai não pode nem comparecer ao julgamento.
Otelo franziu os lábios com raiva, lançando um olhar pesado de ódio para Jakov. Murmurou pelo canto da boca:
— Você tem certeza de que podemos confiar no rei?
— Não temos outra escolha — respondeu Fletcher. — Duvido de que Arcturo e Lovett possam dizer qualquer coisa que faça alguma diferença.
Otelo deu uma olhada na mesa da defesa e balançou a cabeça.
— Eles parecem ter passado a noite inteira acordados. Estou disposto a correr o risco.
Fletcher sorriu com tristeza para Otelo, imaginando se teria uma chance de se explicar antes da execução. Respirou fundo.
— Eu tenho algo a dizer! — gritou, torcendo o corpo de forma desconfortável contra as correntes para se virar para o público.
— Fletcher, fique quieto — rosnou Arcturo, os olhos cansados se arregalando de surpresa.
Rook batia o martelo conforme a plateia iniciava uma discussão murmurada. Muitos da multidão se levantaram, para ver melhor qual prisioneiro havia falado.
— Lamento dizer que concordo com o capitão Arcturo — escarneceu Rook. — Não temos tempo para discursos passionais ou últimas palavras grandiosas. Fique de boca fechada ou Jakov vai amordaçá-lo como fez com o anão.
— Eu quero confessar — afirmou Fletcher, virando-se de volta para Rook.
— Não faça isso! — gritou Arcturo. — Ainda podemos vencer, ainda podemos ven... — A voz do capitão foi abafada quando ele foi atirado no chão; Jakov estava montado no peito de Arcturo, com a mão musculosa tapando-lhe a boca.
Outro guarda avançou decidido contra Lovett, mas não foi necessário. Fletcher viu Zacarias Forsyth sussurrando no ouvido dela, e o reluzir de algo metálico e afiado pressionado contra as costelas da capitã. Isso só reforçou a decisão de Fletcher. Ele odiava aqueles homens cruéis e indiferentes; não passavam de recipientes vazios, escravos dos próprios desejos.
— Diga de novo — comandou Charles, ansioso e sem fôlego. — Diga de novo para que todos possam ouvir.
O salão estava barulhento de novo, e Fletcher sentiu o olhar combinado dos homens e mulheres mais poderosos de Hominum. Ele não estremeceu; tinha que parecer convincente.
— Confesso o assassinato dos cinco homens — urrou Fletcher, calando a multidão em choque. — Sim, é isso mesmo, fui eu quem fiz. Só eu e mais ninguém. Roubei a machadinha de Otelo naquela noite e saí procurando encrenca. Só que eu não sabia que Otelo tinha me visto pegar a arma, e me seguiu.
Fletcher gaguejou. As palavras que tinha ensaiado com tanto cuidado pareciam carvões quentes na boca. Com cada sílaba, ele ficava mais perto da morte.
— De-depois de ele ter me seguido por quase uma hora, os soldados em patrulha o viram e decidiram que um anão seria um bom alvo para treino de tiro. Ouvi o disparo e fui investigar. Quando cheguei, vi que tinham acertado a perna dele.
Fletcher respirou fundo, sabendo que as próximas palavras o condenariam. Porém, nesse ato final, sua coragem voltou, e ele falou com convicção mais uma vez.
— Matei todos enquanto Otelo estava quase inconsciente no chão. Fiz tudo a sangue-frio; eles nem me viram chegar. Otelo não teve nada a ver com isso. Sou eu o culpado.
As palavras ecoaram no tribunal silencioso.
Rook escrevinhava furiosamente, mal erguendo os olhos da mesa. Só que a alegria no rosto de Charles desapareceu assim que ele percebeu o que estava acontecendo.
— O... anão. Ele também... — gaguejou Charles.
Alguém praguejou no fundo, e Fletcher se permitiu um sorriso cruel, reconhecendo a voz rouca de Didric.
— Temos que conferenciar — anunciou Charles, pegando o martelo na mesa alta e batendo na lateral dela. Apressou-se degraus acima, e houve uma conversa sussurrada entre os dois inquisidores, mas Fletcher não conseguiu ouvir nada com os sussurros das pessoas na plateia. Percebeu muitas olhadelas ao Triunvirato e o velho rei Alfric, o que apenas confirmou suas suspeitas. Otelo era o verdadeiro alvo do julgamento. A morte do próprio Fletcher era só a cereja no bolo, e agora seria uma sobremesa bem indigesta.
Subitamente, uma nova voz irrompeu em meio à multidão:
— Temos nosso veredicto.
Era uma participante do júri, uma mulher alta e imperiosa, com cabelos grisalhos bem presos e óculos de aro de tartaruga. Ela segurava uma pequena pilha de papéis rasgados, e o coração de Fletcher se apertou por um segundo ao vê-la. O júri tinha votado enquanto os inquisidores estavam distraídos.
— Um momento, se nos dão licença — pediu Charles, erguendo um dedo.
— Não damos licença — ralhou a jurada. — Vocês fariam bem em lembrar que é a vez da defesa falar, e Fletcher claramente dispensou o representante e se declarou culpado. Somos nós que tomamos as decisões neste tribunal, e podemos tomar nossa decisão quando bem quisermos. Pergunto apenas se o anão tem alguma coisa a dizer, antes que eu leia o veredicto.
Otelo hesitou e contemplou o rosto de Fletcher, buscando respostas. Depois de um momento, ele afastou o olhar, o cenho franzido com indecisão. Por dez segundos, o futuro de Hominum repousou nas mãos de um único anão. Então Otelo balançou a cabeça, incapaz de dizer as palavras em voz alta.
— Nesse caso, nosso primeiro veredicto é o seguinte: consideramos Otelo Thorsager... inocente. Ele é uma vítima das circunstâncias e nada mais.
Otelo mal reagiu. Em vez disso, agarrou o pulso de Fletcher e o puxou para perto.
— Qual era o plano? — sussurrou Otelo. — Isso não faz o menor sentido.
O anão olhou nos olhos de Fletcher com súbita intensidade. Eles contaram a verdade que o rapaz não conseguiu pronunciar.
— Não... — disse Otelo, segurando mais forte quando Fletcher começou a lacrimejar.
Ele não precisava mais ser forte. Seu amigo estava salvo.
— Você me disse que havia um plano — grasnou Otelo, agarrando as roupas de Fletcher com o desespero de um homem se afogando. — O rei ia salvar você.
— Este era o plano — confirmou o rapaz, sorrindo amargamente para o anão por entre olhos borrados. — Você vai entender um dia. Isso é maior do que nós dois.
O veredicto do júri atingiu seus ouvidos, cada palavra uma martelada em seu peito.
— Fletcher Wulf foi considerado culpado de todas as acusações. Ele será enforcado até a morte.

9 comentários:

  1. AAAAAAAAAAAAAAHHHHH PUTA QUE PARIU TO CHORANDOOOOOOOO

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  2. Eu tô chorando muito aqui (ಥДಥ)
    COMO UM LIVRO PODE ME FAZER PASSAR POR TANTA COISA ASSIM SÓ NOS PRIMEIROS CAPÍTULOS?

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  3. To chocada, indignada, chorando,
    São muitas emoções de uma vez só
    😫😫😥

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  4. So eu nao chorei?(eu pensei foi em treta)

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  5. Lascou, gente lascou geral. Mas minhas esperanças são altas, me recuso a aceitar a morte do magricela.

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  6. Por que tá todo mundo "tô chorando"? Na sinopse do livro fica claro que ele não morre, pelo amor de Merlin, né?

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  7. Kkkkk neh

    O poder do protagonismo vai guia-lo

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Boa leitura, E SEM SPOILER!