9 de março de 2018

31. Despedidas

Pairando acima dos outros, gritei com a voz das próprias estrelas:
— Agora é hora de curar as Águas do Caos! Thoho, Tshamut, venham a mim!
As duas cobras levantaram a cabeça acima da superfície e se alçaram no ar. Seus corpos longos se esticaram, movendo nas ondas de energia lançadas pelas Águas do Caos.
— Thoho — falei. — Eu risco seu nome do Cosmo. Tomo sua energia vital e o transformo em algo novo. Tshamut! Eu risco seu nome do Cosmo. Tomo sua energia vital e o transformo em algo novo.
Os corpos das duas cobras, como os de Amon-Rá e de Seth, transformaram-se em energia pura. Enrolaram-se um no outro, mordendo e se retorcendo, até se acomodarem.
— Agora você será chamado de Tharu. Tharu, protetor das Águas do Caos, abrace sua nova forma e ocupe seu lugar de direito, há muito tempo abandonado.
Uma nova cobra se materializou diante de mim. Essa tinha o corpo mais grosso. Suas escamas cintilavam em azul e os olhos reluziam, amarelos. Abrindo a boca, ela sibilou e rapidamente disparou até a borda das Águas do Caos. Circum-navegou a borda até envolvê-la completamente. Então mordeu a própria cauda, completando o círculo que protegeria as águas. Vislumbrei a sombra da aranha seguindo-a.
Tocando a superfície das águas, falei aos deuses que assistiam:
— Meu trabalho está terminado. Como recompensa por meus esforços pelo bem de vocês, vou criar um corpo novo para Ahmose e ele se tornará meu companheiro enquanto atravesso o Cosmo, explorando toda a criação em minha nova forma.
Pus na palma da mão os fios de cabelo que tinha guardado de Ahmose, preparando-me para invocá-lo e criar seu novo corpo.
— Espere — pediu Hórus, levantando-se e testando cautelosamente seus membros refeitos.
Fazendo uma pausa, avaliei os olhares de expectativa que os deuses me dirigiam.
— O que mais vocês desejam de mim? — perguntei. — O Obscuro está morto. Eu restaurei a ordem do Cosmo, como era o meu dever.
— Nós pediríamos que nos devolvesse os que foram perdidos — respondeu Hórus, o que me surpreendeu. Ele fora o menos envolvido nos acontecimentos do dia.
— De quem você fala? — perguntei.
— Dos Filhos do Egito e das Filhas de Wasret.
— Você sabe que não posso salvar todos os que foram perdidos. Alguns foram refeitos. Isso não pode ser desfeito. Contente-se em saber que, com relação a esses de quem você fala, seus corações estão para sempre unidos em mim.
— Então eu perguntaria — disse Hórus, dando um passo adiante — como você pode tomar como companheiro alguém cujo coração está permanentemente unido a outro.
— Ele não terá escolha a não ser me amar, porque eu carrego o coração dela.
— Então esse é um presente pobre que você aceita. Não passa de uma sombra do amor. Eu sugeriria, em vez disso, que você considerasse um companheiro do qual está separada há muito tempo. Um que você esqueceu.
Respirei fundo, o coração disparando diante das palavras dele. Franzindo os lábios, perguntei:
— De quem você fala?
— Como Lilliana Young, o filho de Ísis e Osíris nasceu como uma pedra ovo de serpente. Mas seu corpo era fraco, pois não havia energia suficiente nas Águas do Caos para criar outro deus poderoso. Assim Ísis teceu um encantamento. Deu um pouco de si mesma e do marido para sustentar a criança. Quando percebeu que ele iria morrer apesar de seus esforços, eu fui até ela.
Néftis aproximou-se da irmã e abraçou sua cintura.
— Fiz uma proposta. Que foi aceita. Com a ajuda de Ísis, Osíris e Néftis, foi tecido um encantamento que me permitia coexistir com o filho deles, habitando o mesmo corpo. Através de Hórus, eu fui da escuridão para a luz. Como você, passei a existir num momento em que o Cosmo precisava de mim.
Ele continuou praticamente sem pausa:
— Fui eu que distraí Seth durante séculos para que pudéssemos ter tempo de nos preparar para o surgimento do segundo ovo de serpente, mas Seth começou a suspeitar de que havia mais coisas do que simplesmente a família se unindo contra ele. Para me proteger mais ainda, o conhecimento da minha verdadeira identidade foi removido de propósito da minha mente. Ficou escondido no Olho e, durante um tempo, o próprio Amon-Rá o carregou. Para distrair Seth, Amon-Rá criou uma história complicada em que prometeu o Olho para o vencedor de uma grande disputa que demorou anos. Quando venci, Amon-Rá me deu um badulaque, uma imitação. Mas Seth ficou desconfiado. Ele desejava o poder e buscava meios de roubar nossos segredos. Para protegê-lo, o Olho verdadeiro foi escondido dentro de um Filho do Egito. Amon foi imbuído de energia suficiente para carregar o Olho, cuja verdadeira natureza estava escondida dele.
Hórus fez uma pequena pausa e prosseguiu:
— Eu me escondi esse tempo todo em plena vista, esperando a hora da sua chegada. Portanto, Wasret, como você, eu passei a existir com um corpo de carne emprestado. Mas, diferentemente de você, agora tenho toda a consciência de quem sou, porque tive uma chance de estudar minhas origens usando o Olho de Hórus, um poder que você talvez conheça melhor como Olho de Rá ou o Olho Que Tudo Vê.
Eu arquejei. O corpo de Hórus ganhou um brilho enquanto ele falava. Pareceu-me familiar e acolhedor. Ele se aproximou e segurou minha mão. Nossos dedos se entrelaçaram e eu olhei para eles, perplexa.
— O motivo para eu me sentir ligado a Lilliana Young, o motivo para assediá-la, era porque parte de mim podia pressentir minha companheira quando ela estava perto — continuou ele. — O que eu sou, o Olho que me define, não existe sozinho. Há um segundo Olho. Juntos, os dois que os têm podem ver todas as coisas. Você pode dizer o nome desse Olho, Wasret? Pode dizer o meu nome? Olhe no meu coração e veja o que eu sou. Veja quem eu sou. Abra a mente para mim e conheça o bom e o mau, o egoísta e o altruísta, e me entenda.
Hórus ficou segurando minhas mãos. Levou-as aos lábios e beijou uma de cada vez. Olhei no fundo dos seus olhos, mergulhando além deles, buscando a verdade. Havia algo nele que era ao mesmo tempo reconfortante e provocador. Com as mãos nas dele, abri os pensamentos e um nome veio à superfície.
— Você é... você é Nekheny.
Assentindo, Hórus sorriu e perguntou:
— E quem é Nekheny?
— Nekheny é o consorte de quem guarda o Olho de Wadjet.
Ele apertou minhas mãos.
— E quem detém esse poder?
— Quem detém esse poder é... — De repente, a energia que me atravessava se imobilizou. — Sou eu — falei, maravilhada com a revelação que irrompeu em minha consciência. — Wasret é o nome que os mortais me deram, mas meu nome verdadeiro é Wadjet. A fonte do meu poder é o Olho de Wadjet.
O conhecimento de quem eu realmente era me deu uma força feroz e tremi ao finalmente entender minhas origens.
Nekheny acariciou meu rosto, aliviando os tremores que percorriam meus membros.
— Venha, minha velha companheira — disse ele. — Precisamos nos conhecer de novo. Tenho muita coisa a lhe ensinar. Mas, antes de nos afastarmos dos deuses, eles pedem nossa ajuda para restaurar os outros.
Empolgada com a revelação de que eu tinha um companheiro de verdade, assenti:
— Farei o que puder.
Curei Anúbis, que tinha dado muito de si, enquanto meu companheiro curava seus pais.
Peguei o cabelo de Ahmose, que eu tinha guardado, e invoquei sua energia vital. Ela subiu diante de mim e, juntos, Nekheny e eu lhe fizemos um corpo novo e trabalhamos até que tudo a que ele havia renunciado ao curar o corpo de Lily fosse restaurado.
Anúbis deu um passo à frente e fez uma reverência para nós dois, oferecendo um fio de cabelo em cada mão.
— Estes pertenciam a Asten e Amon — disse. — Hassan deixou comigo uma lembrança de cada rapaz, para o caso de perdermos de novo o corpo de algum deles.
Erguendo a mão, teci um encantamento para Amon, enquanto meu companheiro fazia o mesmo para Asten. Quando os rapazes respiraram pela primeira vez e suas sombras desgarradas se fundiram com seus corpos verdadeiros, falei:
— Posso fazer um corpo novo para Lily, idêntico a este, mas não posso criar corpos para Ashleigh e Tia, pois suas formas mortais se foram há muito tempo. Vou lhes dar uma escolha. Posso invocar a energia das três jovens num único corpo novamente ou posso invocar somente Lily. O que desejam que eu faça?
Amon deu um passo adiante. Sem hesitar, disse:
— Lily iria querê-las com ela.
— Então que seja como você diz.
Puxei um fio de cabelo da minha cabeça e fiz um corpo novo, depois invoquei a energia de vida de Tia, Ashleigh e Lily. Três faixas de luz subiram das Águas do Caos e entraram na minha gêmea. Lily piscou e cambaleou.
Amon segurou o braço dela, que assentiu com a cabeça, agradecida.
— O que... o que aconteceu? — perguntou ela.
Interrompendo-a, ansiosa para explorar minha nova realidade com meu companheiro, falei:
— Fizemos o que pudemos. — Em seguida, peguei os seis corações unidos e os entreguei a Lily com um sorriso.
Nekheny beijou o rosto de sua mãe e da tia.
— Mãe? — disse ele, e estendeu a mão para a mulher que tinha lhe dado a vida. — O preço pelo encantamento que você lançou ao fazer reviver seu marido foi pago. Não haverá mais barreiras entre você e Osíris. Obrigado por me dar um lar e por me presentear com seu amor. Mas chegou a hora de eu deixá-la.
Ísis enxugou uma lágrima e abraçou o filho.
— Vá com minha bênção e a de seu pai. Não importa sua origem, você sempre será nosso filho.
— E você sempre será minha mãe.
Com um último sorriso, nós nos viramos e, juntos, olhamos para as estrelas. Agarrando-nos a um raio de luz, subimos ao Cosmo para iniciar nossa nova aventura.


— O que... o que aconteceu? — perguntei.
Amon já ia falar quando um homem se aproximou. Um homem que eu não conhecia.
— Lily Young — disse ele. — Eu sou Aton, o deus sol, marido de Néftis. Se você retornar a Heliópolis conosco, vamos explicar tudo o que aconteceu.
Logo as Águas do Caos ficaram para trás, um lugar luminoso num escuro campo estrelado. Agarrei-me às costas de Amon e segurei com força. Minhas asas tinham sumido, meus outros poderes também. Até minhas armas desapareceram. Wadjet — que agora era minha... minha o quê? Clone? Gêmea idêntica? — tinha-os levado embora.
Tentei conversar com Tia e Ashleigh, mas as duas estavam estranhamente silenciosas na jornada para casa. Meu corpo parecia tenso e desconfortável. Era como se eu não fosse exatamente eu. Podia ser o vestido de deusa que eu usava. Além das sandálias de tiras douradas, tecidos transparentes não eram o meu forte. Meu cabelo tinha até sido arrumado em cachos, que pendiam sobre os ombros. Eu me sentia nua sem meu arnês.
Quando pousamos, Aton, o novo deus chefe, ordenou um festim e, enquanto este estava sendo preparado, ele me contou tudo que aconteceu.
Dizer que fiquei chocada seria um eufemismo. Fiquei feliz por não ter visto Amon e Ahmose morrerem. Tinha sido suficientemente difícil ver a morte de Asten. Depois de nos contar tudo o que podia, Aton segurou a mão de Néftis e os dois saíram para cuidar da reconstrução da cidade.
Deixei-me afundar num divã dourado, torcendo as mãos, sem saber o que aconteceria comigo agora. Será que Amon, Asten e Ahmose voltariam a guardar o caminho para o além? Será que eu poderia visitá-los? O poder da esfinge havia me deixado. Será que isso significava que eu não poderia mais vê-los? Será que eu ainda estaria ligada a Amon nos sonhos? Nossos corações estavam unidos, isso eu sentia, mas havia muitas perguntas sem resposta.
Os Filhos do Egito foram chamados para uma reunião com Aton e Néftis. No festim, Amon segurou minha mão por baixo da mesa, desenhando pequenos círculos com o polegar, o que provocava arrepios elétricos no meu corpo. Ísis, Osíris e Anúbis não estavam presentes, mas supus que Ísis estivesse lamentando a perda do filho e cuidando do marido. Aparentemente Hórus tinha feito com que Osíris fosse curado por completo, mas fazia sentido que Isís e o marido quisessem passar um tempo juntos. Estavam separados havia muito tempo. Eu não fazia ideia de onde Anúbis estava. Se eu ia ser mandada para casa, queria me despedir dele antes de partir.
Quando o festim acabou, os poucos unicórnios que restavam foram convocados. Aton se curvou para mim e disse:
— Achei que você gostaria de fazer as honras antes de voltar para casa.
Franzindo a testa, sem entender, olhei para Amon, que apenas deu de ombros. Ele estava tão confuso quanto eu. Aton elogiou os unicórnios por sua bravura na batalha, sua coragem diante da morte e o grande sacrifício de seus chefes. Depois declarou que a maldição sobre todos os unicórnios estava terminada e que eles teriam acesso ao além. Em suas mãos, um pouco de areia girou. Reluziu dourada, cintilando, e formou um alicórnio perfeito.
— Lily — disse ele —, faça o obséquio.
Um lindo unicórnio avançou, o pelo brilhando como se houvesse pedaços de diamante engastados, e aproximou-se de mim com a cabeça baixa. Ajoelhou-se, apoiado em uma das patas dianteiras, a crina comprida caindo sobre um dos olhos.
Minha visão ficou turva enquanto eu pensava em Nebu. Passei o dedo embaixo dos olhos. Aproximando-me do unicórnio, pus com cuidado o chifre no meio de sua testa enquanto Aton entoava um encantamento. Uma luz brotou em torno das bordas do chifre, que se fixou no lugar.
Imediatamente a cabeça de cada unicórnio no salão foi envolta por uma nuvem de areia brilhante. Quando elas se solidificaram, cada um tinha um chifre novo. Como se fossem um só, eles se empinaram, as patas batendo no ar, e relincharam de felicidade.
O que estava à minha frente ergueu a cabeça e sorriu.
Obrigada, Lily Young.
— Zahra? — ofeguei. — Não reconheci você com o pelo branco.
Todos os unicórnios que se sacrificaram na batalha tiveram essa honra.
— É... é lindo — falei.
Sorri, mas foi um sorriso triste. Ela se virou para ir embora e Amon segurou minha mão. Eu sabia quanto Nebu quisera que a maldição fosse retirada e fiquei feliz por seus filhos. Então foi decidido que, como recompensa por seus esforços, os Filhos do Egito receberiam o dom da mortalidade, se desejassem. Mordi o lábio enquanto eles conversavam baixinho entre si. Era egoísmo da minha parte querer que todos voltassem comigo ao reino mortal, mas eu não conseguia imaginar a hipótese de nunca mais vê-los. Tia e Ashleigh estavam de novo muito quietas. Ambas se limitaram a dizer: Vamos esperar e ver.
Quando eles tomaram sua decisão, anunciaram que Amon aceitaria o dom da mortalidade e voltaria comigo para Nova York. Asten e Ahmose permaneceriam como guardiões do além para a nova deusa que logo seria nomeada para assumir o lugar de Maat. Meu coração se partiu sabendo que teria de deixá-los para trás e tomei consciência do choro baixinho no fundo da minha mente.
Aton pôs as mãos nos ombros de Amon e vi o momento em que ele assumiu a mortalidade. Amon pareceu quase cambalear sob o peso daquilo, mas me dirigiu um sorriso doce. Eu sabia que, apesar de não ter mais poderes, ele estava satisfeito com o presente. Eu estava adiando minha avaliação para depois que tudo estivesse acabado.
Amon e eu tivemos permissão de acompanhar os irmãos até o além. Como não éramos mais imortais e não estávamos mortos, a única maneira de irmos até lá era levados por um dos deuses. Néftis se ofereceu. Pôs uma das mãos no meu ombro e outra no de Amon. Ahmose e Asten podiam retornar ao além por conta própria. Fechei os olhos e nós cinco giramos, nos transformando em areia.


Pude sentir cada centímetro de mim se desfazendo. Quando fomos reorganizados, me vi em um local familiar, o Salão do Julgamento. Correndo a mão por um dos braços do trono de Maat, respirei fundo, tentando controlar as emoções. Um soluço escapou quando me virei para os três homens atrás de mim. Meu lábio tremeu e demorei um momento para ouvir a voz suave falando na minha mente.
Você tem de deixar a gente ir, disse Ashleigh.
— O quê? — falei alto, arquejando. — Não entendo o que você está dizendo.
Nós tomamos uma decisão, Lily, explicou Tia gentilmente.
Não pertencemos mais ao mundo mortal, disse Ashleigh. Não mais.
Nosso desejo é que você viva sua vida sem interferência, acrescentou Tia. Ficar apenas causaria confusão para você e tristeza para nós. Seria uma gentileza nos deixar partir nos nossos termos.
— Mas... mas para onde vocês vão? — perguntei, as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Talvez a gente venha parar aqui, no além, respondeu Ashleigh.
Mas estamos preparadas, caso isso não aconteça, disse Tia. O resultado não vai afetar nossa decisão.
— Elas... — murmurei, tropeçando nas palavras. — Ashleigh e Tia querem partir. É possível? — perguntei a Néftis.
— Sim — respondeu ela simplesmente. — Se elas quiserem ir, basta se soltarem de você. As mentes delas vão se separar da sua.
— Elas virão para cá?
Ela hesitou.
— Não creio. Como foram invocadas direto das Águas do Caos, é provável que retornem ao mesmo lugar.
Meus braços tremiam.
— Não — falei, decidida. Incomodada com a agitação, cruzei os braços. — Não vou permitir.
Irmã, disse Tia. Quando não respondi, ela chamou meu nome baixinho: Lily. Nós amamos você. Você é nossa família. Mas precisamos fazer o que achamos certo. Essa escolha não é sua.
— Por favor — implorei. — Não façam isso.
Antes de irmos, disse Ashleigh, você permite que a gente se despeça?
Pressionei a mão trêmula sobre a boca. Lágrimas empoçaram nos cantos dos meus olhos e escorreram pelo rosto, criando riscos molhados, pegajosos. Só pude concordar com a cabeça. Ashleigh entendeu e veio à frente enquanto eu recuava e me segurava a Tia.
— Ahmose? — disse ela, estendendo a mão.
— Ash? — respondeu ele, e imediatamente a tomou nos braços. — Você tem certeza? — perguntou, acariciando os cabelos dela.
Ashleigh assentiu e sorriu de encontro ao peito dele.
— É melhor assim, amor. Guarde meu coração com você. — Ashleigh pegou seu escaravelho do coração, ainda ligado ao de Ahmose, e colocou os dois nas mãos dele.
Depois de os corações estarem guardados em seu peito, ele segurou o rosto dela entre as mãos.
— Eu te amo, Ashleigh. Encontre sua árvore das fadas e me espere na colina coberta de grama. Se for possível, irei encontrar você lá.
— Vou esperar por você, meu Ahmose. Vou procurar seu sorriso na face da Lua e sentir seu toque nos raios de luar.
Ahmose beijou-a ferozmente, desesperadamente, depois caiu de joelhos, soluços baixos agitando seu corpo grande enquanto ele se agarrava às pernas dela.
— Ah, meu garoto bonito. Acalme-se agora. — Ashleigh acariciou o rosto dele, afastando os cabelos. Ele ergueu os olhos tempestuosos para ela. — Me dê um último sorriso corajoso.
Ahmose assentiu com a cabeça e tentou fazer o que ela pedia, mas só conseguiu uma torção triste dos lábios.
— Adeus, meu lindo deus da Lua — disse ela.
Houve uma leve agitação no ar e então Ashleigh se foi. Irrompi em soluços torrenciais e me agarrei a Tia, que tentou me acalmar e veio à superfície.
Amon e Ahmose se afastaram para dar alguma privacidade a ela e Asten.
— Tia — começou Asten, mas ela ergueu a mão, detendo-o.
— Não sou de palavras floreadas como minhas irmãs — disse ela. — Mas há muita coisa que eu gostaria de ter dito a você antes de vê-lo morrer. — Ela levantou a ponta de um dedo e acariciou a extensão de uma das sobrancelhas escuras dele. — Asten, para mim você é mais lindo do que o nascer do sol. Você sabe quem eu sou e o que eu sou, e conseguiu me amar. Não me arrependo de ter aberto mão do meu corpo para abraçar Lily e, se você me abraçar agora — ela engoliu em seco —, não lamentarei deixar você.
Asten aproximou-se e passou os braços frouxamente pela cintura de Tia. Encostando a testa na dela, disse:
— Talvez você não lamente partir, mas eu vou lamentar. Vou pensar em você todos os dias da minha longa vida. Toda vez que olhar para o Sol, verei seus olhos dourados. Vou procurar você nos meus sonhos e me lembrar de quando você me pediu para beijá-la. Você pode se despedir de mim, mas eu jamais me despedirei de você.
Tia levantou a cabeça, suas veias se enchendo de calor, o coração latejando.
— Dentre todos os homens, você é o companheiro que escolhi. Jamais terei outro. Com toda a energia que me resta, vou ansiar por você, Asten. Me encontre entre as estrelas.
Como Ashleigh, Tia separou os dois corações pertencentes a ela e ao homem que a abraçava e os apertou contra o peito dele.
— Lembre-se de mim, Tene — disse, e pressionou os lábios contra os dele.
A pressão da boca de Asten a princípio foi suave, mas logo o beijo se aprofundou, ficando mais doce e sentido. Quando os dois se separaram, Asten disse de encontro aos lábios dela:
— Sempre, Tiaret.
Então ela se foi e fiquei apenas eu. Meu corpo continuava a ser sacudido por soluços. Tive uma leve consciência de Asten me entregando a Amon, que me segurou com suavidade, acariciando meu pescoço, enquanto eu molhava a manga de sua blusa com as lágrimas. Quando finalmente me controlei, Néftis disse:
— Venha, Lily, conheça a nova deusa do além antes de partir.
Ela me levou a uma sala onde uma mulher estava sendo arrumada com roupas novas. Néftis pigarreou e a mulher se virou. Meu queixo caiu.
— V-vovó? — gaguejei, correndo até ela e a abraçando.
— Lilypad — disse ela, tranquilizando-me. — Que bom ver você!
Levantei a cabeça.
— Mas... não entendo. Como você pode estar aqui? — perguntei. — Só os mortos e os imortais têm permissão. E o que Néftis quis dizer quando falou numa deusa?
— Bom, fui trazida para cá pelo novo barqueiro. — Ela levantou os olhos e sorriu para alguém atrás de mim. — Ele está aqui agora.
Virei-me nos braços dela e vi um sorridente Dr. Hassan. Estava vestido como sempre, com a exceção de um cinto novo onde se viam presas as varas do rio.
— Foi meio complicado atracar — disse ele. — Vejo que conhece minha nova esposa — acrescentou com um brilho no olhar.
— Esposa? — perguntei, boquiaberta, e me virei de novo para minha avó.
Ela me ofereceu um sorriso sereno e segurou meu queixo.
— Bom, Lilypad, espero que você cuide da Mandona e faça o bolo dos gêmeos no aniversário deles. E de vez em quando visite a sepultura do seu avô e cuide das flores dele, está bem?
— Está, mas...
Ela me interrompeu e beijou minha testa, pondo as mãos nos meus ombros.
— Há muito trabalho a ser feito. Imagino que nós dois vamos estar muito ocupados — disse, dando um sorriso ao novo esposo. — Por falar nisso — acrescentou —, gosto do seu Amon. Ele tem um queixo muito forte. — Inclinando a cabeça na direção de Amon, me deu uma piscadela.
— Eu, eu... — gaguejei — ... acho que o Dr. Hassan também tem.
— Tem sim — disse vovó com uma risada suave.
— Tudo pronto — disse uma voz nova atrás de mim.
— Anúbis? — perguntei, virando-me.
Ele assentiu com deferência, um gesto surpreendente vindo do deus carrancudo que eu tinha conhecido.
— Os restos de sua avó e do Dr. Hassan estão sepultados no lugar que eles guardavam — disse ele —, caso você queira visitá-los. Os sarcófagos deles estão ao lado dos antigos corpos de Asten, Ahmose e Amon.
— Re-restos? — perguntei, o horror se esgueirando em minha voz.
— Ora, Lilypad — disse vovó. — Aton e Néftis precisam de mais ajuda. Eles nos ofereceram a chance de fazer isso. Você sabe que nenhum de nós tinha muitos anos de sobra. Agora teremos séculos para ficar juntos e aprender tudo o que pudermos um sobre o outro. Como barqueiro, Oscar poderá me visitar com frequência. Você consegue pensar em alguém melhor para ajudar na transição dos mortos?
— Ele... ele é uma boa escolha — admiti. — Mas e...
— Você terá o seu Amon. Eu lhe deixei a fazenda. Você pode vendê-la ou dar para os gêmeos. Faça o que quiser com ela.
Meu lábio tremeu.
— Mas... vovó...
Ela me apertou com força.
— Ah, Lily. Sei que seu coração está doendo. O meu também. Mas vou ver você de novo. Talvez haja até uma chance de aquele astucioso Anúbis deixar você pegar uma carona de vez em quando e me fazer uma visitinha. — Ela enxugou minhas lágrimas com o polegar. — Agora vá viver uma vida feliz. Verei você novamente.
— Mas como?
— Aquele seu Asten prometeu deixar que eu a visite nos sonhos. Acho que posso confiar na palavra do rapaz. Agora vá, parece que tenho muito trabalho a fazer.
Vovó me deu um beijo carinhoso no rosto e então foi levada embora, seguida por um grande séquito de serviçais. Pelo jeito a fila do julgamento estava muito, muito longa.
— Estão prontos, então? — perguntou o Dr. Hassan, colocando seu amado chapéu na cabeça. — Devo levá-los de volta ao reino mortal.
Assenti, abalada, e tentei sorrir para ele. Estava me sentindo tão deslocada quanto um pinto num ninho de águia. Ahmose e Asten me abraçaram, o primeiro me levantando do chão e beijando minha testa e o segundo segurando meu rosto e me dando um beijo rápido na bochecha. Eles tentaram fazer cara de valentes, mas eu sabia que estavam sofrendo profundamente.
Sérios, despediram-se de Amon. Ele segurou ambos pelos braços.
— Na morte e na vida, Asten. Na morte e na vida, Ahmose.
— Na morte e na vida — responderam eles.
— Vamos protegê-los — disse Ahmose.
— E vamos guardar seu caminho para o além — ecoou Asten.
Antes que eu me desse conta, estávamos seguindo o Dr. Hassan até o convés impecável de um barco novo em folha.
— É lindo — falei, uma pontada de tristeza diminuindo o entusiasmo quando pensei em Cherty e no Mesektet. — Qual é o nome dele?
— Eu o batizei de Hatshepsut — respondeu ele com um sorriso. — Anúbis disse que da próxima vez que eu vier vai tentar arranjar uma visita a Hatshepsut, a própria rainha-faraó! Imagine só. Eu poder conhecer a pessoa que passei a vida inteira estudando! Ah, terei de começar a fazer uma lista de perguntas.
Sorri para o Dr. Hassan. Ele estava obviamente satisfeito com o que tinha. Por mais que eu fosse sentir sua falta — dele e de vovó —, não podia negar essa felicidade aos dois.
— Zarpando! — gritou Oscar, e logo navegávamos nas Águas do Caos.
Amon e eu ficamos de lado, acenando para Néftis, Anúbis, Asten e Ahmose até não podermos mais vê-los. Então me sentei no convés, com Amon ao lado. Ele segurou minha mão e acompanhou as linhas com um dedo.
— Palma com palma, nós nos arriscamos juntos, vivemos juntos e agora vamos morrer juntos.
Amon me abraçou e me manteve apertada contra ele enquanto navegávamos na direção do sol nascente.

10 comentários:

  1. Que final O_O

    E Karina, por que você sempre postas esses livros no blog um dia antes de eu ter uma prova difícil? x'D
    Preciso estudar mas em vez disso estou aqui... TvT

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  2. Ah qria um final diferente pra tia e a cada e os dois irmãos tbm...

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  3. Nem chorei,só molhei a minha vida toda😢

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  4. Nossa, que porcaria de final em...to parecendo um uva passa aqui O_O

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  5. No começo do capitulo eu tava com um ódio mortal da Wasret, pensei que ela fosse seguir a vida dela às custas do sacrifício da Lily e não ia fazer nada por ela. Ainda bem que ela trouxe a Lily e os irmãos de volta antes de sair sirigaiteando com o namorado novo!

    Flávia

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    1. Isso ai u.u

      Mas queria que ela chutasse o Seth xD

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    2. Nossa.., arrasada😭😭😭😭

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Boa leitura, E SEM SPOILER!