2 de março de 2018

Capítulo 10

Os minutos se passaram na velocidade de uma lesma. O terceiro sino da madrugada já devia ter tocado, e só faltavam algumas horas para a alvorada. Fletcher estava começando a sentir frio, mas resistia à compulsão de tremer por medo de sobressaltar o diabrete. Rajadas gêmeas de vapor se erguiam à sua esquerda com cada expiração das narinas do demônio. O peito avermelhado subia e descia num ritmo contínuo, e Fletcher ouvia um sussurro suave quando a respiração quente lhe fazia cócegas na orelha. Era quase como se... o demônio estivesse dormindo! Como tal coisa poderia acontecer, ele não sabia, mas estava feliz em ainda ser capaz de respirar.
Quando Fletcher tentou tirar a criatura do pescoço, ela rosnou em seu sono e se apertou mais, as garras segurando-lhe com força perto da jugular. Fletcher removeu os dedos e ela relaxou de novo, chilreando contente. O fazia lembrar de um dos gatos da vila, que entrava escondido em seu quarto durante as nevascas e se negava a deixar o calor do colo de Fletcher, sibilando quando ele tentava se levantar. O diabrete era uma coisinha muito possessiva.
Fletcher se levantou e andou até o livro, mantendo o pescoço rígido, como se equilibrasse uma jarra d’água sobre a cabeça. Agachando-se com dificuldade, pegou o tomo, guardou o pergaminho em meio às páginas e o segurou contra o peito. Se quisesse comandar aquele demônio, então provavelmente precisaria daquelas páginas.
Foi então que ouviu: o som de vozes altas e furiosas. Fletcher se virou e detectou luzes tremeluzentes no fim do cemitério, aproximando-se cada vez mais. Como eles o haviam encontrado?
Talvez um dos aldeões tivesse ouvido o barulho ou visto a luz do orbe mais cedo. Isso seria surpreendente, porém o rapaz escolhera o cemitério exatamente porque ficava localizado num pequeno afloramento ao norte da vila principal, acessível apenas por uma trilha traiçoeira e a quase 800 metros da residência mais próxima.
Fletcher vasculhou os arredores com o olhar, tomado pelo pânico, até achar um mausoléu em ruínas no canto do cemitério. Era do tamanho de uma cabana pequena, cercado por colunas ornadas e enfeitado com entalhes de flores, apesar da chuva ter erodido os detalhes muito tempo antes. O menino se esgueirou até ele e se agachou para passar pela abertura baixa, submergindo nas trevas e se escondendo atrás de um bloco de pedra que cobria a cripta bem no fundo da câmara. Fletcher sabia que um ossuário muito antigo jazia a menos de 1 metro abaixo dele, onde as ossadas de aldeões de gerações passadas eram empilhadas como lenha de fogueira.
Ele se escondeu bem a tempo, pois o brilho de uma tocha acesa tingiu o chão diante do seu esconderijo alguns segundos depois.
— Estou começando a achar que você nos trouxe em uma busca de tolos, vagueando por este cemitério — acusou a voz de Didric, carregada de frustração.
— Estou lhe dizendo, eu vi o moleque saindo pelo portão dos fundos da vila. — Fletcher reconheceu a voz como sendo de Calista, uma guarda mais nova e uma das companheiras de bebedeiras de Didric. Ela era uma garota séria, com uma tendência ao sadismo quase tão grave quanto a do outro guarda.
— Certamente você pode compreender o absurdo desta situação. Que ele estivesse vagueando pelo cemitério, dentre tantos outros lugares, no meio da noite. Ele nem tem família; quem afinal estaria visitando? — zombou Didric.
— Ele só pode estar aqui, Didric. Conferimos os pomares e os armazéns, e o moleque não está em nenhum dos dois. Este é o único outro ponto ao norte da vila — afirmou Calista.
— Bem, vasculhe tudo. Talvez ele esteja por aí, se esgueirando por trás de lápides. Vamos lá, você também, Jakov. Não estou te pagando para ficar aí parado — comandou Didric.
Jakov grunhiu, e Fletcher se agachou ao ver o homem passar pelo mausoléu, com uma longa sombra sendo lançada adiante pela tocha de Didric.
A coisa estava feia. Fletcher poderia enfrentar Didric e Calista, mas com Jakov... a única opção seria tentar escapar. Mesmo assim, a nova guarda tinha sido contratada pelo seu físico atlético, e Fletcher não sabia se poderia correr mais que ela, ainda mais com um demônio imprevisível enrolado no pescoço. Ainda bem que Didric parecia ser o único do trio carregando uma tocha. Fletcher poderia despistá-los na escuridão.
Ele se deitou no chão frio de mármore e esperou, torcendo para que eles fossem embora antes de verificar o mausoléu. Parecia um lugar óbvio onde se procurar, mas provavelmente tinha parecido vazio à primeira vista, considerando que Fletcher se escondera atrás da cobertura de pedra. A luz da tocha do lado de fora enfraquecia conforme Didric se afastava, descendo as fileiras de túmulos, e uma chuva forte começou a batucar no telhado. Fletcher se permitiu relaxar; eles não procurariam por muito tempo naquele temporal.
O teto rachado começou a vazar, e um fio fino de água se derramou ao seu lado. Fletcher se afastou um pouco da poça crescente e tentou se manter calmo, uma tarefa difícil quando ele sabia quem estava lá fora procurando por ele. Torceu para que os animais que ele caçava não se sentissem assim quando ele os perseguia pela floresta.
Bem quando achou que tinha escapado, Fletcher percebeu as trevas ao seu redor recuando à medida que a luz da tocha se aproximava. Didric estava voltando! O rapaz ouviu um praguejar quando o perseguidor entrou no mausoléu, e prendeu a respiração quando Didric torceu o manto. A tocha engasgou por conta da chuva e finalmente morreu, lançando o aposento nas trevas. Didric xingou violentamente. Alguns momentos depois, Jakov e Calista chegaram, ambos igualmente bocas sujas e molhados.
— Eu falei que vocês poderiam parar de procurar? — grunhiu Didric no escuro, soando resignado.
— Ele não está aqui. Deve ter dado meia-volta quando fui buscar vocês — disse Calista, com a voz repleta de infelicidade.
— Não achem que serão pagos por isto — cuspiu Didric. — Sem Fletcher, sem dinheiro.
— Mas a gente tá ensopado! — choramingou Jakov, batendo os dentes.
— Ah, cresça, por favor. Estamos todos molhados. Aquele ordinário pode ter escapado, mas isso só significa que a coisa vai ficar ainda pior para ele quando o alcançarmos. Venham, vamos sair daqui.
Fletcher soltou um suspiro silencioso de alívio quando os passos do trio ecoaram para fora da câmara. Então, quando achava que a provação tinha acabado, o demônio se mexeu. Ele bocejou com um miado alto e se desenrolou do pescoço. Depois de uma lambida afetuosa no rosto de Fletcher, o bicho se deixou cair para o colo do menino e se espreguiçou, langoroso.
— O que foi isso? — sibilou Didric.
Droga.


6 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!