8 de março de 2018

3. A prática leva à perfeição... mais ou menos

Uma semana se passou e minha memória ainda não tinha retornado. Pelo menos, não o que todos queriam que eu lembrasse. E tudo parecia depender de eu recuperá-la.
Hassan relutava em me guiar nos procedimentos para acordar as múmias até que eu soubesse o que estava fazendo. Aparentemente, invocá-las era diferente de invocar o cão do inferno. Eu precisava conhecê-las — conhecer de verdade — antes que ele corresse o risco. Estava preocupado com a hipótese de eu estragar o encantamento e relegá-las ao além permanentemente, o que não seria nada bom para nós. Ele não parecia acreditar que eu fosse forte o suficiente para derrotar o Dr. Maligno Não Sei das Quantas sem a ajuda das múmias. Basta dizer que não queria tentar antes que eu — ou, acho, nós — estivesse totalmente preparada.
Algo estava errado com o meu — o nosso — poder. Bom, segundo eles. O problema era que nada do que eles faziam, nenhum exercício monótono nem os fartos relatos dos meus supostos feitos passados, instigava minha memória. Eu me lembrava dos meus pais, de ter terminado o ensino médio, de passar na faculdade, de vovó e até do museu. Eram só as coisas malucas sobre o Egito que eu não sabia. E, para dizer a verdade, se eu não tivesse uma leoa maluca que passava horas contando tudo sobre a esquisitice de passarmos a habitar o mesmo corpo e uma fada mais maluca ainda me fazendo companhia constante, acho que teria me escondido no meu quarto com a cabeça debaixo do cobertor.
Era muito ruim ter uma turma no meu cérebro. Mesmo nas tarefas comuns, cotidianas, elas tinham de dar a sua opinião. As duas discutiam com relação a praticamente tudo. Com o tempo foram se estabelecendo papéis.
Ashleigh recolhia os ovos, ajudava vovó na cozinha, fazia anotações para Hassan e cuidava de banhar e vestir meu corpo. Enquanto ela nos arrumava, eu me encolhia, sem me reconhecer no espelho. Era assustador olhar para mim mesma e não ver meus olhos me fitando de volta. Ah, sim, eram os meus olhos, mas a luz por trás deles não era a minha. Além disso, as expressões faciais eram todas erradas. Não era uma possessão tipo filme de terror, mas mesmo assim era possessão.
Recolhi-me ainda mais. Às vezes se passavam horas e eu não tinha lembrança de como tinha ido parar no celeiro ou no campo de treino. Quando era a vez de Tia, eu não me sentia nem de longe interessada no que acontecia. Ela ficava no comando durante os treinos físicos, quando estávamos comendo (coisa que fazia com enorme prazer) e, estranhamente, ordenhando Mandona. Eu estava perdendo não somente a mim, mas também minha avó, para minhas duas passageiras mentais. Ela parecia gostar delas um bocado mais do que gostava da neta, o que doía mais do que qualquer coisa. Vovó me lançava um monte de olhares simpáticos, mas dava para ver que até ela estava desapontada comigo. Quanto mais vovó se dirigia primeiro a elas, mais eu me afastava.
E ainda havia as ocasiões em que entrávamos na sala e víamos vovó sentada perto de Hassan, sussurrando. Quando ela notava a gente, se empertigava depressa e se afastava, enxugava as mãos no avental e ia para a cozinha. Tia não pensava nisso. Mas Ashleigh ficava encantada com a ideia de que vovó e Hassan pudessem estar começando um romance. Hassan dirigindo olhares apaixonados para minha avó era a cereja do bolo incrivelmente intragável em que minha vida tinha se transformado.
Treinar minhas habilidades parecia ser o foco principal de Hassan. Eu só ficava ao fundo e olhava, mal-humorada, Tia trabalhar. Quando se tratava de atacar espantalhos ou perseguir as galinhas, aparentemente eu... nós (pronomes idiotas) éramos especialistas. Éramos capazes de cravar uma flecha num alvo a grande distância e atirar as facas-lanças com precisão mortal. Mas, cada vez que Hassan pedia que treinássemos unir nossas mentes ou invocar o cão do inferno de novo, eu relutava.
Eu tentava, pelo menos na superfície, mas alguma coisa dentro de mim congelava. Tia me culpava. Ashleigh ficava me chateando com uma lista de frases motivacionais, como “Quem não é forte precisa ser inteligente”, “Um potro xucro pode virar um poderoso cavalo de corrida” e minha predileta, a que me fazia sentir culpa: “Esquecer uma dívida não quer dizer que ela esteja paga.”
Nem à noite eu conseguia descansar. Elas estavam sempre ali, as duas. Quando a casa ficava silenciosa e todos dormiam, lá estavam elas, no fundo da minha mente, os pensamentos parecendo ruído de fundo. Por fim, depois de uma semana de noites em claro, a exaustão venceu e mergulhei num sono profundo.
Eu não estava sozinha no mundo de sonhos para onde minha consciência escapou, o que não era surpreendente, mas as mentes que eu sentia por perto não eram familiares, e isso, sim, era uma surpresa. Eu me encontrava no topo de uma duna de areia, um oceano de ondas do deserto se espalhando em todas as direções. Os grãos de areia se moviam, escondendo coisas amedrontadoras, como uma camada de neve cobrindo ossos descorados. Então o sussurro de uma brisa noturna beijou meu rosto. Olhei para as estrelas brilhantes no céu; eu quase podia ouvi-las falando. Os ossos sob os pés foram esquecidos enquanto vozes que pareciam o tilintar de sinos murmuravam, sobrepondo-se enquanto passavam as mensagens para um lado e para outro. Era confuso e caótico.
Uma estrela brilhava mais do que as outras, me banhando numa luz cintilante. Um pássaro branco voou lá no alto, obscurecendo todas as estrelas, menos a brilhante, antes de desaparecer no céu noturno. Meus sentidos se tornaram mais aguçados. Parecia que eu estava no olho de uma tempestade invisível e que estava sendo vigiada, protegida.
A risada de um homem caiu sobre mim como uma cachoeira quente. Eu queria me afundar nela e flutuar. Um vento zéfiro acariciou meu rosto e eu girei, tocando meu rosto com as pontas dos dedos, mas não havia ninguém ali.
A lua subiu como uma fênix de prata e a estrela que tanto havia me fascinado cedeu à luz dela e recuou, desbotando e misturando-se ao fundo. Ergui o queixo para deixar a claridade correr seus dedos pelo meu rosto e fechei os olhos. Enquanto ela traçava seu caminho pelo céu, virei o corpo para continuar a olhá-la. Senti-me apanhada em seu olhar pesado, e o espaço entre nós parecia cheio de segredos, saudade e desejos não realizados.
A sensação dos lábios suaves de alguém se comprimiu na minha testa, mas de novo não havia ninguém ali. Quando levantei a cabeça outra vez para a esfera perolada da lua, a luz prateada refletia dois olhos tempestuosos, selvagens como os de um lobo caçando. Eles piscaram para mim na superfície do satélite e desapareceram.
A lua se pôs, beijando meu rosto com sua linda luz uma última vez antes de se dissolver no horizonte. Lamentei sua ida e esperei que minha estrela retornasse, mas isso não aconteceu. A sensação da perda da estrela amistosa e da lua séria tornou-se aguda como a ponta de uma faca que se retorceu em meu estômago.
Logo a escuridão ao redor ficou mais densa. Comichava em minha nuca com dedos frios, fantasmagóricos. Quase delicadamente, traçou um caminho descendente pela coluna. Esperei, prendendo a respiração, que as pontas geladas rasgassem o tecido fino do meu vestido e se cravassem na carne como adagas.
O vento chicoteava em torno do meu corpo e eu ergui o nariz no ar. Uma tempestade estava chegando. Ou talvez, com meus protetores tendo ido embora, a tempestade pudesse finalmente despejar sua fúria sobre mim. Ouvi uma risada, cruel e aguda como um relâmpago, o relincho de cavalos, o berro de uma fera colossal e os gritos de homens torturados. Quando pisquei, a areia do deserto se mexeu, finalmente revelando o que se encontrava por baixo da superfície áspera. A terra estava coberta por um exército derrotado. A morte cobria o chão. Os cadáveres humanos apodrecidos se misturavam com os corpos de animais tombados. Apertei a mão sobre a boca para conter o grito e caí de joelhos, enquanto lágrimas enchiam meus olhos.
Apesar da falta de luz, os ossos assumiram um brilho próprio, reluzindo com uma luminescência interna que enfatizava as órbitas vazias dos olhos e as caixas torácicas ocas. Eu é que tinha provocado aquilo. Eu sabia. A culpa era minha.
— Eu sinto... sinto muito — sussurrei. Minha voz, ainda que baixa, percorria a extensão da areia. — Não queria que isso acontecesse.
Nesse momento, a borda da Terra explodiu com uma chama brilhante. O alvorecer rompeu sobre o horizonte, tingindo o mundo de dourado. O sol luminoso estendeu os braços na minha direção. Assim que a luz caiu sobre os corpos, eles desapareceram. Quando chegou a mim, fui envolvida num abraço tão cheio de calor e amor que todos os pensamentos tristes fugiram tão rápido quanto a escuridão.
Tudo ficou imóvel e, de novo, eu existia numa bolha de proteção. O pó e a areia, que tinham sido agitados tão facilmente pela brisa, não ousavam mostrar estados transitórios nem revelar seus segredos mórbidos diante de algo tão poderoso. Fechei os olhos.
Os raios do sol percorreram o meu rosto, secando instantaneamente as lágrimas e deixando um brilho que pulsava. Eu tinha achado que a luz da estrela reluzente e a da lua luminosa eram lindas, mas não eram nada comparadas com o poder do sol.
Absorvi seu calor, me banhei nele. Era como uma abelha presa num favo transbordando de mel. Realização, propósito, destino, doçura e verão estavam todos ali, juntos, naquele abraço. Se eu pudesse escolher ficar naquele local para sempre, até mesmo morrer ali, teria feito isso.
Lentamente a luz se afastou e eu gemi.
— Por favor, não me deixe.
O sol enroscou os dedos no meu cabelo. Um formigamento quente cobriu meu couro cabeludo. A silhueta de um homem apareceu brevemente no centro do sol, mas a luz era forte demais para que eu olhasse seu rosto.
— Nunca deixei — disse uma voz masculina capaz de aquecer oceanos.
Um grito escapou dos meus lábios.
— Como vou encontrar você de novo?
— Nos sonhos — disse a voz com o calor fraco de brasas se apagando.
O sol mergulhou no horizonte e novamente eu me vi envolta em uma mortalha de escuridão. A ausência do sol me sufocou, pesando em meu peito como uma âncora. Desci correndo a duna, tentando perseguir os últimos raios, mas minha ansiedade fez com que eu tropeçasse e caísse, e acordei com um sobressalto.
A colcha de retalhos da minha avó estava no chão e a lua lançava um brilho fraco na cama — uma cópia patética da luz no meu sonho. Abracei o meu corpo e estremeci. Lágrimas escorriam pelo meu rosto. Mesmo me sentindo completamente sozinha, eu sabia que não estava. Meus dois fantasmas pessoais me observavam com curiosidade nos recessos da mente.
Interessante.
É interessante mesmo.
Funguei alto e enxuguei os olhos na manga.
— Fico muito feliz de vocês acharem minhas lágrimas interessantes — devolvi, ríspida.
Ah, não são as lágrimas, querida, disse Ashleigh. É o fato de que você está de novo no controle.
— De novo no controle? Você chama isso de controle? Se eu estivesse no controle, vocês duas não estariam aqui.
É um sinal, disse Tia. Ele a chamou e ela ouviu.
Soltei um gemido.
— Hassan não disse que assombrações como vocês duas dormem de madrugada?
Ele estava falando de fantasmas que assustam. Não somos fantasmas assustadores, explicou Ashleigh, bufando. Ainda que você não saiba de mais nada, pelo menos isso já deveria saber.
— Bom, de qualquer maneira, voltem a dormir e cuidem do que é da sua conta.
Mas você é da nossa conta, Lily, disse Tia baixinho. Sem você, o que nós somos?
— Eu não sei. Uma viagem com todas as despesas pagas para Malucópolis? Por que não me dizem?
Houve um momento de silêncio. Fiquei satisfeita, pensando que finalmente as havia colocado em seu devido lugar. Mas no mesmo instante me arrependi daquelas palavras.
— Olhe, eu não quis dizer isso.
Quis sim. Nós sabemos quando você fala a verdade, disse Tia.
— Está bem, eu quis. — Puxei a colcha do chão e a embolei em volta do corpo, apertando em torno das pernas. — Mas não tive a intenção de magoar seus sentimentos. Desculpem.
Eu falei para você, Ashleigh disse para Tia, quem é bem alimentado não entende os magros.
— O que isso quer dizer?
Quer dizer, mocinha, que toda essa experiência provavelmente foi uma coisa boa. Agora você sabe como é ser passageira.
— De que você está falando?
De você. Agora que está de volta no controle, talvez tenha uma ideia um pouquinho melhor de como é ser relegada ao fundo da carroça de maçãs.
Ouvi um rosnado minúsculo.
Seu cabelo está se soltando, Lily, disse Tia.
— Meu cabelo? — Levantei a mão e puxei o elástico frouxo, jogando o cabelo por cima do ombro.
— Ah, obrigada... — falei, confusa. — Não estou entendendo aonde você quer chegar.
Estou querendo mostrar, tolinha, que a gente não levantou sua mão. Foi você que levantou. E está falando, ainda por cima.
— Foi? — Ergui os dedos, tocando o rosto e os lábios. — Eu fiz isso! Estou me mexendo! Sou eu!
É. Você está controlando seu corpo de novo. O que será que provocou isso?
— Que importância tem isso? — perguntei a Tia.
É importante porque, se você voltar a se esconder no fundo, precisamos saber como consertar.
Não é óbvio o que provocou? Foi Amon, disse Ashleigh com um tom sonhador na voz.
— Amon? — ecoei, franzindo a testa. — Você se refere à múmia?
Ele só é múmia no reino mortal, explicou Ashleigh.
— Mesmo assim, não sei o que ele tem a ver com isso.
Lily, disse Tia, ele era o sol.
— O sol? — Será que o homem escondido na luz do sol podia ser real? Engoli em seco, lembrando-me da sensação de estar nos braços dele. — Quer dizer que isso aconteceu mesmo?
Sim, vocês dois estão conectados nos sonhos, explicou Tia.
— Entendo.
Mas não entendia. Não de verdade. Pelo menos não queria entender.
Todos eles vinham me dizendo que eu tinha um relacionamento com esse cara, mas eu não me lembrava de nada. Não era nem um pouco do meu estilo abrir mão de tudo por causa de um homem. Eu era extremamente exigente quando se tratava da espécie masculina. Tinha uma longa lista mental que eliminava qualquer ideia de namoro com todo cara que eu conhecia. A maior parte dos garotos da minha escola no ensino médio não conseguia preencher nem mesmo os cinco requisitos básicos, quanto mais a lista completa. De modo que a ideia de uma múmia ser quem eu tinha escolhido acima de todos os outros simplesmente não fazia sentido. Agora eu tinha um novo requisito para incluir em minha lista. Vivo. Esse nunca havia me ocorrido.
— Bom, essa reunião foi construtiva — falei a Tia e Ashleigh. — Fizemos umas coisas boas aqui. O que acham de nos reencontrarmos de manhã e avaliarmos nosso progresso?
Por que ela está falando assim?, Ashleigh perguntou a Tia.
A leoa rosnou baixinho.
Ela está tentando nos silenciar.
Ah. Bom, boa noite, então, garotas.
Durma bem, fada, disse Tia. Quase pude senti-la se enroscando na minha mente, me espiando com olhos brilhantes e a cauda balançando. Boa noite, Lily.
— Boa noite. — Deitei-me na cama, chutando a colcha até que os pés estivessem cobertos.
Depois de mexer os dedos dos pés só para provar que conseguia, fechei os olhos e caí num sono sem sonhos.


Para minha consternação, Tia e Ashleigh resolveram matar aula na manhã seguinte. Eu me espreguicei e aproveitei um banho de chuveiro longo, adorando estar no controle. Porém mais tarde, quando perguntei se Ashleigh queria cuidar do meu cabelo, ela simplesmente respondeu: Não, obrigada.
Apesar de eu sentir que a fada gostava de fazer isso, ela recusou com teimosia. Tia fez a mesma coisa com relação a ordenhar Mandona. Tentei provocar uma reação nela espantando os gatos. Eles soltaram miados de dar pena e se esfregaram nas minhas pernas. Depois bateram na pata de Mandona até que a vaca mugiu um alerta contra eles, que se espalharam pelos fardos de feno. Tia não estava feliz, mas não falou nada. Logo até mesmo seu desagrado ficou escondido de mim.
— Não sei o que vocês duas acham que estão fazendo — murmurei enquanto carregava o balde de leite até a casa. — Achei que quisessem me ensinar como é ficar no banco de trás. — Elas não responderam. — Ah, bom, vocês é que estão perdendo.
Deixei-me afundar numa cadeira junto à mesa da cozinha, olhando vovó preparar o café da manhã. Um sorriso iluminou meu rosto. Ela ia ficar empolgada demais ao descobrir que eu era eu outra vez. Bom... quase totalmente.
Vovó colocou na minha frente uma pilha gigante de panquecas de mirtilo pingando manteiga dourada fresca e uma garrafa de xarope de bordo antes de voltar para o fogão.
— Acho que hoje só vou querer um ovo mole e um pouco de chá — falei, animada.
Minha avó se imobilizou por um instante com a espátula na mão e então se virou para mim.
— Lilypad? — perguntou, hesitante.
Confirmei com a cabeça, o riso virando um grunhido quando ela me puxou e me abraçou com força.
— Como está se sentindo? — Ela afastou o cabelo do meu rosto e me olhou nos olhos.
— Não sei bem. Acho que a palavra seria “sequestrada”.
Enquanto falava, percebi que Tia e Ashleigh se ressentiram, mas não me importei.
— E, hã, as outras garotas ainda estão com você? — perguntou vovó.
— Sim. Ainda estão aqui.
Vovó assentiu, solene. Seus olhos brilhavam, mas não dava para saber se ela estava triste ou feliz. Então segurou meu queixo e examinou meu rosto.
— Você está com olheiras. E, apesar de tudo o que Tia comeu, parece que perdeu peso. Você já estava magra, para começo de conversa. Agora sua pele está tão esticada sobre os ossos que até parece que você foi jogada num buraco e passou fome durante o último mês. Não vou admitir isso. Hassan? — chamou ela.
Ele entrou rapidamente na cozinha, enxugando o cabelo com uma toalha.
— O que é, Melda?
Olhei-o, irritada.
— Quem lhe deu permissão de usar o primeiro nome dela? — perguntei, em tom de acusação.
— Acho melhor você ser educada com nosso hóspede — disse vovó. — Se quer saber, eu dei permissão. E o motivo para ter feito isso não é da sua conta.
— Lily? — Ele deu um passo à frente e fitou meus olhos como se fosse um médico, e não aquela espécie de Indiana Jones. — Como isso aconteceu?
Ignorei-o e me virei para vovó, apontando um polegar na direção dele.
— Você gosta dele, ou algo assim? — questionei. — Não acha que é uma traição ao vovô?
O rosto de Hassan ficou vermelho-beterraba, um acontecimento notável, considerando seu bronzeado natural. A cor vermelha desceu pelo pescoço, desaparecendo no colarinho aberto da camisa.
— Eu... nós... — gaguejou ele. — Peço desculpas por qualquer infração que tenha cometido.
— Não ouse pedir desculpas — disse vovó a ele. — Você não fez absolutamente nada de errado. Lilliana, estou surpresa. Logo você, que sabe como eu amei, e ainda amo, o seu avô. Ora, Hassan tem sido um bom amigo nessas últimas semanas. Isso não quer dizer que vamos morar juntos ou nos casar. Mesmo se quisesse, eu esperaria que você respeitasse minha decisão e pelo menos fizesse a cortesia de expressar seus sentimentos de modo civilizado. Espero coisa melhor da sua parte, mesmo que neste momento sua vida esteja uma confusão. Entendeu, mocinha?
Olhei sua expressão séria e assenti com a cabeça, sentindo-me suficientemente castigada e arrependida. Até mesmo Tia e Ashleigh ficaram acovardadas com o sermão dela.
— Sim, senhora — falei.
O granito dos olhos dela se suavizou até o azul-centáurea normal. Ela sorriu.
— Essa é a minha garota. Bom, estou feliz por você ter voltado. Hassan? É melhor trazer aquelas anotações em que trabalhamos ontem à noite. Sei que você odeia computadores, mas, pessoalmente, acho que deveríamos organizá-las de modo que tudo fique fácil de achar. Quer trazer meu laptop, também? — Ela se virou para mim. — Coma um pouco, mocinha, e depois vamos trabalhar.
Quando Hassan saiu, eu cruzei os braços.
— Não quero fazer isso, vovó. Não creio que eu possa.
— Se alguém tem força suficiente para isso, é você. Jamais acredite que não pode. Acreditar é vencer metade da batalha.
Peguei sua mão, apertei e murmurei baixinho:
— Estou com medo.
Ela apertou meus dedos de leve e acariciou meu cabelo com a outra mão.
— Claro que está. Seria uma idiota se não estivesse. E minha neta não é idiota. — Vovó suspirou. — Deixe o medo trabalhar em você, suavizar suas arestas. Entregue-se a ele de modo que ele corra pelos seus membros e roa seu estômago, e depois o deixe de lado. Diga que ele não pode mais derramar o veneno da inação em você. O medo vem para nós como uma onda gigantesca, mas ela sempre vai se quebrar na rocha da sua determinação. Você vai superá-lo, Lilypad, e vai se tornar melhor por causa disso.
Vovó pôs o dedo embaixo do meu queixo e levantou meu rosto para me olhar. Engoli em seco e respirei fundo.
— Ok — falei por fim.
— Ok — repetiu vovó. — Agora, antes de tentarmos qualquer outra coisa, precisamos deixar você saudável. Hassan? — Ela se virou para o arqueólogo, que retornava. — O que podemos fazer? Mais descanso? Alimentá-la?
Ele coçou o queixo.
— Minha teoria é que o corpo de Lily se atrofiou enquanto a mente dela estava escondida. Um corpo não pode existir sem mente.
— Mas eu tinha três mentes no corpo o tempo todo. Então por que isso teria importância?
— Importa porque seu corpo pertence a você. Ele sabe que Tia e Ashleigh não... se encaixam bem, na falta de um conceito melhor. Com você de volta ao comando, com memórias intactas ou não, deve começar a ver um resultado mais positivo.
— Mas nós ainda estávamos fortes e capazes de fazer todas as coisas que podem ser exigidas de uma esfinge.
— Sim. Mas você não está destinada a ser uma esfinge. Você é mais do que isso. Para assumir seu poder, você deve abraçar o ser que irá se tornar. Deve assumir o nome de Wasret, assim como tudo que esse nome implica.
Fiquei parada um momento. As flores recém-cortadas de vovó na mesa faziam cócegas no meu nariz com seu cheiro doce. O alvorecer tinha dado lugar a um sol dourado que piscava para mim por cima do parapeito da janela, aquecendo meu braço onde os raios o tocavam. Assimilei tudo aquilo. A expressão esperançosa de vovó, o mosaico do piso da cozinha, o ar entrando e saindo de meus pulmões e os pensamentos das duas garotas que tinham vindo morar no meu cérebro.
Num momento eu era Lily, uma garota apanhada numa situação impossível, mais perigosa e mortal do que qualquer coisa que eu já havia lido em histórias. E no momento seguinte era algo totalmente diferente. Enquanto respirava fundo, trouxe delicadamente minhas outras duas consciências interiores na mesma direção. Elas circularam minha mente, com ideias e pensamentos, esperanças e sonhos se misturando até nos tornarmos uma. Até nos tornarmos Wasret.
— Vamos começar? — falei, incorporando uma voz que era velha como o Cosmo e poderosa como uma estrela recém-nascida.

3 comentários:

  1. Adorei o sonho dela com os irmãos...*----*

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    1. Eu tb :3 Além do mais por ela ter escurado o Amon *-*

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  2. Graças a Deus existe a Melda na História
    Alguém precisava dar um sacode nessa Lily, como assim o mundo precisando dela e ela de mimimi q não vai conseguir aaaaaah pfv né garota

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Boa leitura, E SEM SPOILER!