9 de março de 2018

8. Tempestade do mal

O céu se abriu acima de nós e a chuva densa desabou sobre as pedras do rio em cortinas pesadas. Ela golpeava nossas costas com gotas que queimavam, furiosas. A tempestade tinha um cheiro amargo — como o de creosoto e cinzas. Ahmose se afastou alguns passos, tentando encontrar um caminho, e, quando voltou, seu cabelo estava escorrido para trás, pingando. Até os unicórnios baixaram a cabeça e continuaram andando com dificuldade. Seus cílios compridos se grudavam e gotas de chuva cor de lavanda escorriam das pontas, descendo pela cara branca como se fossem lágrimas.
Nuvens escuras, de um preto arroxeado, obscureciam as luas e as estrelas. Raios caíam perto de nós e o cheiro de ozônio e madeira queimada enchia minhas narinas. As plantas pareciam se dobrar sobre si mesmas, enrolando as folhas e puxando os estames com força contra os troncos. Meu coração batia rápido e frenético quando um trovão ribombava, fazendo o chão tremer.
Segurei o braço forte de Ahmose.
— Você não consegue fazer com que ela pare? — gritei, precisando erguer a voz acima do barulho da tempestade para ser ouvida.
Ahmose balançou a cabeça.
— Alguma coisa está errada — gritou de volta. — Meus poderes não estão funcionando. Mas encontrei uma caverna não muito longe daqui. Tem tamanho suficiente para nós e os unicórnios.
Ele tentou me dar um sorriso tranquilizador, mas saiu tenso, mais parecendo uma careta do que um sorriso. Alguma coisa estava mais do que errada.
Finalmente, depois de sermos golpeados pela tempestade por mais de uma hora, chegamos à caverna. Ahmose entrou primeiro, mas voltou rapidamente depois de examiná-la e pegou minha mão, guiando-me para dentro. Os unicórnios nos seguiram, os músculos das costas se contraindo e a cabeça sacudindo para tirar a água do pelo e da crina densa.
Juntei meu cabelo encharcado em cima do ombro e torci. Não conseguia enxergar mais de 1,5 metro à frente, mesmo com a visão noturna de Tia, por isso não sabia como Ahmose era capaz de se mover sem tropeçar. Ele voltou pouco depois de sair do meu lado, dizendo que não tinha conseguido encontrar madeira seca suficiente para uma fogueira. Então murmurou um encantamento e sua pele se iluminou por dentro. Seus olhos ardiam como faróis na neblina, o que explicava como ele podia enxergar tão bem no escuro.
— O que é isso? — perguntei, fascinada, segurando sua mão e virando-a para examinar a luz que emanava dela.
Uma espécie de calor, suave e agradável, passava da sua pele nua para a minha. Seu corpo reluzia prateado na caverna escura, mas eu estava mais interessada em como seu poder me iluminava por dentro.
— Todos os meus irmãos têm essa capacidade. Mas talvez você não lembre.
— É... é incrível — falei, pegando sua mão e a pressionando no espaço acima da minha clavícula. Ofeguei quando meu coração disparou, enlouquecido com o toque. — Dói?
Ahmose riu baixinho.
— Não. — Depois de esticar os dedos e passá-los de leve no meu queixo, provocando-me arrepios até a raiz dos cabelos e ao longo da coluna, disse, rouco: — Haverá mais disso em outra hora, amor.
Ele recuou e pegou algumas pedras grandes, depois esfregou as mãos na superfície delas, uma a uma, murmurando algumas palavras em egípcio. As pedras começaram a brilhar com a mesma luz prateada que emanava de sua pele. Ele as posicionou em reentrâncias pela caverna e depois disse que ia fazer uma roupa nova e se trocar. Com alguma relutância virei as costas para ele e fui até a borda da caverna, para lhe dar alguma privacidade.
Fios finos e amarelos que deviam ter sido a teia de alguma aranha alienígena esvoaçavam sobre as pedras quando o vento que açoitava a caverna e os rompia. Toquei a ponta de um, que se grudou no meu dedo. Depois levantei a pedra luminosa na palma da mão e, numa inspeção mais de perto, encontrei os restos meio destruídos de uma teia brilhando com a chuva.
Estremecendo e esperando ver uma planta aranha fosforescente ou algo ainda pior pronto para pular em cima de mim, esfreguei o dedo na pedra para me livrar da teia. Em seguida, transpus a boca da caverna. Mais abaixo, o rio roxo estava quase preto. Ele fluía furioso pelas margens como um pretendente rejeitado, decidido a destruir tudo o que antes lhe dava forma e direção.
Ahmose parou ao meu lado vestido com roupas secas e segurando outra pedra reluzente. Tinha deixado sua luz interior se dissipar e me vi ligeiramente desapontada. Queria tocá-lo de novo enquanto estivesse luminoso. Quando gotas de chuva bateram na pedra que ele segurava, elas chiaram e desapareceram como se a pedra queimasse como fogo. Curiosa, estendi a mão para tocá-la e vi que estava quente, mas não a ponto de queimar minha pele.
— Vou esperar aqui — disse Ahmose baixinho. — Vá se trocar.
Assenti com a cabeça, deixei-o na entrada da caverna e me dirigi para os espaços sombreados no fundo. Nas profundezas da cavidade escura da montanha eu me sentia vulnerável, desfocada, como se tivesse entrado em algum tipo de mundo onírico. Tia e Ashleigh estavam estranhamente quietas, considerando os acontecimentos das últimas horas, mas uniram sua energia à minha para criar roupas novas.
A areia girou à nossa volta, secando meu cabelo com o vento. Quando a tempestade amainou, eu usava uma túnica de linho maleável verde, cor que suspeitei ter sido escolhida por Ashleigh. Vestia ainda uma legging confortável e sapatos de solado macio. Um cinto com pequenos discos dourados envolvia minha cintura e me acompanhava em sincronia perfeita quando eu me movia.
O escaravelho verde permanecia no centro. Fiquei pensando no que aquilo simbolizava e por um momento senti que era uma algema muito linda, mas, ao mesmo tempo, muito solene. Era uma lembrança de que eu pertencia a um homem do qual não me lembrava, e me ressenti ao pensar que eu não tinha opção em relação a quem amava.
Com cuidado, soltei a joia e a coloquei na aljava para mantê-la em segurança. Sabia que deveria me sentir culpada em relação ao meu recente relacionamento com Ahmose, mas não me senti. A garota que amava Amon tinha desaparecido. Talvez para sempre. Corri as mãos pelo corpo e pelos cabelos, surpresa ao encontrá-los solto às costas, e não em um dos coques elaborados de Ashleigh.
Feliz por finalmente estar quente e seca, voltei para perto de Ahmose, sentindo-me inexoravelmente atraída por ele. Todas as peças que formavam meu novo ser se fundiam e se moviam na direção de uma coisa: Ahmose. Eu era uma massa de partículas de metal e ele era o meu ímã.
Quando o alcancei, envolvi sua cintura com os braços e apoiei o rosto em suas costas, agarrando-me a ele.
— As barreiras caíram — disse Ahmose baixinho, segurando minhas mãos cruzadas e fazendo força contra elas.
Virei o rosto, com o queixo apoiado em sua espinha.
— O que isso quer dizer?
— O fato de eu não ter mais poder sobre a tempestade significa que Seth, ou pelo menos seus lacaios, assumiram o controle deste lugar. Não podemos mais esperar que nossa jornada seja fácil. Felizmente estamos prestes a sair deste mundo.
Com um resfolego, perguntei:
— Você chama de fácil o que nós passamos?
— Relativamente, considerando tudo.
Como se quisesse comprovar a declaração dele, o vento açoitou freneticamente, uivando pela caverna como uma fera acorrentada que finalmente houvesse sido libertada, e fez uma pequena avalanche de pedras cair da borda da caverna. Lembrei-me da lua com o halo e o terror me dominou. Esperava que a lua tivesse alertado apenas sobre a tempestade. A ideia de Ahmose ser arrancado de mim era impensável. Meus punhos se fecharam de encontro à barriga dele. Eu não deixaria isso acontecer.
— Maus ventos que sopram com força nem sempre trazem coisas ruins — murmurei baixinho e então percebi que o pensamento não tinha sido meu. Viera de Ashleigh. Nós estávamos nos unindo de novo.
— Concordo — disse Ahmose distraído, olhando a noite tempestuosa.
Ele pegou minha mão e me puxou para a frente dele. Pôs minha cabeça embaixo de seu queixo. Meus braços permaneceram travados em torno de sua cintura. Distraidamente, ele acariciou meu cabelo, os dedos atravessando-o para massagear a carne macia da minha nuca.
Raios espocavam repetidamente, clareando a paisagem com golpes cruéis. Olhei para o terreno e depois de volta para ele. Quando a luz caía no rosto de Ahmose, lançava suas feições nas sombras e por um momento ele se assemelhava aos irmãos na morte. Ainda bonito, mas com cavidades escuras que o tornavam mais parecido com um sedutor demônio da noite que deixara o caixão para procurar alguém que queria carregar com ele para a sepultura.
Ele me olhou e o distanciamento em seus olhos, a fadiga e a preocupação que vi neles se dissolveram até só restar o lustro brilhante do contentamento.
— Venha, amor — disse ele. — Não podemos fazer nada até que a tempestade passe.
— E se ela não passar?
— Ainda posso sentir o poder dela. Esta tempestade vai durar até de manhã. Vamos descansar e partir amanhã. Nebu me garante que estamos perto do ponto de saltar.
Assenti e o acompanhei, indo para o fundo da caverna. Os unicórnios estavam dormindo, de pé um ao lado do outro, posicionados de modo que um estava virado para um lado e outro na direção oposta.
— Por que eles dormem assim? — perguntei.
— Cada um vigia numa direção diferente. Assim ninguém pode se esgueirar e pegá-los desprevenidos.
Ahmose ajeitou o corpo grande contra a parede da caverna, puxando sua capa por cima de nós dois. Sentei-me ao lado dele, aninhando a cabeça em seu ombro. Mesmo ele estando relaxado, eu podia sentir os músculos de seu braço através da camisa. As pedras reluzentes que brilhavam como estanho, junto com a luz sutil que vinha do pelo e da crina dos unicórnios, pintavam a caverna com uma suavidade onírica, romântica.
Minha cabeça balançou sonolenta e meus pensamentos tornaram-se desfocados, mas eu ainda não conseguia deixar de olhar as feições finas do homem que me enlaçava como se eu fosse a coisa mais valiosa do mundo. Por fim, escorreguei para o espaço silencioso entre a vigília e o sono e escutei vozes baixas. Elas me tranquilizavam e confortavam. Era como cair no sono com alguém que você ama enquanto lê uma história.
— Vocês duas precisam descansar, Ash — disse Ahmose.
Eu podia vê-lo, ouvi-lo e sentir seu toque, mas de algum modo sabia que não era para mim que ele estava olhando.
— Eu sei — disse minha boca. — Só que há... há uma coisa que eu preciso saber.
— O que é?
— Quem você ama?
Meu eu do sonho olhou para Ahmose e viu seus olhos brilhando como o luar. O fato de eles parecerem duros e distantes, como se ele estivesse guardando segredos, talvez fosse fruto de minha imaginação.
— O que você está perguntando, Ashleigh?
— É uma pergunta simples, bonitão. Estou perguntando quem de nós você ama. Tia, Lily ou eu?
— Meu afeto precisa estar restrito somente a uma de vocês?
— O nosso precisa? Achei que você não gostava muito de compartilhar com seus irmãos.
O corpo dele se enrijeceu por um momento e sua expressão ficou sombria como um mar esfriado subitamente por uma tempestade distante. Isso me fez estremecer. Mas então, com a mesma velocidade com que havia surgido dentro dele, a tempestade amainou e de novo tudo ficou calmo na superfície.
— Meus irmãos são um obstáculo que vamos transpor na hora certa.
— Lily pode acreditar que o ama agora, com você todo vistoso, musculoso, cheio de sorrisos e beijos doces, muito doces, mas como você espera superar Amon se ela lembrar?
— Acho que nesse caso ela terá de pesar as opções e escolher.
— Ela não é a única a decidir, você sabe.
— Sei. Como poderia não saber?
— Pode ser útil, rapaz, ter alguém do seu lado, por assim dizer.
Ahmose sorriu.
— Você está do meu lado, Ash?
— Não sei se posso dizer com certeza. Amon é um sujeito bonito.
Ele fez uma pausa, tocou a ponta do meu nariz com o dedo e depois perguntou:
— E quem você escolheria, Ashleigh?
— Não é justo me fazer essa pergunta quando você não respondeu à minha.
Suspirando, ele pegou minha mão e entrelaçou os dedos nos meus.
— Não sei se é possível separar como me sinto em relação a cada uma de vocês. Respeito todas as três. Gosto de todas as três.
— Mas ama as três?
Ahmose abriu um sorriso suave, mas foi uma coisa assombrada, uma imitação tosca e triste da expressão feliz de antes.
— Ah, então temos nossa resposta, não é?
Meu coração doeu no peito como se uma pedra quente tivesse sido posta no espaço onde ele deveria ficar. Prossegui, minha boca envolvendo as palavras cuidadosamente, apesar de elas entorpecerem meus lábios enquanto eu falava:
— Muito bem. Se é um afogamento que você pretende, não me atormente com águas rasas, amor. Parta o meu coração de uma vez.
Provoquei-o com palavras para acrescentar mais combustível ao fogo. Dei-lhe espaço para deixar a língua se mover imprudente e me golpear com a verdade. Para ele, eu não passava dos restos tristes e patéticos de uma garota que fora desenraizada da história muito tempo antes.
O fato de eu estar embriagada por sua proximidade, de ansiar por tocá-lo e ser tocada por ele, de considerá-lo melhor do que as pedras preciosas em todo o seu esplendor multifacetado e brilhante, e seus braços mais reconfortantes do que o ninho mais macio em um vale de fadas, não fazia diferença. Suas palavras seguintes iriam me derrotar com a mesma certeza com que ele derrotava os inimigos. Seriam uma faca cravada em mim, que me desfaria completamente. Lágrimas escaparam dos meus olhos traidores e escorreram pelas faces.
Ahmose segurou meu rosto e enxugou uma lágrima com o polegar.
— Você usava uma coroa de flores de maçã no dia em que se escondeu na árvore.
— Eu... sim, eu usava — repliquei, espantada.
— Você sabia que o homem teria matado você com a mesma facilidade com que matou a árvore?
— Melhor o problema que vem depois da morte do que o que vem depois da vergonha.
— Ele teria envergonhado a si mesmo, e não a você. Se estivesse lá, eu o teria matado.
— Mas você não gosta de matar.
— Não. Não gosto. Mas qualquer homem que estragasse a doce inocência que você era, a jovem doce que você é, não é digno de andar na face da Terra, aliás, em nenhum outro lugar.
Gentilmente, ele passou os dedos pela minha testa, soltou as mechas de cabelo que se grudavam nas bochechas molhadas de lágrimas e as prendeu atrás da orelha. Meu coração retorcido bateu uma vez, mas o som saiu raso, lacerado, como uma baqueta golpeando a pele rasgada de um tambor.
As fadas podiam morrer de coração partido. E, assim que encontravam alguém para amar, nunca mais amavam outra pessoa. Eu nunca tinha pensado que isso aconteceria comigo. Como poderia encontrar alguém para amar no mundo dos mortos? Será que a árvore das fadas tinha tido todo o trabalho de me ajudar só para que eu pudesse perecer neste planeta solitário? Sem ser amada e sem ser desejada?
Torci para que Ahmose acabasse logo com aquilo. Que causasse toda a dor de uma vez ao invés de tentar passar mel na faca que cravaria em mim. Cada carícia de seus dedos era um tormento. Um lembrete de que eu estava apenas usando o rosto da garota real que ele amava. Aquela que podia retribuir seus carinhos e abraçá-lo. O que eu poderia oferecer a um homem como ele? O que eu esperava?
Finalmente ele falou:
— Ashleigh, acredite ou não, existem coisas que eu não sei. Caminhos que não consigo ver. Na maioria das vezes que você fala, sei que é você. Conheço a voz de Lily. E a de Tia. Mas às vezes há uma mistura. Uma fusão de almas. As diferentes partes de vocês, as coisas que definem Lily, você ou Tia são todas coisas que me interessam. São partes que passei a amar. Sei que não é isso que você quer ouvir. Não exatamente.
Ele respirou fundo antes de continuar:
— Mas há outra coisa que quero que você entenda. Tracei o caminho de vida de vocês três. Vi vocês crescerem. Vi as escolhas que fizeram. E passei mais tempo olhando as suas. Horas. Não, dias, na verdade. Durante as semanas em que estivemos separados, enquanto eu supostamente estava guardando o além com Asten, segui o seu caminho. Eu conheço você. Conheço a pessoa que você era quando mortal. Conheço a versão travessa da fada. E conheço o que você é agora.
Ahmose ficou ainda mais sério e prosseguiu:
— Então, se você está perguntando se eu poderia amar apenas a garota irlandesa, pequena e de cabelos encaracolados, a que bate o pé quando fica irritada e estreita os olhos verdes com mau humor, se quer saber se eu poderia passar horas traçando os padrões das sardas nos ombros dela e beijando seu rosto e a boca doce que se curva como um arco escondendo o presente mais lindo quando sorri, a resposta é sim.
Um pequeno som ofegante escapou dos meus lábios.
— Tem certeza? Porque, assim que você disser, eu vou acreditar na sua palavra.
— Por que você acha que eu estive sacrificando o sono muito necessário noite após noite só para ficar sentado perto de você ouvindo suas histórias? Mesmo quando durmo, persigo você nos sonhos como um cachorrinho ansioso. Anseio por me deitar numa campina de trevos com a cabeça no seu colo, com você passando os dedos pelo meu cabelo, e por cair no sono com a cadência da sua voz acariciando meus ouvidos. A verdade é que você não sai dos meus pensamentos desde que falou comigo pela primeira vez.
Pus a mão no seu rosto.
— E você não sai dos meus.
Seu sorriso foi rápido e terno. Com os olhos semicerrados, ele me beijou, e pareceu algo diferente e novo. Esse beijo era especial. Era meu e de mais ninguém.
— Você tem gosto de morango, urze e pó das fadas — murmurou ele, com a barba áspera no meu rosto.
Ahmose suspirou convicções açucaradas, fazendo cócegas na pele macia atrás das minhas orelhas e curando as pequenas feridas no meu coração e seus minúsculos vazamentos. Logo eles se fecharam e o amor que eu sentia por ele ficou preso lá dentro, enchendo-o até quase estourar e pulsando de novo por minhas veias.
Envolvi seu pescoço com os braços, apertando-o com força, sentindo que a felicidade iria irromper do meu corpo e fazer chover uma alegria reluzente em tudo ao nosso redor. Ahmose fechou os olhos e me segurou frouxamente, contente enquanto eu explorava suas faces e seu queixo com os lábios, deixando uma trilha de suaves beijos de asas de fada.
Ele pôs a mão na minha nuca e me puxou de encontro a seu peito, cantarolando uma canção alegre de que eu me recordava de quando era criança. Fez com que eu me lembrasse de cochilos de verão em campinas de flores silvestres, de frutinhas maduras comidas direto do pé e de pés mergulhados em riachos gelados. Sorrindo, fechei os olhos e deslizei para o sono, sentindo que, de algum modo, tudo daria certo e eu conseguiria ficar assim com Ahmose para sempre.
Era o mais doce dos sonhos. Mas, no fim, esse “para sempre” não durou tanto quanto eu esperava.


Acordei com um sobressalto. Ahmose tinha saído e o ar do pré-alvorecer se esgueirava pela caverna, silencioso e com um gume frio que parecia um tanto ameaçador. O brilho das rochas reluzentes tinha diminuído e a única luz vinha da lua fina e alaranjada piscando em meio às nuvens que recuavam. Essa luminosidade se estendia através da abertura da caverna, tingindo tudo de vermelho como uma inundação no inferno.
Os unicórnios estavam acordados. Remexiam-se em silêncio, nervosos e irrequietos, como se pressentissem um estouro de manada distante.
— O que aconteceu? — perguntei a Nebu. — Aonde Ahmose foi?
Antes que Nebu ou Zahra pudessem responder, uma figura escura entrou na caverna.
— Lily? — chamou Ahmose. — Precisamos ir, depressa. Estamos sendo caçados.
— Caçados? — Imediatamente me levantei e peguei a capa de Ahmose.
Depois de sacudi-la, fui até ele, entreguei-a e comecei a prender meu arnês. Ele me fez virar para me ajudar e então senti o peso sólido de sua capa quando ele a colocou nos meus ombros.
— É a mesma fera que tentou nos pegar antes? — perguntou Tia, vindo à frente.
— Não sei — respondeu ele. — Mas, o que quer que seja, está buscando nossa destruição.
Ahmose beijou rapidamente minha testa e me ajudou a subir nas costas de Nebu.
— Nebu é o mais rápido — explicou. — Se alguma coisa acontecer, vou dizer a ele que caminho tomar e vamos nos separar para que eu possa atrair a fera para longe.
Pus a mão em seu braço.
— Não, Ahmose. Não vamos nos separar — falei, novamente no controle do meu corpo.
Ele tentou me dirigir um sorriso tranquilizador.
— Vamos evitar isso, se pudermos.
Podemos voar, se necessário, disse Nebu. A distância até a borda não é muito grande.
Ahmose assentiu com a cabeça, concordando com a avaliação de Nebu. Deixamos a caverna, seguindo o caminho que só Ahmose conseguia ver.
A meia lua espiava por cima de uma camada de nuvens que se moviam rapidamente diante dela. Ahmose parava frequentemente, mudando sempre de rumo, mas o que quer que estivesse vendo mantinha sua expressão sombria. Um pássaro estranho piou nas árvores escuras, parecendo uma coruja, mas com um som esganiçado no final. Eu não sabia se era o som natural ou se o animal havia capturado outra criatura e a silenciara com uma garra mortífera.
Mesmo depois de o sol nascer, a névoa densa lambia o topo das árvores, fazendo a luz que tocava o solo parecer sinistra e estranha. Ahmose tinha invocado sua arma a partir da areia e seus dedos iam na direção do cabo sempre que ele ouvia um ruído. Estava com olheiras e seu rosto bonito parecia cansado e preocupado.
Apesar de a tempestade ter passado, as árvores ainda estavam recolhidas em si mesmas. Com galhos flexíveis levantados e folhas enroladas, faziam com que eu me lembrasse de avestruzes muito altos enfiando a cabeça na areia, esperando que ninguém notasse suas formas volumosas. As plantas verdes e espinhentas que lembravam aloe tinham se enrolado com tanta força que pareciam varas altas enfiadas no solo. Formavam uma visão lúgubre, erguendo-se como fileiras de sepulturas sem identificação.
Quando o sol ficou mais alto, chegamos à crista de um morro e olhamos para o vale no momento exato em que o primeiro animal surgiu numa clareira. Ele se ergueu nas patas traseiras e farejou o ar, virando a cabeça para um lado e para outro. Era gigantesco. Se um velocirraptor e um tigre-dentes-de-sabre tivessem um filho, iria se parecer com esse animal. A pele era blindada, provavelmente o motivo por que os espinhos das plantas não o detinham. Quando virou a cabeça em nossa direção, identificando a presa, soltou outro bramido.
Vi o clarão não só de um par de olhos fosforescentes, mas de dois ou talvez mais em sua cara. Parecia algo saído de um filme de Godzilla. Onde estava o lagarto gigante quando a gente precisava dele?
— Ahmose? — gritei. — Acho que estamos encrencados.
Quase como se fossem uma só, o bando de criaturas saltou do meio das árvores e começou a subir a encosta rochosa, ágeis como cabras, raspando o solo com garras e cobrindo a distância em grandes saltos, o sol faiscando em seus corpos enquanto bramiam em triunfo. Estariam em cima de nós em minutos.
— Nebu, vá! — gritou Ahmose.
Com isso, o unicórnio começou a correr. As plantas acordadas reagiram, estendendo galhos para pegar meus cabelos e minha capa. Agarrando a crina de Nebu com uma das mãos, puxei uma das facas-lanças e golpeei os galhos que nos atacavam. Então, quase instintivamente, pus uma flecha no arco e a disparei contra o tronco de uma árvore próxima. Para minha consternação, vi que eram as flechas de Ísis que eu estava pegando na aljava. Depois de atingidos, os galhos imediatamente se imobilizaram e recuaram. Usei mais duas flechas nas outras espécies de árvores que nos atacavam e elas também cessaram o ataque. Na minha mente, contei: Oito, sete, seis. Restam seis flechas.
O terror percorreu minhas veias como água num arroio do deserto, violento e agressivo, enquanto as criaturas atrás de nós continuavam subindo velozmente, ainda em nosso encalço. Pelo menos as árvores ao redor não estavam mais barrando nosso caminho.
Ahmose se virou e passou rapidamente por mim, enfrentando a primeira fera e arrebentando o crânio dela com sua maça. O que ele está pensando? Que pode enfrentar o bando inteiro?
Ele está atraindo-os para longe, disse Tia. É uma atitude nobre.
É uma atitude idiota, contrapus.
— Dê meia-volta, Nebu.
Não farei isso, Senhora Esfinge.
— Fará, sim.
Ele não vai se arriscar demais. Confie nesse homem. Ele sabe o que está fazendo.
Eu confiava em Ahmose, mas como poderia deixar que corresse perigo?
Ele era poderoso, mas eu também era. Nebu se virou, subindo por uma nova trilha, o que me deu uma boa vista do que acontecia mais embaixo. Pus outra flecha no arco e disparei. Ela penetrou no peito de um dos animais. Cinco, pensei. O animal vacilou e cambaleou, mas os outros continuaram vindo.
Disparei de novo. Quatro. Três. Por enquanto Ahmose estava seguro. Três das criaturas rolavam montanha abaixo, mortas ou seriamente feridas, mas não reagiam às flechas como espécie, como havia acontecido com as árvores.
Ahmose subia rapidamente de novo, tomando um novo caminho que eu sabia que logo iria cruzar com o meu.
Chegamos a outra curva da trilha. Ahmose nos alcançou e gritou:
— Vocês estão bem?
— Estamos — gritei de volta.
— Precisamos voar. Sinto muito, Nebu, mas não temos escolha.
Muito bem, disse Nebu. Vamos torcer para que a sorte nos favoreça. Os músculos do unicórnio se contraíram embaixo de mim e, de repente, suas asas se abriram e ele saltou para o céu com um silvo. Zahra o seguiu e logo deixamos para trás o topo da montanha com sua cobertura de árvores carnívoras. O bando de feras chegou ao pico e uivou, furioso por ter perdido a presa.
Um instante depois, enquanto os unicórnios viravam para oeste, na direção oposta à do sol nascente, um som parecido com o de mil cigarras cresceu à nossa volta. O chiado subia e descia como se um enxame invisível girasse em torno de mim e depois de Ahmose. Dava mais medo quando o som desaparecia. Subimos mais, voando tão alto que eu não ousava olhar para baixo. Quando criei coragem, não pude conter o grito que brotou dos meus lábios.
Abaixo de nós uma criatura gigantesca saltou para cima. Sua boca enorme, cheia de dentes, escancarava-se como a de um tubarão. Voamos para dentro de uma nuvem e não pude vê-la com clareza por um momento. Mas então as pontas das enormes asas sem penas, que pareciam as de uma arraia, rasgaram as nuvens. O focinho e o corpo esguio como um torpedo vieram em seguida.
Depressa, Zahra, alertou Nebu.
Minúsculas criaturas parecidas com pássaros voavam em bando em volta do grande predador, seguindo-o como rêmoras. O chiado retornou e percebi que elas serviam como uma espécie de ecolocalização para a criatura, porque, quando faziam o barulho, ela se posicionava de novo e seguia em frente. Já bem perto, tentava morder os cascos traseiros de Zahra.
Ahmose entoou um feitiço e a criatura parou momentaneamente, batendo as asas enormes, depois continuou vindo em nossa direção.
Tentei ajudar canalizando meu poder para descobrir o nome da criatura, mas o enxame que nos circundava tornava difícil separar a ameaça principal. Era como se elas envolvessem a fera com estática ou uma espécie de ruído branco que dissipava minha capacidade. Usei uma flecha preciosa, que acertou o alvo mas não diminuiu a velocidade da criatura. Duas, pensei.
Guarde as outras, disse Tia. Essa coisa não vai reagir a elas.
Estamos quase chegando, gritou Nebu.
Consegui vislumbrar um buraco escuro no céu. Os unicórnios esticaram o pescoço e dispararam naquela direção. Íamos conseguir. Então o enxame caiu sobre nós. Percebi que se assemelhavam mais a abelhas gigantes do que a pássaros. Zumbiam e zumbiam, e o tubarão alado chegava mais perto.
Ele não pode nos seguir até lá!, exclamou Nebu. Segurem-se!
Nebu e eu passamos primeiro pela abertura. A cabeça e as patas dianteiras dele desapareceram na escuridão. O enxame bateu na barreira e, atônito, partiu zumbindo em várias direções. Isso confundiu o predador que nos caçava. Alguns daqueles insetos bateram nas minhas costas e ricochetearam na capa. Minhas mãos e os braços entraram no vácuo. Um segundo antes que eu passasse por completo, senti uma picada no pescoço. Levei a mão por baixo do cabelo, arranquei um ferrão grosso e o larguei no ar.
Ahmose atravessou rapidamente atrás de nós. Quando me virei para olhar, ainda pude perceber o que restava do enxame e ver o confuso tubarão alado voando em círculos, tentando saber para onde tínhamos ido. O tom rosa-púrpura do céu transformou-se no negrume do espaço e logo fomos envolvidos por estrelas.
— Onde estamos? — sussurrei para Nebu.
Este é o local de transição, o Lugar Onde os Sonhos Nascem. Você o atravessou uma vez, embora não lembre.
— Atravessei?
Sim.
Esfreguei os braços.
Está ficando frio.
Tia fez alguma coisa e logo meu corpo se aqueceu.
Obrigada, eu disse a ela.
O jorro de adrenalina que tinha me movido antes foi passando e meus membros começaram a ficar pesados. Voávamos num ritmo tranquilo. Os unicórnios, cansados, batiam o ar com movimentos de asas lentos mas firmes.
Agora que não éramos perseguidos por coisas que queriam nos comer no café da manhã, Tia disse: Precisamos conversar.
— O que foi? — perguntei.
Em particular.
Ah. Você está bem? Alguma coisa a está incomodando?
Acho que precisamos falar sobre ele.
Ele? Você se refere a Ahmose?
Sim.
Precisamos mesmo fazer isso agora?, perguntou Ashleigh.
Acho que... acho que... deveríamos.
Tia?, perguntei. Não houve resposta.
— Tia? — falei em voz alta.
Acho que ela caiu no sono, disse Ashleigh, depois hesitou um momento. Ah, não.
Ash... leigh? Minha mente estava confusa, como ficara quando a planta havia me espetado. Levei a mão à nuca e toquei o lugar onde tinha sido picada. Havia um calombo ali e um líquido pegajoso escorria do ferimento.
— O inseto... o inseto... deve ter... nosss... drogado.
Não!, gritou Nebu na minha mente. Ashleigh, você precisa assumir o controle. Lily não pode cair no sono aqui! Não pode!
Eu... não posso, comecei a dizer, mas então minha cabeça rolou para trás e me senti subitamente sem peso. Ouvi Ashleigh gritar na minha mente e de repente tudo ficou escuro.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!