9 de março de 2018

28. Filho de um dragão

Tia insurgiu-se dentro de mim.
— Ele não é seu filho, Aquele Que Desfaz! — rosnou.
— Ah, eu lhe garanto que é. Não é, Asten?
Asten baixou os olhos.
— Seth fala a verdade — disse ele. — Sem a barreira do obelisco, finalmente vi os sonhos dele e os da minha verdadeira mãe mortal.
— Não entendi — falei, virando-me para Anúbis. — Pensei que Asten fosse totalmente mortal, e nesse caso Ahmose e Amon seriam mais filhos de Seth do que Asten. Seth facilitou a gravidez das mães deles.
Anúbis exibia uma expressão de sofrimento. Seus olhos voltaram-se para Asten.
— Como isso é possível? — perguntou Amon a Anúbis com um sibilo, ao mesmo tempo que mantinha o olhar fixo em Apep.
— É possível — respondeu Anúbis em voz alta, que se espalhou naquela vastidão —, porque o pedreiro identificado por um suposto tio não era o verdadeiro pai de Asten. Seth teve uma concubina mortal, a mãe verdadeira de Asten, de quem ele abusava mesmo enquanto ela estava grávida.
— E o pai e as irmãs dele? A mãe que morreu? — perguntei.
— Não tinham qualquer parentesco com ele — respondeu Anúbis.
— Mas Seth tentou causar a morte do próprio filho? — argumentei. — Por que ele faria isso?
— Ele não sabia que Asten era seu filho.
— Permita-me discordar, seu avestruz excessivamente estufado — disse Seth. — Eu sabia. Mas, no fim das contas, isso não fazia diferença. Eu sabia que, assim que meus pequenos príncipes morressem, sua energia iria me preencher e me sustentar. Um filho do meu corpo me alimentaria muito mais do que a energia de Amon e Ahmose. Mas o acesso à energia deles foi tirado de mim antes que eu pudesse absorvê-la. Anúbis e os outros me enganaram e prenderam a energia de vida deles em vasos canópicos, transformando os três garotos nos Filhos do Egito.
E continuou:
— Então passaram a mentir para eles, claro. A cerimônia para alinhar o Sol, a Lua e as estrelas jamais foi para me manter prisioneiro. Era para prender a energia deles repetidamente antes que eu pudesse arrancá-la. Para isso acontecer, a morte deles precisava ocorrer a cada mil anos. É por isso que os rapazes vivem um tempo como mortais, mas só pelo período necessário.
— Isso é verdade? — perguntou Ahmose.
Anúbis trincou os dentes.
— É — respondeu. — Mas vocês devem entender que não tínhamos escolha. Enganar vocês era o único modo de impedir que Seth colhesse as recompensas por seus esforços. Se ele tivesse absorvido o poder da sua energia vital, teria se tornado invencível.
— Você poderia ter nos contado — disse Amon. — Poderia ter nos escondido, deixado que vivêssemos. Amássemos. Tivéssemos uma vida.
— Sim — assentiu Anúbis freneticamente —, e o que aconteceria quando Seth descobrisse vocês? O que teria acontecido? Com um estalo dos dedos ele poderia fazer um lacaio ou um exército destruir vocês, e, sem que eu estivesse por perto para trancar o poder de vocês, ele o teria tomado. Esse era o único modo de controlá-lo. Nós limitamos o tempo de sua exposição, mantendo-os vivos apenas por períodos suficientes para atrasar o relógio por mais um milênio.
— E os nossos poderes? — perguntou Amon. — Os pássaros? Por que vocês nos concederam dons? Nos deram força?
— Não tínhamos escolha — disse Hórus. — Vocês precisavam dos dons para reconhecer os seguidores de Seth e lutar contra eles. Quanto aos pássaros... — Ele suspirou. — Os pássaros eram um elo entre seus corpos mortais e o céu. Eles ocultavam vocês e eram um modo de sabermos seu paradeiro. Por isso o sacrifício do grou de Ahmose foi tão sério. Ele o tornou fraco, vulnerável ao ataque. Vocês nunca se perguntaram por que não conseguiam se transformar quando estavam no além?
— Eu... — começou Amon — ... presumi que fosse porque os pássaros estavam trancados nos jarros da morte.
— É. Os pássaros estavam trancados junto com a energia de vocês. Presos por mil anos — disse Hórus com tristeza.
— Eu quase peguei o seu pássaro também — disse Seth. — O necromante chegou a segurá-lo. Se não fosse sua adorável companheira, tudo isso teria acabado há algum tempo. Bem, agora vocês sabem a verdade. Os deuses viraram minhas criações contra mim, enganando tanto a elas quanto a mim, e me trancaram numa prisão isolada. Mas aqui estão vocês. Aqui estão todos vocês. É melhor do que eu poderia imaginar. Agora só preciso me sentar e deixar que meus demônios alados os destruam de uma vez por todas. Então vou absorver sua energia e me livrar dessas correntes.
Depois de uma pausa para respirar, ele prosseguiu:
— Claro que seria melhor se isso tivesse acontecido quando eu planejei, mas sou um homem paciente. E vocês veem o que a paciência me trouxe? Ali, aos meus pés, estão minha esposa traidora e nosso líder patético, Amon-Rá. Osíris foi mutilado além do ponto de ter recuperação. Ísis está ao meu lado e meus pintinhos voltaram para o ninho. Tudo está como deveria. E ainda consegui um bônus. Uma gatinha linda, muito interessante, que posso acorrentar ao meu trono. Vou fazer carinho e alimentá-la se ela for uma boa menina, ou vou chutá-la para o outro lado do Cosmo se ela não for. De qualquer modo, tenho certeza de que vou me divertir.
Levei os punhos cerrados à cintura.
— Acho que não — falei. — Em primeiro lugar, não somos gatinhos, assim como você não é uma libélula. Segundo, tenha em mente que nós matamos a Devoradora e Sebak. Pelo meu modo de pensar, o placar é de dois a zero. Para mim, parece que você é um homem desesperado querendo segurar a bola no jogo até o apito final. Eu não estaria comemorando a vitória tão cedo, se fosse você.
— Você é uma criança tola. E frágil demais. Vou gostar de lhe ensinar a arte do respeito. — Seth se dirigiu a Anúbis: — Isso é uma ostentação patética, Anúbis. Acha mesmo que uma mera esfinge poderia me impedir? Eu sou um deus! O mais poderoso de todos vocês. Só preciso que seus preciosos Filhos do Egito morram. Vocês não podem impedir minha ascensão ao poder. Só estão adiando, me prendendo numa prisão que eu mesmo projetei. Vocês usaram o poder que eu dei a eles para construir os muros. Enxergar através dos olhos de Asten foi a única coisa que me manteve são.
— Do que ele está falando? — perguntei.
— Seth nos espionou, usando o poder de Asten para enxergar os sonhos — explicou Anúbis. — É por isso que Asten tinha dificuldade de usar essa capacidade de vez em quando. Seth causava uma espécie de interferência.
— Foi assim que pude me comunicar com você nos seus sonhos — disse Seth, dirigindo-se a mim —, por mais tediosos que eles sejam. Isso me fez perceber uma fraqueza potencial de um dos Filhos do Egito. — O dragão gargalhou, com nuvens de fumaça surgindo e subindo de sua boca enquanto ele chegava mais perto.
— Já chega disso! — rugiu Hórus. — Onde está minha mãe?
— Ainda está aí, Hórus? Achei que você tinha enfiado seu ser trêmulo embaixo da asa do seu falcão dourado. Ah, espere, é verdade. Ele não é mais seu, não é? Você abriu mão dele. Ah, bom, uma criatura como aquela acabaria abandonando uma criança lamurienta como você uma hora ou outra. Se você quer saber, sua mãe não está se sentindo muito bem agora. Mas tenho certeza de que ela vai melhorar logo. Ficar perto de mim — o dragão deu um risinho — provocou uma ligeira febre nela. Cá entre nós, amigos, eu sou um pouco demais, até mesmo para Ísis.
— Vá sonhando — murmurei baixinho.
Achei que jamais odiaria alguma coisa na vida mais do que odiava Seth naquele momento. A Devoradora era uma irritante candidata num concurso de misses, comparada com ele. O necromante, um produtor de teatro mimado, presunçoso e sem trabalho ou dinheiro. Mas esse cara, Seth, era mais do que eu imaginava. Seth era doentio. Era de tal forma deturpado que se convencera de que estava certo.
— Devo dizer que gosto desta forma — disse Seth, balançando as asas. — Desfazer os dragões foi a melhor decisão que já tomei. — De repente, ele decolou e pousou com um estrondo perto das figuras caídas, cobertas com capas e capuzes. Suas narinas expeliam fumaça. — Afaste-se de Amon-Rá, curandeiro. Eu odiaria mandar Apep mordê-lo de novo. Por mais forte que ele seja, provavelmente nem mesmo o grande deus de todos nós se recuperaria de uma dose dupla de veneno.
Ahmose se empertigou e se afastou, com as mãos no ar, até voltar para perto de nós.
— O que acham de passarmos para o terceiro ato? — perguntou o dragão. — Asten, eu gostaria que tirasse minhas algemas agora. Por favor, faça isso imediatamente. E não se esqueça do que acontecerá se você criar alguma dificuldade.
Asten engoliu em seco e olhou brevemente para mim, depois se virou para o dragão.
— Não! — gritei. — Asten, o que você está fazendo?
— Pense cuidadosamente nisso, filho — disse Anúbis, estendendo a mão num alerta. — Acho que você sabe o que deve fazer.
Asten parou, voltando o olhar de Anúbis para mim. Sua boca estava tensa, tanto de determinação quanto de pesar.
— Agora sei quem eu sou — disse. — Sinto muito, Tia. Sinto muito não poder ser a pessoa que você queria, o parceiro que você merecia. Desculpe se minha origem me torna incapaz de manter seu coração. Confie em mim quando digo que é melhor assim. Agora tudo faz sentido. Meus sonhos. Minhas ambições. Minha natureza. Tudo veio dele. Este é o meu propósito. Meu destino. Não posso negar o que sou nem aonde vou a partir daqui.
Tia se enfureceu e soltou um lamento agudo dentro de mim enquanto Asten invocava seu arco e colocava nele uma flecha brilhante.
— Pai? — disse ele. — Se me conceder um pouco da energia que está escorrendo de Amon-Rá, removerei suas algemas.
O dragão abriu a boca e sugou a energia. Ela saiu de Amon-Rá e viajou pelo ar, girando e se entrelaçando numa variedade de cores. Então o dragão se virou e soprou luz pelo nariz. Ela envolveu a flecha de Asten até que toda a haste reluziu.
— Agora não esqueça — avisou o dragão —, você precisa mirar a corrente no ponto de conexão, e então a algema vai cair. Se tentar me ferir de qualquer modo, até mesmo um arranhão por engano, haverá consequências irrevogáveis. Consequências das quais você está bem ciente. Entendeu?
— Entendi, pai. O senhor esquece que eu não posso errar.
— Muito bem.
Asten levou o braço para trás e disparou a flecha.
— Pare! — gritei, mas era tarde demais.
O dragão tinha uma expressão cobiçosa de deleite enquanto a flecha voava na direção do centro das Águas do Caos, bem no ponto em que a corrente estava presa. Mas, em vez de acertar o elo, a flecha o contornou, virando em um arco amplo e seguindo direto para o dragão. Seth urrou e se agitou, dobrando as asas em volta do corpo e encolhendo a cabeça para proteger o pescoço.
— Filho traidor! — gritou.
Asten ignorou o dragão que se debatia e, abrindo os braços, levantou o rosto para as estrelas.
— Não — sussurrei, enquanto uma voz pequenina no fundo da minha mente dizia que algo muito, muito errado estava acontecendo. Apesar dos esforços de Seth, a mira da flecha era perfeita. No último instante, porém, Seth alterou sua forma. A flecha atravessou direto seu corpo, saindo com um jato de sangue e indo na direção de Asten. A percepção do que Asten fizera tornou-se clara para mim. — Não! — gritei mais alto e comecei a correr.
Meus pés batiam na superfície lisa e escorreguei os últimos metros de joelhos, numa tentativa inútil de agarrar Asten. Mas a flecha tinha feito seu trabalho rápido demais. E cravou-se diretamente em seu coração. A força do golpe lançou seu corpo no ar. Suas pernas se abriram e fecharam enquanto ele voava e caía com violência na superfície reluzente. Quando o alcancei, puxei seu corpo para mim, levantando sua cabeça e aninhando-a nos braços, totalmente alheia ao dragão que corcoveava e gritava ali perto.
Rios de cor escorriam por cima do corpo de Asten, cascateando por seu peito, que arfava. Pressionei as mãos contra a superfície dura para conter a maré de sangue. Forcei as mãos de ambos os lados da flecha, tentando estancar o sangue. As penas roçavam meu rosto e eu me imobilizei.
— Impossível — sussurrei.
A flecha que oscilava tinha uma pena de Ísis. Levei a mão às costas e agarrei o espaço vazio onde a última flecha deveria estar.
— Eu a tirei de você usando magia há alguns instantes — sussurrou Asten. — Sabia que você jamais iria usá-la contra mim, e assim meus irmãos também estarão seguros.
A fúria, o medo e o pânico me atravessaram, mas Asten me tocou, contendo o fogo, até que eu só conseguia sentir uma tristeza tão profunda que me partia em duas. O sangue brotava do ferimento, apesar da afirmação de Ísis de que sua flecha curava, e soubemos então que não havia como salvá-lo.
Os avisos do meu arco tinham se concretizado.
Nesse momento nós três lamentávamos, éramos uma, sofrendo pelo homem que amávamos.
— Tene — sussurrei, as lágrimas nublando meus olhos —, como isso pôde acontecer? — Afastei seu cabelo do rosto, beijei sua testa e solucei.
Não percebi que ele estava tentando falar.
— O que você disse? — perguntei, inclinando-me mais para ele.
Asten engoliu em seco.
— Deu... deu certo? — perguntou. — Ele se foi?
— Quem se foi?
— S... Seth? — completou ele.
Sua pele tinha perdido o calor e minha mão trêmula estava coberta de sangue.
Levantei os olhos. O dragão havia caído. Seus grandes flancos arfavam e um líquido brilhante brotava de sua boca.
— Você estava tentando mirar nele? — perguntei, confusa. — Achei que você nunca errava o alvo.
Ele balançou a cabeça ligeiramente e começou a tossir. Mais sangue jorrava a cada espasmo. Por fim, quando seu corpo se acomodou um pouco, ele deu um sorriso triste e disse:
— Não erro.
— Por quê, Asten? — perguntei, tentando entender. — Por que você escolheu isso? Diga que não foi só o que estava escrito no arco.
Ele balançou a cabeça.
— Você se lembra da mulher que me cobrou um preço terrível como pagamento para ajudar a fazer uma poção para minha mãe, a rainha? — Eu assenti e Asten respirou algumas vezes, em haustos curtos, e continuou: — A exigência dela foi que, quando chegasse a hora certa, eu deveria matar meu pai.
— O quê? — murmurei.
— Eu jurei, mas ela — Asten tossiu de novo — não cobrou o pagamento. Ontem à noite, ela visitou meus sonhos e disse que tinha chegado a hora. Mas, para matar meu pai, eu teria que mirar no meu coração. — O rosto de Asten ficou branco. Ele levou a palma da mão ao meu rosto. — Agora sei, Tia, que esse foi o motivo pelo qual eu não podia guardar seu coração. Mas saiba que o meu sempre foi e sempre será seu. Eu te amo, minha leoa feroz.
Ele pôs algo na minha mão. Minha visão ficou turva novamente quando senti a forma familiar do escaravelho do coração de Tia.
Fechei a mão sobre ele e assenti com a cabeça, as lágrimas escorrendo sobre meus lábios enquanto uma expressão distante surgia nos olhos de Asten, e então ele se foi. Um rugido de dor, diferente de tudo o que eu já ouvira, saiu, numa explosão, de minha boca. Quando terminei, desabei sobre seu corpo, agarrando-me a ele e soluçando. Aos poucos, percebi uma luz preenchendo a área ao meu redor. Virando-me, vi Anúbis, uma expressão determinada no rosto e os braços erguidos, direcionando a energia vital de Asten para quatro jarros canópicos que ele havia criado.
Assim que a energia ficou guardada em segurança, curvei-me sobre Asten e delicadamente beijei seus lábios macios. Estendendo uma garra, cortei uma mecha de seu cabelo. Depois acariciei seu rosto, meus olhos e o coração ardendo de dor, e cruzei seus braços sobre o peito. As Águas do Caos começaram a puxar seu corpo e logo as espumas começaram a levá-lo para longe de mim. Fiquei de pé, trêmula, olhando o homem que eu amava ser carregado até a borda. A voz de Tia ecoou na minha mente:
Deite-se no capim verde, meu amor, e olhe as estrelas. Eu irei ao seu encontro, Tene. Prometo que não terá de esperar muito, pois meu único desejo é viver com você qualquer tipo de felicidade que o Cosmo nos ofereça. Mas, antes disso, prometo terminar o que você começou.
Quando o corpo dele foi lançado pela borda, minhas garras emergiram. Uma fúria primal me dominou e fui na direção do dragão, que ainda respirava. Antes que pudesse cravar as garras afiadas em seu corpo, ele se transformou, virando um animal pequeno. Então saiu correndo pela superfície escorregadia das águas agitadas. Fiquei parada, boquiaberta, imaginando o que teria acontecido. A criatura que se movia rapidamente mudou de forma outra vez, tornando-se algo tão minúsculo que eu não conseguia mais vê-la, nem com a visão aguçada.
Corri de volta para Anúbis.
— O que aconteceu? Onde está a corrente?
Lágrimas escorriam pelo rosto de Anúbis. Segurei seus ombros e o sacudi.
— Anúbis! O que aconteceu?
— Asten deve ter entendido mal — disse ele, passando a mão pelas faces. — Matar-se não podia destruir Seth. Em vez disso, de algum modo, isso o libertou.
— Mas por quê? — perguntei, a fúria e o sofrimento jorrando de minha voz. — Por que isso não o destruiu?
— Porque, Lily, Asten não era filho de Seth. — Os ombros de Anúbis se afrouxaram como se ele fosse um homem velho demais para continuar de pé. — Era meu filho — disse baixinho, as sobrancelhas grossas e escuras baixando com tristeza.
Dei um passo para trás, o choque congelando o sangue nas minhas veias.
— C... como?
— Eu o encontrei quando era pequenino — contou Anúbis. — Ele era o filho biológico de Seth, isso é verdade, mas a mortal que era mãe dele ficou tão perturbada com a ideia de ter um filho de Seth que sufocou o bebê no parto. Depois tirou a própria vida. Como uma criança imortal estava à beira da morte, sua alma pequenina me chamou. Na hora, não percebi que o imortal é que tinha me chamado, e não sua mãe. A alma dela ainda pairava por perto, e ela me pediu ajuda. Quando o dedinho dele segurou o meu, tomei a decisão de lhe dar um pedaço de mim, assim como fiz com Abutiu.
Anúbis respirou fundo.
— Isso mudou Asten a ponto de ele se tornar mais meu filho do que de Seth. Eu o criei desde que era um bebê. Abutiu passou a gostar um bocado dele, preferindo dormir perto do berço. Quando a mãe verdadeira de Asten veio a mim como um fantasma e me alertou de que Seth havia abençoado as rainhas estéreis com filhos, fiquei atento. E, quando o jovem príncipe de Asyut morreu, fui até ele e disse à ama que a criança poderia ser trocada. Disfarcei-me de mendiga e aceitei as moedas que a ama ofereceu, depois entreguei Asten a ela. Antes de sair, lancei um encantamento sobre a criança, de modo que seus poderes fossem bloqueados até que eu pudesse treiná-la para usá-los. Infelizmente, nunca tive essa chance.
O deus continuou:
— Vigiei Asten no correr dos anos, e meu amor e minha admiração por ele cresceram. Quando Seth mandou que ele e os irmãos fossem assassinados, eu... fiz o que pude para restaurar o que tinha sido tirado dos três. E, sem que Asten soubesse, liberei a amarra que tinha posto sobre seu poder tantos anos antes. Sua habilidade, como descobrimos, sempre esteve nos sonhos.
Meu olhar percorreu o rosto de Anúbis, demorando-se em suas feições, enquanto ele contava a história. Eu sempre o havia considerado bonito, e agora que olhava mais de perto via as semelhanças entre ele e Asten. Apesar de o cabelo de Anúbis ser cortado abaixo das orelhas, tinha a mesma textura e a mesma cor do de Asten. Quando Anúbis franziu os lábios, vi que havia uma covinha minúscula em seu queixo. Respirei fundo.
— Você é pai dele! — exclamei.
— Sou — falou Anúbis, assentindo com tristeza.
— E por que não contou a ele?
— Eu queria, mas pareceu mais seguro guardar essa informação. Nem Maat sabia. Se eu tivesse contado a ele, ela teria lido a verdade no coração de Asten. E Seth teria descoberto a verdadeira identidade dele e a usaria para seus planos.
Ashleigh veio à superfície e deu um tapinha no ombro de Anúbis.
— Minha mãe sempre dizia: “Você precisa crescer por si mesma, não importa quem seja seu pai.” Asten era um homem bom e teria orgulho de chamar você de papai.
— Obrigado, Ashleigh — disse Anúbis.
— Nada disso explica por que a mulher misteriosa mandou Asten matar seu pai se destruindo — interveio Amon.
— Ah, acredito que tenho essa resposta — disse uma voz acima de nós.
Seth se materializou em sua forma humana, o braço envolvendo uma figura familiar. O rosto dela estava manchado e com hematomas e uma das asas pendia, flácida. O vestido que ela usava estava rasgado na manga. Com um empurrão violento, Seth ordenou:
— De joelhos, segunda esposa.
Ísis obedeceu, mas levantou os olhos e encarou seu filho, Hórus, balançando a cabeça com tristeza.
— Bom — disse Seth com um sorriso torto —, onde estávamos mesmo?

7 comentários:

  1. Nnnnaaaaooooo meu Asten😭😭😭😭😭


    ~MIRELLE

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  2. Tadinho do Asten. ... eu sabia que ele não trairia os irmãos!

    Flavia

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  3. Poxa,e por fim ele q é o pica das galáxias kkkk

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  4. 😢😢😢tikin de um tikin de outro eu quero saber quem é o pai desse garoto.😢😢😢

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  5. Este capítulo parece novela mexicana ; Quando você pensa que está entendendo quem é o pai de Asten , vem outro dizendo :
    - Eu sou o pai dele !

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Boa leitura, E SEM SPOILER!