9 de março de 2018

30. Unidos

Inspirei, sentindo cheiro de sangue, vida, energia, perda, morte, dor e ambição. Eram aromas pungentes e fortes, apimentados e doces. Centrando-me em minha nova forma, abri os olhos e absorvi a cena à frente. Ahmose estava caído ali perto, mal conseguindo respirar. Seus pulmões estavam esmagados e um órgão havia se rompido. A perna direita estava quebrada em dois lugares.
Anúbis estava morrendo lentamente com o veneno de Apep, assim como os outros deuses caídos na superfície das águas, inclusive o Amon de Lily. Asten não estava em lugar nenhum, mas senti sua energia pairando em algum lugar à minha volta, girando, quase irrecuperável.
Pairando por ali estavam feras terríveis nascidas das trevas. Elas sofriam de um modo que nenhuma criatura nascida do mundo físico deveria sofrer. Seus corpos ficavam oscilando entre a vida e a morte. Para elas, cada movimento era uma agonia. Não tinham liberdade, nenhuma opção a não ser obedecer a quem as havia criado a partir de pedaços dos dois planos de existência.
Franzi os lábios, inspirei fundo e soprei suavemente. Um vento forte saiu de minha boca, mandando todas as meias criaturas de volta para a dimensão invisível à qual pertenciam. O que restava de suas formas físicas se transformou em energia pura e caiu como neve nas Águas do Caos. Eu sabia que esse ato reforçaria aquele contra quem eu tinha sido invocada para lutar, mas agora era impossível evitar isso.
Quando elas se foram, dei um passo à frente e grunhi, finalmente percebendo os ferimentos no meu corpo. Uma asa se arrastava no chão — o osso tinha se partido em dois e um pedaço serrilhado era visível logo acima do ombro. Uma infecção escura pulsava em minha perna e no braço, onde as criaturas tinham mordido e arranhado. Erguendo os braços, fechei os olhos e puxei energia das Águas do Caos. Ela lambeu meus pés e subiu pelas pernas. Logo todo o meu corpo pulsava com ela e eu podia sentir cada corte, cada arranhão e cada ferimento se fechando com força e saúde.
— Assim está melhor — murmurei.
Com o corpo curado, eu podia cumprir os meus deveres, e o primeiro era cuidar de Apep, que agora mesmo deslizava para mim com a boca escancarada.
— Pare — ordenei, levantando a mão.
Não querendo ser distraída do trabalho, usei a energia da água para formar uma bolha em volta de Seth, Ísis e Hórus. Seth estava ocupado tentando desfazer Hórus e o deus parecia resistente o bastante para suportar mais alguns instantes. Ísis ergueu os olhos e inclinou a cabeça em minha direção, assentindo ligeiramente. E continuou falando com Seth, distraindo-o.
Apep não notou nada disso. Avançou mais depressa ainda. Agora que não seríamos incomodados, fechei os olhos, busquei seu nome verdadeiro e o encontrei. Foi quase fácil demais. Sorrindo, falei:
— Thoho, você vai me ouvir e obedecer.
A cobra parou imediatamente. Enrolando-se num grande anel, com a cabeça apoiada no corpo, ele me fitou com os olhos brilhantes cheios de ódio.
Quem é você?, perguntou. Como sabe meu nome verdadeiro?
— Como é que você não sabe? — perguntei. — Você se esqueceu de si mesmo. Disseram-lhe que você é uma criação de Seth. Isso não é verdade. Seth mentiu para você. Aproveitou-se de sua mente fragmentada e fez promessas que não pode cumprir. — A cobra ficou me encarando, mas dava para ver que ela não entendia. — Talvez você se lembre quando eu o reunir com seu gêmeo.
Isso não é possível, disse a cobra. Ele está perdido para mim.
— Tshamut! — gritei. — Permito que você escape de sua prisão. Venha a mim, deixando a Ilha dos Perdidos, e se reúna ao seu irmão! — Ouviu-se um estrondo, como o de um terremoto, e a superfície das águas se inclinou bruscamente para um lado e depois se corrigiu. Do buraco escuro no centro das águas, uma cabeça emergiu. O corpo da cobra deslizou em nossa direção e então se ergueu, como se estivesse se preparando para atacar o irmão.
— Tshamut, acalme-se. — Quando a cobra chegou mais perto, inclinando-se de modo a manter um olho no irmão e outro em mim, parou de se mexer. Seu corpo longo se estendeu sobre as águas. Suas escamas eram cinza-claras e os olhos, amarelos. Um contraste nítido com o tom escuro do irmão. — Tshamut — comecei. — Quando eu o encontrei em sua caverna, você concordou em libertar os Filhos do Egito em troca de vingança contra quem o prendeu. Chegou a hora de cumprir minha promessa.
Inclinando a cabeça para trás, gritei para os céus escuros:
— Abjeta Antropófaga! O fim dos seus dias está chegando. Venha a mim e aceite seu castigo!
Um instante depois, um objeto saiu voando do centro escuro das Águas do Caos e descreveu um arco no ar. Avistei um fino filamento de teia atravessando o céu. Uma aranha gigante pousou suavemente na superfície das águas, as pernas compridas conseguindo se fixar, apesar do espelho d’água escorregadio.
— Você teceu sua tapeçaria? — perguntei baixinho.
Sim, senhora, respondeu a aranha.
— Então olhe à sua volta. Foi isso que seus atos moldaram.
Nem tudo foi feito por mim, disse a aranha. Não posso ser culpada pelas escolhas que outros fizeram.
— Ah, é aí que você se engana. — Virei-me para as duas cobras, que me olhavam com interesse. — Este é o ser responsável por sua separação. Um dia vocês já foram Nommo, os deuses gêmeos criadores que guardavam os polos. Seu dever era proteger as Águas do Caos. Seu corpo longo envolvia este local em um círculo eterno. A fome era equilibrada porque a cabeça de Thoho mordia a cauda de Tshamut e vice-versa. Enquanto se moviam, vocês mantinham o Cosmo alinhado.
Após uma breve pausa, continuei:
— Por causa da cobiça desta aranha cósmica, a teia que conectava todas as coisas se enfraqueceu. No entanto, ela não podia consumir vocês. Em vez disso, desalojou os dois, separou-os, deixando as águas desprotegidas. Então veio uma tempestade e uma pedra gigantesca mergulhou nas águas. Esse foi o nascimento de Amon-Rá. As Águas do Caos tentaram corrigir a mudança concedendo a um dos deuses o poder de desfazer, mas os dois deuses não conseguiram chegar a um acordo sobre como equilibrar os grandes poderes da criação e da obliteração. O caos se agravou.
Isso pode ser consertado?, perguntou Tshamut.
— Algumas coisas podem ser consertadas. Assim como o Akh une o Ka e o Ba para criar algo novo, eu posso unir vocês dois outra vez. Mas para isso terei de lhes dar um nome novo, um ren, pelo qual vocês serão conhecidos de agora em diante.
Virei-me para a aranha.
— Abjeta Antropófaga, como castigo pelos feitos terríveis que cometeu, você será transformada. Vai se juntar a esses dois e seguir atrás deles como uma shuwt, uma sombra, um mero reflexo do ser que você já foi. Isso servirá como lembrança de que a ambição desmedida é uma semente plantada nos pântanos mais negros e que somente frutos ruins podem nascer de uma semeadura assim.
E continuei:
— Dirão de você: “Quando a sombra da aranha atormenta a luz da Lua, é um sinistro presságio do caos.” Os mortais olharão e saberão que continuar num caminho assim é uma tolice perigosíssima, porque significaria a destruição de todas as coisas.
Erguendo os braços, entoei um encantamento e a trêmula aranha gritou enquanto seu corpo se transformava. Sua profundidade e sua substância se dissolveram. Quando não restava nada além de uma sombra, a criatura afundou na escuridão sob os anéis do corpo de Thoho.
— Está feito — falei. — Agora vamos cuidar dos outros.
Dei as costas para as cobras, que me seguiram de perto, e me ajoelhei brevemente ao lado de Ahmose. Passando a mão sobre ele, conduzi energia suficiente para seu corpo a fim de curá-lo.
— Tshamut? — chamei. — Pode dar seu veneno para curar os que foram feridos por seu irmão?
Farei isso, respondeu a cobra. Com o máximo de gentileza de que uma serpente cósmica era capaz, ela picou Anúbis com cuidado e depois foi até Amon. O veneno que injetou sibilou e borbulhou no ponto em que encontrou o veneno escuro de seu irmão gêmeo. Os dois se anularam mutuamente e as vítimas começaram a se curar.
Quando Tshamut terminou com Amon-Rá e Néftis, levantei os braços e desfiz a bolha. Os olhos de Hórus estavam vítreos. Faltavam-lhe um braço, uma perna e metade da outra perna. Seth estava curvado sobre ele, o suor escorrendo por seu rosto, a respiração saindo em grandes espasmos enquanto ele se esforçava. Ísis entoava um encantamento febrilmente junto ao filho, seu lindo cabelo caindo sobre o rosto.
— Seth — falei. — Você vai parar.
Seth levantou os olhos, baixando as sobrancelhas, confuso, olhando a mim e o acréscimo da segunda cobra.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou, impaciente.
— Eu sou a Libertadora — falei baixinho. — Fui invocada pelas estrelas para realinhar o Cosmo. Um grande erro criou você e meu dever é corrigi-lo.
Seth cuspiu com raiva.
— Eu não sou um erro! Sou o mais poderoso dos deuses. O único erro foi que precisei tomar à força a honra que me deveria ter sido dada legitimamente. Não existe quem possa me derrotar! — Ele gesticulou de forma frenética na direção dos deuses à sua volta. — Nem mesmo Amon-Rá é tão poderoso. Toda a criação deve se dobrar à minha vontade.
— Não — eu disse. — É você quem vai se dobrar à minha.
Falei isso tão baixo que Seth inclinou a cabeça, sem saber se tinha escutado direito. Ele me examinou e vi o momento em que sua raiva se transformou num deleite completo.
— É você! — disse ele. — A que se destinava a ser minha verdadeira rainha! Senti seu poder absoluto nos meus sonhos e achei que a esfinge era quem o possuía, mas jamais foi ela. Sempre foi você. Finalmente você veio a mim.
— Como você está errado! Você me insulta com suas suposições. Eu sou a Libertadora! Você acha que eu vim libertar você, quando, na verdade, vim libertar o Cosmo de você!
Com um rugido, Seth voltou seu poder contra mim. Pude ver a força do desfazer preenchendo o ar, ondulando o espaço entre nós, transformando a matéria que tocava em pura energia drenada para as Águas do Caos. Levantei a mão, contive a energia e a segurei na palma. Era linda. Tão gloriosa quanto as águas. Deixei um fiapo escorrer entre os dedos e olhei para o jovem deus.
— Quem é você? — perguntou ele, dando um passo para trás, chocado ao ver a facilidade com que eu continha o seu poder.
— Este corpo já pertenceu a Lilliana Young. Ela era a pedra ovo de serpente. A luz que penetrava na escuridão. Fui atraída para ela e vi o mundo através dos olhos dela. O presente de Lilliana me deu a capacidade de entrar no seu reino. Sua Néftis me vislumbrou através do véu de estrelas e eu pude orientá-la através das eras. Foi a sua primeira esposa que ajudou a me trazer. Tenho muitos nomes. Sou conhecida como Wasret, a Libertadora. Alguns me chamaram de Qetesh ou Hécate. Outros se referem a mim como as três Fúrias, as Moiras ou como a Sereia que Canta Para os Homens e Eles Precisam Obedecer. Todos são verdadeiros. Sou a senhora do Cosmo. Sua zeladora. E vim fazer a contabilidade de seus feitos.
Umedecendo os lábios, Seth estreitou os olhos com astúcia.
— Se você realmente zela pelo Cosmo, sabe que não fui tratado com justiça. Minha família me trancou durante séculos. Você certamente não pode me desacreditar por tentar conseguir o que mereço.
— Você não está errado, Seth. Sua ambição foi alimentada pela dor e pelo equívoco, mas você teve a oportunidade de se erguer acima disso e optou por roubar dos outros em vez de trabalhar a sério para construir por si mesmo. Você viu as escolhas que fez, mas bloqueou o verdadeiro poder do seu filho. Agora você irá vê-lo. Contemple os Sonhos Que Poderiam Ter Sido!
Captei as energias que giravam ao redor das Águas do Caos e mostrei a Seth seu sonho mais acalentado. O jorro de amor que ele teria recebido dos irmãos deuses o fez tremer, mas não foi por se reprovar, foi de fúria. Ele estava com raiva porque seu sonho não fora realizado como ele queria e culpava os outros pelos próprios fracassos.
Canalizando o poder de Ahmose, mostrei cada caminho bifurcado que ele havia percorrido e como cada um deles teria levado a um final mais agradável.
Quando chegou a hora de lhe mostrar o poder do Revelador, suspirei, sabendo que isso não mudaria nada. Mas Seth precisava vê-lo. Ajudá-lo a entender tudo que tinha perdido, a felicidade que deixara escorrer por entre os dedos, faria mais do que qualquer castigo que eu pudesse lhe aplicar.
Quando isso estava feito, falei:
— Agora você sabe. Seus filhos, o Sonhador, o Desbravador e o Revelador, lhe foram dados para guiar seus passos. Para fazer você avaliar suas opções. A cada mil anos o exílio que você sofria poderia ser aliviado se você ouvisse os alertas deles. Em vez disso, você empurrou para longe os próprios seres que um dia ansiou por abraçar. Tentou criar seu Triângulo Impossível, pensando em absorver o poder dele. Mas, em vez disso, ele agiu como um portão, me dando acesso ao seu mundo para que eu pudesse consertar o que estava quebrado. Não existe equilíbrio nisso, Seth. Eu o reprovo por seus atos.
Senti o despertar dos que haviam caído. Amon-Rá pegou a mão de Néftis, levantou-a e os dois se aproximaram. A deusa sorriu e se ajoelhou aos meus pés. Anúbis se agachou perto de Ísis, tirando o agonizante Hórus de seus braços trêmulos. Então Ahmose e Amon avançaram e pararam ao meu lado.
— Lily Young foi a chave que finalmente me acordou — falei, e tive consciência de que nesse momento Amon respirou fundo. — Ela uniu os Filhos do Egito, sua criação. A fada me deu asas para voar do meu lugar de descanso até o seu mundo. — Dessa vez foi Ahmose que se agitou à menção de sua amada. Parei apenas por um momento. — E a leoa me deu sua força, para que eu possa fazer o que devo.
Os punhos de Seth se fecharam e ele trincou o maxilar. Sua teimosia estava me irritando.
— Você fala do que é justo — continuei. — Do que lhe é devido. Vou lhe dizer agora que esses seis seres merecem mais respeito do que você. Eles usaram seus poderes de modo altruísta, por amor um pelo outro e pelos seres que habitam o Cosmo.
Virando-me para Ahmose e Amon, falei:
— Sinto muito pela perda de vocês. Mas chegou a hora de fazerem o sacrifício final. Vocês já entregaram seus corações — falei, indicando os três escaravelhos que iam de um ombro a outro no meu traje. — Agora peço os corações que vocês estão guardando.
Olhei para ambos e prossegui:
— Antes que façam isso, devem saber que, assim que eu possuir esses corações, vou tirar de vocês sua vida pela última vez. Suas formas físicas irão se dissolver, juntando-se às Águas do Caos. Vocês não existirão mais. Essa energia vai me alinhar numa sizígia perfeita, para que eu tenha o poder de restaurar o equilíbrio. Não vou forçar essa decisão, mas poderia, se quisesse. Prefiro que ajam por livre vontade. Ahmose, Amon, vocês farão isso?
Ahmose foi o primeiro a responder. Pôs a mão sobre o coração e trouxe o escaravelho do coração de Ashleigh. Encostou os lábios na pedra verde e a entregou a mim em silêncio.
— Obrigada — falei. Com um estalo dos meus dedos, um pedaço minúsculo do cabelo de Ahmose subiu e caiu na minha mão. — Escolhi você para ser meu companheiro, Ahmose. Seu corpo vai morrer, mas vou fazer um novo para você quando minha obra estiver completa.
Ahmose parecia a ponto de dizer alguma coisa, mas se deteve. Olhou o irmão por um longo momento e depois se virou de volta para mim e assentiu com a cabeça. Doeu em mim saber que ele não estava tão entusiasmado com a ideia quanto imaginei. Tentei reconfortá-lo, dizendo:
— É uma grande honra servir ao meu lado. Há muito que podemos explorar no Cosmo.
— Sim — disse Ahmose. — É mesmo uma honra.
Ele baixou a cabeça com deferência, mas algo em sua postura parecia fora de harmonia. Pareceu uma nota destoante que, por mais que tentasse, eu não podia desconsiderar. No entanto, havia outras coisas a cuidar nesse momento.
Amon tirou o escaravelho de Lily, mas, em vez de olhar para ele, me olhou, examinando meu rosto, como se procurasse seu amor perdido.
— Ela não está aqui — falei gentilmente. — Sinto muito, mas não escolhi você. Minha seleção foi baseada em qual irmão viveria mais amigavelmente comigo.
Ignorando minha última fala, Amon perguntou:
— Eu vou vê-la de novo? — Ele tomou minha mão nas suas, quentes. — Ela estará no lugar para onde eu vou?
Ofereci-lhe um sorriso triste.
— Nem eu sei de todas as coisas, Amon. Mas vocês dois estão unidos. Se eu tiver sucesso em trazer de volta o equilíbrio, suas energias serão unidas, independentemente do que vocês se tornarem e aonde quer que possam ir.
Amon assentiu e me entregou o coração de Lily. Peguei o coração de Tia dentro do cinto e abri as duas mãos. Os escaravelhos do coração pertencentes a Tia, Ashleigh e Lily subiram no ar, girando cada vez mais depressa, cada pedra cintilando, a luz jorrando até que as três bolas de luz se tornaram energia pura que disparou para o meu peito e desapareceu.
Peguei a tira de couro que pendia amarrada a cada ombro. Engastados no material estavam os três escaravelhos pertencentes aos Filhos do Egito.
Anúbis assentiu para os dois rapazes, os olhos marejados de emoção. Amon-Rá tinha os lábios apertados, Ísis parecia séria e Néftis sorria, lacrimosa. Com os corações das três jovens dentro de mim, minhas emoções borbulhavam. Tentei contê-las, sabendo que era isso que devia fazer.
Antes que eu pudesse começar o processo, Seth recorreu a seu poder e se transformou num dragão.
Você não vai pegar o que me pertence!, gritou.
Fiquei parada, calma, enquanto o dragão batia as asas poderosas, elevando-se no ar. Ele descreveu um círculo enquanto eu olhava. Amon-Rá e Néftis saltaram para trás, gritando, enquanto Seth enchia o ar com fogo. Na passagem seguinte, ele abriu as mandíbulas poderosas, as chamas se acendendo dentro dele quando se virou diretamente para mim.
Então você fez sua escolha, falei. Prepare-se para as consequências. Em seguida, inspirei fundo e sussurrei o verdadeiro nome de Seth direto para sua mente de dragão: Ascalon.
Nesse momento, o dragão gritou, não só porque eu tinha usado seu nome verdadeiro, mas também porque Amon tinha pegado uma das minhas facas-lanças, estendeu-a e saltou no ar, perfurando seu couro no ponto vulnerável embaixo da asa. O dragão despencou embolado, com o peito poderoso arfando, minha lança ainda cravada em seu corpo.
Agachei-me, olhando a criatura nos olhos.
— Seus rapazes foram a chave de sua derrota. Você lhes deu seu poder, pensando em pegá-lo de volta, mas Amon o desfez, assim como você iria desfazê-lo. O Cosmo lhe concedeu tanta coisa que somente alguém criado por você tinha de fato o poder de feri-lo desse modo. É uma infelicidade que tivesse de ser assim. Mas vou terminar a tarefa que ele começou.
Quando levantei os braços, os três escaravelhos que restavam subiram no ar.
— Espere! — pediu Néftis. — Primeiro Amon deve devolver o Olho de Hórus.
— E o... o falcão dourado — acrescentou Hórus, mal conseguindo falar. — Ele é mais do que apenas um símbolo.
Assenti com a cabeça.
— Muito bem. Amon, pode vir a mim?
Quando ele obedeceu, Hórus, ofegando de dor, teceu um encantamento. Uma luz subiu do corpo de Amon e assumiu a forma de pássaro. Ouvi um guincho quando a luz se transformou num falcão de ouro. Ele voou até Hórus, que o pegou com o braço que lhe restava. Levou os lábios ao topo da cabeça emplumada da ave e a beijou.
— Senti sua falta terrivelmente, velho amigo.
— Agora o Olho — disse Néftis. — Amon não pode tirá-lo sozinho. Hórus precisará puxá-lo de volta.
Fechando os olhos, Hórus murmurou suavemente e uma luz dourada cintilou em seu corpo mutilado. Amon gritou e do centro de sua testa irrompeu um globo branco brilhante. O globo pairou no ar, girando. Enquanto Hórus terminava o encantamento, o globo voou na direção dele e afundou em sua testa. Cansado, ele abriu os olhos, que reluziram, dourados. Uma luz preencheu seu corpo e nesse momento houve uma mudança discernível em sua expressão. Até sua postura ficou diferente. Olhando o próprio corpo, ele levantou o braço e o examinou, como se o visse pela primeira vez. Depois me deu um olhar demorado, pensativo. Por fim, olhou para Néftis e assentiu.
— Está feito.
— Muito bem — falei. — Então vou prosseguir.
Amon desabou de joelhos. Parecia destroçado. Ahmose se ajoelhou ao lado do irmão, abraçando-o. O encantamento começou, os escaravelhos do coração giraram no ar e então eles também entraram no meu corpo. Em seguida, se conectaram: três corações alinhados com três corações. Cada um deles ligado a outro, para nunca mais se separarem. Levantando meu arco, invoquei uma flecha e sussurrei o verdadeiro nome de Amon para ela, que disparou, vibrando, fez um círculo e então mergulhou no peito de Amon.
Repeti o processo com Ahmose. Meus olhos se fecharam por vontade própria enquanto eu sentia a pontada da perda. Quando os abri, Amon e Ahmose já haviam tombado na superfície das Águas do Caos, os corpos se dissolvendo diante dos meus olhos.
Seth me olhou furioso quando me aproximei.
— Deixe que eu morra do golpe de Amon — disse ele enquanto seu sangue vital escorria para as Águas do Caos e desaparecia. Sua forma estava mudando lentamente para uma energia pura. — Que minha morte seja causada por ele. Não vou perecer pela mão de uma mulher.
Inclinando a cabeça, eu o examinei.
— Não é uma mulher que está matando você neste dia — falei, e sorri —, e, sim, uma deusa. Na verdade, foi um trio de deusas que o derrubou. Lembre-se do nome delas: Ísis, Néftis, Wasret. Mas também saiba que você mesmo provocou esse destino. Quando os mortais falarem de Seth, só vão se lembrar de como o poderoso caiu. Seria bom você refletir sobre isso. Talvez nos últimos instantes você consiga apreciar as mulheres sábias que concordaram em fazer parte da sua vida, ainda que equivocadamente. Aplique essa lição no futuro.
— Aplique essa lição? — cuspiu Seth. — Como assim?
— Você verá, Ascalon. Néftis, Amon-Rá, aproximem-se.
Os dois deuses deram um passo à frente.
— Sabem o que pretendo fazer? — perguntei baixinho.
Lágrimas brotaram dos olhos de Néftis e ela assentiu, depois se virou para Amon-Rá.
— Tem certeza? — perguntou.
Ele acariciou o rosto dela com ternura.
— Eu ficaria com você de qualquer forma possível — disse Amon-Rá. — Sinto em meu coração que esta é a escolha certa. Este é o dia para o qual nos preparamos há muito tempo.
Néftis envolveu com os braços o pescoço de Amon-Rá e trouxe os lábios dele até os seus. Ísis ofegou e a boca de Anúbis escancarou-se, em choque, mas eles não disseram nada.
Depois de se separarem, Amon-Rá segurou a mão de Néftis e os dois se viraram para mim. Ele levou brevemente a ponta dos dedos dela aos lábios e disse:
— Estamos prontos.
— Muito bem. — Erguendo a voz para o Cosmo, atraí o poder para o meu corpo, levantei o arco e ajustei na corda não uma flecha, mas uma de minhas facas-lanças, e gritei: — Ascalon, eu risco seu nome do Cosmo. Tomo sua energia vital e o transformo em algo novo.
Puxando a corda, disparei o projétil, que se cravou fundo no peito do dragão. A fera se retorceu e gritou enquanto seu corpo começava a se dissolver mais depressa.
Virando-me para o casal perto de mim, falei:
— Amon-Rá, eu risco seu nome do Cosmo. Tomo sua energia vital e o transformo em algo novo.
Amon-Rá gritou quando seu corpo se transformou em energia branca.
Néftis gritou e recuou, o rosto molhado de lágrimas. Ao mesmo tempo o corpo do dragão se transformou em energia. Juntei as mãos e as duas energias se combinaram. Durante um tempo, pareceu que os dois seres iriam se despedaçar mutuamente, mas então o caos se acalmou e a energia se fundiu num ser feito de luz.
— Agora vou lhe dar um nome e, enquanto faço isso, você assume uma forma nova. Seus poderes serão equilibrados, porque você terá a capacidade de criar e desfazer. Peguei o melhor de cada um. Agora Néftis é sua esposa verdadeira e será sua companheira através das eras. O nome que lhe dou não será segredo para os que o amam. Porque, se você se tornar negligente em seus deveres, eles terão o poder de confrontá-lo. De agora em diante você será chamado de Aton.
O corpo de Aton ganhou forma. A luz diminuiu até que nossos olhos puderam vê-lo completamente. Ele era bonito, alto e ereto. Seus olhos brilhavam com espanto, maravilhado, vendo sua família pela primeira vez. O cabelo era escuro como o de Amon-Rá, mas havia uma pequena mecha encaracolada atrás. Em suas feições, encontrei um pouco de Seth e de Amon-Rá, mas ao mesmo tempo Aton era absolutamente único — um ser criado a partir das qualidades dos dois homens.
Ele se virou e sorriu para Ísis e Anúbis, depois franziu a testa ao ver Hórus. Agitando a mão, murmurou um encantamento e o corpo de Hórus se enrijeceu enquanto a energia lhe voltava, recriando os membros perdidos. Ísis abraçou com força o filho recuperado, lágrimas de alegria escorrendo por seu rosto.
Quando Aton me olhou, assentiu levemente com a cabeça e por fim se virou para Néftis, apoiou-se em um dos joelhos e estendeu a mão.
— Você me aceita, minha rainha? — perguntou, levantando os olhos cheios de esperança para Néftis.
Ela inclinou a cabeça formalmente.
— Aceito, esposo.
— Eu me empenharei para conquistar seu coração e merecer sua lealdade.
— Meu coração já é seu.
Aton se levantou e tomou as mãos dela nas suas, examinando seus olhos. A compreensão lhe veio rapidamente.
— Você deu seu escaravelho do coração a Amon-Rá.
Néftis assentiu:
— Dei.
— Então vou lhe oferecer o meu.
Ele extraiu seu escaravelho do coração, uma linda pedra com redemoinhos de ouro e ônix. Néftis o pegou e o levou ao seio. Num instante ele desapareceu. Os olhos dela se arregalaram.
— Eu... eu sinto você — disse.
— E eu sinto você, meu amor.
Enquanto o deus do Cosmo e sua esposa aprendiam um sobre o outro, bati as asas, alçando-me no ar e me preparando para a tarefa seguinte.

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