2 de março de 2018

Capítulo 1

Era agora ou nunca. Se Fletcher não abatesse o animal, passaria fome aquela noite. O crepúsculo se aproximava rapidamente e ele já estava atrasado. Precisava voltar logo à vila ou se depararia com os portões fechados. Se isso acontecesse, Fletcher teria que subornar os guardas com um dinheiro que não tinha ou correr o risco de passar a noite na floresta.
O jovem alce tinha acabado de esfregar os chifres num pinheiro alto, raspando o veludo macio que os recobria para revelar as pontas afiadas por baixo. Pelo tamanho e pela altura diminutos, Fletcher diria que se tratava de um animal de pouca idade exibindo a primeira galhada. Era um belo espécime, com pelo brilhoso e olhos luminosos, inteligentes.
Fletcher quase sentiu vergonha de caçar uma criatura tão majestosa, porém já calculava mentalmente seu valor. O pelame espesso renderia um bom dinheiro quando os peleteiros chegassem, especialmente porque já era inverno. Daria pelo menos uns cinco xelins. Os chifres estavam em bom estado, ainda que fossem um tanto pequenos, e renderiam talvez quatro xelins, com sorte. Era a carne, entretanto, que o rapaz desejava acima de tudo, de cor vermelha e sabor intenso, pingando gordura no fogo.
Uma névoa densa se espalhava no ar, pesada, cobrindo Fletcher com uma fina camada de orvalho. A floresta estava anormalmente quieta. Geralmente, o vento agitaria os galhos, permitindo que o rapaz se esgueirasse pela mata sem ser ouvido. Naquele momento, no entanto, ele mal se permitia respirar.
Fletcher pegou o arco e preparou uma flecha. Era o seu melhor projétil, com haste reta e certeira, e aletas feitas de boas penas de ganso, em vez das plumas baratas de peru que ele comprava no mercado. Inspirou de leve e puxou a corda. Estava escorregadia em seus dedos; o menino a untara com gordura de ganso para protegê-la da umidade do ar.
A ponta entrava e saía do campo de visão do caçador enquanto ele mirava no alce. Fletcher estava agachado a uns bons dez metros de distância, escondido na grama alta. Era um tiro difícil, mas a falta de vento também tinha lá suas vantagens. Nada de rajadas para desviar a flecha de seu caminho.
O rapaz expirou e disparou em um único movimento fluido, incorporando o momento de imobilidade de corpo e alma conforme tinha aprendido pela experiência amarga e faminta. Ouviu o vibrar seco da corda e então o baque da flecha atingindo o alvo.
Fora um belo tiro, perfurando o alce no peito, através de pulmões e do coração. O animal desabou e entrou em convulsão, debatendo-se no solo. Os cascos escavavam uma tatuagem na terra com seus espasmos de morte.
Fletcher disparou em direção à presa e sacou uma faca de esfolamento da bainha fina em sua coxa, mas o alce estava morto antes que o alcançasse. Um abate bom e limpo, isso que Berdon lhe diria.
Mas matar era sempre uma sujeira. A espuma sangrenta que borbulhava da boca do animal atestava o fato.
Fletcher removeu a flecha com cuidado e ficou feliz ao ver que a haste não tinha se partido, nem a ponta de sílex se lascado nas costelas do alce. Mesmo que seu nome, Fletcher, significasse “aquele que faz flechas”, o rapaz se frustrava com o longo tempo que levava amarrando setas. Ele preferia o serviço que Berdon ocasionalmente lhe passava, de martelar e moldar ferro na forja. Talvez fosse pelo calor, ou pela forma como seus músculos doíam deliciosamente depois de um longo dia de trabalho árduo. Ou talvez fossem as moedas que pesavam em seus bolsos quando ele era pago após a entrega.
O jovem alce era pesado, mas a vila não estava longe. As galhadas serviam bem como alças, e a carcaça deslizava com facilidade sobre a relva molhada. A única preocupação agora seriam os lobos ou os gatos selvagens. Não era raro que eles roubassem a refeição ou até mesmo a vida de um caçador que levava a presa para casa.
O rapaz estava caçando na crista das montanhas Dentes de Urso, assim chamada por seus distintos picos gêmeos, que se assemelhavam a dois caninos. A vila ficava na crista acidentada entre os dois, e o único caminho até lá era uma trilha íngreme e rochosa, bem à vista dos portões. Uma grossa paliçada de madeira cercava a vila, equipada com pequenas torres de vigia a intervalos regulares. A vila não era atacada havia muito tempo; apenas uma vez nos quinze anos desde o nascimento de Fletcher. Mesmo então, fora apenas um pequeno bando de ladrões, em vez de uma incursão dos orcs, algo muito improvável tão longe ao norte das selvas. Apesar disso, o conselho da vila levava a segurança muito a sério, e entrar após o nono sino era sempre um pesadelo para os retardatários.
Fletcher manobrou a carcaça do animal até a relva grossa que crescia ao lado da trilha rochosa. Não queria danificar o pelame, a parte mais valiosa do alce. Pele de animais era um dos poucos recursos que a vila tinha a oferecer, e daí ela tirou seu nome: Pelego.
A subida era dura e o caminho, traiçoeiro aos pés, ainda mais no escuro. O sol já tinha desaparecido atrás da crista, e Fletcher sabia que o sino soaria a qualquer minuto. O rapaz trincou os dentes e se apressou, tropeçando e praguejando ao arranhar os joelhos no cascalho.
O desânimo tomou seu coração ao alcançar os portões principais. Já estavam fechados, com os lampiões ao alto acesos para a vigília noturna. Os guardas preguiçosos tinham fechado mais cedo, ansiosos pela bebedeira na taverna da vila.
— Seus palermas preguiçosos! O nono sino ainda nem tocou. — Fletcher praguejou e soltou a galhada do alce no chão. — Me deixem entrar! Eu não vou dormir aqui fora só porque vocês não podem esperar para encher a cara. — Ele chutou o portão com força.
— Ora, ora, Fletcher, dá para falar mais baixo? Tem gente de bem dormindo aqui dentro. — Era uma voz vinda do alto. Didric. O guarda se debruçou sobre o parapeito acima de Fletcher, com a grande cara redonda sorrindo maldosamente.
O rapaz fez uma careta. De todos os guardas que poderiam estar de serviço hoje, tinha que ser Didric Cavell, o pior do bando. Ele tinha 15 anos, a mesma idade de Fletcher, mas se achava adulto. Eles não se gostavam. O guarda era um valentão, sempre procurando uma desculpa para exercer sua autoridade.
— Eu dispensei mais cedo o turno do dia. Veja bem, levo meus deveres muito a sério. Não podemos vacilar, considerando que os mercadores chegarão amanhã. Nunca se sabe que tipo de ralé fica se esgueirando aí fora. — Ele riu da própria provocação.
— Me deixe entrar, Didric. Você sabe tão bem quanto eu que os portões deveriam ficar abertos até o nono sino! — exclamou Fletcher. Enquanto falava, ouviu o sino começar seu dobrar reverberante, ecoando fracamente nos vales abaixo.
— O que foi que você disse? Não consigo escutar — gritou Didric, levando uma das mãos à orelha de forma teatral.
— Eu falei para você me deixar entrar, seu paspalho. Isto é ilegal! Vou ser obrigado a te denunciar se não abrir os portões agora mesmo! — berrou o rapaz, furioso com o rosto pálido sobre a paliçada.
— Bem, você poderia muito bem fazer isso, e eu certamente não negaria o seu direito de fazê-lo. Muito provavelmente, nós dois seríamos punidos, e isso não faria bem a ninguém. Então, por que não fazemos um acordo? Você me dá esse alce, e eu lhe poupo o aborrecimento de dormir na floresta esta noite.
— Pode enfiar no seu rabo, babaca — retrucou Fletcher, sem poder acreditar. Até para Didric, isso era uma chantagem descarada demais.
— Vamos lá, Fletcher, seja razoável. Os lobos e os gatos selvagens virão rondar, nem uma fogueira muito forte os manterá afastados no inverno. Você poderá dar no pé quando eles chegarem, ou ficar aqui e servir de aperitivo. De qualquer maneira, mesmo se você durar até o amanhecer, vai entrar por estes portões de mãos abanando. Me deixe ajudar você. — A voz de Didric era quase amistosa, como se estivesse fazendo um favor.
O rosto de Fletcher ardia, vermelho. Isso ia muito além de qualquer coisa que ele já tivesse passado. A injustiça era comum em Pelego, e o rapaz aceitara havia muito que, num mundo de privilegiados e desfavorecidos, ele certamente fazia parte da segunda categoria. Mas agora esse moleque mimado, ainda por cima filho de um dos homens mais ricos da vila, o estava roubando.
— É assim, então? — indagou Fletcher, num tom baixo e furioso. — Você se acha muito esperto, não acha?
— É só a conclusão lógica de uma situação na qual calhei de ser o beneficiário — argumentou Didric, afastando a franja loira dos olhos.
Todos sabiam que o rapaz recebia aulas particulares, e ostentava sua educação através da fala floreada. Seu pai tinha esperanças de que Didric um dia se tornasse juiz, possivelmente em um tribunal de alguma das maiores cidades de Hominum.
— Você esqueceu uma coisa — grunhiu Fletcher. — Que eu prefiro muito mais dormir no mato a deixar você roubar minha presa.
— Hah! Acho que vou pagar para ver seu blefe. Tenho uma longa noite pela frente. Vai ser divertido assistir enquanto você tenta rechaçar os lobos. — Didric riu.
Fletcher sabia que Didric o estava provocando, mas isso não fez seu sangue ferver menos. O rapaz suprimiu a raiva, mas continuou furioso no fundo da mente.
— Eu não vou te dar o alce. Só a pele já vale uns cinco xelins, e a carne vai render mais uns três. Se me deixar entrar, eu esqueço de denunciar você. Podemos deixar essa confusão toda para trás — sugeriu Fletcher, engolindo o orgulho com dificuldade.
— Vamos fazer assim: não posso sair dessa de mãos vazias; isso não seria justo, seria? Mas, como estou me sentindo generoso, se você me der esses chifres que por acaso deixou de mencionar, eu encerro o assunto, e nós dois conseguimos o que queremos.
Fletcher estremeceu com o descaramento da sugestão. Resistiu por alguns momentos, então cedeu. Uma noite na própria cama valia quatro xelins, e para Didric aquilo não passaria de uns trocados. O rapaz grunhiu e sacou a faca de esfolamento. Era afiadíssima, mas não tinha sido feita para cortar chifres. Ele odiava ser forçado a mutilar o alce, mas teria que decapitá-lo.
Um minuto mais tarde, depois de serrar as vértebras, tinha a cabeça nas mãos, pingando sangue nos mocassins. Fletcher fez uma careta e a ergueu para que o guarda a visse.
— Muito bem, Didric. Venha buscar — chamou Fletcher, brandindo o troféu grotesco.
— Jogue aqui para cima — respondeu Didric. — Não confio que você vá me entregar depois.
— O quê? — retrucou o rapaz, incrédulo.
— Jogue para mim, ou nada de acordo. Não estou com paciência de tomar isso de você e ficar com o uniforme todo ensanguentado — ameaçou Didric.
Fletcher grunhiu e a atirou para o alto, lambuzando a própria túnica com sangue. A cabeça voou por sobre Didric e caiu no parapeito. O guarda não fez menção de pegá-la.
— Foi muito bom fazer negócios com você, Fletcher. Vejo você amanhã. Espero que se divirta acampando na mata — disse ele, animado.
— Espera! — berrou o garoto. — E quanto ao nosso acordo?
— Eu mantive minha parte no trato, Fletcher. Disse que encerraria o assunto, e que nós dois conseguiríamos o que queríamos. E você disse há pouco que preferiria dormir no mato a me dar o seu alce. Então, aí está, você recebe o que prefere, e eu fico com o que quero. Você deveria realmente prestar mais atenção aos termos e condições de qualquer contrato, Fletcher. É a primeira lição que um juiz aprende. — O rosto do guarda começou a sumir atrás do parapeito.
— Esse não foi nosso acordo! Me deixa entrar, seu vermezinho! — rugiu Fletcher, chutando o portão.
— Não, não, minha cama está me esperando em casa. Não posso dizer o mesmo da sua, porém. — Didric ria enquanto se virava.
— Você está de guarda esta noite, não pode ir para casa! — gritou de volta o rapaz. Se Didric abandonasse o serviço, Fletcher poderia se vingar delatando a falta. Ele nunca tinha se considerado um dedo-duro, mas por Didric abriria uma exceção.
— Ah, não estou de guarda hoje. — O grito de Didric soou baixo conforme ele descia os degraus da paliçada. — Eu nunca disse que estava. Falei a Jakov que ficaria de olho enquanto ele usava a latrina. Deve estar de volta a qualquer minuto.
Fletcher cerrou os punhos, quase incapaz de compreender a real dimensão do golpe de Didric. Contemplou a carcaça decapitada ao lado dos mocassins arruinados. Enquanto a fúria subia como bile à sua garganta, o rapaz tinha só um pensamento: isso não acabaria ali. Nem em um milhão de anos.


16 comentários:

  1. adorei o primeiro capitulo, bjs

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  2. Os livros que você posta são maravilhosos, sério você é um anjo <3

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  3. Primeiro capítulo e já estou gostando...

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  4. Parece ser muito bom esse livro, que raiva desse didric!

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  5. no começo me lembrou jogos vorazes, depois os orcs ao senhor dos aneis

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  6. Feyre quebradora de maldição e grã senhora da corte noturna11 de março de 2018 08:38

    Olá Karina!! Estou com uma depressão pôs leitura, depois de ler "tower of down". Vou ler este para ultrapassar esta depressão. Espero que seja um bom livro.

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  7. Encontrei o livro por acaso
    Li o primeiro capítulo e já gostei

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  8. Ameeei 😍😍😍 quando vao postar os outros???

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  9. Ameeei 😍😍😍 quando vao postar os outros???

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  10. Nunca li essa seria tomara que seja boa mesmo. Eu não gostando muito de ler série incompleta pq morro de agunia esperando os livros rsrsrs

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  11. Se ta loco esse Didric é um fanfarrão, torço pra q ele se ferre miseravelmente nesse livro

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  12. Igor furtado creasey6 de maio de 2018 19:28

    Esse didrick, se fosse eu ja teria saido na porrada com ele ksksksk mas ele ainda vai ter oq e dele, ainda tem muitos capítulos pela frente.....gostei do 1° capítulo muito bom

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Boa leitura, E SEM SPOILER!