8 de março de 2018

6. A um mundo de distância


Fiquei imóvel, olhando boquiaberta a criatura que me espiava por entre as faixas de tecido rasgadas.
Lily!, disse Ashleigh. Acorde. É só o Ahmose.
Eu não... não estou... eu... não posso, falei com um gemido patético para minhas duas companheiras.
Deixe comigo então.
De bom grado eu me pus de lado e deixei Ashleigh assumir a frente. Ela rapidamente foi até Ahmose, estalando a língua como se ele fosse um menino bagunceiro que andara brincando na lama.
— Ora, veja só em que você se meteu, garoto — disse ela. — Assim não dá.
Com eficiência desenrolou o tecido da cabeça dele. Quando finalmente ficou livre, ele estalou o pescoço, girando-o de um lado para outro.
— É, sem dúvida hoje você vai ficar com torcicolo. Mas pode se considerar sortudo. Aposto que é melhor do que estar morto.
— É mesmo — disse ele, e sorriu calorosamente para mim... para ela... para nós, enquanto Ashleigh passava a cuidar do braço dele, desenrolando o tecido amarelado.
Nossa, pensei. Esse aí é tão bonito quanto os outros. Esse sorriso seria capaz de derreter a Lua. Espere um minuto. Eu não pensaria isso. Era bem difícil permanecer sã quando duas outras garotas compartilhavam a sua cabeça. Não daria certo fundir nossos pensamentos. Tia, acusei, pare de pensar tão alto!
Não sou eu, resmungou ela. Talvez seja você. Mas até eu admito que esse aí tem bons dentes. Se fosse um leão, isso significaria que ele seria um caçador e um protetor excepcional. Além disso é muito musculoso. Gostei de estar nos braços dele.
Espere aí. Não. Sabe de uma coisa? Não quero saber. Não me fale mais nada sobre os músculos dele, ok? Só... só pare com isso!
Não entendo por que você está chateada. Se bem me lembro, você também gostou de estar perto dele.
Eu... ah! Eu realmente odiava a ideia de que Tia soubesse essas coisas sobre mim, sobre nós, sobre o meu passado. Parecia errado. Quase como se meu corpo tivesse sido roubado sem que eu me lembrasse. Espere aí. Era exatamente o que havia acontecido.
Ashleigh tinha passado a desenfaixar a mão. Cada dedo estava enrolado individualmente e ele flexionava cada um à medida que ficava livre do tecido. Vovó foi para o outro lado dele, ignorando rapidamente o fato de que estava desembrulhando uma múmia. Ela sempre lidava com coisas como ajudar no parto de bezerros ou cuidar dos ferimentos dos seus animais como uma médica experiente. Acho que isso não era tão diferente assim. Eu teria inveja dessa capacidade se gostasse de fazer esse tipo de coisa. Nesse caso, fiquei feliz em deixar Ashleigh agir. Já era suficientemente ruim o fato de eu ainda sentir tudo.
Vovó se apresentou e o sujeito fez uma reverência respeitosa, pelo menos a melhor que podia, enrolado daquele jeito. Disse que era uma honra conhecer uma anciã de Lily. O fato de ela estar ali no Egito não o perturbou nem um pouco.
Com os dois braços dele livres, Ashleigh começou a desenrolar o peito, pedindo que levantasse os braços quando alcançou os ombros. Ele fez isso, afastando dos olhos o cabelo escuro que caía sobre o rosto. Tia estava certa. Os braços e os ombros dele eram muito musculosos.
Vovó foi para o pé do sarcófago ajudar Hassan a desatar os pés do sujeito. Logo o peito dele estava exposto. O peito nu, duro como granito. Se eu estivesse no comando do meu corpo, teria ficado de queixo caído.
Quando Ashleigh chegou perto da cintura, inclinou-se por cima dele para passar o bolo de ataduras de uma das mãos para a outra, mas ele a impediu, segurando sua mão, a minha mão, e a apertando contra o peito.
— Obrigado — disse. — Acho que posso cuidar do resto.
Mesmo com o tecido entre o peito e a mão, pude sentir o calor do seu corpo. Tinha esperado que ele e/ou o sarcófago cheirassem a deterioração e podridão, mas não era assim. O aroma de cedro era mais proeminente do que qualquer outro. Sem querer, minhas narinas se abriram e a força dos meus sentidos apurados entrou em ação.
Para minha sorte, o cheiro pessoal da múmia era agradável. Quase como uma floresta enluarada no outono. Até as ataduras exalavam o aroma de terra recém-revirada e folhas caídas. Seu rosto estava a centímetros do meu e os olhos cinzentos me avaliavam com curiosidade. Minha pulsação acelerou.
Não creio que eu já tivesse tido um contato tão próximo com um homem. Pelo menos que eu pudesse lembrar. Descobri que não me incomodava muito. Na verdade, a múmia recém-libertada era um dos homens mais bonitos que eu já tinha visto. A ideia de que o achava atraente me deixou desconfortável de todas as maneiras possíveis.
Ashleigh disse, atrevida:
— Tem certeza? Não me incomodo em desembrulhar você inteiro.
Ashleigh!, censurei, subitamente sem graça e percebendo que estávamos tocando o sujeito por tempo demais. Certo, ele também ainda não tinha soltado minha mão, mas de qualquer modo a coisa havia demorado demais para ser considerada um contato casual.
Mandei que ela se afastasse, mas Ashleigh me ignorou com teimosia. Então o homem riu, um som borbulhante, feliz, como uma onda com crista de espuma batendo na praia. Descobri que me sentia mais atraída pelo riso do que pela aparência dele, e isso queria dizer um bocado.
— Talvez na próxima vez em que eu despertar.
— Certo, então. — Hassan deu um passo à frente. — Acho que seria melhor se eu ajudasse Ahmose com o restante. Vocês, moças, podem pegar minha lanterna e esperar na câmara ao lado.
Os motivos que eu tinha para ter medo da múmia transformada em homem estavam desmoronando com tanta facilidade quanto as colunas do templo acima de nós. Acho que agora estou bem, Ashleigh.
Tem certeza? Eu me sinto totalmente confortável com Ahmose. Não me importo em ficar na frente por um tempo.
Vou ficar bem, respondi. Além do mais, preciso me acostumar com tudo isso. Não vai me ajudar a lembrar se eu ficar escondida atrás de vocês duas toda vez que alguma coisa me amedrontar.
Pude sentir a relutância de Ashleigh, mas ainda assim ela trocou de lugar comigo de boa vontade. Enquanto esperávamos, prometi a ambas que em breve chegaria a vez delas de ficar no comando.
Quando Hassan nos chamou de volta, fiquei surpresa ao ver o novo membro da nossa equipe vestido de guerreiro, com túnica de couro, calças grossas e justas, botas e protetores de pulso decorados com prata. Depois de olhá-lo de cima a baixo e engolir a risadinha infantil que brotou pelo simples fato de estar perto de um cara que podia claramente ter saído das páginas da GQ: Edição Cavaleiros Medievais, fiz a única pergunta inteligente em que pude pensar:
— Onde estão as suas armas?
Ele inclinou a cabeça com curiosidade.
— Eu invoco minhas armas da areia. Não lembra, Lily?
— Infelizmente Lily não se lembra de nada — disse o Dr. Hassan.
— Como assim, não lembra?
— Ela esqueceu tudo sobre o Egito quando entrou no reino mortal.
— Ela foi ferida?
— Oi! Eu estou aqui — falei, acenando com uma das mãos. — Você pode perguntar a mim, sabe?
— Desculpe, Lily — disse Ahmose. — Você se feriu na nossa última batalha?
— Acho que não. Tia? — perguntei.
Não fomos feridas de nenhum modo que pudesse atrapalhar seu processo mental.
— Ela disse que não.
Ele se aproximou mais um passo e levantou as mãos.
— Posso?
Franzi a testa, sentindo-me ligeiramente nervosa perto do estranho grandalhão.
— Pode o quê?
— Uma das minhas capacidades é curar com magia. Se eu tocá-la, poderei sentir o que provoca o dano e consertar.
— Cer... to. Acho que sim.
Hassan e vovó ficaram observando com curiosidade enquanto o sujeito diminuía a distância entre nós e erguia as mãos grandes, colocando-as no meu pescoço. O toque era suave e leve, surpreendente para alguém que na certa seria capaz de levantar um caminhão. Ele fechou os olhos e senti sua energia zumbindo no meu corpo, que começou a formigar. Uma vibração suave percorreu meus membros. Mas não doeu. Na verdade a sensação era boa. Era como receber uma massagem shiatsu de dentro para fora.
— E então? — perguntei quando ele afastou as mãos e deu um passo para trás.
Seu olhar sério me disse que a notícia não era boa.
— Não há nada para ser curado. Ela está bem e íntegra, assim como os dois corações ligados ao dela.
— Ah — eu disse. — E você está chateado porque...
— Lily — observou ele, hesitante. — Se não há nada errado com você fisicamente...
— Então há alguma coisa errada com... o quê? Minha alma? Meu... meu cérebro?
Se eu tivesse de escolher, acho que optaria por alguma coisa errada com a alma, e não no cérebro, mas na verdade minha preferência seria nenhuma das duas hipóteses.
Ele pôs a mão no meu ombro.
— Não sei dizer. Talvez eu possa sentir mais quando sairmos do reino mortal.
— Então Hassan disse a você que eu não consegui despertar os outros?
Assentindo, ele se virou para olhar as outras duas múmias.
— Terei de levá-la até eles. Você terá de entrar na oubliette antes de poder reuni-los com seus corpos.
— E tem certeza de que essa oubliette não fica... tipo, no Arizona, em Taiwan ou algo assim?
Ele balançou a cabeça.
— Não. O lugar onde Maat nos escondeu fica no canto mais distante do Cosmo.
— No canto mais distante do... — Minha voz falhou, e não consegui terminar a frase.
Virei-me para vovó com os olhos arregalados. Ela pegou minha mão e apertou.
— Vai ficar tudo bem, Lilypad.
— Infelizmente a senhora e Hassan terão de ficar aqui — informou o sujeito a vovó. — Os mortais não podem percorrer os caminhos por onde iremos.
Virando-se para Hassan, acrescentou:
— Você vai precisar ficar e vigiar os corpos dos meus irmãos. Tomar conta deles, para que os lacaios de Seth não descubram o esconderijo. Vou lançar um feitiço para esconder este templo de todos, a não ser dos mais perceptivos. Há um certo poder que o grão-vizir tem ao cuidar de suas incumbências. Enquanto você estiver vivo, os corpos deles não podem ser destruídos.
O Dr. Hassan se empertigou, orgulhoso.
— É claro que cumprirei o meu dever.
— Bom — respondeu o sujeito. — Pode pegar para mim os itens necessários para despertá-los quando chegarmos à oubliette?
Hassan confirmou com a cabeça e desapareceu de novo na câmara dos sarcófagos.
A múmia tocou meu ombro rapidamente.
— Agora vou deixá-las para se despedirem enquanto procuro o melhor caminho. Precisamos nos apressar, Lily.
Com isso, ele começou a subir a escada estreita e coberta de areia sem se preocupar com a luz fraca da tocha. Fiquei parada, boquiaberta com a partida dele.
— Vovó, eu não posso — gaguejei, gesticulando loucamente. — Vocês esperam mesmo que eu vá não sei para onde, do outro lado da porcaria do Cosmo, com esse, esse... estranho?
Ele não é estranho para nós, disse Ashleigh.
Fique quieta, retruquei. Podia sentir a frustração delas comigo. Não esqueça que ele é totalmente estranho para mim.
Vovó me abraçou e o Dr. Hassan entrou com sua mochila enorme.
— Oscar, tem certeza de que não podemos ir?
— Se Ahmose diz que não podemos, então é impossível. O fato de Lily ter precisado se transformar em esfinge para viajar por esses caminhos antes é prova suficiente de que não sobreviveríamos à jornada.
Nenhum dos dois disse mais nada. Dava para ver que vovó não queria tentar me influenciar para um lado nem para outro. Ela me envolveu num abraço e me apertou com força.
— O que você quer fazer, Lilypad? — murmurou no meu ouvido.
Minha avó sempre soube exatamente o que eu precisava ouvir. Deixava que eu reclamasse, que pusesse a frustração para fora, depois me devolvia o problema. Vovó esperava que eu agisse com responsabilidade, pensasse nas minhas opções e fizesse a escolha certa.
Suspirei contra seu ombro macio e fiz o papel da adulta que eu deveria ser.
— O que eu quero é ir comprar sapatos. Mas o que vou fazer é partir para o meio do Cosmo e despertar mais umas múmias.
Quando recuei, ela segurou meu queixo.
— Você sempre foi uma garota corajosa.
— Não me sinto particularmente corajosa. Acho que este é um daqueles casos em que a magnanimidade me foi imposta, eu querendo ou não.
— Você sempre foi magnânima para mim.
— É. Bom. Escreva isso na minha lápide.
— Não seja rabugenta, Lilliana — disse ela, depois aliviou o comentário segurando meus ombros e me beijando na testa.
Ela quase nunca me chamava de Lilliana e isso tocou uma ferida aberta. Provavelmente perto demais da verdade. Ela não queria pensar em ter de me enterrar perto do meu avô. Isso é... se restasse alguma coisa de mim para enterrar.
A hipótese mais plausível é terminarmos perdidas no espaço, flutuando entre as estrelas, disse Tia.
Fantástico. Obrigada por esclarecer.
Mas provavelmente não morreríamos. Pelo menos por alguns milênios, acrescentou ela.
Melhor ainda. Bom, garotas, vamos botar o bloco na rua, falei.
— Vocês dois vão ficar bem, aqui? — perguntei enquanto íamos para a escada.
— Tenho alguns contatos na área, que podem trazer alguns suprimentos para nós — respondeu Hassan.
Assenti, um tanto deprimida com a ideia de deixar os dois para trás.
Subindo a escada, notei que nem precisava da minha visão noturna. A passagem acima tinha sido deixada aberta. Pus a mão na faca enquanto saía, examinando o deserto nas duas direções, mas relaxei quando vi Ahmose agachado na areia, traçando sulcos com a ponta dos dedos, enquanto os três unicórnios observavam, curiosos.
Quando nos viu, ele se levantou e veio até mim.
— Nebu e Zahra vão nos levar. Kadir vai ficar aqui e ajudar caso Hassan e sua avó precisem.
— Entendi — respondi, ajeitando os ombros e indo na direção do unicórnio que trotava até mim. Parecia que dessa vez eu montaria Zahra. Saltei em seu dorso, virei-me, dirigi um sorriso débil a vovó e lhe entreguei a Pena da Justiça. — Me desejem sorte.
— Cuidem da minha Lily, meninas — disse ela.
Tia ia responder, mas a múmia foi mais rápida.
— Juro protegê-la com minha alma eterna — disse ele quando Nebu se aproximou trotando e parou ao meu lado.
Vovó assentiu, tensa, ao passo que eu me limitei a erguer uma sobrancelha.
A múmia levantou os braços e começou a entoar um encantamento:

Grandes ancestrais que repousam nas tumbas,
Vocês construíram este local,
Vocês encontraram o descanso,
As paredes que ergueram ruíram em pó,
Mas o poder de que as imbuíram resiste.
Emprestem sua força a esta fortaleza.
Escondam-na de nossos inimigos.
Protejam-na d’Aquele Que Desfaz,
Daquele que nunca dorme.
Assim como obedeceram aos seus faraós,
Obedeçam-me agora.
Sirvam aos deuses,
Sirvam aos Filhos do Egito,
E seus corações serão pesados com benevolência
No dia do julgamento.

Um ribombo sacudiu o chão e pequenos bolsões de areia sibilaram por toda a área, num círculo amplo. Alguma coisa se moveu sob a areia e arquejei quando dezenas de cobras emergiram, os corpos pretos se retorcendo. Elas se posicionaram, extremidade contra extremidade, criando um vasto círculo de répteis em torno do templo. Depois escancararam a mandíbula e prenderam com ela a cauda da que estava à frente. Assim que todas se viram unidas, imobilizaram-se e viraram pedra.
— Eles... eles podem atravessar o círculo?
— Está se referindo à sua avó? — perguntou ele.
Assenti com a cabeça.
— Não é recomendado atravessar a fronteira, mas os espíritos dos mortos não vão lhes fazer mal.
Olhei para vovó, que tinha a respiração acelerada, mas ela me ofereceu um sorriso brilhante, ainda que não totalmente genuíno, e acenou.
Depois de devolver o gesto, o homem saltou nas costas de Nebu.
— Precisamos ir agora, Lily. Não se preocupe com eles. Por ora, estão em segurança.
Com isso Nebu girou e correu na direção de uma duna, que se abriu como a boca de uma caverna. Zahra o seguiu e eu me virei para olhar vovó até mergulharmos na escuridão logo atrás dele.


Mesmo com nossos sentidos combinados, eu não conseguia enxergar.
Nem minha mão na frente do rosto nem a crina reluzente do unicórnio. Por fim, pude discernir uma luz fraca a distância e uma forma escura se movendo na frente dela, que presumi que fosse Nebu. Zahra me garantiu que a escuridão era natural nessa passagem, mas cada parte de mim se lançava na direção da luz.
Quando saltamos da escuridão para a luz do sol, esperei que o terreno fosse semelhante ao da Estrada Menos Percorrida, mas essa paisagem era totalmente diferente. Era quase... alienígena. Não. Era alienígena. Emergimos na abertura de uma caverna na face de uma montanha dando para um vasto vale. Um rio brilhante serpenteava na planície adiante, ondulando para um lado e para outro, mas a água não era azul. Era violeta.
Árvores altas estendiam os galhos amplos, mas sua forma era parecida com guarda-chuvas. Ao nosso lado havia uma espécie de cacto espinhento com braços que se afastavam fazendo-o parecer um pouco um lustre Chihuly de cabeça para baixo. Plantas pontudas, quase pretas, eram encimadas por flores cor de ouro que exalavam cheiro de caramelo.
Os pássaros que faziam ninhos na encosta da montanha mais pareciam lagartos. As asas eram de membranas azuis pintalgadas em vez de penas e as caudas compridas e a pele dos corpos eram escamosas. Mas, quando um deles guinchou alarmado, notei que tinham penas, no fim das contas. Tinham cristas formadas por penas no topo da cabeça.
Duas luas enfeitavam o céu. Uma, avermelhada, no momento em quarto crescente, era fina e larga como o sorriso do gato de Alice. E a segunda, de um azul enfumaçado, pairava logo acima do horizonte como um olho piscando. As duas estavam visíveis apesar de um sol laranja se encontrar na posição do meio-dia.
Para onde você nos trouxe, Nebu?, perguntou Tia no momento em que o unicórnio abriu as asas, preparando-se para saltar da lateral do penhasco. Não é o mesmo caminho por onde nos levou.
Não, respondeu ele. Não é. Esta é a única passagem que permanece aberta para nós, e é a mais perigosa. As outras estão ocupadas. Os guardas de Seth destruíram a que pegamos antes. As sentinelas dele nos procuram em toda parte.
Nebu saltou do penhasco, a múmia grudada em suas costas, e Zahra rapidamente o seguiu. Dessa vez não pude desfrutar do voo como Ashleigh. Mal podia me conter para não vomitar por causa da descida rápida. Agarrei-me, desesperada, às costas de Zahra. Quando chegamos perto do fundo, os dois unicórnios pousaram, derrapando ligeiramente enquanto dobravam as asas. Diminuíram a corrida até uma caminhada e seguiram em frente, escolhendo o caminho junto ao rio com cuidado, os cascos estalando contra o leito de pedras lisas e multicoloridas que cintilavam ao sol alienígena.
Por que não continuamos voando?, perguntei a Zahra.
Existem criaturas aqui que nos devorariam. Para elas, carne de unicórnio é uma iguaria.
Então não faria muito mais sentido sairmos daqui o mais depressa possível?
A distância é longa demais até mesmo para um unicórnio percorrer rapidamente. Além disso, a vegetação fica... agitada quando os animais se movem muito depressa por ela, e isso alertaria os caçadores que voam. Nossos pelos claros nos tornam alvos fáceis quando voamos neste lugar. Eles podem nos ver de longe.
Então... isso que dizer que vamos andar a passo de lesma?
Não tão lento, mas sim. Aqui prosseguimos com cuidado. Vamos levar boa parte de uma das suas semanas para percorrer esse caminho. Mais, se a fauna nos atrapalhar.
Não sei bem o que eu esperava, mas não era ficar longe por tanto tempo. Em termos de roupa não seria problema, graças às minhas habilidades, mas não tínhamos outros suprimentos. Minhas duas companheiras interiores não pareciam muito preocupadas. Olhei o rio púrpura e engoli em seco, já com sede. Não trouxemos nenhuma comida, eu disse ao unicórnio.
Podemos pastar, respondeu Zahra.
Nós vamos caçar, disse Tia.
É, vocês vão caçar, ecoou Zahra. Vamos dizer a vocês que animais são comestíveis e não vão caçar vocês de volta. Não são muitos, mas há gramíneas comestíveis e peixes no rio. Alguns nem mordem.
Perfeito. De repente eu estava repassando todos os programas sobre peixes monstruosos que tinha visto no canal da National Geographic. Beber a água do rio ficou menos atraente ainda, em especial quando percebi que todos os melões verdes e bojudos, do tamanho de bolas de basquete, espalhados ao sol eram sapos alienígenas. Eles soltavam um grito e desinflavam à nossa chegada, rolando uns sobre os outros, tentando escapar para o rio, de onde nos olhavam cheios de suspeitas, piscando os olhos amarelos do tamanho de bolas de pingue-pongue.
Continuamos por várias horas percorrendo o cenário daquela mistura de um episódio de O elo perdido com um de My little pony. Passei o tempo fazendo perguntas ao unicórnio num esforço para não ouvir Tia. Ela ficou magoada porque eu a estava ignorando, mas tudo o que ela falava parecia envolver nossa história passada juntas ou refeições sangrentas que ela devorara, e isso me deixava desconfortável.
Quando não estava conversando com o unicórnio, eu observava o homem que ia examinando o caminho à nossa frente. Ele frequentemente apeava de Nebu, andava um pouco e se agachava para estudar o chão. Seus ombros estavam rígidos e o corpo retesado, como se sentisse tanto desconforto quanto eu naquele ambiente. Mas eu tinha uma hiperconsciência da sua presença. Era como se ele fosse um silencioso pilar de fogo que se movesse ao meu redor. Às vezes estava na frente, às vezes atrás, mas eu sempre podia senti-lo ali, me vigiando.
Vovó adorava estudar a Bíblia, por isso eu conhecia a história dos israelitas seguindo Moisés pelo deserto. Não sabia se essa múmia era capaz de abrir o mar púrpura ou tirar água de uma pedra, mas não havia como negar que eu sentia uma espécie de conforto com sua presença. Eu me contentava em seguir meu pilar de fogo, ainda que meus nervos se arrepiassem quando ele chegava perto. Tia e Ashleigh confiavam nele totalmente. Ficavam irritadas sempre que eu pensava nele como uma múmia, e não como um homem, mas não me pressionavam para falar com ele.
Em uma ocasião, ele se imobilizou com a mão levantada. Nebu relinchou baixinho e inclinou a cabeça para um bosque de árvores muito sombreadas. Ouviu-se um som arrastado e uma família de animais amarelos com as costas eriçadas saiu da cobertura em direção ao rio. Meus sentidos se aguçaram, tirei o arco e disparei uma flecha sem ao menos pensar. Soltei o ar que não sabia que estava prendendo e senti como se estivesse desmoronando dentro de mim mesma. Minhas mãos tremiam enquanto eu colocava o arco de volta por cima do ombro. Dizer que estava surpresa com minha ação seria um eufemismo.
Tia? Foi você?, perguntei.
Não fui eu.
Ashleigh?
Eu também não.
Bom, não fui eu, insisti.
Nebu trotou até nós com Ahmose montado.
— O que aconteceu? — perguntou ele.
— Eu... nós não sabemos direito.
Ele inclinou a cabeça, me examinando com os olhos cinza e firmes.
— Pode me dar sua mão?
Quando fiz isso, ele a segurou e murmurou um encantamento. Depois virou-a e estudou a palma como se estivesse verificando minha linha da vida.
— Foi o poder de Wasret — disse por fim.
— Mas nenhuma de nós se lembra de ter querido atirar naquele animal. Nem Tia havia pensado em caçá-lo.
— Wasret garante a sua sobrevivência.
— Você está falando como se Wasret fosse uma pessoa.
— De certa forma ela é. — Ele deve ter visto que eu estava obviamente perturbada com essa revelação. — Venha — acrescentou. — Vamos falar mais sobre isso. Há muita coisa que você precisa entender. Este é um bom lugar para fazer um acampamento e passarmos a noite. Os unicórnios dizem que é melhor não viajarmos no escuro.
Senti-me agradecida por poder esticar as pernas. Peguei lenha para uma fogueira enquanto ele inspecionava o animal morto. Notou com interesse que eu não tinha usado uma das preciosas flechas dadas por Ísis. Como só restavam aquelas na aljava, a flecha de madeira simples com penas azuis — que estranhamente se pareciam com as que adornavam os pássaros lagartos — era muito interessante. De onde tinha vindo? Como eu soubera que precisava usá-la em vez de uma das outras?
Felizmente ele preparou a carne, e eu não precisei estripar nada. Ele acendeu o fogo estalando os dedos. Isso criou uma espécie de relâmpago nas pontas de seus dedos que logo incendiou os gravetos que eu tinha juntado.
Quando a carne estava arrumada nos espetos, o sol havia baixado e outra lua tinha subido. Essa tinha um tom de abricó. O cheiro da carne estava me dando água na boca, apesar das minhas reservas.
— Olhe aquilo — falei, apontando para o horizonte cada vez mais púrpura. — Outra lua.
Virei-me para meu companheiro e descobri que ele tinha seguido para a floresta. Nebu e Zahra haviam ido procurar um bom trecho de capim para pastar. No momento eu estava sozinha.
Claro, eu nunca ficava realmente sozinha. Tinha sempre Tia e Ashleigh comigo. Essa ideia já não me incomodava tanto. Pelo menos, não como a princípio. Acho que eu estava me acostumando a tê-las comigo.
— Acho que somos só nós, meninas — falei, aparentemente cedo demais, porque logo depois Ahmose emergiu das árvores carregando uma bolsa de couro que pingava.
— O que você tem aí? — perguntei.
— Água — respondeu ele, me entregando a bolsa.
Peguei-a, olhando desconfiada.
— Ela é... hã... roxa? — perguntei.
— É. Essa é a cor natural da água neste mundo, mas é limpa. Eu a invoquei do céu e ingeri um pouco. Os unicórnios garantem que é segura para beber.
— Ah! — exclamei, depois de um gole hesitante. — É doce. — Tornei a virar o odre, bebendo com sofreguidão.
— Também acho deliciosa. — Ele sentou-se ao meu lado e se inclinou para virar a carne.
— Então você pode invocar água de uma pedra, é? — perguntei, enxugando a boca. — Acho que acertei na mosca com a analogia de Moisés.
— Esqueço que você não se lembra dos meus poderes. Um dos meus muitos nomes é Portador de Tempestades. Posso chamar o vento, a chuva e os raios.
— Isso é útil.
O sorriso dele foi discreto, fino como a lua crescente acima de nós.
— É sim, de vez em quando.
As chamas da pequena fogueira dançavam nos olhos dele como uma pedra preciosa azulada, acenando do fundo das profundezas cinza como a tempestade. Tive a impressão de que havia muitos segredos escondidos atrás daqueles olhos. Talvez até um tesouro à espera de um caçador com ousadia suficiente para procurá-lo. Também senti não perigo, mas movimento, como se uma maré se agitasse através dele, desafiando qualquer um a nadar sem ser puxado para baixo. Apesar de na superfície ele parecer imóvel e calmo como um lago congelado, havia mais coisas naquele homem. Muito mais.
— Então — falei —, já que vamos nos conhecer de novo — estendi a mão para ele —, eu sou Lily. Prazer em conhecê-lo.
Ele segurou minha mão, mas não para apertar. Pegou-a gentilmente e depois soltou, quase com relutância, nossos dedos se demorando apenas um instante a mais. Então sorriu, e foi um sorriso pleno e genuíno e — observei — lindo como um soneto de amor. Sua expressão de solenidade tinha sido expulsa pelo sorriso, como se as duas coisas não pudessem existir simultaneamente.
— É um prazer conhecê-la de novo, Lily. Meu nome é Ahmose.
— Ahmose. Gosto dele. — Dobrei os joelhos e os envolvi com os braços. — Mas não é seu único nome. Você disse que Portador de Tempestades é um deles. Tem outros?
— Sim. Tenho muitos. Desbravador é outro.
— O meu superpoder é o de descobrir nomes, você sabe.
— Wasret tem muitas habilidades.
— Certo. Por falar nisso, qual é a sua teoria sobre esse negócio de eu ter matado a criatura alienígena? — perguntei, indicando a carne no espeto.
— Acho... — Ele parou, me olhou, depois se inclinou para tirar a carne do fogo. Soprou-a antes de me entregar. — Cuidado, está quente.
— Continue — pedi, mordiscando a carne. O gosto era um pouco de porco selvagem. — Você disse que achava que Wasret era um ser separado de nós.
— Talvez “separado” não seja o termo adequado, porque não acredito que ela possa existir sem você, pelo menos não totalmente. Wasret é você, mas é as três juntas. Ela só existe quando vocês estão unidas.
— Bom, certo, já sabemos disso.
Tirei um naco de carne com os dedos e enfiei na boca, mastigando com prazer e lambendo o polegar.
— Não, não sabem. De verdade, não. Lily, eu tracei o seu caminho e no fim da jornada, a jornada em que você derrota Seth, só existe Wasret. Tia, Lily, Ashleigh... Vocês três deixam de existir. Wasret nasce de vocês. Seus pensamentos, sentimentos, desejos são algo que ela pode acessar, mas ela não é vocês. Nenhuma de vocês, não totalmente.
Engoli em seco, a carne se prendendo em minha garganta. Tia e Ashleigh foram tomadas pelo mesmo medo frio que eu sentia.
— Vamos desaparecer completamente? Você... tem certeza?
— Tenho tanta certeza em minhas habilidades quanto tenho ao usar minha maça.
— Então você parece ter bastante certeza — falei olhando o fogo, tendo praticamente esquecido o espeto com a carne.
— Se serve de consolo, sinto muito ser o portador dessa notícia. Sei que deve ser traumático para você, que já está numa condição frágil...
— É. — Coloquei o espeto na pedra, de modo que ele terminasse de comer minha parte, e forcei meu rosto a assumir uma forma patética de coragem. — Se nos der licença. Eu... nós... precisamos ir ao toalete feminino.
Quando ele franziu a testa, confuso, acrescentei:
— Não vamos demorar.
Ele pareceu pensar e assentiu com a cabeça.
Depois de ter passado da linha das árvores, comecei a correr. Minha respiração era pesada. Meus sentidos estavam aguçados e ouvi o pio distante de um pássaro alienígena, os sons ásperos dos roedores no subsolo e o farfalhar de alguma coisa se movendo no capim. Com raiva dessa capacidade aumentada e nesse momento não querendo nada mais do que ser apenas humana, tentei contê-la e desligá-la. Ofeguei com o esforço e o pânico brotou no meu peito. As palavras de Ahmose tinham estrangulado de modo eficaz a pequena semente de esperança que eu havia alimentado de sair bem do outro lado dessa história.
Demorei alguns instantes para perceber os raios dourados de luz que se acenderam atrás de mim como refletores seguindo um ator no palco. Cambaleei e diminuí a velocidade, virando-me para ver os destroços que eu tinha provocado no terreno. A luz das três luas fazia a paisagem reluzir como o interior da concha de uma ostra. Plantas de todos os tipos, que antes eram verdes ou de um roxo esverdeado, haviam explodido em cores. Eram iluminadas por dentro, como se alguém as tivesse pintado com tinta fosforescente e as luas agissem como luz negra.
Não somente havia um caminho longo e iluminado marcando a trilha por onde eu tinha vindo, como as plantas se inclinavam na minha direção. Ouvi uma pancada quando algo atingiu minha capa. Puxei o tecido e vi que uma fruta grossa tinha sido jogada contra mim. Mais ou menos do tamanho de um tomate, era mole e carnuda e aparentemente se rompia com facilidade. Tinha explodido com o impacto e caído no chão, deixando um rastro de sumo pegajoso e sementes.
Hesitante, recuei alguns passos e outra planta cuspiu em mim, mas dessa vez espinhos. Um deles furou o tecido grosso que cobria minhas coxas.
— Ai! — gritei, arrancando da perna um espinho do tamanho de uma agulha de costura e largando-o.
Precisamos nos mover devagar, lembrou Tia. Nós agitamos as plantas. O unicórnio alertou sobre isso.
Certo. Devagar.
Com passos controlados, saí do caminho da fauna reluzente e segui pela escuridão, deixando minha visão noturna funcionar. Mantive as plantas luminosas à vista, mas me movia a uma distância suficiente para que elas não pudessem atirar suas frutas ou seus espinhos em mim. Até que, uma a uma, as luzes foram se apagando e me vi no escuro de novo, tendo apenas meus sentidos para me guiar pelo caminho por onde tinha vindo. Isso não seria problema, já que uma leoa pode seguir os cheiros como ninguém.
Fui andando, cuidadosa com meus passos, movendo-me em silêncio, até que senti alguma coisa. Uma presença animal na floresta. Era um predador. E dos grandes.
Precisamos correr, disse Tia.
Não, precisamos nos esconder! Subir numa árvore!, gritou Ashleigh.
Se corrermos, as plantas atacam, eu disse.
Melhor as plantas do que a fera, argumentou Tia.
Concordei com ela e comecei a correr.
Estávamos perto. Faltava apenas um ou dois minutos para alcançarmos o acampamento. Entramos na área coberta por vagens grandes e bulbosas e, quando corremos através delas, o animal que nos caçava ficou para trás e abandonou a perseguição. Eu já ia soltar um suspiro de alívio quando uma das grandes esferas se ergueu de súbito à nossa frente, reluzindo amarela, a luz pulsando. Exalava um cheiro intenso. Como de terra revirada e flores.
Lentamente dei um passo para trás, e mais outro, mas então o bulbo se abriu, descascando brilhantes pétalas alaranjadas. Era a maior flor que eu já tinha visto na vida. O cheiro era celestial. Como morangos cobertos de chocolate. Um néctar denso pingava dela. Mas, por mais bonita que fosse, eu sabia que precisava sair dali.
Recuei mais um pouco, mas um grande estame laranja disparou e se enrolou no meu braço. Era forte. Mais forte do que eu. Puxei, mas ele me segurou com força. Levei a mão às costas e peguei a faca, levantando-a acima da cabeça. E então agulhas minúsculas saltaram das folhas da flor.
A maioria acertou minha capa, mas um bom número atingiu minha mão e meu pescoço. Cambaleei e consegui usar a faca para livrar o braço, no entanto mais dois apêndices inchados dispararam para substituir o que eu tinha cortado. E o que quer que houvesse nas agulhas funcionou rápido.
Logo, era somente a planta que estava segurando meu corpo de pé. Antes que meus olhos se fechassem, tentei gritar chamando Ahmose e Nebu, mas meus lábios estavam entorpecidos e eu nem conseguia mais sentir o rosto. Tia já estava desacordada, o que achei interessante. Pensava que nós três ficaríamos inconscientes ao mesmo tempo. A voz de Ashleigh foi a última coisa que ouvi antes de perder os sentidos também. Na mente dela, repetidamente, Ashleigh gritava um nome: Ahmose.

8 comentários:

  1. Karina é o meu celular ou o capitulo está se repetindo ?

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    1. Aqui está normal! Se você entrar de novo e continuar repetindo, me passe os links da postagem por favor, que aí corrijo isso.

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    2. http://www.bloglivroson-line.com/2018/03/6-um-mundo-de-distancia.html?m=1

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  2. oi boa noite aqui tambem esta repetido😭😭

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  3. No capítulo anterior está o cinco e o seis juntos. E aqui tá repetindo o seis!

    Flávia

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    1. Ahh entendi! Então tenho que corrigir o cap anterior. Obrigada!

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  4. Tenso :|

    A Lily no segundo livro me enchia por ser tapada... Agora me irrita por não lembrar -.-" E ficar chamando ele de múmia u.u

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  5. Essa lily tá muito chata

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Boa leitura, E SEM SPOILER!