8 de março de 2018

4. Leoas, cães do inferno e unicórnios... Minha nossa!

Ouviu-se um ganido e o estalo de garras no piso de ladrilhos da vovó. O cão do inferno apareceu. Com a mandíbula babando e repuxando, ele me respondeu com um sibilo:
— Deusa — falou com ódio emanando do corpo que se alterava —, qual é o seu desejo?
— Onde estão os Filhos do Egito?
— Presos no além. Pelo menos é onde deveriam estar.
— Como assim, deveriam? Diga o que sabe.
— Sei muitas coisas. Você terá de ser mais... específica.
Ele sibilou e depois gargalhou. Era um som apavorante e, quando vovó recuou um passo, o cão do inferno estalou as mandíbulas na direção dela.
Estreitando os olhos, dei um passo ousado, aproximando-me dele. Um poder quase ilimitado preenchia meu corpo. Eu era leoa e fada, humana e deusa, e não admitiria recusas. Agarrei a orelha do cão do inferno e o puxei para mim. Ele ganiu com surpresa e sua cabeça virou fumaça, afastando-se antes de recuperar a forma. Sua cauda baixou, enfiando-se entre as patas, e eu inclinei a cabeça, com um risinho levantando o canto da boca.
Era eu que confrontava o cão do inferno, e ao mesmo tempo não era eu. Cada parte minha estava em sincronia com cada parte de Tia e Ashleigh. Eu conseguia acessar completamente a natureza predatória de Tia e a visão única de Ashleigh sobre todas as coisas que não são deste mundo. Mas havia outra coisa — ou outra pessoa. Não éramos três. Éramos... quatro. Tínhamos aberto a porta e alguém havia entrado. Como se fôssemos apenas uma, movíamos um braço, fazíamos perguntas e assimilávamos informações, mas eu sentia que a conexão era frágil, tênue.
Pronomes como eu, nós e nosso perderam o significado. Eu era Wasret. Nós éramos Wasret, unidas de tal forma que era doloroso simplesmente pensar em nos arrancar uma da outra — não, dela. Cada uma de nós ainda retinha o que nos tornava únicas, mas estávamos presas num impossível triângulo de poder, criando uma ponte, incapazes de dizer onde cada uma acabava e outra começava. Havia um sentido nítido de que agora éramos... outra. Tínhamos nos tornado uma coisa totalmente nova. Naquele momento, éramos destemidas. Podíamos fazer qualquer coisa, ser qualquer coisa, e no entanto eu sentia que ainda faltava um pequeno pedaço. Havia uma parte de mim, Lily, que ainda estava escurecida.
— Sugiro que você conte o que sabe que queremos ouvir — exigi com a voz de uma tempestade furiosa. — Caso contrário, sua deusa pode fazer algo... desagradável.
— Nada que você possa fazer comigo seria mais desagradável do que o mundo dos mortos.
Sorrindo, comecei a me abaixar e uma cadeira se moveu por vontade própria, raspando o ladrilho e se posicionando no lugar certo para eu me sentar. Como se a presença do cão do inferno não me abalasse nem um pouco, cruzei uma perna sobre a outra, balançando despreocupadamente o pé calçado com a bota, depois agarrei uma faca de manteiga na mesa. Girei-a habilmente entre os dedos, passando-a de uma das mãos para a outra antes de balançá-la na direção dele como se fosse a arma mais afiada do mundo.
— Como eu também passei algum tempo no mundo dos mortos, tenho certeza de que posso pensar em alguma coisa.
Deslizei o polegar nas ranhuras da faca.
— Sabe, até mesmo a arma mais cega pode matar — falei. — Só demora um pouquinho mais.
O cão do inferno recuou um passo.
— Você não me amedronta, deusa.
— Não?
Apoiei os dois pés no chão e me inclinei para a frente, capturando o olhar do cão do inferno com o meu. A princípio ele se imobilizou, como se hipnotizado, e então a predadora dentro de mim reconheceu os sinais de submissão. O cão do inferno baixou a cabeça ligeiramente e mudou o peso do corpo de um lado para o outro, como se estivesse se preparando para fugir. Mostrou os dentes, com a língua lambendo os beiços, e franziu o nariz como se achasse extremamente desagradável se curvar para mim.
Em seguida, usando nosso poder mental combinado, pressionamos nossa consciência à frente e mergulhamos atrás das íris marrons da fera, ultrapassando os pelos eriçados e a pele quente esticada pela fúria. Penetramos na mente da criatura — uma coisa fascinante e perturbadora.
— Está com medo agora? — perguntei.
Ele não precisava responder — dava para sentir sua repulsa, seu horror por ser invadido daquele modo. Nem mesmo sua senhora anterior pudera arrancar os pensamentos de sua cabeça.
Você vai me contar, exigi, de mente para mente.
Dessa vez, não pedi, tomei. Rasguei suas memórias, procurando as informações de que precisava. O cão do inferno ganiu e desabou no piso de ladrilhos, raspando as patas debilmente. Quando encontrei o que estava procurando, recuei, trazendo meu poder de volta, e alertei a criatura patética prostrada à minha frente:
— A ira mata quem é idiota a ponto de agir em nome dela. Sugiro que você arranje um novo passatempo, seu bicho sarnento. — Chutei de leve a lateral de seu corpo com a bota. — Agora suma da minha vista.
O cão do inferno desapareceu e eu virei um olhar de triunfo para vovó e Hassan, mas franzi a testa ao ver o medo explícito nos olhos deles. Um medo que zumbia à nossa volta e entre nós como um canto de cigarras.
A humana que havia em mim ficou com vergonha das nossas ações e o frágil domínio sobre nosso poder se rompeu. Imediatamente o poder de Wasret nos deixou e nós nos separamos, tornando-nos de novo três indivíduos, ainda que no mesmo corpo. Eu me sentia exausta e abalada; meus membros tremiam como se eu fosse uma viciada precisando de outra dose.
Não fora uma decisão consciente renunciar ao poder. Na verdade, foi surpreendente para todas nós. Foi quase como o estalo de um elástico se partindo. O que quer ou quem quer que tivéssemos sido tinha ido embora.
Sinceramente, era um alívio ser eu mesma de novo. Voltei a sentar-me na cadeira, com os dedos estremecendo.
— Ele foi embora — falei para vovó. — Não precisa ter medo.
— Não é dele que estou com medo, Lilypad. É de você.
Franzi a testa e esfreguei as têmporas doloridas.
— Fizemos o que vocês queriam.
— Não. Não queríamos isso. Jamais. — Vovó deu um passo à frente e segurou meu rosto. — Agora, garotas, cada uma de vocês me escute. Nunca, nunca se esqueçam de permanecer no barco. No minuto em que acharem que podem enfrentar o oceano sozinhas, estarão perdidas. Todas vocês foram com muita sede ao pote.
O que ela quer dizer?, perguntou Tia.
— Quer dizer que a gente exagerou — falei, a boca agora seca enquanto traduzia a metáfora de vovó para elas. Eu me pergunto se essa é a sensação de uma ressaca, pensei.
O que é uma ressaca?, perguntou Tia.
É a dor que vem depois de tomar demais a bebida do diabo, explicou Ashleigh. Eu tinha de cuidar do meu pai e ajudá-lo a se recuperar disso toda manhã de domingo.
Não sentimos a dor antes, quando usamos nossos poderes contra a Devoradora, disse Tia. Por que estamos sentindo agora?
Não sei, respondi. Talvez tenha alguma coisa a ver com minha perda de memória.
Virando-me para Hassan, falei:
— Peço desculpas por ter amedrontado vocês. Eu... nós não estávamos no controle.
Ou talvez estivéssemos demais no controle, acrescentou Ashleigh.
Hassan assentiu com a cabeça, pensativo.
— O poder que você possui é grande. Talvez seja por isso que precisa dos Filhos do Egito.
— Por que diz isso? — perguntei.
— Acredito que eles podem ajudar você a... canalizar seu poder do jeito certo. Eles têm experiência com esse tipo de coisa. Especialmente Amon, que possui o Olho. — Ele tocou meu braço. — Você pode não se lembrar, Lily, mas fui o guardião do Olho por um tempo, e a influência dele é... bom, é indescritível. Se eu ficasse com ele por mais tempo, teria enlouquecido. Talvez esse poder seja assim.
— Então você acha que a múmia, quero dizer, Amon, pode nos orientar como Wasret? — perguntei, roendo uma unha.
— É o que acredito.
— Então foi uma coisa boa eu ter treinado, convocando o cão do inferno. Mesmo que a gente tenha ficado com uma dor de cabeça horrível, além de um gosto ruim na boca. Eu odiaria perder as estribeiras desse jeito com os Filhos do Egito.
— Você precisa descrever seus sintomas para mim — pediu Hassan com interesse, pegando um bloco de papel.
— Mais tarde, Oscar — disse vovó, procurando um frasco de aspirina no armário da cozinha. — Aquela fera contou a vocês onde Amon está?
Balancei a cabeça.
— Tudo o que sei é que eles ainda não foram encontrados. De algum modo, os irmãos conseguiram evitar Seth, apesar de ele ter mandado seus espiões shabti para o além à procura deles. O cão do inferno não queria me contar, mas Seth está planejando libertar os demônios do mundo dos mortos e usá-los junto com a Devoradora para atacar o além assim que Heliópolis cair.
— Isso significa que os deuses estão perdendo a guerra? — perguntou Hassan, deixando a caneta cair ruidosamente na mesa.
Estremecendo, engoli a aspirina e confirmei com a cabeça.
— Parece que sim. Pelo menos pela perspectiva da fera.
— Então precisamos nos apressar. Temos de chegar aos corpos dos Filhos do Egito e invocá-los antes que Seth os encontre no além e os desfaça inteiramente. Anúbis me garantiu que eles serão necessários na batalha final. Em termos ideais, eu gostaria de ter mais tempo para vocês se prepararem, mas com a situação desse jeito...
— Ou vai ou racha. — Bati com a faca de manteiga na mesa e fiz uma careta, encolhendo os ombros na direção de vovó como um pedido de desculpas. — É melhor irmos, então. Vamos demorar um tempo para chegar ao Egito.
— É, com relação a isso... infelizmente não tenho boas notícias — disse Hassan.
— O que foi? — perguntei com cautela, nem um pouco ansiosa por ouvir qualquer outra coisa relativa à minha missão celestial. Levantando-me, senti os membros ainda trêmulos pelo uso recente do nosso poder. Eu era como uma panela cheia de pipoca que tinha acabado de ser posta no fogão: com energia descontrolada, pronta para explodir e romper a própria pele.
Mas o que restaria após esse poder ser usado? Meu temor era uma rachadura interna na minha armadura. Me enfraquecia, e eu não sabia direito como consertar a falha. E se, depois de tudo isso acabar, eu terminasse sendo apenas uma casca vazia e inútil, espremida e descartada pelos deuses que me usaram para travar suas batalhas?
Hassan continuou, sem perceber meu tumulto interior, mas me deu algum nível de conforto saber que Tia e Ashleigh compartilhavam meus temores. Pior ainda: elas esperavam, depois de tudo ser dito e feito, ser relegadas ao esquecimento. Não tinham medo de ser deixadas sozinhas ou abandonadas por aqueles que haviam nos transformado no que éramos. Não tinham qualquer noção de transtorno pós-traumático e não se importavam muito com o que acontecesse com meu mundo mortal. Não. Estavam preocupadas com a hipótese de ser banidas totalmente. De simplesmente desaparecerem: deixarem de existir.
Prometi que não permitiria que isso acontecesse. Ao mesmo tempo, Hassan acabava de explicar:
— E é por isso que precisamos chegar lá por conta própria.
Esfreguei meu rosto vermelho e disse:
— Ah, o que foi mesmo? Eu estava tendo uma conversa interna.
Ele me dirigiu um sorrisinho compreensivo que franziu seus olhos. Nesse momento admiti para mim mesma que vovó não estava tão mal. Hassan era um homem gentil e bonito para alguém da sua idade, especialmente quando sorria. Se não estivesse tão envolvido nesse negócio de deuses, deusas e salvação do mundo, acho que eu até gostaria dele.
— Eu estava dizendo que Anúbis deixou totalmente claro que os deuses estariam envolvidos na batalha. Não podemos contar com eles para o transporte até o Egito.
Pus as mãos nos quadris.
— Bom, isso é fantástico. Como vamos chegar ao Egito, então? De avião?
— Eu... tenho algum dinheiro guardado na jarra de biscoitos... — começou vovó.
Não precisamos dos tesouros dela, disse Tia.
Odeio compartilhar esse triste fato humano com você, leoa, mas precisamos de tesouros para viajar de avião. O Egito fica a um oceano de distância.
Não precisamos não, Lily. Vamos chamar o unicórnio.
— Unicórnio? — perguntei em voz alta.
A empolgação de Ashleigh explodiu na minha mente.
Um unicórnio alado?, perguntou ela. Ah, que saudade eu sinto de voar!
Retirei-me para o segundo plano e deixei Tia emergir para explicar a todos nós como um unicórnio voador e seus filhos poderiam ser invocados para nos levar ao Egito. Vovó ficou chocada, para dizer o mínimo, e o Dr. Hassan pareceu ao mesmo tempo empolgado e aterrorizado com a ideia. Aparentemente, ele nunca havia montado um cavalo.
A princípio vovó não queria ir. Estava preocupada com a vaca, os gatos do celeiro e as galinhas. Quando me recusei teimosamente a sequer pensar em ir a algum lugar sem ela, já que vovó era minha única ligação com a normalidade, ela cedeu. Pediu aos irmãos gêmeos Melvin e Marvin que cuidassem da fazenda enquanto nós duas fazíamos uma viagem “por aí”. Os gêmeos concordaram imediatamente e disseram que iriam até lá naquela tarde mesmo, o que nos liberou para partir na mesma hora.
Tia argumentou que seria melhor deixar para trás minha anciã e que era perigoso levá-la. Talvez fosse mesmo egoísta da minha parte querer que vovó fosse, mas... eu precisava dela. Não havia outra forma de eu... montar nas costas de um unicórnio e ir para lugares desconhecidos. Eu não era particularmente corajosa nem heroica, apesar do que Tia e Ashleigh diziam. O que quer que tivesse me inspirado a fazer o que elas insistiam que eu tinha feito antes estava... bom, estava faltando, agora.
Tia finalmente aceitou isso e explicou que precisávamos de um túmulo para invocar o unicórnio. Hassan perguntou se havia algum cemitério por perto. Vovó hesitou apenas um momento e depois confirmou que sim, havia um bem perto.
Não. Não podemos usar esse, Tia, eu disse. É onde meu avô está enterrado. Vai ser doloroso demais para vovó.
— Lily me informou que o lugar que você mencionou é onde seu companheiro está enterrado. Talvez possamos encontrar outro — sugeriu Tia.
Vovó torcia um pano de prato entre as mãos. Deu um pequeno sorriso de desculpas e depois se virou para a janela da cozinha.
— Não — disse ela. — Se Charles estivesse aqui, ia querer participar da ação. Ele nos daria a bênção, se pudéssemos pedir.
— Tem certeza, Melda? — Hassan segurou a mão dela e a apertou de leve.
— Tenho. Só me deixem... Só me deixem pegar umas coisas.
Ela se retirou para o quarto, enquanto Hassan reunia suas coisas, pondo-as em uma sacola impermeável bem gasta ao lado das ferramentas de arqueólogo.
Tia recuou, permitindo que eu assumisse o controle de novo. O problema era que eu não sabia o que fazer em seguida.
— É melhor vocês se prepararem também — disse Hassan, com as sobrancelhas fartas erguidas. — Suas armas estão no celeiro. Tia sabe onde.
— Certo.
Fui para o celeiro e encontrei o arco e a aljava com flechas emplumadas junto ao arnês de couro pendurado num gancho. Peguei uma faca e a enfiei na bainha até que a magia que a prendia no lugar funcionasse. Peguei o arnês e o segurei com as pontas dos dedos.
Olhei para meu macacão com as pernas enroladas, as botas sujas de lama e a camisa de algodão macio abotoada na frente. Depois levantei a mão para tocar o rabo de cavalo bagunçado.
— Isso não parece nem um pouco o que a gente usaria para invocar um unicórnio.
Podemos fazer nossas roupas, sugeriu Tia. Na verdade, é bem simples. Só precisamos invocar o poder da esfinge enquanto você pensa no que quer usar e a coisa aparece.
— Certo — falei.
Não se esqueça de fechar os olhos. Ah, além disso, você gosta de estar limpa.
Meus olhos se abriram rapidamente.
— Limpa?
É. Frequentemente ficamos sem nos lavar, mas você gosta de ter uma juba sedosa e a pele perfumada. Pessoalmente, acho que nosso almíscar natural é melhor, mas deixo isso com você.
— Arrã. Bom, obrigada. — Soltei o ar pelo nariz. — Certo, lá vai.
Fechei os olhos, me concentrei e senti meu poder se agitando. Minúsculas partículas bateram na minha pele, pinicando, e gritei de medo e entreabri um olho.
A areia é normal, disse Tia. Ela dá polimento à sua pele. Não deveria demorar tanto assim, Lily. Você não está concentrada. Qual é o problema?
— Não sei — respondi, e me arrependi instantaneamente quando grãos de areia entraram na minha boca.
Cuspi e então lhe dei uma resposta mental. Acho que não sei de verdade o que usar.
Vou ajudar, respondeu a voz atrevida de Ashleigh.
Tia interveio rapidamente: Não. Você não entende qual é a vestimenta necessária. Vou ajudar Lily. Você fica olhando.
A areia golpeou meu corpo e os tecidos que eu usava, inclusive os sapatos, se dissolveram na tempestade. Eu me protegi com os braços, sem graça, feliz por ter decidido fazer isso no celeiro, onde somente Mandona podia me ver.
Meu cabelo voou com o vento e os fios compridos chicotearam minhas costas nuas.
Não está funcionando, disse Tia, tentando fundir seus pensamentos com os meus para invocar o poder da esfinge.
O que estou fazendo de errado?, perguntei.
Cobri o rosto com as mãos, o corpo tremendo com os golpes. Então Ashleigh disse: Não podem ser só vocês duas, como antes. Eu preciso fazer parte disso.
Ela se juntou a nós e a areia se imobilizou no ar, depois se acomodou suavemente no meu corpo, como a neve caindo, formando roupas.
Levantei a mão e acariciei o tecido que cobria meu braço. Era desenhado para se parecer um pouco com escamas de peixe. Cada placa minúscula e curva captava a luz, e eu me virei, refletindo todas as cores metálicas que existiam sob o sol. Era resistente como uma cota de malha, mas se movia e se esticava facilmente junto com o corpo. Parecia uma camiseta vintage. Luvas de couro com os dedos cortados estavam presas por cordões até os cotovelos e cobertas por lindas placas de metal que protegiam os pulsos. Meu tronco era resguardado por uma espécie de peitoral preso ao arnês de couro, que agora era cinza, combinando com as luvas. Uma calça justa, macia e texturizada embutia-se em botas flexíveis com placas blindadas verdes e reluzentes que cobriam os joelhos e as canelas.
A coisa mais pesada que eu estava usando era uma capa prateada. Ela pendia dos ombros e descia até o chão. Preocupada com a hipótese de ela bloquear o acesso às flechas, levei a mão às costas e fiquei surpresa ao descobrir que a capa ficava por baixo do arnês, com uma abertura larga, de modo que eu podia alcançar facilmente as armas.
Tateando a borda superior, descobri um capuz forrado de pele que podia ser enrolado e guardado quando eu não precisasse dele. Minhas mãos roçaram no cabelo e me olhei no pequeno espelho do celeiro. Meus cachos escuros estavam enrolados em um penteado complexo, presos na nuca com pequenos grampos em forma de escaravelhos. Em volta do pescoço, preso na capa, havia um colar intricado. No centro dele ficava um lindíssimo escaravelho verde-esmeralda cercado de diamantes e ouro. Eu sabia qual era o nome dele. Estava na ponta da minha língua, mas não conseguia evocá-lo.
— É lindo — falei, segurando a pedra e me deliciando com o pequeno tremor que sentia contra a ponta do dedo.
É o escaravelho do coração de Amon, explicou Tia.
— Escaravelho do coração?
É. Ele o deu a você antes de partir do reino mortal.
— Deu, é?
Hassan o encontrou e guardou na sua bolsa.
Pressionei a palma sobre ele, aquecendo minha mão. Fechando os olhos, eu quase podia sentir a carícia do sol no rosto. Respirei fundo e disse:
— Acho que deveríamos ver se vovó e Hassan estão prontos.
Vovó arqueou as sobrancelhas quando viu minha roupa, mas nada foi dito. Por mais natural e mágico que o traje tivesse parecido quando eu estava no celeiro, senti-me ligeiramente idiota andando com ele na fazenda. Tia e Ashleigh garantiram que era perfeito para o lugar aonde estávamos indo e que estavam orgulhosas de suas contribuições. A capa iria nos manter quentes e a armadura nos protegeria. As botas eram grossas o suficiente para fazer os cães do inferno pensarem duas vezes antes de cravar os dentes nelas e, eu precisava admitir, eram extremamente confortáveis.
Vovó usava jeans e suas botas de caubói com o chapéu de feltro de vovô na cabeça, a alça presa com firmeza embaixo do queixo, e levava uma bolsa pesada a tiracolo. Parecia alguém prestes a sair para um dia de viagem a cavalo.
Eu, por outro lado, parecia a caminho de uma convenção de quadrinhos.
Lancei-lhe um olhar sem graça. Para seu crédito, vovó manteve-se calada com relação às minhas roupas e me distraiu dos meus pensamentos me obrigando a engolir uma garrafa d’água, colocando uma segunda em minha mão e me entregando uma maçã para comer no caminho para o cemitério.
Por causa do arnês, eu não consegui prender o cinto de segurança, mas supus que um acidente de carro numa estrada do interior sem tráfego deveria ser a menor das minhas preocupações. Hassan estava sentado no banco de trás, girando o chapéu entre as mãos antes de colocá-lo na cabeça e murmurando para si mesmo. Ele verificou sua bolsa para ver se estava com tudo o que poderia precisar. Mal olhou para minha roupa, mas examinou rapidamente os escaravelhos que adornavam meu cabelo. Disse que eram réplicas exatas de alguma coisa que tinha escavado sabe-se lá quando.


Chegamos logo ao cemitério e fomos andando pelo caminho batido, com pequenas lápides se projetando por trás do capim alto e das ervas daninhas. A maçã pesou no meu estômago quando nos aproximamos da lápide bem cuidada de vovô. Vovó devia ter estado ali pouco tempo antes. Ainda havia sinais de vida no buquê de flores no vaso ao pé do túmulo, o que iria destacá-lo ainda que o mato em volta dos outros tivesse sido limpo.
Virei-me para olhá-la e vi que seus olhos estavam úmidos e brilhantes, mas, afora isso, seu rosto tinha uma expressão determinada.
— Agora é com você, Lilypad.
Tia? Não sei o que fazer.
Também não sei, disse Ashleigh.
Não se preocupem. Eu me lembro de como evocar o unicórnio, assegurou Tia.
Ela começou a entoar em minha mente um encantamento, que eu então repeti em voz alta. De repente, o chão tremeu e uma rachadura se abriu numa árvore próxima, soltando uma poeira reluzente no ar. Vovó gritou e Hassan apertou a cabeça dela contra o ombro, apesar de parecer tão apavorado quanto ela.
Fechei os olhos e tossi. Um galope trovejante ecoou à nossa volta. Parecia um estouro de manada. Dei um passo atrás, temendo que fôssemos atropelados a qualquer momento. Fiz um giro porque o barulho parecia estar a toda a volta, mas continuei sem ver nada. Então a luz explodiu, saindo da rachadura na árvore. Protegi os olhos, levei a mão à faca em minhas costas e senti uma mudança no ar, como se eu estivesse na presença de algo antigo, algo perigoso.
Ouvi o ruído de cascos batendo. Um bafo quente soprou em meu rosto, seguido por um relincho profundo e uma nova voz que penetrou minha mente:
Ah, jovem esfinge, então nos encontramos de novo.

3 comentários:

  1. Gostei tanto de ver a Lily poderosa. .. Depois voltou tudo de novo!

    Flavia

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  2. "Eu sabia qual era o nome dele. Estava na ponta da minha língua, mas não conseguia evocá-lo."

    É se vc lembrasse do nome podia chamar o Amon ;-;

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  3. Ela tinha que ter umas aulas com a Aline de como controlar o poder
    Aquilo sim que é uma líder bad ass

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Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!