9 de março de 2018

7. Na sombra da lua

O som de madeira estalando e quebrando me acordou. Gemi e tentei me mexer, mas meus membros estavam pesados.
— Relaxe, Lily — disse uma voz. — Estou aqui ao seu lado e você está em segurança. Curei seus ferimentos e seu corpo está lutando contra as toxinas, mas esse é um processo lento. Você foi atingida por muitas agulhas e meu poder parece não ter efeito sobre sua imobilidade.
— Ahmose? — tentei dizer, mas minha língua era um objeto alienígena dentro da boca.
Consegui fazer um leve movimento e senti o peso enorme da capa em cima de mim como um cobertor de neve. Era quente e reconfortante até que meus sentidos se aguçaram. Compreendi que meu corpo estava tão entorpecido por baixo dela que era como se eu tivesse mesmo sido enterrada num monte de neve. A lã macia pinicava meu nariz. A lembrança de ter sido erguida e levada à boca de uma flor gigante me causou um tremor. Ela ia me comer. Aquele planeta que abrigava uma planta com uma protuberância alongada igual a uma serra para metal que brilhava feito um rubi era aparentemente minha Pequena Loja dos Horrores particular. Todas aquelas lindas flores que brilhavam no escuro queriam carne e eu poderia fornecer um bocado. Se conseguisse me mover, chutaria os quartos de Zahra, por causa de sua informação imprecisa. Ela tinha dito que a fauna se tornaria agitada. Agitada? É mesmo? O mais certo seria faminta.
Abri os olhos e espiei para além da fogueira, na direção das plantas. Agora cada coisa verde e viva parecia piscar para mim com malícia enquanto as folhas se mexiam na brisa. Na melhor das hipóteses, elas esperavam atrapalhar meu caminho; na pior, queriam me devorar. As árvores próximas tinham um cheiro enganadoramente normal — de cipreste, musgo e pinho. Não davam qualquer indicação de que eram predadoras. Se eu fosse uma leoa, meus pelos teriam se eriçado só de pensar nisso. Por falar em pelo, a felina residente na minha cabeça ainda estava apagada.
Tia?, chamei.
Ela está dormindo, respondeu Ashleigh.
Não entendo por que isso não afeta todas nós do mesmo jeito. Quero dizer, vocês estão compartilhando meu corpo, então deveriam ficar inconscientes também quando meu corpo dormisse.
Acho que não funciona assim. Eu fiquei acordada o tempo todo em que a planta tentava fazer picadinho de nós. Ouvi Ahmose lutando contra ela. Pude sentir quando ele carregou a gente, pelo menos até que sua pele perdeu a sensibilidade.
Então você não foi afetada pela toxina?
Acho que não. Foi um pouco como ficar presa na árvore das fadas. Eu não podia abrir os olhos nem me mexer. Seu corpo não estava reagindo a mim.
Isso é normal?, perguntei. As fadas se curam depressa ou algo assim?
Ashleigh pensou por um momento.
Não sei bem se isso se aplica quando o corpo que estou habitando não é meu. Além disso, nunca fui machucada por uma planta antes. Os escorpiões de fogo mataram minha forma de fada, de modo que obviamente os animais podem me fazer mal. Uma vez fui espetada por uma farpa. Doeu um bocado, mas assim que a arranquei o ferimento se fechou sozinho. Talvez a árvore tenha me dado o dom de me curar.
Nós poderíamos fazer isso antes? Quero dizer, antes de você?
Não sei. Eu não estava com vocês antes e nunca falamos sobre isso. Vamos ter de perguntar a Tia quando ela acordar.
Você não acha que ela está em... perigo, acha?
Não creio. Não mais do que você esteve. Durante o seu sono, continuei sentindo você ali, não houve nenhum trauma na sua consciência. Você só não... reagia. Com Tia é a mesma coisa.
Bom.
Tentei me mexer de novo e dessa vez minha língua cooperou.
— Ahmose? — chamei, rouca.
Um som de passos arrastados veio de um ponto fora do meu campo de visão. E logo ele estava ali, ajoelhado à minha frente com um odre d’água. Gentilmente me ajudou a sentar e me fez beber. Só ficou satisfeito quando sorvi todo o líquido roxo.
Quando acabou, ele puxou uma tora para eu apoiar as costas. A sensação tinha voltado a algumas partes do meu corpo, enquanto outras formigavam dolorosamente, como se estivessem dormentes. Um dos braços recuperou força suficiente e pude posicionar as pernas de modo a não ficarem numa posição incômoda embaixo do corpo. Ahmose sentou-se encostado na mesma tora.
— Os unicórnios estão de vigia — disse ele. — Para podermos dormir.
— Quanto tempo fiquei apagada?
— Algumas horas.
— Você pode dormir, se precisar — falei, vendo seus ombros curvados de fadiga.
Ele balançou a cabeça.
— Não antes de você.
— Acho que não vou conseguir dormir por um tempo. Pelo menos até saber o que aconteceu. Fomos perseguidas por um animal grande. Tia não sabia o que era, mas ficou com medo, e, se Tia ficou com medo, não quero muito saber o que era.
— Agora não há nada por aqui. Os unicórnios avisariam se houvesse um predador grande circulando. Não creio que ele estivesse disposto a passar pelas plantas bulbosas, e elas parecem ocupar um bom espaço à nossa volta. Quando continuarmos amanhã, teremos de passar por mais algumas delas, mas devemos levar pouco tempo.
— Bom, pelo menos essa notícia é boa.
— Nebu disse que a planta que pegou você é chamada de bulbo-pescador. Ela atrai as presas com suas luzes bonitas, depois ataca. Parece que existem três variedades aqui: a pescadora, a armadilha e a ativadora. Uma atrai você, outra espera que você pise na armadilha e a terceira produz uma seiva pegajosa nas folhas quando você pisa nas ramas e então agarra você. Parece que nem os unicórnios conseguem escapar do terceiro tipo. Por sorte, você foi apanhada pela mais fácil de escapar.
— A mais fácil? Fala sério! Eu não escapei. Você me salvou.
— É. Mas agora sabemos por que precisamos ir devagar nesta área.
— E olhar onde pisamos. Parece que seria mais seguro voar.
— Os unicórnios dizem que as armadilhas não crescem perto das pescadoras. É competição demais. Também disseram que os predadores que caçam no céu são muito mais perigosos do que a folhagem e os animais do chão.
Cruzei os braços.
— Você está me zoando, não é?
— Não sei o que isso significa.
— Quer dizer que você está brincando comigo. Não pode estar falando sério.
— Sempre falo sério.
Observei sua expressão com o canto do olho e vi que ele estava mesmo dizendo a verdade. A ideia de andar por esse lugar inóspito durante mais seis dias, na melhor das hipóteses, era uma perspectiva de dar medo. Para me distrair e não ficar pensando nisso, decidi mudar de assunto:
— Então você é sempre sério, é? — Lembrei-me de quando ele tinha rido do comentário de Ashleigh enquanto ela o desenrolava, e a alegria por trás daquele riso tinha sido... bom... incrível. Até mesmo contagiosa. Fiquei curiosa em relação a ele e imaginei que segredos estaria escondendo. — Por quê?
— O que quer saber com por quê?
— Por que você está sempre sério? Sinto que não gosta disso.
Ele deu de ombros, desconfortável.
— Minha vida é... complicada... e a felicidade é fugaz.
— Por que você acha isso?
— Talvez você não lembre, mas um dia eu amei uma garota. Ela era o oposto exato de tudo o que fazia parte da minha vida. Era primavera e esperança, vida e risos. Quando eu estava com ela, esquecia de mim mesmo. Estava enfeitiçado pelo sorriso ligeiro e o brilho nos olhos dela. Sua felicidade e alegria de viver preenchiam os espaços vazios da minha alma.
Depois de uma pausa, ele prosseguiu:
— Foi durante um dos nossos períodos despertos. As duas semanas passaram depressa e eu nunca tinha estado tão contente. Então, dois dias antes da cerimônia, encontrei Asten num abraço apaixonado com minha amada.
— Ah, puxa, isso... isso não está certo.
— É, não estava. Jurei que iria matá-lo por tê-la seduzido. Nunca, em toda a minha existência, eu tinha batido com raiva em uma pessoa. Nunca perco o controle. Não é da minha natureza. Não que eu não me disponha a lutar. É só que sei... sei que não vou perder.
— Como você sabe que não vai perder?
— É porque conheço o caminho que cada oponente vai tomar. Mas, depois de alguns instantes batendo em Asten, quando o rosto dele parecia um tomate estragado, voltei a mim o suficiente para enfim escutar o riso. A garota que eu amava estava zombando de nós dois. Ela achava delicioso ter sido capaz de manipular dois deuses. Demorei mais de duzentos anos para perdoar Asten.
Ele fez outra breve pausa antes de continuar:
— Asten arruinou tudo, mas o raciocínio dele estava certo. Eu teria sacrificado tudo por ela. Estava cego demais, apaixonado demais por Tiombe para enxergar quem ela era de verdade. Com o tempo, meus sacrifícios e o afeto por ela seriam objetos de zombaria e eu seria rejeitado.
— Sinto muito, Ahmose. Ela foi idiota em desprezar um homem como você. Mas não pare de procurar a felicidade. Você a merece.
— Ver seu rosto familiar me deixa muito feliz. Você é minha... Bom, talvez você não lembre, mas você é minha amiga.
— Eu gostaria de ter um amigo. Não tenho muitos amigos homens. Pensando bem, nenhum, mas poderia ser pior. — Bati o ombro contra o dele e fui recompensada com um de seus sorrisos estelares. — Amigos, então? — perguntei.
Ele segurou minha mão e entrelaçou os dedos nos meus. Era um gesto um pouco mais íntimo do que eu teria com um homem que considerasse amigo. Achei que provavelmente houvesse uma diferença cultural ou imortal e que talvez aquilo não significasse a mesma coisa que representava no lugar de onde eu vinha.
— Já que você é um desbravador, já olhou meu caminho imediato? Quero dizer, não o de Wasret, mas o meu? Vou ser comida por uma planta ou alguma coisa assim? Eu gostaria que você me desse um aviso da próxima vez.
Ahmose se imobilizou, os dedos se enrijecendo nos meus.
— Os caminhos mudam. Eu vejo futuros possíveis. Rotas que você pode pegar. Escolhas que pode fazer. Alguns são mais fortes do que outros, e esses são os mais prováveis de ser tomados. Eu não sabia que você ia fugir porque não estava estudando seu caminho no momento. Na maior parte das vezes costumo focalizar o quadro geral. Mas, respondendo à sua pergunta, sim, olhei o caminho que está à sua frente.
— E...? — perguntei, fascinada. — Nós vamos ter sucesso? Vamos despertar seus irmãos e derrotar Seth?
— O caminho que leva aos meus irmãos é o mais brilhante no momento. Posso dizer com uma boa dose de certeza que vamos despertá-los. Depois disso o caminho se divide em várias direções.
— Como assim?
— Quer dizer que você tem escolhas a fazer. Sacrifícios. Não está claro o que você fará.
— Sacrifícios? — Engoli em seco. — Está falando de Wasret e de eu desaparecer? Você disse que no fim do meu caminho só viu Wasret. Se é disso que está falando, devo dizer que realmente não quero saber.
Eu esperava que ele me dissesse que as escolhas à frente não teriam nada a ver com Wasret. Que ele poderia estar errado. Que Tia, Ashleigh e eu sairíamos bem do outro lado. Claro, eu não sabia até que ponto ficaria bem no mundo real, tendo uma leoa interior de estimação e uma petulante fada pessoal, mas preferia ter as duas na cabeça pelo resto da vida a desaparecer para sempre para que Wasret nascesse.
Ahmose se virou para mim, ainda segurando minha mão. Os olhos cinza, preocupados, me examinaram. A luz da lua tocou seu rosto, fazendo com que quase reluzisse.
— Vejo muitas coisas no seu futuro, Lilliana Young; muitas são perigosas, muitas são de partir o coração. — Ele tocou meu rosto brevemente com a ponta do dedo. — Mais do que qualquer coisa, eu gostaria de afastar a dor e escondê-la do perigo. Ainda que o meu caminho de vida esteja entrelaçado ao seu, sei que não posso influenciar o caminho por onde você anda. Seria errado eu me transformar num estorvo para o que você vai se tornar.
Lágrimas vieram aos meus olhos.
— Não quero desaparecer, Ahmose. Não quero virar Wasret.
Ele me puxou e me abraçou com força. Depois segurou meus ombros e se afastou.
— Não pense em Wasret agora. Você deve se concentrar na tarefa que tem pela frente. Suba a colina hoje e a montanha amanhã. Enquanto avança, haverá perdas, mas também ganhará muitas coisas. Esse é o fardo da mortalidade. Lembre-se sempre de que o poder de escolha continua sendo seu.
Funguei e enxuguei os olhos.
— Obrigada. Obrigada por ser meu amigo. Eu não sabia como precisava de um.
— Eu também preciso de alguém como você. — Baixinho, ele acrescentou: — Você não faz ideia de quanto.
Se eu não tivesse a superaudição de esfinge, talvez não captasse essas últimas palavras. Mas decidi não comentá-las, pelo menos até ter tempo suficiente para pensar no que significavam.
Depois de me reacomodar encostada no tronco, comecei a pôr para fora todos os temores e preocupações do meu coração. Contei como toda essa experiência era estranha e o coloquei a par de tudo o que havia acontecido desde a fazenda da minha avó e o encontro com Hassan.
Ele perguntou sobre meus sentimentos com relação a despertar Amon e eu disse que ainda não estava pronta para falar sobre Amon. Sensível à tensão quanto ao meu suposto namorado, ele mudou de assunto e contou histórias sobre Asten, Amon e ele, de quando eram mais novos, mantendo a conversa leve. Por fim disse:
— Agora você precisa descansar, Lily. Temos um longo dia de viagem amanhã. Por favor, durma.
— Você vai descansar também?
— Vou. Logo. Acomode-se da forma mais confortável.
Enquanto me deitava, olhei-o se recostando no tronco, a cabeça inclinada para cima, como se estudasse as estrelas, e percebi que, pela primeira vez desde que tinha acordado com vozes na cabeça, estava me sentindo em segurança. Era como se finalmente houvesse uma pessoa que entendia como era saber demais, ser responsável por coisas demais. Ahmose podia se identificar comigo de um modo que não era possível com vovó e Hassan.
Ahmose era alguém em quem eu podia confiar. Eu sabia instintivamente que ele não iria me obrigar a fazer ou me tornar uma coisa que eu não quisesse.
— Boa noite, Ahmose.
Ele me olhou e abriu um sorriso suave.
— Boa noite, Lily. Durma bem.
Meu coração falhou uma batida enquanto nos olhávamos. Então ele inclinou de novo a cabeça para trás, para olhar as luas. Imaginando que caminhos ele veria no céu, também fitei as constelações. Meus olhos se fecharam e caí num estado de consciência parcial, meio acordada e meio dormindo.
Logo escutei o murmúrio de vozes embolando-se umas nas outras, como o som do rio rolando sobre pedras, tranquilizante e contínuo. Era quase como se eu olhasse a cena acontecendo em um sonho.
— Você precisa deixar o corpo de Lily descansar, Ashleigh — disse Ahmose.
— Como sabe que sou eu?
— Um homem que presta atenção a uma mulher sabe.
— É bom saber que você estava prestando atenção.
— Volte a dormir, Ash — disse Ahmose com um risinho.
É rápido, querido — respondeu Ashleigh. — Eu queria fazer uma pergunta.
— O que é?
— Você disse que nos curou. Pôde ver o que há de errado na mente de Lily? Você disse que poderia ter uma chance melhor quando não estivéssemos mais no reino mortal.
— Eu tentei. É estranho, mas há um espaço lá. Está escondido e não posso acessá-lo. Acho que tem a ver com o poder dela. Maat diz que ela é um ovo de serpente. De alguma forma, isso é separado de você e Tia. Mas é essa capacidade que mantém vocês escondidas de Seth, por isso não ouso mexer aí. Não sei se eu poderia curá-la mesmo se tentasse.
— Talvez Amon possa, assim que o despertarmos.
— Talvez.
— Você quer dizer o que está escondendo, então?
— Escondendo?
— Eu consigo ler você, bonitão. Sei quando um homem foge da verdade. O fato de você ter mentido para Lily me deixou com o pé atrás. Por que você faria uma coisa dessas?
Então ele sorriu e, com um provocante brilho de luar nos olhos, disse:
— E o que as fadas sabem sobre os homens?
— Sei o suficiente. Um dia já fui uma garota mortal e, apesar de ter sido vencida, dobrada e transformada numa coisa nova, ainda me lembro de como é um rapaz escondendo segredos.
Ahmose inclinou a cabeça.
— Você me faz lembrar a lua — disse ele. — Na maior parte do tempo está escondida na sombra dos outros, mas, quando brilha em pleno esplendor, não há como escapar da sua luz. Sabia que eu posso ver você, mesmo quando está com o rosto de Lily? É só uma vaga silhueta das suas feições, mas não há como confundi-la.
— Por mais que essas palavras sejam bonitas, lembro gentilmente que você está fugindo da pergunta, rapaz.
Ahmose suspirou.
— Lily não precisa saber das coisas que eu vi. Isso só vai deixá-la confusa.
— Ah, você é tão cheio de segredos... Eu posso ajudar, se você deixar. Minha magia é da Terra, mas também é poderosa.
— Sei que é. Você sabia que eu posso seguir os caminhos nos dois sentidos?
— Como assim?
— Quero dizer que posso traçar o passado, além do futuro. — Ahmose olhou para o chão. — Se isso vale alguma coisa, lamento o que aconteceu com você.
— Descobri que é melhor não olhar para trás com arrependimento. Só com lições aprendidas. O infortúnio pode acompanhar a gente por toda a vida. A gente acaba tendo apenas duas escolhas. Lamentar o destino, diminuir o passo até ele alcançar a gente e depois estender os braços para abraçar a tristeza ou continuar correndo para que ele nunca possa alcançar a gente. Escolhi a última opção.
— Então você é uma pessoa mais sábia do que eu. Deixei o infortúnio me alcançar.
— Então escape das garras dele. Minha mãe sempre dizia: “O amor é doce, doce como o mel, mas o melhor mel é encontrado nos lugares quietos e esquecidos. não vá procurá-lo numa colmeia agitada, senão corre o risco de ser picado.” Parece que foi o que aconteceu com você, Ahmose.
Ele sorriu, todo doce, com o luar de outro mundo se dissolvendo em seu cabelo escuro, fazendo-o brilhar como seus olhos.
— Foi mesmo.
— Boa noite, Ahmose.
— Boa noite, Ash.


Na manhã seguinte Tia estava de volta e nós a colocamos a par de tudo o que ela havia perdido, mas parecia que ela se lembrava de algumas partes como se fosse um sonho. Especulamos o motivo para ela ter sido mais afetada pelos efeitos da droga da flor, e a melhor hipótese a que nós e os unicórnios pudemos chegar foi que Tia era mais próxima da presa natural das flores do que Ashleigh ou eu.
Era perturbador pensar que as toxinas podiam afetar a consciência de Tia e Ashleigh. Tenho certeza de que Hassan arranjaria uma teoria mais sólida do que nós. Tia não queria ficar pensando nisso. Estava mais interessada no animal que tinha nos perseguido do que na planta. Achava a morte causada por um vegetal a coisa mais ignóbil que uma leoa poderia sofrer.
Nos dias que se seguiram entramos numa rotina. Tia me ensinou a espreitar e caçar presas. Cada vez que pegávamos uma flecha, a haste terminava numa pena de ponta azul. Mas, quando verificávamos, a aljava ainda estava cheia com as penas que Ísis tinha nos dado.
Ahmose tinha todo tipo de ideias sobre esse fenômeno, e a principal era que estávamos inconscientemente guardando as flechas mais poderosas para a batalha futura. Eu não gostava de pensar nisso. Minha teoria era de que a aljava estava encantada para simplesmente produzir as flechas de que precisássemos. Tia não acreditava em nada disso e preferia evitar as flechas, encorajando-nos a caçar com as garras ou as facas.
Às vezes, enquanto jantávamos peixes estranhos e alienígenas, alface selvagem, flores comestíveis e a água doce que Ahmose invocava do céu, eu sentia o olhar dele se demorando no meu rosto por mais tempo do que o necessário; e ele cavalgava ao meu lado com frequência, conversando comigo.
Ahmose se interessava por uma grande variedade de coisas. Falamos longamente sobre o mundo moderno e ele fez muitas perguntas. Queria saber tudo, desde como a água era trazida para a cidade e aquecida nos chuveiros, algo que ele adorava com relação à minha época, até o que eu estudava na escola e como os carros funcionavam.
Mas também perguntava a Tia, muito educadamente, sobre sua vida como leoa, sobre sua irmã perdida — algo que eu não sabia, ou pelo menos não lembrava — e travava longas discussões com Ashleigh sobre sua vida na Irlanda. Eu deixava cada uma falar por si quando ele fazia perguntas e ficava contente em dar a elas um tempo no controle.
Ashleigh contou uma história interessante sobre quando era uma menininha de 10 anos. Ela costumava colher maçãs para uma velha tão encurvada que não conseguia mais levantar as mãos para a árvore. Um dia seu cabelo ruivo encaracolado se prendeu num galho da árvore e ela chorou e berrou até que a velha apareceu.
“O que você espera que eu faça, menina?”, perguntou a mulher. “Não posso levantar a mão e ajudar você a se soltar.”
“Pegue um machado”, gritou Ashleigh. “Corte a árvore. Uma menina é muito mais importante do que uma macieira.”
“Ah”, disse a velha, “mas as macieiras demoram anos de cuidados até dar frutos. Cuidei dessa árvore desde que eu era pequena. Ela é muito importante para mim. As maçãs me alimentam o ano todo. Os pássaros pousam nos galhos e cantam para mim quando estou solitária. Acho que, sem a árvore, eu morreria.”
“Mas e eu?”, gemeu Ashleigh. “Não posso ficar aqui em cima para sempre!”
Foi então que aprendi a lição mais importante da minha vida — disse Ashleigh a Ahmose, que ouvia com interesse. — A velha não falou mais nada. Não discutiu nem ofereceu razões. Não hesitou. Só pegou o machado e se preparou para cortar a árvore. Mas, antes que ela agisse, gritei: “Espere! Não faça isso.” E pedi que ela pegasse sua faca de cozinha. Apesar de chorar um bocado, cortei todo o meu lindo cabelo ruivo até finalmente me soltar. Eu tinha pensado em fazer isso logo no início, quando fiquei presa, mas não queria abrir mão dele. Era uma garotinha vaidosa e preferiria que outra pessoa fizesse o sacrifício, e não eu, ainda que o meu fosse menos doloroso. Naquele dia aprendi que precisava deixar de ser uma criança egoísta. Até hoje não consigo ver uma macieira sem pensar na mulher.
— Era bondade sua ajudá-la.
— Ah, eu não queria. Todo mundo achava que ela era uma bruxa e meu pai tinha medo dela. Quando a mulher pediu que eu ajudasse, ele ficou com medo demais para recusar.
— É comum pensar que as pessoas diferentes possuem magia.
— É assim, não é? Ela era uma bruxa. Foi ela que me apresentou à árvore das fadas. Ela era a guardiã da árvore e sabia que não iria se demorar muito no mundo. No dia em que ela morreu, eu me tornei a cuidadora da árvore.
Os unicórnios continuaram em frente e Ahmose e Ashleigh ficaram em silêncio por um tempo. Depois ele disse:
— Você sente falta do seu cabelo ruivo.
— É, sinto. Era lindo. Encaracolado feito uma rama de abóbora e vermelho feito papoulas silvestres. Sinto falta dele. — Rapidamente Ashleigh mexeu no meu cabelo, prendendo-o no arranjo que tinha feito de manhã. — Não que o de Lily não seja bonito. Só sinto falta dos cachos.
Ahmose estendeu a mão e deu um tapinha na minha perna, com um olhar de simpatia para Ashleigh, mas sem dizer nada. Depois disso ela recuou, querendo que eu assumisse o controle.
Logo comecei a notar outras pequenas gentilezas de Ahmose. Coisas como me ajudar a apear depois de um longo dia cavalgando ou deixar uma flor vermelha em cima da minha capa quando eu ia sozinha para as árvores. Ele sempre sabia quando era eu, Ashleigh ou Tia — dava os parabéns a Tia por uma pescaria hábil no rio ou dizia olá a Ashleigh e perguntava o que ela achava sobre uma coisa ou outra que nós dois tínhamos conversado.


No sexto dia minha mente estava inundada de pequenas histórias e sonhos parcialmente lembrados das conversas noturnas de Ahmose e Ashleigh. Um dos sonhos era sobre uma fada de olhos verdes e corpo pequeno e esguio. Ela ficou louca pela Lua e dançava e festejava sob o luar, cantando baixinho para ela. A fada apaixonada chorava toda noite quando a Lua se punha, achando que ela havia morrido, mas se rejubilava quando o astro nascia na noite seguinte. Ela acreditava que, quando uma fada morria, a Lua mandava um raio de luar que a levava para morar com ela. Mas uma fada não pode escolher quando morrer, por isso ela esperava, olhando e ansiando pelo astro, noite eterna após noite eterna.
Houve outra história ou sonho sobre um homem preso na Lua. Ele olhou para o reino dos mortais e viu uma jovem linda. Apaixonou-se à primeira vista por ela. Mas infelizmente sabia que os dois nunca poderiam ficar juntos, por isso ele a guardava lá de cima e aprendia a amá-la de novas maneiras a cada dia. Essa jovem, porém, podia escolher quando morreria.
Então a garota bonita descobriu que seria dada em casamento a um homem que ela não amava e se jogou de uma torre para não se casar com ele. O homem preso na Lua, desesperado para salvá-la, estendeu seus braços brilhantes e a agarrou, mas sua luz era poderosa demais e ele foi enfraquecido pelo esforço. A garota ficou cega e aluada, diziam.
Ele implorou a ajuda dos deuses, que a colocaram em sono profundo. Ela não envelheceria e sua beleza não desapareceria, para que ele pudesse olhar seu rosto para sempre. A mulher que ele adorava jamais morreria. Ele poderia segurá-la com seus braços de luar, mas ainda assim seus corações não poderiam se unir. Seu amor não lhe dava conforto, porque ele era um homem atormentado pelo banquete colocado à sua frente, o qual, no entanto, ele não podia provar. A luz ao seu redor diminuiu e a Lua ganhou um halo de escuridão.
O tempo passou enquanto o homem da Lua se lamentava. Por fim, ele disse aos deuses que estava pronto para deixá-la partir. Para deixá-la encontrar a paz. Os deuses sorriram e tocaram os dedos nos olhos da jovem. Ela acordou e olhou para a Lua, encontrando ali o rosto do homem que a amava.
“Agora ela é realmente sua”, disseram os deuses, “porque você provou que o bem-estar dela importa mais do que o seu.”
A noiva correu para os braços dele e riu quando ele a rodopiou. Os dois foram libertados dos confins da Lua e o tecido do espaço foi dobrado de modo que eles pudessem começar vida nova em outro mundo. Quando seus pés tocaram um mar de grama azul ondulante, eles olharam para a Lua envolta num halo e souberam que ela era um lembrete para sempre pensarem primeiro no outro, depois em si mesmos.
Se esquecessem e ficassem egoístas, iriam ser separados de novo. A Lua iria alertá-los quando estivessem correndo perigo. É por isso que uma Lua com halo é sinal de tempestade próxima. No mínimo, é sinal de tempo inclemente. Na pior hipótese, é um presságio de perda iminente e tristeza capaz de partir o coração.
Fiquei pensando nessas histórias enquanto acompanhava Ahmose pela margem do rio. Alguma coisa estava mudando entre nós. Ao vê-lo subir uma colina procurando um caminho, eu me pegava capturada pela visão de suas costas musculosas e olhava os antebraços rígidos quando ele os estendia acima do terreno. Apesar de não gostar de batalhas, Ahmose tinha o corpo de um guerreiro. E, depois de passar dias ao seu lado, percebi não só que ele era lindo tanto por dentro quanto por fora, mas que eu não conseguia me imaginar ali sem ele.
Achei incrível a rapidez com que passei a contar com sua presença constante. Com seu companheirismo. Talvez meu medo do que havia adiante é que tenha me instigado a agir, mas o que eu sentia não parecia errado. Tudo dentro de mim, até as batidas do meu coração, dizia que estava certo. Talvez fosse prematuro. Talvez eu devesse ter esperado para falar com Tia e Ashleigh sobre isso primeiro, mas não senti nenhuma dúvida da parte delas. Na verdade, o silêncio delas era positivo. Pelo menos, foi essa a sensação que tive.
Ahmose dissera que eu tinha escolhas a fazer. Desde que eu havia acordado na fazenda da minha avó, não era o que me parecia. O peso do mundo estava nos meus ombros e tinham me contado histórias do que eu havia feito e de quem eu amava, mas eu não conseguia me lembrar de nada disso. Só sabia do agora. Meus sentimentos eram reais. Certos ou errados, eles estavam ali. Por isso fiz uma escolha.
Ahmose voltou para o meu lado e me peguei respirando acelerado. Meu coração batia forte quando ele se aproximou. Quando ele pôs as mãos em volta da minha cintura para me ajudar a apear, envolvi o pescoço dele com os braços. Não me afastei depois de apoiar os pés no chão. Seu cabelo escuro parecia salpicado de ouro ao sol poente. Ousada, afastei uma mecha do rosto dele, me deliciando ao roçar os dedos na aspereza da barba crescendo.
Suavemente, ele tirou minhas mãos de seu pescoço e beijou meu pulso.
— Tem certeza de que esse é o caminho que você quer trilhar? — perguntou baixinho.
Seus olhos estavam semicerrados, como se ele não quisesse saber a resposta, mas mesmo assim dava para perceber um brilho penetrante no olhar prateado, e esse brilho me chamava mais para perto. Meu coração estava disparado, eu me sentia uma estrela nova, reluzente e límpida como um diamante recém-descoberto, brilhando mais do que o sol poente. Eu poderia iluminar o mundo sozinha.
— Esse caminho me deixa feliz — respondi com simplicidade.
Lenta e deliberadamente, ele ergueu a mão e segurou meu rosto. Sua expressão mudou de uma sobriedade cautelosa para uma espécie de deleite jubiloso, juvenil.
— Ele me deixa feliz também.
E me beijou. Um beijo doce, capaz de afogar. Do tipo que deixa a gente de joelhos. Na verdade, nos deixou mesmo de joelhos, mas ainda assim ele se recusou a me soltar. Suas mãos seguraram meus quadris e permaneceram ali enquanto ele me puxava contra seu corpo quente. As superfícies planas e rígidas de seu peito me fizeram lembrar de um escudo — um escudo que protegia seu coração. Os inimigos deviam temer a força e o poder encontrados ali. E no entanto, para mim, ele se dobrou.
Ahmose emaranhou as mãos nos meus cabelos e o penteado cuidadoso de Ashleigh se desfez. Grampos em forma de escaravelhos dourados caíram de qualquer jeito no chão. Mas não importava, não quando ele tomou as tranças soltas nas mãos e as enrolou nos dedos quentes. Eu o envolvi com os braços, puxando-o ainda mais para perto. Parecia que não conseguíamos nos saciar com os toques e beijos. Quando nos afastamos, estávamos ambos ofegantes, mas havia no rosto dele um sorriso satisfeito de um quilômetro de largura.
Quando ele traçou a linha do meu malar com os dedos, minha respiração falhou enquanto eu antecipava o toque aveludado de seus lábios nos meus outra vez. Ahmose era um homem lindo. O sonho de qualquer garota era ter alguém assim olhando-a como ele me olhava agora, como se eu fosse o mundo para ele. Apesar de eu não querer fazer nada para arruinar o momento, a curiosidade me venceu:
— Você viu esse caminho? Eu me refiro a nós...
O sorriso de Ahmose se suavizou, ele ficou sério e falou numa voz grave e pesada:
— Eu sabia que era uma possibilidade desde o momento em que nos conhecemos. — Então seus olhos se fecharam e a felicidade em seu rosto diminuiu ligeiramente. — Você precisa saber que eu não provoquei isso — disse, como se eu pudesse querer culpá-lo por meus sentimentos. — Havia centenas de escolhas que você poderia fazer e que a levariam numa direção diferente.
— Mas esse era o caminho com a maior possibilidade.
— Era — admitiu Ahmose. — E não lamento. — Capturando minhas mãos, ele beijou uma palma de cada vez, devagar. — Espero que você também não.
— Não lamento — murmurei baixinho, e fui recompensada pelo brilho renovado de seus olhos cinza-prateados.
Os pelos da barba por fazer se moveram contra a pele sensível da parte interna do meu pulso, provocando arrepios ao longo da minha espinha.
Quando ele levantou a cabeça, eu cambaleei, mas ele me firmou.
— De todas as maravilhas que já experimentei, de todos os caminhos que já vi, você é a única magia verdadeira que presenciei. Que já tive nos braços.
Então o Senhor das Feras e das Tempestades, o homem conhecido como Desbravador, Curador e, principalmente, Ahmose, levantou-se e me puxou para que eu também ficasse de pé. Em seguida me envolveu com seu corpo grande, aninhando-me em seu peito. Ali eu me senti em segurança, protegida, aquecida e, acima de tudo, amada. Mas mesmo naquele porto seguro, senti uma gota de chuva cair em minha testa. Outra gota tilintou no cabo da faca que se projetava do arnês que eu tinha largado despreocupadamente no chão.
Ahmose olhou para o céu. O sol havia se posto e a lua azul tinha nascido. Havia um halo escuro, premonitório, em torno dela. Franzindo a testa, ele disse:
— Venha, amor. Uma tempestade se aproxima. Precisamos encontrar abrigo.

16 comentários:

  1. Nossa "ela" vai pega tudo😏, deixa um irmão pra mim😭😭 kkkkk


    ~MIRELLE

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  2. A Lilly não lembra, mas ela ama o Amon.

    -Maria Eduarda

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  3. Masss gente antes achei que os sentimentos era da fada agora fiquei confusa.

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    1. Foi a mesma coisa dela com a Tia. Ela pensava mais no Asten.

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  4. Tadinho do Amon. Mas acho que pode ser os sentimentos da fada influenciando já que ela não se lembra do Amon. Quando foi com o Asten, ela lutava pq amava o Amon. E nessa brincadeira ela já pegou os três! Kkkkkk

    Flavia

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  5. Faz isso não garotaaaaaa como fica o amom???? Se bem que eu acho que ela tá sentindo os sentimentos da Ashleigh!

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  6. Gente... Se já está assim com um irmão, imagina quando os outros aparecerem ?
    #VaiDarRuim
    #CenasDosProximosCapitulos

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  7. Estou muito chateada mano.... Quero o Amon!!! ;-; Não passei dois livros shippando eles para ela ficar com outro na reta final! Aaaaaaaaaaaaa ;-;

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  8. Eu acho que esses são os sentimentos da fada , pelo menos é nisso que eu quero acreditar 😥😥

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  9. devoradoradelivros23 de maio de 2018 16:26

    mano, ta tudo ferrado

    lily ama amon, tia ama asten e a fada ama o ahmose.








    e agora????
    torço pra no final as tres se separarem e cada uma ter seu corpo e seu amor........

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  10. EITA! Ja pegou os três irmãos... e o Hórus! Lily danadinha! kkkkkk não está errada.

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  11. Ahmose fura olho. Sempre o mais quietinho é o que surpreende.

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  12. desconfio de q no final ela não vai ficar com ninguém... >-<

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