8 de março de 2018

5. Convocação

Poeira levantada pelo unicórnio e pânico se misturaram, deixando um gosto amargo em minha língua, mas, quando olhei o animal com atenção, fui tomada por um sentimento de espanto e reverência. Quando ele sacudiu a crina, ela reluziu de forma quase angelical, como se tivesse sido tocada pela luz que atravessara o vitral de uma catedral. Em todo o mundo, em todos os livros que eu tinha lido, não podia imaginar uma criatura mais etérea e linda.
Olá, leoa, disse em minha mente o animal, batendo os cascos.
Saudações a você também, unicórnio, respondeu Tia.
Ah, ele é lindo!, exclamou Ashleigh.
Esperem aí, ele consegue escutar vocês duas?, perguntei, afastando-me do focinho úmido e aveludado do unicórnio. Meu movimento não o desencorajou. Ele rapidamente diminuiu o espaço entre nós, voltando a pressionar a cabeça contra mim. Era quase como se ele não conseguisse se conter. Fiquei espantada com sua naturalidade e seu sentimento de familiaridade comigo.
Parece que sim, respondeu Tia. Interessante. Antes ele não podia me ouvir sem a sua ajuda, embora pudesse sentir minha presença. Parece que agora nossas vozes são audíveis para os seres imortais, até mesmo os mais simples, como os unicórnios. E não dê atenção a ele, Lily. Ele tem uma queda por jovens virgens.
Cuidado aí, leoa, alertou ele, os olhos cintilando. Você pode ter provado que é uma companheira digna para Lily, mas ainda não ganhou minha confiança.
Então tentarei conseguir isso, especialmente porque temos uma grande necessidade no momento. Lily... esqueceu de tudo.
Esqueceu de tudo? O unicórnio resfolegou e sacudiu a crina. Como é possível?
A mente dela se fragmentou quando voltamos para o mundo mortal, disse Tia.
Hã, olá, eu estou aqui e posso falar por mim mesma. Em voz alta, falei:
— Então... é, eu esqueci tudo sobre essa história do Egito. Não estou... bem... incapaz de fazer nada, só...
Ela não se lembra de Amon, interrompeu Tia em tom sério.
O unicórnio virou a cabeça para me espiar com seus olhos de cílios grandes, que se estreitaram com inteligência. De perto ele cheirava a luz de estrelas, brisas noturnas e um deserto no inverno. Seu olhar me deixava desconfortável; mudei o peso do corpo para o outro pé. Os 5 centímetros de distância que ganhei não eram muita coisa, mas mesmo assim respirei mais facilmente.
— Bem, este é o Dr. Hassan e esta é Melda, minha avó — falei, apontando meus dois companheiros.
O Dr. Hassan estava tomando notas o mais rápido que um ser humano era capaz e fazendo um esboço rudimentar do grande animal. Dava para ver que ele tinha mil perguntas para fazer. Vovó havia empurrado o chapéu para trás e cobria a boca com os dedos. Eu quase podia ouvir o Ora, eu nunca!, apesar de ela estar se contendo para não dizer. Indicando os dois, acrescentei:
— Precisamos de uma carona para o Egito. Temos de despertar as múmias para elas nos ajudarem a lutar contra a criatura do mal.
Os unicórnios não são cavalos que podem ser montados à vontade.
Recuei rapidamente. A última coisa que queria era irritar um unicórnio.
— Não, eu não quis dizer isso. — Virando-me para vovó e o Dr. Hassan, acrescentei: — É melhor nos darem um minuto.
Eles se afastaram e esperaram, vovó sussurrando perguntas para o Dr. Hassan.
O unicórnio fez meia-volta, preparando-se para ir embora.
Você está com medo, Nebu, acusou Tia.
Tia!, sibilei mentalmente, mas ela me ignorou.
Não tenho medo de nada, rebateu ele, virando-se. Nem a morte pode romper minha integridade.
Mas você está inquieto, insistiu ela. Houve um momento de silêncio enquanto Tia assimilava o que nossos sentidos nos diziam. Você... você teme Aquele Que Desfaz, disse ela finalmente. O fedor do medo está no seu pelo. Nem pense em negar.
O unicórnio ergueu a cabeça para o sol, como se procurasse sua bênção. Quando a baixou, disse: Esta é uma batalha que não podemos vencer. Se Seth descobrir que estou ajudando vocês, vai desfazer todos os meus filhos. Não posso correr esse risco. Sou o único protetor deles.
Às vezes proteger significa entrar na batalha, interveio Ashleigh.
Nebu bateu com as patas no chão, depois nos cutucou com a cabeça, fazendo-me cambalear ligeiramente.
Os deuses já tiraram minha alma, a que eu amava acima de todas as outras, e tiraram meu alicórnio. Por que eu deveria arriscar minha família para ajudá-los? Se vocês têm um bom motivo, digam.
Eu já ia dizer a Tia Eu avisei: deixe o unicórnio para lá, quando ela falou:
Não posso justificar as ações dos deuses. Os leões foram castigados por eles também, mas sou capaz de olhar para fora de mim e do meu bando. Você não pode fazer o mesmo?
Bobagem. Você viveu como humana por tempo demais. Começou a pensar como eles, disse Nebu. Tudo que me importa são meus filhos, eles são a única esperança que me resta. Como posso colocá-los em perigo? Evitar a guerra e a ira de Seth é o melhor conselho que posso dar à manada.
Eu não esperava esse tipo de covardia da parte de um unicórnio.
Se eu pudesse ter acenado mentalmente para calá-la, teria feito isso. Estava claro que Tia e o unicórnio haviam tido um relacionamento anterior, ainda que tivesse sido volátil. Tudo que pude fazer foi engasgar, ficar tensa com a discussão deles e esperar que ela soubesse o que estava fazendo. Mesmo sem um alicórnio, um garanhão daquele tamanho poderia nos transformar em pó.
Talvez, então, você espere demais, disse o unicórnio afinal. Como vou atacar sem um chifre? Sem poder? Estou mutilado. Preso a grilhões. Com o que vou lutar?
Lute com dentes e cascos. Com a força dos membros e do coração, como qualquer outro animal!, exclamou Tia.
O unicórnio inclinou a cabeça.
Força do coração. Como um coração pode ser forte quando está partido? Você sentiu o gosto do primeiro amor, jovem leoa. Ele a encheu de coragem, talvez, e de sonhos. Eu me pergunto: se você tivesse perdido aquele que amou, até que ponto estaria ansiosa para abraçar suas convicções?
Essa declaração me paralisou.
Espere aí. Você está apaixonada, Tia? Por quem? Quando isso aconteceu?
Ela me ignorou de novo.
Você é um animal grandioso, disse Tia, mas os seres grandiosos nem sempre são sábios. Não se engane. Seth pretende destruir todos nós. Mesmo que você sobreviva até o final, ele irá pegá-lo. E, quando fizer isso, você vai encontrar a morte sabendo que poderia ter sido um herói, mas em vez disso escolheu o caminho do medo. Você prefere se esconder num buraco, como um camundongo digno de pena tentando aprofundar o túnel enquanto a cobra espreita junto à porta, a se arriscar à morte na caçada mais gloriosa. Você não é a criatura que eu pensava.
Não podemos vencer, leoa. Ele é poderoso demais.
Mas você não vê, Nebu? Não importa se vencemos ou perdemos. Não temos controle sobre como será nossa morte. Só podemos escolher como vivemos. Além disso, vencer não faz heróis. Os heróis surgem dos que lutam.
A árvore das fadas sempre me dizia que há segurança em nos proteger uns aos outros, e, se fizermos isso, podemos suportar qualquer coisa. Não quer lutar com a gente?, perguntou Ashleigh com esperança. Por favor?
O unicórnio resfolegou e bateu com as patas enquanto girava e voltava correndo para a árvore. Depois escoiceou, sacudiu a cabeça, retornou e nos rodeou, trotando. Por fim, veio até mim e tocou o nariz no meu ombro. Quando levantei a mão para fazer carinho no seu pescoço, ele fechou os olhos e suspirou baixinho.
Muito bem, disse finalmente. Vou com vocês e vou pedir a dois dos meus filhos que queiram se voluntariar para ajudar os dois. O restante da manada vai permanecer escondido. Não vou colocá-los em perigo. Espero que vocês estejam certas. Pelo nosso bem.
Fico feliz que você tenha recuperado pelo menos um pouco do seu senso de cavalo.
Devo lembrar que sou tão diferente de um cavalo quanto você é de um gatinho doméstico. Agradeço se demonstrar o respeito que eu mereço.
Quando você fizer alguma coisa para merecê-lo, farei isso.
— Obrigada — eu disse rapidamente, dando um tapinha no ombro do animal, esperando interromper a discussão.
O unicórnio sacudiu a crina.
De nada, Lily. Venha, vamos despertar os Filhos do Egito. Levantando a cabeça, ele assobiou, um som lúgubre, agudo, que fez meu coração estremecer no peito. No tempo de dois batimentos cardíacos ouvimos o galope fantasmagórico de criaturas do outro mundo.
Uma égua dourada e outro garanhão saltaram do coração da árvore e se aproximaram do líder, relinchando baixinho e balançando a cabeça para cima e para baixo. Chamei vovó e a levei até a égua, cruzando os dedos para que ela apoiasse o pé. Vovó agarrou a crina reluzente com os dedos e deu um tapinha no pescoço esguio do animal.
— O nome dela é Zahra. Ela gosta de você — falei. — Diz que fica feliz por ter uma amazona experiente.
— Lily — disse vovó, curvando-se —, pensei que fossem unicórnios.
— E são.
— Então onde estão os chifres?
— Tia está dizendo que é uma longa história. Ela vai contar a você mais tarde, mas basta saber que eles foram cortados.
— Cortados? Ah, coitadinha. Não se preocupe nem um pouco com isso. Você é a criatura mais linda que já tive o prazer de montar, não querendo me desfazer do velho Bob. Ele é um bom cavalo. Mas você é muito mais do que um cavalo, não é, querida?
Deixei vovó falando carinhosamente com seu unicórnio e ajudei o Dr. Hassan, que não estava nem de longe tão à vontade quanto vovó ao montar o animal.
— O nome dele é Kadir — falei. — Diz que, se segurá-lo com força e mantiver as pernas apertadas contra seus flancos, ele não vai deixá-lo cair.
— Sim, bem, vou tentar me esforçar ao máximo — disse o Dr. Hassan.
Já ia me afastar quando Tia sugeriu que eu desse um aviso a ele.
— Tia diz que talvez fosse bom o senhor colocar o chapéu na bolsa. Se perdê-lo nessa viagem, não teremos como voltar para pegar.
— Vou me lembrar disso.
Enquanto ainda dizia isso, tirou seu precioso chapéu, passou a mão pelos cabelos brancos e densos e ponderou sobre o aviso.
Segurei a crina do unicórnio e saltei em suas costas com relativa facilidade.
Você não se lembra mesmo de mim, Lily?, perguntou Nebu enquanto eu me acomodava.
Não, sinto muito.
Eu também sinto. Gosto de pensar que o tempo que passamos juntos foi marcante.
Não tenho dúvida de que foi, falei.
No entanto, há algo positivo em ter uma segunda chance de causar boa impressão à primeira vista.
Com isso, o unicórnio empinou, batendo os cascos brilhantes no ar, e correu na direção da abertura na árvore. Parecia estreita demais para seu corpo, mas, no tempo que levei para levantar a mão querendo me proteger do impacto, tínhamos passado.
Tudo virou pelo avesso, como se agora o mundo inteiro fosse um negativo fotográfico. O campo luminoso, que tivera uma doçura quase de manhã de domingo, ficara frio e escuro. Era como se tudo de saudável e bom no mundo tivesse sido levado para longe, deixando apenas as partes mofadas, indesejadas, que ficavam por baixo. Estávamos galopando por um bosque, mas, em vez de copas cheias de folhas e brotos, os troncos eram nus e esqueléticos, com os galhos compridos se estendendo para cima, como se implorassem pela morte à lua fria e azul lá em cima.
Onde normalmente estaria uma fazenda com plantações eu via campos de sangue que mostravam uma única cor na paisagem soturna. À medida que chegávamos mais perto, vimos que na verdade eram cobertos por minúsculas flores vermelhas, mas esse fato não fez com que eu me sentisse melhor. Ashleigh e Tia compartilhavam a minha preocupação. Então pequenos flocos de neve começaram a cair, mas, em vez de derreter quando tocavam o calor da minha pele, eles ardiam como cinzas quentes.
Unicórnio, que lugar é este?, perguntei, arrepiada com o fato de não ouvir um único pássaro ou folha se mexendo ao vento. A floresta estava silenciosa e era como se o campo enlanguescesse numa meia-noite eterna, quando somente os mortos se aventuravam a sair.
Me chame de Nebu, respondeu o garanhão. Este não é um caminho que eu escolheria normalmente, mas é o que se pode chamar de atalho. Achei melhor pegar a Estrada Menos Percorrida, para evitarmos atenção indesejada.
A Estrada Menos Percorrida. Uma terrível premonição tomou conta de mim, feito uma ponta de lança afiada como navalha se retorcendo nas minhas entranhas. Tremi, com medo do que estaria adiante. O frio penetrou em mim e levantei o capuz forrado de pele sobre a cabeça, exprimindo gratidão a Ashleigh por ter tido aquela ideia.
Hassan e vovó me ladeavam, galopando, silenciosos. Até minhas companheiras interiores estavam silenciosas. Continuamos sem descansar por várias horas. Por fim, quando pensei que Nebu poderia parar e nos dar uma folga, ele informou que estávamos perto do destino. O caminho se estreitou e as árvores ao redor, os troncos mais espessos com a camada do musgo de inverno, cruzaram os dedos acima de nossas cabeças, entrelaçando-se cada vez mais, até que já não podíamos ver o céu sombrio através de suas copas.
Corremos pelo túnel que a cada instante se tornava mais escuro. Os galhos pontiagudos das árvores se projetavam como uma massa de dentes afiados, fazendo com que o caminho escuro parecesse mais um monstro faminto de boca aberta. Então mergulhamos pelo centro daquela boca e batemos numa barreira quase viscosa.
Ao chegarmos do outro lado, senti o calor do sol tocar meu corpo antes de conseguir ver qualquer coisa. Doía na minha pele fria, mas era doloroso de um modo quase bom, como afundar numa banheira com água quente demais. A gravidade mudou e, justo quando irrompíamos num céu matinal, percebi que estávamos muito acima do que eu presumia que fosse o Egito, e que estávamos caindo.
O vento soprava forte à minha volta e escutei vovó e Hassan gritando. Nesse momento Nebu abriu suas asas pesadas. Nivelamos o voo e Ashleigh gritou com um deleite tão grande que pude abandonar o medo e apreciar o voo junto com ela, ainda que minhas coxas doessem de tanto apertar os flancos de Nebu. Eu não sabia se um dia conseguiria desembaraçar meus dedos de sua crina.
Hassan devia ter dado instruções ao unicórnio, porque fizemos uma curva, virando para leste, onde o sol tinha acabado de cruzar o horizonte, tingindo a terra de rosa e laranja. Pousamos na areia do deserto, longe de qualquer uma das cidades do Egito moderno. Gigantescas pedras esculpidas se espalhavam no local, onde antes devia ter existido um templo. Empilhavam-se como peças perdidas de um quebra-cabeça, seus segredos havia muito esquecidos ainda a serem descobertos.
— Onde estamos? — perguntei enquanto tentava me livrar da sensação bamba nas pernas.
Até vovó, por mais experiente que fosse, parecia meio exausta depois daquela cavalgada.
Hassan estava tão ansioso para nos levar aonde precisávamos ir que tropeçou ao descer de sua montaria. Nós o ajudamos a ficar de pé e ele lançou um olhar sem graça para vovó antes de responder.
— Estamos num templo abandonado a uns 45 minutos de Luxor. Eu trouxe os rapazes para cá e ia transportar dois deles para outros esconderijos, mas não tive tempo. Como vocês sabem — disse ele, me dirigindo um olhar significativo —, estivemos um bocado ocupados ultimamente.
Ele largou a bolsa perto de uma das estruturas ainda de pé. Ela caiu na areia como massa de pão numa bancada cheia de farinha. A poeira sépia  subiu como uma nuvem, caindo suavemente à nossa volta e cobrindo nossos sapatos. A primeira coisa que ele fez quando abriu a sacola de couro foi tirar o chapéu e colocá-lo na cabeça.
Bom conselho, falei a Tia.
Em seguida, Hassan pegou uma ferramenta na bolsa e a encostou com cuidado em uma série de hieróglifos, limpando a superfície da pedra com um pincel macio antes de apertar o último. A pedra estremeceu, a poeira caindo como uma cascata ao seu redor, e se deslocou, revelando uma abertura.
— Venham — chamou Hassan, guardando a ferramenta de volta e pegando a bolsa.
Descemos para o espaço escuro no subsolo e a temperatura baixou pelo menos 15 graus depois de apenas alguns degraus. Colunas altas e esculpidas sustentavam o que restava do teto do templo, lançando sombras profundas na escassa luz que entrava pela abertura. Passei as mãos na superfície de pedra e pisquei rapidamente enquanto meus olhos se acostumavam. Uma luz esverdeada e fantasmagórica iluminava o espaço e eu podia enxergar com facilidade o ambiente.
A abertura de pedra acima de nós se fechou, mas mesmo sem luz eu podia enxergar.
Visão noturna?, perguntei a Tia.
Os leões naturalmente enxergam melhor do que os humanos no escuro.
Vovó tropeçou, esbarrando em mim, e estendi a mão para ajudá-la. Guiei Hassan com minha voz, dizendo quantos degraus ainda faltavam para ele, e então um facho de luz rompeu a escuridão quando ele acendeu uma lanterna.
Quando chegamos à base da escada, ele nos guiou até uma sala e começou a acender tochas. Mesmo antes disso pude perceber com facilidade as formas à minha frente. Três sarcófagos cobertos por gravuras e pinturas elaboradas encontravam-se sobre suportes altos. Quando Hassan acendeu a primeira tocha, minha visão deixou de ser noturna, que era uma espécie de jogo com tons de cinza-esverdeado, para revelar o espectro total de cores. Era magnífico.
Senti vontade de estender a mão, tocar o sarcófago de madeira polida mais próximo de mim e traçar com os dedos o escaravelho pintado em cores vivas que adornava sua superfície. Circulando-o, franzi a testa enquanto examinava a representação de uma batalha perto das pirâmides, na lateral. Meus olhos se estreitaram quando vi uma garota de pé com um rapaz no topo de uma pirâmide. Na tampa do sarcófago, onde uma múmia estaria com os braços cruzados e o rosto em repouso, vi não uma, mas duas figuras envoltas num abraço.
A mulher tinha cabelos compridos e escuros entremeados por mechas louras. Seu rosto estava de perfil e cobria metade da imagem do homem, mas, diferentemente dela, ele fora pintado olhando para a frente. Uma sobrancelha escura, elegante como a asa de uma ave em pleno voo, arqueava-se sobre um olho verde brilhante que parecia me atravessar. Atrás dele, como se fosse um halo, via-se um sol. Seus lábios cheios estavam apertados, como se houvesse algo que ele precisasse dizer mas não pudesse. Que tabernáculo lindo para abrigar os ossos de um morto.
— Este é Amon — disse o Dr. Hassan. — Vocês precisam usar seu poder para invocá-lo. Não podemos chamá-lo como antes porque nenhum de nós está com o Olho de Hórus.
— Mesmo se eu soubesse o que é isso, não me lembraria de como usá-lo.
— Você pode, Lily — disse ele. — É como chamar o cão do inferno. Você só precisa descobrir o nome verdadeiro dele.
— Como vou descobrir? Primeiro preciso olhar a alma da pessoa. Tia já sabia o nome do cão do inferno, e esse cara não está exatamente aqui, para me dar uma dica.
O Dr. Hassan pensou nisso por um momento.
— Talvez ajude se você o vir.
Ele começou a mexer na tampa do sarcófago e uma espécie de horror me dominou.
— Oscar — disse vovó, segurando o pulso dele gentilmente —, não sei se essa é a melhor ideia.
Ele parou, olhou para ela e depois para mim.
— Você já os viu antes em suas formas decompostas.
— Posso ter visto, mas não lembro.
Vovó insistiu:
— Além disso, ela não o amava na ocasião.
Arrastei os pés.
— Tecnicamente, eu também não o amo agora, portanto... se acha que vai ajudar...
Vovó me lançou um olhar de pena, mas assentiu, se aproximou e passou um braço pelos meus ombros. Arrepios percorriam meus braços e pernas quando a tampa caiu no chão com um baque. Gentilmente o Dr. Hassan tirou as ataduras que cobriam o rosto do homem morto e sinalizou para que me aproximasse.
— Não é tão ruim assim — disse ele. — Anúbis tem muita experiência em preservar a carne.
Engoli em seco e respondi:
— É bom saber.
Então dei alguns passos hesitantes em sua direção. Por baixo das ataduras brancas havia um rosto. Mesmo na morte as feições cinzeladas eram bonitas. Ele parecia uma estátua meio acinzentada de um deus egípcio e entendi por que podia ter me sentido atraída por ele. Fiz o maior esforço que pude, mas não consegui me lembrar de absolutamente nada sobre aquele homem deitado ali. Como era a voz dele? Ele era uma pessoa séria? Melancólica? Tínhamos alguma coisa em comum? Ele possuía senso de humor? Eu não conseguia imaginar nós dois juntos em nenhuma situação. Surpreendentemente, Tia nada disse. Pelo jeito, queria que eu tentasse deduzir tudo isso sozinha.
— Você consegue? — perguntou Hassan, interrompendo meus pensamentos.
— Vou tentar — sussurrei.
Ele indicou que, quando o hálito de sife — o que quer que isso fosse — se agitasse, vovó deveria ajudá-lo a liberar os poderes da múmia abrindo os jarros canópicos que ele havia guardado dentro de uma pequena abertura na base do sarcófago. Quando os dois estavam preparados, Hassan assentiu para mim.
Tia e Ashleigh fundiram suas mentes com a minha e fechei os olhos. Estendendo os braços, senti nosso poder preencher meu corpo. Com a voz de Wasret, gritei:
— Amon! — E inspirei fundo. — Convoco-o do além. Retorne à sua forma mortal. Use minha energia para guiá-lo. Venha a nós!
Esperamos, mas nada aconteceu. Levantei a cabeça e o chamei por outro nome, que Tia informou.
— Revelador, nós o chamamos. Venha!
De novo, não houve mudança. Tia e Ashleigh se separaram.
— Não está funcionando — falei.
Talvez seja porque você não consegue se lembrar dele; por isso não consegue identificar o verdadeiro nome, sugeriu Tia.
Mas esse não é o nosso poder?
É, mas nós também tivemos dificuldade para descobrir o verdadeiro nome da Devoradora, acrescentou Ashleigh.
Talvez seja mais fácil se começarmos com Asten, propôs Tia.
Não fazia diferença para mim, por isso falei a Hassan que queríamos passar para Asten. Ele assentiu e guardou os jarros da primeira múmia. Depois tirou a tampa do segundo sarcófago e puxou o tecido que cobria seu rosto. Tia rapidamente tomou a frente.
— Asten! — gritou ela, usando minha voz antes de recuar novamente, permitindo que eu assumisse a frente do palco. Seu pesar nos golpeava em ondas.
Ah. Então é este que você ama, falei. Quando isso aconteceu?
Ele... eu... é complicado, disse ela finalmente. Asten... achava que era você.
Quer dizer que ele achou que eu estava me apaixonando por ele?
Sim.
Parece que você e eu precisamos ter uma conversinha de mulher para gata, minha amiga.
Não zombe dos meus sentimentos, Lily. Eu não decidi complicar as coisas. Simplesmente aconteceu. Tentei ignorar meus impulsos por sua causa, mas... sinto saudades dele.
Enquanto Tia olhava o rosto do rapaz usando meus olhos, pude sentir as ondas de saudade que a atravessavam. E o sujeito era bonito. Talvez um pouco bonito demais, pensei. Definitivamente não fazia o meu gênero. Eu não confiava em homens assim tão bonitos. Mas gostei da covinha no queixo dele. Dava-lhe caráter.
Justo quando estávamos unindo as mentes de novo para tentar despertar Asten, uma luz tremeluzente encheu a sala. Uma deusa surgiu da luz e caiu no chão diante de nós, largando uma caixa que tinha enfiado embaixo do braço.
Então recuperou a caixa, com desespero.
— Senhora! — Hassan deu um salto à frente e a ajudou a se levantar.
O cabelo da mulher estava desgrenhado. Hematomas marcavam sua pele lisa, morena, e o vestido estava rasgado. No entanto, ela se levantou com toda a altivez que o corpo lhe permitia.
— Vocês não podem despertá-lo — disse a deusa.
Dei um passo adiante. Antes que eu pudesse fazer a pergunta, Tia ofereceu a resposta.
— Maat — eu disse —, é um prazer conhecê-la.
— Néftis me disse que você tinha bloqueado sua memória. Espero que a recupere a tempo.
Eu quis perguntar Como assim, eu bloqueei minha memória? e A tempo de quê?, mas senti medo da resposta. Em vez disso, perguntei:
— Por que não posso despertá-lo? Pensei que fosse isso que todos vocês queriam que eu fizesse.
— Você não pode despertá-lo porque o além foi invadido. Escondi os Filhos do Egito numa oubliette para mantê-los em segurança e para que vocês tenham tempo de trazê-los.
— Ah, bom, a senhora não pode simplesmente usar magia para tirá-los de lá?
A deusa pôs as mãos nos quadris.
— Uma oubliette é uma masmorra secreta, seu objetivo é fazer com que o prisioneiro seja esquecido. Nem os deuses podem encontrá-la. Eu mesma não sei onde fica.
— Bom, então isso torna a coisa meio complicada, não é?
— Não necessariamente. Ainda há um modo.
Ela espanou a poeira da caixa, murmurou um encantamento e em seguida a abriu. Tirou uma pena de dentro.
É a Pena da Justiça, murmurou Tia.
— Pegue — disse Maat. — Você poderá protegê-la melhor do que eu.
— Certo — concordei, pegando a pena entre dois dedos. — Então só quer que eu segure a pena para você?
Maat suspirou, exasperada.
— Não. Sim. — Em seguida respirou fundo e explicou: — Você vai usá-la para invocar o coração do único Filho do Egito que ainda não foi julgado. É o Desbravador. Com a ajuda dele, você vai encontrar a oubliette e libertar os outros dois. Mas faça isso depressa. Não vamos conseguir conter Seth por muito tempo.
Ela levantou a cabeça como se escutasse alguma coisa que não podíamos ouvir.
— Tenho de ir agora. Anúbis precisa da minha ajuda. — Maat segurou meu ombro. — Boa sorte, Lily. Apresse-se. — Ela começou a se virar, mas de repente parou. — Ah, depois de despertá-lo, deixe a Pena da Justiça sob a custódia de sua anciã. É melhor não arriscarmos que ela se perca na batalha do Cosmo.
Com isso, a deusa desapareceu, deixando um rastro de poeira tremeluzente caindo no lugar onde estivera.
Respirei fundo.
— Não parece que a batalha esteja indo muito bem.
— É — concordou Hassan. — Não parece.
— Então acho que devemos despertar esse outro. Desbravador?
O nome dele é Ahmose, disse Ashleigh.
— Ahmose. Certo. — Sem esperar que o Dr. Hassan tirasse a tampa, fui até o terceiro sarcófago. Segurando a Pena da Justiça, travei minha mente com a de Ashleigh e a de Tia e, com voz de ciclone, gritei: — Desbravador, com a Pena da Justiça invoco seu coração e ordeno: retorne à sua forma mortal!
A pena brilhou como se fosse iluminada por dentro e a luz desceu pelo meu braço. Encheu meu corpo até que a claridade ficou tão forte que vovó e Hassan precisaram cobrir os olhos. Um sopro de vento agitou meus cabelos, levantando-os totalmente, e Hassan correu para o pequeno armário escondido no sarcófago, tirando os jarros canópicos e abrindo-os em rápida sucessão.
Partículas prateadas saltaram do topo de cada jarro como quatro raios de luar. Agruparam-se, formando bolas de luz, exceto por um deles, que se tornou um pássaro de pescoço comprido. Um a um penetraram no sarcófago ainda fechado e desapareceram.
Quando meu poder começou a diminuir, Tia, Ashleigh e eu nos separamos. Hassan, vovó e eu ficamos nos olhando, imaginando o que fazer em seguida.
Então ouvimos um estrondo e eu saltei para trás, tirando as facas do arnês. Outro estrondo soou e Hassan correu até vovó, puxando-a para ele, enquanto ela ofegava, com medo. Poeira soltou-se do teto. Eu estreitei os olhos e apurei os ouvidos, tentando identificar a fonte da ameaça.
Quando veio o terceiro estrondo, a tampa do sarcófago saltou para o alto, como se uma bomba tivesse explodido ali dentro. Girei as facas, me posicionando para atacar, quando uma figura envolta em panos se sentou de repente.
Engoli em seco enquanto a múmia arrancava as faixas de tecido do rosto e dos braços. Em seguida, ela se virou para mim, parando um momento para pigarrear. Sua voz saiu seca e áspera.
— Acha que poderia me dar uma ajudinha, Lily? — perguntou a múmia.

6 comentários:

  1. Mas gente.. pensa numa autora que gosta que o personagem bloqueie as lembranças kkkk

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  2. Acabei de pensar isso. .. Como gosta de uma amnésia!

    Dois capítulos juntos é?

    Flavia

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  3. A garota tinha que dá uma de Chapeuzinho Vermelho na floresta?? Sério?? Num lugar totalmente esquesito ¬¬

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  4. Verdade viu? Será que os próximos livros dela vai ser assim. Mil disputando uma só? Será que vai ter aminesia TB?

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  5. É Harém reverso não está só em mangá shoujo minha gente 😂😂

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Boa leitura, E SEM SPOILER!