9 de março de 2018

9. O sono da morte

— Lily!
Alguém estava gritando meu nome, gritando repetidamente, como se fosse o fim do mundo. Eu só queria dormir. Seria pedir demais? Era verão. A faculdade ainda não tinha começado. Então por que meus pais estavam berrando tão alto?
Minha cabeça doía. Especialmente na nuca. E, de repente, a voz que gritava meu nome se interrompeu e a dor cessou. O silêncio era uma bênção. Paz. Eu me sentia afastada de todas as preocupações, de cada coisa incômoda que pesava na minha mente consciente.
Não sei quanto tempo dormi, mas, quando voltei a mim, despertei devagar, esticando os braços e as pernas e ondulando os ombros como um gato sonolento. Pela primeira vez em muito tempo, não sentia ninguém me apressando, precisando de mim, e não precisava responder a ninguém.
Quando finalmente abri os olhos, não entendi o que via. Uma névoa pesada cobria meu corpo e, ao me sentar, ela fluiu em torno da cintura, cobrindo-me as pernas. Eu estava com um vestido branco simples que rodopiava em volta do corpo. Acima de mim, o céu era cheio de nebulosas e galáxias de todas as cores do arco-íris se agitando. Mas em todas as direções, até onde eu podia ver, não havia nada além de névoa branca. Quando agitei a mão perto dos pés descalços, vi que o chão também era branco. Não era granito nem mármore, mas era liso e duro.
Onde estou?, pensei. É o sonho mais esquisito que já tive.
Uma voz triste respondeu: Nós caímos.
Como uma pedra rolando morro abaixo, tudo voltou subitamente. Bom, não tudo tudo, mas o suficiente. Eu não estava em casa, na minha cama quente em Nova York. Não estava curtindo merecidas férias de verão. Estivera cavalgando um unicórnio em outro planeta. E, ah, sim, tinha duas passageiras de carona no meu crânio, estava meio apaixonada por uma múmia ressuscitada e precisava salvar o universo.
— Ashleigh — falei simplesmente —, cadê Tia?
Ainda está dormindo. As toxinas daquele mundo têm mais efeito sobre ela.
— Certo. Quanto tempo fiquei apagada dessa vez? E onde estão o arco, a aljava e o arnês com as facas-lanças?
Não sei. Também não consigo ter noção do tempo aqui. Não sei se perdemos nossas armas ou não.
— Você acha que isto é o céu? Nós morremos na queda? — Não era o pior destino que me ocorria.
Não quero insultar você, mas eu gostaria de pensar que, se morrer, serei um fantasma sozinho em vez de ficar assombrando a sua mente.
— Certo.
Comecei a andar, mesmo não tendo para onde ir. Nós duas ficamos aliviadas quando Tia acordou. Ela sugeriu que tentássemos usar nosso poder. Não deu certo. Não conseguíamos nem usar as habilidades da esfinge. Depois de um tempo indeterminado algo mudou.
A princípio, achamos que fosse chuva caindo do céu, mas as gotas eram grandes demais e nunca tocavam o solo. Quando chegaram perto, vimos que eram mais como bolhas ou discos de vidro girando. Logo estávamos cercadas por essas placas brilhantes, e, enquanto flutuavam, pude ver imagens refletidas nelas. Imagens em movimento.
— O que é isso? — perguntei, estendendo a ponta do dedo para cutucar uma.
— Eu não tocaria nisso. Pelo menos por enquanto — disse uma voz masculina atrás de mim.
Girei e Tia correu rapidamente à frente, me empurrando para fora do caminho em sua ansiedade de falar.
— Asten! — gritou.
O homem bonito sorriu de modo um tanto petulante, com um lado da boca se levantando mais do que outro. Se Tia não tivesse dito o nome dele, não sei se o teria reconhecido do sarcófago. Havia tanta vida em sua expressão que eu não conseguia associá-la ao corpo que tinha visto antes.
— Olá, senhora leoa — disse ele, fazendo uma ligeira reverência.
O riso fácil do sujeito era charmoso demais, na minha opinião. Eu não confiava em homens que riam fácil. Mas, por outro lado, eu não tinha confiado totalmente em Ahmose também, quando o conheci.
É este que você ama?, perguntei a Tia.
Ele é o irmão de Ahmose, explicou ela, sem acrescentar mais nada.
Sim. Isso eu deduzi. Como ele está aqui? Pergunte a ele onde estamos e o que, exatamente, aconteceu conosco. Pergunte sobre minha memória também. E onde estão Nebu e Ahmose? Ele pode nos levar de volta até eles?
Tia suspirou.
É melhor você mesma perguntar, disse ela e trocou de lugar comigo.
Antes que eu pudesse fazer qualquer das minhas perguntas, ele se adiantou:
— O que vocês fizeram, garotas?
— Fizemos? Como assim? Não fizemos nada. — Pus as mãos nos quadris e franzi a testa. — Aliás, eu sou Lily. Prazer em conhecê-lo. Tia me falou um bocado sobre você.
Não tinha falado. De verdade, não. Somente de seu papel naquela história do Egito. Sem dúvida ela havia deixado de lado algumas partes mais interessantes.
Ele cruzou os braços e examinou meu rosto com uma percepção muito mais do que casual.
— Olá, Lily — respondeu com as sobrancelhas levantadas. — É, hã... um prazer conhecê-la também. — Ele fez um gesto na minha direção. — Mais tarde vamos descobrir o que está acontecendo com você. Primeiro precisamos tirar as senhoras daqui.
— Certo. E onde, exatamente, é “aqui”?
— Parece que vocês três ficaram presas no Lugar Onde os Sonhos Nascem.
— Certo — falei. — E como nos libertamos? Existe uma porta ou algo assim? — perguntei, olhando em volta, esperançosa.
— Receio que você não entenda a seriedade do que aconteceu. Veja bem, vocês três se tornaram um sonho, uma invenção da imaginação. O único modo de escapar é se alguém sonhar vocês de volta para a realidade.
— Não entendo. Então como você pode estar aqui?
— Eu não estou aqui. Não de verdade. Meu eu do sonho está aqui. Isso é parte do meu poder como Filho do Egito.
— Ahã. Então por que você não sonha com a gente? A menos que isso agora já conte — acrescentei com otimismo.
Asten balançou a cabeça.
— No momento não estou de posse do meu corpo mortal. Estou preso na oubliette de Maat.
— Bom, então Ahmose ou o Dr. Hassan?
Ele esfregou o queixo com a palma da mão.
— É possível, mas eles teriam de trazer vocês uma a uma. Veja bem, cada uma de vocês tem um mundo dos sonhos diferente e só podem acessar o reino mortal através de um mundo dos sonhos que vocês mesmas fizeram. Eu não depositaria muita esperança em Hassan. Ultimamente os sonhos dele são com uma pessoa que está bem mais perto dele. Nossa melhor aposta é Ahmose.
— Vovó — murmurei.
— Sua avó? — perguntou ele.
Confirmei com a cabeça.
— Acho que ela e o Dr. Hassan estão um pouco apaixonados.
— Interessante. — Asten piscou, depois sorriu e estendeu a mão. — Vamos encontrar o mundo dos sonhos de Ashleigh? Ahmose tem mais probabilidade de sonhar com ela e levá-la para a existência primeiro. Desde que Nebu explique o que aconteceu, é claro.
— Por que é mais provável que ele sonhe com Ashleigh primeiro? — perguntei.
Asten me dirigiu um olhar penetrante, mas optou por não responder. A fada dentro da minha mente também não acrescentou nada. Fomos andando em silêncio por um tempo, Asten me lançando olhares estranhos.
— Ah — disse ele, parando e apontando para um disco espelhado que flutuava. — Aqui estamos.
A imagem girava na nossa direção e a cena interna era uma campina pitoresca na Irlanda com uma imensa árvore sombreando-a e flores azuis brotando no meio do verde. Dava para ouvir o gorgolejo de um riacho próximo e sentir uma brisa robusta, de verão, soprar de leve na pele.
— Bom, quando você tocar nele, estará no sonho de Ashleigh. Ahmose vai se juntar a ela e tirá-la de lá. Quando ele fizer isso, você e Tia vão passar para o sonho dela, mas Ashleigh terá ido embora.
— Como assim, eu terei ido embora? — perguntou Ashleigh, subindo e assumindo o controle do meu corpo.
— Quero dizer que você estará no lugar onde Ahmose está sonhando em sua forma física. Você vai ser como um fantasma. Ele não vai poder tocá-la nem vê-la, mas Nebu vai. Diga a Nebu que Ahmose terá de sonhar com Tia e Lily sucessivamente. Assim que Lily voltar à forma física, presumindo, claro, que Ahmose e Nebu a tenham recuperado, você e Tia vão naturalmente entrar na mente dela outra vez.
Havia uma enorme quantidade de “se” nesse discurso do que iria acontecer em seguida e eles me deixavam desconfortável de toda maneira possível. Eu teria falado disso, mas no momento Ashleigh estava no comando do show.
— É mesmo possível dizer para uma pessoa sonhar com uma coisa e fazer isso acontecer? — perguntou Ashleigh, a mente cheia de dúvidas.
Eu concordava com ela nesse ponto. Nunca tinha ouvido falar de alguém induzir a si mesmo a sonhar com outra pessoa.
— Você vai ficar surpresa com a influência que a vontade pode ter sobre seus sonhos — disse Asten baixinho. — Acredite. Sou uma espécie de especialista. — Ele levantou a cabeça e fechou os olhos. — Sim. Ele está pronto. Vá em frente e toque no sonho. Boa sorte. Vejo vocês duas em breve — acrescentou.
Presumi que ele estivesse falando de mim e de Tia.
Uma das minhas mãos se estendeu para o sonho enquanto a outra se movia por vontade própria e segurava o braço de Asten. Ele tinha se virado para olhar outro disco que girava às nossas costas, mas, quando toquei seu braço, ele parou e me encarou.
— Não se preocupe — disse com ternura enquanto segurava minha mão e apertava. — Eu venho encontrar você. Prometo.
Nesse momento minha outra mão tocou na bolha, que me sugou para dentro. Asten e a névoa branca foram varridos para longe e nós giramos num vórtice, com o céu fazendo redemoinhos acima. Por fim as faixas azuis e brancas diminuíram a velocidade e pararam. Eu estava deitada de costas, os braços atrás da cabeça, olhando o azul fresco de um dia de primavera.
O solo parecia macio embaixo de mim. Arranquei um punhado da vegetação e comecei a contar as folhas de trevo, procurando algum da rara variedade de quatro folhas. Virando a cabeça na direção de um barulho, vi que estava deitada num leito de alguma coisa vermelha e elástica.
Sentei-me rapidamente e descobri que a coisa vermelha se movia comigo. Era meu cabelo. Puxei um feixe e descobri que era comprido. Tão comprido que eu podia esticar o braço inteiro segurando a ponta dele. Quando soltei o feixe, ele voltou, misturando-se à massa que se derramava sobre meu ombro.
O som próximo era de um esquilo guinchando enquanto subia rapidamente o tronco grosso de uma árvore ali perto. Raízes grandes se projetavam do chão e, enquanto eu me maravilhava com o tamanho delas, percebi que o tronco teria de ser grande assim para sustentar o peso considerável da copa pesada. Pássaros bêbados de primavera piavam, perseguindo-se uns aos outros num deleite feliz, voando de um galho para outro.
Estendi os braços e vi que tinha membros delicados como os de uma corça e pálidos como o leite de Mandona. Minha pele era como creme batido com açúcar. Em contraste com o trevo verde, as pernas nuas pareciam manteiga espalhada sobre ervilhas frescas. Toquei o rosto e senti a linha dos lábios, da bochecha e do maxilar, e soube que a forma era muito diferente da minha. Meu nariz agora era pequeno, petulante, e desejei ter um espelho para ver como eu era. Um riso borbulhante escapou dos meus lábios. Finalmente eu tinha a aparência que devia ter.
Meus pés ainda estavam descalços e agora ligeiramente sujos. Remexi os dedos dos pés ao sol da manhã e depois enfiei os pés e as pernas embaixo da saia volumosa do vestido feito em casa. Desamarrei uma fita que me incomodava no pescoço, tirei o chapéu de palha e afofei o cabelo encaracolado. Enfiando as mãos nos bolsos fundos do avental amarrado na cintura, encontrei, para meu deleite, um punhado de morangos silvestres. Arranquei o cabinho e coloquei uma daquelas frutinhas gordas na boca, desfrutando da explosão de doçura.
— Espero que você tenha guardado um para mim — disse uma voz familiar.
Eu já ia responder quando descobri que não podia. Outra pessoa falou por mim:
— Sempre guardo, bonitão.
Ahmose sentou-se ao meu lado, passou o braço pela minha cintura e abriu a boca, esperando um morango. Tirei outro do bolso, arranquei o topo verde e fingi que ia dar a ele, mas em vez disso enfiei-o na minha boca, rindo.
— Ah, você vai me pagar — disse Ahmose.
— É mesmo? — provoquei. — E quem por aqui é homem suficiente para me obrigar a isso?
— Você, um mero fiapo de garota, está questionando minha masculinidade? — perguntou Ahmose com fingida indignação enquanto me puxava de volta para a grama, meu cabelo se derramando de ambos os lados.
Ele colocou um braço de cada lado da minha cabeça e se abaixou até que seus lábios estivessem a poucos centímetros dos meus.
As feições fortes de Ahmose pareciam suaves e relaxadas. A tensão que punha arestas em seu maxilar e nos malares tinha se dissolvido. Inclinando-se, ele beijou meus lábios suavemente, movendo-se por eles como se quisesse memorizar sua forma pelo toque dos dele. Quando levantou a cabeça, murmurou:
— Já falei como você é linda?
— Você é um demônio com língua de ouro, isso sim. Será que está achando que os elogios vão lhe garantir a maior parte dos morangos?
Seu riso despreocupado aqueceu meu coração. Ele se sentou, me puxando. Segurou minha cintura e me pôs no colo, me abraçou com força, pressionando o nariz de encontro ao meu pescoço. Ahmose prosseguiu, me deixando louca com uma trilha de beijos que começava em uma orelha, descia pelo queixo, chegava ao outro lado e voltava. Tremi quando ele encostou os lábios no ponto sensível entre o canto do maxilar e a linha dos cabelos.
Quando ele finalmente ergueu a cabeça, eu estava tremendo, mas ele exibia um riso largo e abriu a mão, mostrando que agora estava de posse de odos os morangos do meu bolso.
Arquejei.
— Você é mais do que um demônio com língua de ouro. Você é um ladrão apanhado em flagrante!
— Melhor ser ladrão do que mendigo no jogo do amor. Vai me obrigar a implorar por mais dos seus beijos de morango, Ash, ou terei de roubá-los?
— Você acha que vai me deixar caidinha de amor usando suas palavras de mel, mas eu sou feita de material mais forte. Além disso, um ladrão de verdade não perderia tempo com palavras, simplesmente pegaria o que quer. Você não me engana, Ahmose. Você é mais mendigo do que ladrão.
O sorriso dele era fresco e puro como as maçãs verdes que cresciam no pomar um pouco mais adiante, perto do riacho. Só de olhá-lo meus lábios franziam, como se eu já tivesse me servido de um pedaço de fruta. Com Ahmose eu enfrentaria todas as coisas ácidas da vida em troca de um gostinho da doçura de estar com ele.
Seus olhos de litoral no inverno me chamavam para mais perto e pressionei meus lábios contra os dele novamente. Dessa vez seu beijo foi mais profundo, mais sombrio, como uma maré puxada pela Lua me arrancando do meu elemento e me levando a um lugar onde eu não tinha muita certeza de que desejava ir — mas, mesmo assim, o mistério me atraía.
Quando nos separamos, ele acariciou meu cabelo. Seu sorriso era doce e triste ao mesmo tempo.
— Precisamos ir, amor.
— Não quero. — Agarrei sua mão ferozmente. — Não podemos ficar aqui? Onde temos paz e eu posso ter você só para mim?
— E Lily? Você pode sentir a dor no coração dela agora mesmo, tanto quanto eu. Ela está sofrendo, vendo nós dois assim.
— Lily pode encontrar o seu “felizes para sempre”. Este aqui é meu.
— Ashleigh. — Sua repreensão era afável, como uma chuva suave no deserto, mas ainda assim ela podia sentir os efeitos mesmo depois de todos os sinais terem desaparecido. — Fico surpreso pensando que uma garota que só existe porque outro ser abriu mão da própria vida esteja tão disposta a abandonar as outras. Lily precisa de você. Neste lugar é fácil esquecer o mundo real. É fácil esconder-se, ignorando o sol que nasce e se põe todo dia, concentrar-se apenas no amor e na alegria. Mas esta campina não é real. Os animais, as pedras e o riacho não nos percebem. Isto não é vida.
Após uma pausa ele continuou:
— Quero construir uma vida com você. Da melhor maneira possível, ou pelo menos tentar do melhor modo que pudermos. — Ahmose levantou meu queixo para que eu olhasse para ele. Meus olhos estavam cheios de lágrimas e eu sentia o coração se partindo. — Ash, uma vez você me disse que é fácil dividir quando existe amor. Por mais que eu goste de compartilhar seus sonhos, seguir seus passos nesse caminho, a garota que eu conheço não deixaria as duas amigas, que ela ama como irmãs, sofrerem sozinhas.
Funguei alto.
— O que vai ser de mim? De nós?
— Não sei — respondeu Ahmose com franqueza, me abraçando com força. — Gostaria de saber. Gostaria de ver o caminho com clareza, mas ele para em Wasret. O que acontece depois é desconhecido.
— Eu não quero perder você.
— E eu não quero perder você. Não podemos mudar a direção do vento, meu amor, mas podemos nos alinhar de modo que ele não nos derrube.
— Você... me promete uma coisa?
— Qualquer coisa.
— Que se... se alguma coisa acontecer comigo, você não vai se esquecer de mim. Quero dizer, como eu sou agora.
Ahmose segurou meu rosto com suas mãos grandes e deu um sorriso doce.
— Ver você assim é uma coisa que nunca vou esquecer. Mesmo que eu viva por milênios, toda vez que fechar os olhos verei seu rosto lindo em meus sonhos.
Pus as mãos sobre as dele.
— Certo, então. Estou pronta, querido.
A campina verde à minha volta mudou e meu corpo elevou-se no ar como se eu estivesse sendo sugada por um vórtice.


Quando o rodopio parou, o mundo mudou. Em vez de um céu azul salpicado de nuvens fofas, havia uma vastidão negra, iluminada por estrelas. Ao redor uma vasta planície que parecia pradarias intermináveis. Ashleigh tinha sumido, e seu sonho junto com ela. Agora o espaço na minha mente onde ela vivia parecia vazio e inadequado. Mas, com a mesma rapidez com que o pensamento chegou, minha mente pareceu esquecê-lo.
O capim alto oscilava a uma brisa balsâmica que trazia os cheiros de um rio próximo e o odor almiscarado de flores noturnas e acácias aquecidas pelo sol. Criaturas aladas voavam acima, com os pios ressoando na savana enquanto caçavam insetos que apareciam depois do pôr do sol. Eu era o único predador grande por ali, até onde podia ver. Embora eu gostasse da ideia, isso fez com que me sentisse um tanto solitária.
A parte de mim que era Lily sabia que faltava alguma coisa, que meu coração doía, mas agora essa parte não estava no comando. Esse era o sonho de Tia, e ela estava... em paz. Em casa. Mergulhei em seu sonho como se fosse meu e experimentei cada sabor, cheiro e som com ela. Caminhei pelo capim cujas pontas pinicavam minhas pernas nuas e subi uma série de pedras até chegar ao pico. Meus braços e pernas eram ágeis e fortes, minha pele era macia e de um tom mais escuro do que as pedras em sépia que eu subia.
Depois de encontrar um bom local, sentei-me numa pedra lisa, ainda aquecida pelo sol de verão, e me inclinei para trás, apoiando o corpo nas mãos espalmadas. Fechando os olhos, fiquei em um estado entre o cochilo e a reflexão sobre o que eu era agora. Para mim era uma surpresa que eu tivesse a forma humana no meu mundo dos sonhos. Descobri que sentia falta da cauda e dos dentes afiados, mas gostava das curvas dos ombros nus e dos quadris.
Ansiava por correr e testar as pernas longas, muito longas, que se estendiam sob o vestido curto que era da mesma cor que meu pelo tivera um dia.
Agora eu tinha uma juba também. Frequentemente havia reclamado de ter que cuidar da juba, mas essa era perfeita. Minha densa cabeleira estava penteada para trás, a partir da testa, e ia até a altura dos ombros. Eu podia passar as mãos por ela rapidamente para desfazer qualquer emaranhado e não era necessário muito trabalho para mantê-la. Eu não fazia ideia da sua cor e descobri que isso não tinha qualquer importância.
O vento agitou o capim alto e eu me aprumei. A luz das estrelas cobria minha pele, dando-lhe um brilho lustroso. Não me fartava de olhar minhas mãos e meus braços. Eram meus. Meu rosto, minha pele, meu corpo alto e curvilíneo, meu cheiro. Meu. Não de Lily. Não sei por que isso era tão importante — ou por que essa ideia magoava a observadora silenciosa dentro de mim —, mas era. Muito, muito importante.
As sombras das pedras se estendiam como poços de tinta preta no terreno e as folhas suspiravam baixinho nas árvores. A brisa passava por elas, beijando cada uma e sussurrando seus segredos antes de seguir em frente. Acariciava meu novo corpo, provocando arrepios na pele e fazendo os pequenos pelos na nuca se eriçar. Sugeria coisas por vir.
— Aí está você — disse uma voz no terreno abaixo.
Me incomodou o fato de não ter sentido a aproximação dele. Esse devia ser o fardo de ser humana.
Olhei para baixo.
— Olá, Asten.
O homem bonito inclinou a cabeça com um meio sorriso no rosto enquanto examinava minha forma alterada. Sua calça de linho branco e a camisa solta e fina se destacavam na noite escura, mas mesmo assim não podiam competir com seu sorriso estelar. Deixei escapar um suspiro baixo, satisfeita ao vê-lo, mas ao mesmo tempo morrendo de medo.
— Há espaço para dois aí em cima? — perguntou ele educadamente.
— Sim — respondi. — Pode se juntar a mim, se quiser.
— Quero.
Ouvi os sons de sua aproximação, mas não me virei para olhá-lo. Senti que o coração estava travando uma batalha que eu não entendia, e ninguém tinha consciência dela, a não ser eu. Enquanto ele diminuía a distância, sua proximidade se tornou uma coisa palpável. Eu queria rosnar, alertar que ele estava se aproximando de uma inimiga formidável que não seria vencida facilmente. Mas permaneci em silêncio sabendo que ele romperia sem esforço qualquer defesa invisível que eu pudesse criar.
Quando Asten se acomodou ao meu lado, espiei-o com o canto do olho. Ele não estava me olhando, como eu esperava que um conquistador vitorioso fizesse. Tampouco adotou a postura de um leão que reivindicasse seus direitos. Em vez disso, ficou quieto, os pensamentos voltados para dentro enquanto olhava a paisagem ao redor.
— Gosto dos seus sonhos — disse ele finalmente. — São pacíficos.
Como eu não sabia o que dizer, falei:
— Achei que Ahmose viria se juntar a mim no sonho, e não você.
— Ele virá. Mas pode demorar um pouquinho. Ahmose não conhece você tão bem quanto conhece Ashleigh. Para ele, vai ser difícil rastrear seu sonho.
Funguei e me remexi ligeiramente, puxando a bainha do vestido. De repente me senti desajeitada usando-o, como se fosse uma impostora fingindo ser humana.
— É, bem... é verdade que ele conhece Ashleigh melhor.
Um riso rápido apareceu no rosto de Asten, e parecia que ele estava ansioso para dizer mais alguma coisa, mas então mordeu o lábio, um gesto que, por algum motivo, achei fascinante. Ele preferiu por ora manter para si mesmo o que estava pensando. E falou:
— Achei que você não iria se incomodar em ter companhia enquanto esperava.
Asten então se virou para mim, o rosto bonito muito perto do meu. Quando piscou, notei que seus cílios compridos eram como minúsculas penas. Era mais uma coisa que eu poderia acrescentar à minha lista do que achava lindo nele.
Eu deveria ter me sentido sem graça quando ele me pegou admirando abertamente suas feições, mas não me importava que ele soubesse. Não mais. Uma porta havia se fechado entre nós e agora eu me encontrava desalentada do outro lado, desejando poder abri-la de novo e entrar na mesma luz que tocava o rosto dele.
— Você não parece você mesma, senhora leoa — disse ele. — Sem falar no óbvio, claro. — Ele indicou meu novo corpo.
Dobrando uma das pernas e colocando-a embaixo do corpo, virei-me para ele e enrijeci as costas e os ombros, o rosto uma máscara taciturna.
— Sinto que sou mais eu mesma agora do que jamais fui. Mas, se você acha que estou passando dos limites ao assumir uma forma humana, diga imediatamente. Não sinta como se fosse obrigado a me tratar com mimos de jeito nenhum, Asten. Sou uma leoa e prefiro a franqueza.
— É — concordou ele baixinho, sério. — Eu sei. Seu jeito direto é uma coisa que aprecio. Não lamento você ter assumido a forma humana. Na verdade, acho que combina com você.
Assenti com a cabeça.
— Obrigada. Então quero falar claramente com você sobre nosso relacionamento, Asten. Sei que você deve estar desapontado com o que aconteceu entre nós, no nosso sonho anterior. Você achou que estava abraçando Lily. Acreditou que estava beijando Lily. Mas não era. Não posso voltar ao passado e corrigir esse erro de avaliação, mas não me arrependo da experiência. O fogo que ardeu entre nós uma vez virou cinzas, que o vento soprou para longe, mas ainda sinto o calor gravado na memória.
— Todas as coisas que você disse naquele sonho eram verdade?
— Não tentei enganar você, se é isso que quer saber. As palavras que falei foram sinceras e uma representação verdadeira do que sinto.
Por um longo momento Asten não disse nada. Meu coração batia forte e pesado no peito, como o som de um elefante percorrendo a selva.
— Obrigado — disse Asten finalmente.
— Por que está agradecendo? — perguntei, surpresa.
Sua reação não era a que eu tinha esperado.
— Obrigado por ter encontrado alguma coisa para amar em mim.
Quis dizer-lhe que tinha encontrado muitas coisas nele para amar. Que apesar de talvez existirem outros homens que seriam companheiros dignos para Lily e que, de fato, poderiam torná-la mais feliz, eu sabia no fundo do coração que Asten seria minha escolha, se eu pudesse escolher. O triste era que essa opção não existia para mim. Eu não tinha direito de escolher o parceiro de Lily, não mais do que tinha direito sobre esse corpo.
Todos esses pensamentos pareciam complicados demais para uma leoa expressar, por isso falei simplesmente:
— O amor não é uma coisa da qual eu me sentia capaz.
Ele pegou minha mão e brincou com meus dedos sem me olhar nos olhos.
Gostei de ver nossos dedos entrelaçados, as cores diferentes misturadas. Lembrou-me do céu noturno: as estrelas e a noite sedosa. Também me lembrou de que, pelo menos no meu mundo dos sonhos, eu era eu mesma.
— Mas você é, não é — disse ele, e o tom não foi de pergunta. — Você é uma leoa capaz de amar.
Suspirei suavemente.
— Lily tentou me ajudar a compreender o amor. Saber a diferença entre paixão e amor. A princípio foi confuso. Agora acho que entendo o que é. Talvez isso queira dizer que me transformei em algo mais do que uma leoa — confessei. — Mas, na verdade, não sei o que sou.
— Você certamente não parece mais uma leoa.
— É — respondi baixinho. — Não pareço.
— Então você queria conhecer a experiência do amor, do tipo que existe entre um homem e uma mulher. Por isso veio até mim num sonho, não é?
— É.
— Entendo. E ficou satisfeita com suas explorações?
— Como assim?
— Você provou. Experimentou. Descobriu que gosta ou está pronta para passar para outra coisa? Alguma outra nova experiência humana?
Franzi a testa.
— As experiências humanas que tive foram variadas e únicas. De algumas eu gostei. De outras não. E algumas foram confusas. Se está perguntando se gostei do nosso encontro, saiba que refleti sobre ele muitas vezes desde então. — Mordi a parte interna da bochecha. — É minha lembrança mais valiosa de todo o tempo em que estou com Lily.
— Mas agora você experimentou o mesmo com Ahmose.
— É, mas... — Passei as palmas das mãos nas coxas, sem saber como explicar.
— Mas...?
— Não é a mesma coisa. Pelo menos para mim. Há calor, ternura e gentileza, mas, quando ele me olha nos olhos, vê outra pessoa.
Asten pegou minha outra mão.
— Então você acredita que o que houve entre nós acabou para sempre.
— Mesmo se eu tivesse esperança de que você poderia sentir por mim o que sentiu por Lily, como poderá ser diferente quando Lily escolher outro? — Pousei a palma da mão em seu rosto. — Sua forma é agradável para mim, Asten. As batidas do seu coração parecem o sol aquecendo minhas costas. Quando você fala, suas palavras parecem verdadeiras para cada parte de mim. Seu sorriso é um céu cheio de estrelas. Anseio por estar perto de você em corpo e espírito. Mas saber que, quando me olha, você vê Lily, que você beija os lábios dela e a abraça com força, me faz arder como em um incêndio feroz. É cruel. Como um predador brincando com a presa.
Baixei os olhos antes de continuar:
— Em vez disso, eu pediria que você encontrasse um modo de aliviar meu tormento. De me ajudar a escapar. Me mandar para qualquer destino que esteja à minha espera em vez de me prender numa caixa bonita que é essa meia-vida. Você disse que sonhou com Lily. Que viu um futuro em que vocês dois se amavam. Se for assim, por favor, pelo menos espere até termos derrotado Aquele Que Desfaz. Quando eu tiver partido, você pode fazer o que quiser.
— E o meu tormento?
Olhei-o incisivamente.
— Você fala dos Sonhos Que Poderiam Ter Sido — continuou ele. — Estava certa quanto ao fato de eu ver uma vida em que Lily e eu estaríamos juntos. Mas havia outros sonhos também. Sonhos que jamais contei a Maat. Achei que era porque eu estava corrompido, mas agora não tenho tanta certeza. Aconteceram situações que me ajudaram a ver as coisas com um pouco mais de clareza. E uma dessas coisas é você.
— Eu?
— Sim. Estou certo disso. — Ele estendeu a mão para traçar uma de minhas sobrancelhas. Lenta e gentilmente, passou o dedo sobre ela e depois desceu pelo malar até os lábios. — Gosto de você assim. É mais fácil ver você, você de verdade, sem ter de olhar através do rosto de Lily.
— Só me sinto verdadeira quando estou com você.
Será que eu tinha dito essas palavras em voz alta? Se disse, ele não reagiu a elas. Eu tinha fechado os olhos, saboreando sua carícia, e quando os abri ele ainda tocava meus lábios e seus olhos tinham seguido na mesma direção.
Arquejei quando ele baixou a cabeça. Seu beijo era diferente do que eu lembrava. Esse era faminto e possessivo, e respondi com um leve rosnado. Asten gemeu, me puxou mais para ele e inclinou minha cabeça para trás, a boca quase devorando a minha.
— Tia — murmurou com voz rouca, os lábios ainda pairando sobre os meus.
— Diga meu nome de novo — pedi, levantando o queixo para que ele beijasse meu pescoço.
Ele sorriu.
— Tia — repetiu. — Não desista disso. Prometa que não vai desistir. Me dê algum tempo.
Lágrimas ardiam nos meus olhos.
— Não temos tempo. Isto é tudo que eu tenho, Asten. Agora. Aqui.
Ele segurou meus ombros e me afastou suavemente.
— Não, não é. Ninguém lhe disse que os gatos têm sete vidas? — perguntou, com um brilho provocador nos olhos.
— Isso é mito.
— É? — provocou ele, acariciando meu braço nu. — As almas mais resistentes são as que enfrentam mais adversidades. As coisas que você suportou destruiriam pessoas mais fracas. É por isso que Lily precisa de você. É por isso que cada uma de vocês três precisa da outra. Quando isto estiver terminado, cuidaremos de começar sua segunda vida. Bom, tecnicamente sua terceira vida, pois acho que estar na cabeça de Lily conta como uma.
— E é isso que você busca? Uma vida comigo, e não com Lily?
Ele sorriu.
— Em geral, é o homem que persegue.
— Ah. — Pus um braço na pedra perto da perna dele e me aproximei, pressionando seu peito até suas costas estarem encostadas na pedra. Quando ele se viu aprisionado entre minhas mãos, impossibilitado de fugir, inclinei a cabeça até estar na altura da dele. — Mas eu sou a caçadora.
Asten ergueu a cabeça mostrando o pescoço, em sinal de submissão. Olhei faminta para sua veia latejando, mas a fome que eu sentia não era de matar. Era de algo mais. Com as estrelas se refletindo em seus olhos, ele levantou a mão para segurar meu pescoço e me trouxe mais para perto.
— Neste caso — disse ele —, não me importo de ser caçado.
Ele me puxou para baixo e me beijou com a paixão pela qual eu ansiava. Seus braços me envolveram com ternura, de tal forma que eu soube que ele me queria tanto quanto eu o queria. Meus temores de que talvez ele não sentisse por mim o mesmo que sentia por Lily se foram como destroços num rio de correnteza rápida.
Quando levantei a cabeça, ele afastou meu cabelo do rosto com carinho.
— Gosto desse corpo — disse ele. — Espero que você possa ficar com ele.
Ergui uma sobrancelha e me afastei.
— Você zomba de mim, Asten, ao falar de uma coisa que não é possível para nós. Por que desperdiça os poucos momentos que temos juntos sonhando com algo inalcançável?
Ele se sentou.
— Tia, você pode acreditar em coisas que são comprovadas ou pode acreditar nos sonhos. Uma dessas opções é a chave para o poder. É como os milagres são feitos. A outra é a estrada fácil. Não acho que você seja do tipo de garota que fica no caminho fácil.
— Você... você me chamou de garota.
— E é mesmo... uma senhora leoa. — Ele deslizou o polegar pelo meu queixo. — E é a garota mais bonita que eu já beijei.
Uma lágrima escorreu do meu olho. Asten me abraçou e acariciou minhas costas, mas parou um instante depois.
— Ahmose — disse baixinho.
Ahmose encontrava-se em silêncio abaixo de nós, olhando para cima. O capim se mexia devagar em volta de seus tornozelos. Franzi a testa, pensando que mais uma vez tinha deixado de perceber os sinais de um intruso. Os insetos que faziam serenata na noite com sua canção doce e familiar tinham subitamente ficado silenciosos. Eu estivera tão fascinada por Asten que nem notei.
Os braços de Ahmose estavam cruzados diante do peito e ele olhava Asten com uma expressão do tipo “Quero matar você bem lentamente”. Quando me soltei dos braços de Asten e saltei da pedra alta, caindo habilmente e pousando agachada, ágil e silenciosa como um gato, Ahmose voltou o olhar para mim. Minha aparência obviamente o chocou.
— Tia? — perguntou.
— Sim. Você está pronto, Ahmose? Ashleigh está bem?
— Ashleigh está ótima.
Ele segurou minha mão de um jeito que achei ligeiramente possessivo e olhei de Ahmose para Asten, que agora estava de pé em cima da pedra. A luz das estrelas salpicava seu cabelo e fazia cada parte dele brilhar como se fosse iluminado por dentro. Eu nunca tinha visto nada tão lindo. Esperei que ele estivesse certo. Que existisse um lugar para nós entre as estrelas. Mas, se não fosse assim, pelo menos eu havia tido um último momento de ternura com ele.
Levantei a mão em despedida e captei no vento o murmúrio suave de sua voz. Podia ser um truque da minha imaginação ou apenas meu desejo, mas pensei tê-lo ouvido dizer: Eu te amo. Eu teria respondido, mas, antes que tivesse chance, fui puxada para um vórtice.
Girei, girei e girei, e, quando meus pés finalmente tocaram o chão, eu soube exatamente onde estava. Manhattan.

5 comentários:

  1. TO com pena das 3. Mas principalmente da Lyli não deve ser fácil comolatilhar a cabeça com outras 2 criaturas

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  2. Essa autora precisa dá um jeito desses casais ficarem juntos... vê que a Tia pode ter um corpo me deu esperanças *--*

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  3. Não sei porque, mas eu sempre fico com um pé atrás em relação a Ahmose... ;-;

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  4. Coitada da Lily sacrificou tanto é geral quer tomar o corpo dela, como se ela fosse descartável, mais a Ash do q a tia.
    Aparece logo Amonnnm

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Boa leitura, E SEM SPOILER!