9 de março de 2018

29. Segredos das estrelas

— Ah, sim — disse Seth. — A mulher misteriosa.
A parte de mim que era socialite de Nova York notou que as mãos de Seth pendiam vários centímetros abaixo das mangas. Aparentemente ele crescera enquanto estava no obelisco. Era isso ou ele simplesmente não tinha senso de estilo, ou não se importava com a vestimenta. Examinei seu rosto e observei que havia algo estranho, quase desengonçado nele. Como se fosse um adolescente tardio que ainda não tivesse alcançado a vida adulta. Ou talvez só tivesse um daqueles rostos que faziam a pessoa parecer mais nova do que era. Como um ator que ainda conseguia papéis de estudante do ensino médio mesmo tendo uns 30 anos.
Seth não estava vivo havia séculos? Seria assim que a puberdade imortal funcionava? Uau, que péssimo. A ideia de ter de usar aparelho nos dentes e lutar contra as espinhas durante séculos era horripilante. Eu provavelmente ia querer brigar com todo mundo à minha volta também. Seth tinha não somente uma, mas duas mechas encaracoladas na testa, e, ao mesmo tempo que Ísis se encolhia à sua frente, ele fazia tentativas repetidas de ajeitar o cabelo. Não parecia perceber que estava fazendo isso. Seus dedos se contraíam e os olhos azul-claros se viravam frequentemente para a mulher caída.
Seu corpo parecia bastante forte, mas os membros compridos demais não eram nem um pouco coordenados. Para Tia, ele parecia um filhote desengonçado, cheio de rugidos e pose, mas sem nada para sustentar isso. Ashleigh se perguntou se a aparência dele seria resultado de ter ficado preso. Ela me lembrou de que sua forma havia mudado desde que tinha se escondido na árvore das fadas. Ele provavelmente passara fome preso dentro do obelisco.
Seth estreitou os olhos duros como sílex e tentou dar uma risada condescendente, mas tudo que conseguiu foi bufar e então se imobilizou, como se estivesse chocado por um som daqueles sair de seu corpo. Meus lábios se repuxaram. Ele notou imediatamente minha reação e trincou os dentes. Um constrangimento ruborizado subiu por seu rosto e pude ver o momento em que o constrangimento virou raiva.
Inconscientemente, dei um passo para trás até sentir a presença firme de Amon às minhas costas. A raiva que percorria o corpo de Seth era algo poderoso. Ele parecia uma terrível nuvem de tempestade se preparando para liberar a fúria. Uma pessoa sensata veria isso, trancaria as janelas e procuraria abrigo.
Agora eu entendia por que Seth preferia assumir a forma de animais em vez de seu corpo imortal. Como animal, ele se sentia poderoso, confortável e orgulhoso, mas, como homem, ficava desajeitado e sem graça. As faces de animais eram máscaras que ele usava para esconder suas imperfeições. Isso fazia sentido de uma forma doentia quando se pensava na família perfeita demais em que ele havia crescido.
Asten não se parecia nem um pouco com Seth. De fato, estava mais para Anúbis e seus irmãos do que para o homem que de fato o havia posto no mundo. Era um alívio, em muitos sentidos, ver como eles eram diferentes. Essa diferença não era apenas na aparência. Com o cuidado adequado da pele, um bom corte de cabelo e roupas bem cortadas, Seth não seria desagradável aos olhos. Mas, para mim, o poder de atração ficava no lado de dentro. Por esse aspecto, Seth era repulsivo.
O problema era que Seth tinha poder. E pior, era cruel. Talvez os motivos para ser assim não fossem totalmente culpa sua. Seth tinha um tique nervoso e a necessidade de ser adorado e apreciado, merecendo ou não. Um monte de garotos adolescentes era assim. Eles abusavam das namoradas ou perseguiam os mais fracos porque isso fazia com que se sentissem poderosos. Eu só nunca tinha imaginado que um deus seria assim.
— Você achou — começou Seth, interrompendo minha avaliação — que eu simplesmente iria me esquecer da minha prole? — Ele baixou a mão e acariciou a asa quebrada de Ísis. Ela se encolheu de dor. — Eu encontrei a mãe verdadeira de Asten e torturei seu espírito desgarrado o suficiente para descobrir o que precisava. Ela foi muito mais útil na morte do que em vida, porque andara espionando o filho semideus. Para mim não foi nenhuma surpresa Anúbis ter salvado a criança. Ele tem uma queda por cachorrinhos, gatinhos perdidos e bebês abandonados.
Seth exibiu um de seus sorrisos abomináveis.
— Depois de obter as informações de que precisava, implementei meu plano para fazer com que os três príncipes fossem mortos, e sim, mesmo sabendo que um deles era meu filho. Usei o sacerdote Runihura para sussurrar no ouvido dela que o único modo de eu ser morto era se um filho do meu sangue usasse a faca. Eu sabia que então ela faria o máximo para guiá-lo na minha direção, caso meus planos dessem errado e ele sobrevivesse. Claro, nunca houve perigo de ele de fato me matar, mas desse jeito seria bastante fácil motivá-lo quando chegasse a hora certa.
Seth continuou depois de uma pequena pausa:
— Ele não sobreviveu, claro. Runihura o matou como foi instruído. Infelizmente, os deuses intervieram e prenderam sua energia vital antes que ela pudesse retornar às Águas do Caos. Pouco depois fui preso no obelisco e venho passando os anos tramando a vingança. E, bom, cá estão vocês.
Ele abriu um sorriso que pareceu quase genuíno e eu me dei conta de que era. Seth estava feliz em ser o centro das atenções. Aquele era seu grande momento. Seu último chamado para os aplausos. Ele estava adorando cada segundo sob as luzes da ribalta. Consegui fingir uma expressão de interesse e perguntei:
— Então por que você mandou a mãe dele num sonho? Parece que tudo estava acontecendo como você queria. O que mudou?
— O que mudou foi a trama dos deuses. Foi bom eu ter tomado precaução com a mãe de Asten. Veja bem, eu sabia que existia uma chance, ainda que pequena, de vocês poderem me impedir.
Bom, isso eu queria ouvir.
— É? — falei simplesmente, sabendo que ele não conseguiria resistir à oportunidade de expor seus feitos e sua sabedoria.
— Assim que percebi o que Ísis tinha feito, unindo os três rapazes, eu soube que precisava cancelar o encantamento dela. — Ele envolveu o pescoço de Ísis com a mão e apertou. — Você sabe, querida, que seus feitiços se destinam a funcionar a meu favor, e não contra.
— Sim, Seth — murmurou ela, exausta.
— O que você disse? — perguntou Seth, apertando os dedos.
— Quero dizer: sim, esposo — respondeu ela, e lhe dirigiu um sorriso débil.
— Assim está melhor. — Ele afastou as mãos do pescoço dela para acariciar distraidamente seus longos cabelos. — Bom, onde mesmo eu estava? Ah, sim. Quando meus demônios alados me trouxeram Asten, eu o mantive preso por um tempo, sem me revelar a ele, para decidir que passos daria. Eu não podia romper o elo. O encantamento de Ísis era poderoso demais. Só um Filho do Egito conseguiria rompê-lo. Eu não podia me arriscar ao confronto explícito quando todos vocês estavam unidos dessa forma. Era um risco grande demais para mim.
Seth deu de ombros.
— Mas então minha adorável esposa apareceu, a primeira, Néftis. Não foram necessárias muitas ameaças da minha parte para convencê-la de que era de seu interesse me ajudar. De fato, pensando bem agora, ela pareceu muito disposta a reparar todos os problemas que tinha me causado. Suponho que seja esperado uma mulher sentir falta do marido distante. — Ele se virou para olhar Néftis, caída no chão, o rosto etéreo emoldurado pelas águas que fluíam. — Talvez eu deva repensar se vou matá-la. Deve ser divertido jogar minhas duas esposas uma contra a outra.
Ele se virou de novo para nós.
— Então, como eu ia dizendo, prendi Néftis com Asten e, de um modo muito dramático, ela confessou a ele que eu era seu pai verdadeiro e que, para me matar, ele teria de se matar.
Seth deu uma risadinha.
— Além disso, alertou-o de que era fundamental cortar o elo. Que, se ele se matasse enquanto estivesse ligado aos irmãos, eles compartilhariam do mesmo destino. Asten, criatura nobre que é, acreditou completamente que, ao se matar, salvaria todos vocês e me enfraqueceria até o ponto da morte.
Olhei para Néftis. Ela havia nos traído. Eu não podia acreditar que ela fizesse isso conosco, com a própria família. Será que sentia tanta lealdade assim ao marido? Talvez sentisse ciúme de Ísis, mas Néftis, mais do que ninguém, parecia liderar o caminho da batalha até Seth. A história dele fazia sentido, mas não parecia certa. Algo estava esquisito.
— Mas por que ir até o fim com isso? — perguntei. — Por que deixar que ele se matasse? Assim que Asten estivesse desatado dos outros, não haveria necessidade de destruí-lo. Você não poderia absorver a energia vital dele, de qualquer modo. Anúbis a capturou nos jarros canópicos. Por que você sugeriria que ele levantasse o arco? — Fiz uma expressão de nojo. — Só um monstro faria isso.
— Você é uma garota simples, jovem esfinge, portanto, não espero que entenda completamente o jogo dos deuses. Você é só uma figurante, um peão jogado no tabuleiro para me distrair enquanto outras peças representam seus papéis. Eu imaginava que você seria muito mais do que estou vendo, mas devo dizer que estou bastante desapontado. Anúbis sabe por que Asten precisava morrer. Não sabe, Anúbis?
Anúbis olhou para o deus.
— Porque era meu filho?
Seth gargalhou tanto que uma lágrima se formou no canto de seu olho.
— Você acha mesmo que eu me importo com a filiação de Asten? A morte dele me dá mais prazer ainda, sabendo que dói em você. Foi por isso que mandei um dos meus seguidores levá-lo a uma família inventada, terrível a ponto de alquebrar até a alma mais firme. Mas não, meu amigo grande demais e burro. Esse não é o motivo. Certamente você sabe qual é a verdadeira razão.
Seth parou um momento, esperando, então sua boca se esticou num sorriso largo.
— Ou talvez não saiba. Cá entre nós — disse Seth a mim num sussurro teatral —, Anúbis não recebeu o maior cérebro do Cosmo.
Anúbis deu um passo à frente, ameaçador, mas Seth ergueu a mão.
— Ora, ora. Não precisa apelar para a violência. Mas talvez você queira verificar os seus jarros. Não sei se nem mesmo você, o poderoso deus dos mortos, tem consciência de tudo que aconteceu.
Anúbis não queria romper o contato visual com Seth. Em vez de fazer o que ele mandava, a espada negra se materializou em sua mão.
— Estou cansado de ouvir suas fanfarronices — disse Anúbis. — Acho que primeiro vou cortar sua língua.
Numa resposta cheia de zombaria, Seth estalou a língua e agitou um dedo no ar, depois apontou para os jarros canópicos perto dos meus pés. Como Anúbis não se mexia, eu fiz isso. Ajoelhando-me, levantei o jarro que tinha uma cabeça de íbis e rompi o lacre. O interior estava escuro e vazio. Olhei para ele durante um minuto inteiro, esperando que uma luz branca aparecesse, depois levantei a cabeça, alarmada, e encarei Amon.
— Não tem nada dentro — falei.
Amon se mexeu, nervoso.
— Não é possível, Lily. Nós vimos a energia entrar.
Como Apep parecia contente em esperar as ordens de Seth, Amon se ajoelhou ao meu lado. Abriu o segundo jarro, o terceiro e o quarto.
— Estão vendo? — perguntou Seth. — A energia de Asten é minha. Ela me tornou poderoso o suficiente para romper as algemas que me prendiam. Agora posso usar o poder de desfazer, aproveitando-o como nunca antes! — Seth riu, zombando do nosso desespero. — Ora, ora. Vocês deveriam se animar sabendo que ele viu a própria morte nos Sonhos Que Poderiam Ter Sido. Acho que isso torna meu filho mais poderoso do que todos vocês. Claro, isso não adianta muito para ele agora, não é?
— Não. Não é possível. Eu... eu guardei o cabelo dele para que você pudesse refazê-lo! — eu disse a Amon. Pegando a mão de Amon, coloquei o cabelo de Asten nela e fechei os dedos dele sobre os fios. — Tente — implorei. — Tente fazer um corpo novo para ele.
— Sim — disse Seth, a alegria estampada em todo o seu rosto. — Vamos ver você tentar.
A boca de Anúbis era uma linha sombria, os músculos grossos do pescoço contraídos como se ele estivesse se preparando para saltar. Ísis nem olhava para nós e Hórus apenas encarava a mãe, inexpressivo. Parecia alguém que tivesse perdido tudo, exatamente como eu me sentia.
Amon fechou os olhos e ergueu as mãos, murmurando um encantamento. Os fios de cabelo se levantaram no ar enquanto a magia se reunia em torno dele, mas então a luz diminuiu e se dispersou. Os cabelos se espalharam aos ventos agitados pelas Águas do Caos.
— Não! — gritei, tentando desesperadamente agarrar os cabelos, mas eles voaram para longe e se misturaram à névoa antes que eu pudesse pegá-los de volta.
Amon me segurou, me abraçando, e eu desmoronei de encontro a ele, soluçando.
— Não há nada que eu possa fazer — murmurou no meu ouvido. — Asten se foi.
Seth riu.
— Por que acham que fiz com que todos vocês fossem trazidos aqui? Este é um lugar onde vidas se criam, mas onde elas também se desfazem. Os jarros canópicos, por mais mágicos que sejam, não podem impedir o processo natural de nascimento e morte que acontece aqui. As Águas do Caos drenaram os jarros, assim como drenaram a energia de cada criatura que morreu na sua guerrinha de unicórnios. Eu pude absorver toda essa energia, inclusive a de Asten. Agora só preciso acabar com o resto de vocês.
Furiosa, virei-me para ele. Meus dedos se tornaram garras, com a falange extra crescendo imediatamente à medida que as unhas emergiam. Suas pontas afiadas reluziam com a luz refletida das Águas do Caos. Escutei vagamente um grito:
— Lily, não!
Mas eu não era mais Lily. Era a esfinge, e a criatura diante de mim tinha matado meu parceiro, provocando sua segunda morte, a morte final. Agora meu único propósito na vida era causar o mesmo sofrimento ao assassino.
Com um rosnado maligno, saltei, os olhos de felina se fixando na pulsação em sua garganta. Cravei as garras fundo em seus ombros e abri a boca.
Seth gritou e corcoveou enquanto eu baixava os lábios para o ponto vulnerável em seu pescoço, preparando-me para abri-lo com os dentes, fossem eles presas ou não, mas ele conseguiu se desvencilhar de mim e me empurrar para longe. Deslizei muitos metros para trás, as garras tentando se cravar na superfície, mas não encontrando apoio. Meus outros companheiros saltaram. A cobra atacou. Hórus correu para sua mãe, puxando-a para longe de Seth, que estava sendo acuado por todos os lados.
Invoquei minhas asas para frear meu deslizamento na superfície escorregadia, depois corri alguns passos antes de decolar. Enquanto reunia a energia do Cosmo, eu observava, impotente, meus companheiros fracassarem. Seth estava tentando desfazer Hórus, mas Ísis mantinha a mão no ombro do filho, entoando um encantamento que parecia desacelerar o processo. Até o momento apenas o antebraço dele tinha virado pó.
Enquanto isso, Apep tinha conseguido morder Anúbis no ombro. Quando ele se levantou da superfície escorregadia para se juntar de novo à luta, foi derrubado outra vez. O veneno começou a atuar e o deus poderoso cambaleou, tombando de joelhos. Dessa vez, porém, não se levantou. Os anéis do corpo de Apep envolveram Ahmose, sufocando-o, enquanto Amon golpeava violentamente o monstro. O sangue preto pingava na superfície das águas e desaparecia com um sibilo. O processo de desfazer Hórus continuava e Seth invocou o resto dos seus demônios alados. Não tendo escolha, bati as asas uma na outra. As gárgulas voadoras explodiram em chamas, as cinzas chovendo sobre os guerreiros embaixo.
Abri as asas, pairando, amaldiçoando o fato de que tivera de despender a energia contra o exército voador, e não contra Seth. Enquanto a energia se acumulava, senti uma agitação no ar. Algo acertou meu braço e outro ferimento se abriu em minha perna. Os bilokos também estavam de volta.
Saquei as facas e comecei a golpear loucamente. Mas eles continuavam chegando.
Hórus havia tombado de encontro à mãe. Sua perna tinha sumido até o joelho. Ahmose havia desmaiado ou tinha sido picado também. Gritei de dor quando garras se cravaram em uma de minhas asas e larguei as facas.
Lentamente, fui descendo, as asas incapazes de me sustentar por mais tempo. Por instinto, levantei as mãos e um jato de luz disparou no ar, iluminando o espaço escuro de verde, depois de prata e em seguida bronze. Ouvi os gritos de centenas de bilokos destruídos pela luz dos escaravelhos do coração que eu carregava. Tão rapidamente quanto havia chegado, a energia me abandonou.
Eu estava vazia, meu poder exaurido.
Lágrimas encheram meus olhos enquanto eu caía e via Apep jogar Ahmose de lado e avançar sobre Amon, arremessando-o para o alto. Ele girou loucamente e, antes que pudesse se aprumar, Apep mordeu seu peito. Amon gritou, e eu também, ao ver o dente emergir nas costas dele.
A cobra sacudiu a cabeça vigorosamente e Amon se soltou, caindo com uma pancada forte nas reluzentes Águas do Caos. Meu corpo inteiro estava entorpecido quando meus pés tocaram o chão. Nem mesmo os gritos de Hórus eram registrados em minha mente. Olhei pela vastidão e vi um Seth contente, pairando acima de Ísis e Hórus. Apep estava abrindo as mandíbulas, preparando-se para atacar de novo, mas eu não podia mais ouvi-los. Até mesmo as vozes de Tia e Ashleigh estavam perdidas para mim. Ou talvez elas tivessem ficado tão insensíveis quanto eu.
Enquanto minha mente e meu corpo flutuavam para longe, comecei a distinguir um sussurro baixíssimo. Levantei a cabeça e percebi que eram as próprias estrelas. Elas estavam falando comigo. Dizendo o nome de alguém. Mas nomear alguém era algo que Wasret fazia. Não eu. Ainda assim, os sussurros pressionavam minha mente. Libertadora, diziam. É hora de a Libertadora surgir.
— Libertadora — ecoei, meus lábios formando a palavra. — A Libertadora é a chave.
De repente, me lembrei das palavras do Dr. Hassan: A pessoa para quem este ritual permaneceu na Terra é uma pessoa que nem havia nascido no tempo em que seu nome foi inscrito na parede. É o nome que as estrelas sussurraram para nós no correr das eras.
Agora as estrelas estavam sussurrando um nome. Libertadora, repetiram e repetiram.
Existe uma profecia antiga sobre o Caos, soou a voz de Maat em minha mente. Diz que chegará um tempo em que o Caos reinará sobre o Cosmo. A harmonia será perdida. A Ordem vai se fragmentar. O poder dos deuses ficará preso numa teia de aranha. É quando a Libertadora aparecerá.
Então eu soube quem era a Libertadora. Ela, e somente ela, era quem poderia derrotar Seth.
Inclinando a cabeça para trás, fechei os olhos e envolvi Tia e Ashleigh com os braços, puxando-as para perto de mim. Eu tinha passado a vida inteira presa numa gaiola feita por mim mesma, com medo de desapontar os outros e de ser a pessoa que eu desejava, mas eu não era mais aquela garota.
Mais do que qualquer coisa, eu queria estar com quem eu amava, explorar a vida à minha frente, mas não era para ser. Nunca saberia o que eu poderia ter sido, o que Amon e eu poderíamos ter sido, mas pelo menos eu tinha sentido um gostinho disso.
Tranquilizei minhas duas irmãs.
Às vezes é preciso fazer sacrifícios, e precisamos abrir mão daquilo que mais queremos no mundo para que outros possam viver contentes e felizes.
— Wasret — chamei, murmurando as palavras às estrelas lá no alto. — Estamos prontas. Nós a convocamos com o nome sussurrado através do Cosmo. Nós invocamos a Libertadora.
Uma explosão de luz nos envolveu.
— Obrigada, Lily, Tia, Ashleigh. Seu sacrifício será tecido entre as estrelas — disse uma voz que todas reconhecemos.
Um vento frio passou por mim e eu me ergui do lugar onde estivera à deriva. Por um momento tive a percepção de Tia e Ashleigh se agarrando com força a mim e então não tive consciência de mais nada.

3 comentários:

  1. Me pergunto se elas vão realmente desaparecer e só Wasret restará, ou se no final conseguirão... "individualidade"?

    ResponderExcluir
  2. Vai lá Wasret, chuta a bunda desse Seth! Pai cretino 😒

    ResponderExcluir
  3. 😱😱😱😱😱😱😱😱😱😱😱😱😱

    ResponderExcluir

Comentários de volta!
Passamos algumas horas sem essa opção, mas estamos à ativa novamente :)

Boa leitura! E SEM SPOILER!