9 de março de 2018

27. São Jorge e o dragão

— Eles estão vindo — disse Anúbis enquanto formas escuras enxameavam diante de nós.
— Demônios alados! — alertou Amon, e seu unicórnio mergulhou quando um demônio passou voando entre mim e Ahmose, as asas coriáceas raspando na minha perna.
— Tente mantê-los longe de Lily! — alertou Anúbis, sacando uma espada reluzente.
As cimitarras douradas de Amon lampejaram no escuro. Agora que não tínhamos mais a vantagem da surpresa, os unicórnios permitiram que sua luz natural brilhasse e vimos o que estávamos de fato enfrentando. O céu estava cheio de criaturas sombrias que vinham para cima de nós com garras estendidas e bocas abertas, prontas para nos atacar.
Arranquei minhas lanças, apertei o botão para alongá-las e cravei uma bem fundo no peito de um demônio que se aproximava. Ele se desfez em poeira no espaço aberto. À minha direita, Amon cuidou de dois ao mesmo tempo, decepando a cabeça de um e a asa de outro. Sem a segunda asa, a criatura girou loucamente, incapaz de direcionar o rumo. Partiu numa espiral e desapareceu entre as galáxias em redemoinho.
Vindos das profundezas do espaço, surgiram asteroides em chamas. Olhei por cima do ombro e vi Ahmose acertando sua maça no pescoço de um demônio que passava por perto. Depois, ele levantou os braços e direcionou o caminho das rochas incendiadas contra a massa de demônios. Hórus lutava com sua espada e também tecia encantamentos de algum tipo, que pareciam confundir os demônios. Eles se desviavam e acabavam atacando uns aos outros em vez de nos atacar.
O espaço à minha volta ecoava com os guinchos agudos de unicórnios e demônios, e o refrão de aço batendo em osso era algo que acho que jamais esquecerei. Um unicórnio ali perto perdeu seu cavaleiro e a horda caiu sobre ele, golpeando sua carne tenra. O sangue brilhante brotou do pescoço do grande animal e, com um grito de lamento, ele dobrou as asas e despencou pelo espaço.
Minhas pupilas se dilataram enquanto eu sentia uma fúria vermelha subir pelo pescoço. Invoquei minhas asas, decolei e reuni a luz. Mas essa não era uma luz comum, como a do sol de Heliópolis. Era a luz do próprio Cosmo. A luz de bilhões de estrelas. Ela se aglutinou, raios saltando na minha direção. Com as asas batendo, descrevi um círculo vagaroso, os braços levantados. A energia percorreu meu corpo e minha pele ficou luminosa a ponto de emitir luz própria. Nesse momento eu era uma verdadeira esfinge — uma criatura nascida do Cosmo —, cheia de fogo e ouro, como se fosse feita do sol amarelo sob o qual nasci. Minha velocidade aumentou até que tudo em volta se tornou um borrão de cor e luz.
Quando minhas asas se uniram, toda a área ao redor se iluminou como uma bomba atômica. Os unicórnios que carregavam meus protetores se afastaram, inseguros quanto ao poder que eu canalizava. Com um sorriso afiado, apontei, mandando minha onda de energia para o demônio mais próximo. O vórtice de relâmpagos golpeou com precisão mortal. Num instante, todos os demônios na área ao redor desapareceram num sopro de purpurina.
Assim que o perigo imediato passou, Zahra retornou e montei de novo nas suas costas, só então notando que ela tremia embaixo de mim. Franzi o rosto.
— Machuquei você? — perguntei.
Não, mas você deveria saber que o poder que usou não vinha só das estrelas distantes. Você tirou energia dos unicórnios e dos próprios deuses.
— O quê?
Sua revelação era chocante. Olhei rapidamente para Anúbis, que silenciosamente se aproximara outra vez, retomando o lugar a meu lado. Ele estava com uma expressão indecifrável, mas dava para ver, mesmo no escuro, que a mão que segurava sua arma tremia.
Não se preocupe demais, disse ela. Nós, unicórnios, somos resistentes. Teríamos gastado energia lutando com eles de qualquer modo. Pelo menos assim não precisaremos nos recuperar de ferimentos também.
Apesar de suas palavras, fechei a boca com força, comprimindo-a numa linha fina. Decidi que dali em diante usaria só o meu poder e não tomaria dos companheiros de novo. Não podia me dar ao luxo de outro erro de avaliação.
O fato era que eu realmente não sabia tanto quanto gostaria sobre meu poder recém-encontrado.
Outra onda de demônios se aproximou, mas estavam muito mais cautelosos do que os irmãos. Lutavam em grupos coesos, dez demônios atacando cada unicórnio e seu cavaleiro, dominando os das bordas mais externas e seguindo lentamente para o meio. Depois de cada vitória, eles se afastavam sorrateiros e nunca sabíamos de que direção viriam, pois se fundiam muito bem à escuridão.
Eram numerosos demais os demônios alados. Eu pensara isso dos que tínhamos enfrentado antes, mas sem dúvida Seth estivera segurando-os. Mantendo-os ao seu lado. Mesmo sem a Devoradora, parecia que Seth ainda detinha grande poder.
Lutamos com valentia, mas perdemos vários guerreiros. Mesmo assim, parecia que estávamos fazendo progresso. Chegamos mais próximo das Águas do Caos. De perto era maior do que eu tinha pensado. Era quase do tamanho de uma cidade grande. Do tamanho de Manhattan, pensei com um susto. Combatendo o inimigo, chegamos à borda, só para sermos atacados por um inimigo novo, invisível. Um que parecia muito familiar.
Ouvi um sibilo e Anúbis gritou, enquanto fios vermelhos surgiam em seu antebraço. Ele largou a espada, que desapareceu e se materializou outra vez em sua mão. Um guerreiro ali perto foi puxado da montaria e seu braço sumiu completamente, o sangue escorrendo do coto enquanto ele gritava.
Zahra relinchou e uma fileira de marcas de mordida apareceu em sua pata dianteira. Enquanto eu vigiava, mantendo os olhos atentos ao atacante, golpeei o ar invisível com minhas facas. Seu sangue de unicórnio brotou dos furos.
— Biloko! — gritou Amon.
A simples palavra me fez hesitar. Lembrei-me de minha forma humana frágil demais sendo atacada pelos demônios crocodilos invisíveis que Sebak tinha mandado contra nós enquanto nos recuperávamos na casa do Dr. Hassan. Amon estendeu as mãos nuas e abertas e esticou os dedos, balançando-os, como se estivesse pescando à mão num rio. Então agarrou alguma coisa que eu não podia ver. Mas era grande. Grande a ponto de ele poder envolver-lhe o corpo com os braços e mesmo assim os dedos não se encontrarem.
Seu unicórnio corcoveou e o rosto de Amon se contorceu como se estivesse sentindo dor. Ele girou no ar, enquanto a coisa que segurava se debatia loucamente. As pernas de Amon se balançavam de um lado para outro e ele descreveu um círculo antes de acelerar para cima numa velocidade estonteante. Depois mergulhou de novo e pareceu se imobilizar no ar.
Cheguei mais perto, esperando o momento exato, e golpeei com minhas facas-lanças, cravando-as no espaço entre as mãos de Amon.
Ele se imobilizou, flutuando no espaço, depois soltou. Zahra se aproximou e Amon estendeu a mão para mim. Agarrei-a, puxando-o mais para perto até que seu rosto ficou só um pouco abaixo do meu. Ele levitava com facilidade e se movia conosco desde que eu continuasse a segurá-lo.
Então me permiti um brevíssimo momento para sentir a força de suas mãos, o modo como elas envolviam as minhas, menores. O rosto de Amon estava mais branco do que o luar, mas eu não podia ver nenhum ferimento óbvio.
Seus olhos cintilavam, verdes como o mar do Norte.
— Fique perto de mim — disse ele. — Lembre-se de que eles têm um gosto especial pelas mulheres. — Só tive tempo de assentir antes que ele me soltasse e caísse, pousando perfeitamente em seu unicórnio, que surgiu por baixo dele.
A luta tornou-se sangrenta enquanto demônios visíveis e invisíveis atacavam nossas fileiras. Amon-Rá e Néftis chegaram mais perto. O deus sol orientou que cavalgássemos em torno da borda externa das Águas do Caos enquanto ele e Néftis levariam o restante dos guerreiros e unicórnios em outra direção. Instruiu que diminuíssemos nossa luz e partíssemos quando ele desse o sinal.
Lutamos com intensidade durante vários minutos, até que ouvi o grito agudo de um pássaro. Era o pássaro Benu. Sabia que esse era o sinal que estávamos esperando. Dei a ordem a Zahra e ela desligou sua luz e fez uma curva abrupta. Amon, Ahmose, Anúbis e Hórus vieram atrás. O espaço ao nosso redor ficou silencioso quando a batalha se afastou.
Quando os cascos do unicórnio tocaram as Águas do Caos, fiquei chocada ao ver que a matéria cor de nebulosa tinha uma base suficientemente sólida para andarmos nela. A névoa ainda rolava e se movia como água, mas passava pelas patas do unicórnio como se estivéssemos vadeando um rio raso. Com a luz se refletindo para o alto, dava para ver com clareza o rosto de meus companheiros. A claridade lançava padrões tremeluzentes em nossos membros e rostos, dando-nos luz suficiente para enxergarmos enquanto prosseguíamos.
— Aonde vamos agora? — perguntei.
— Confrontar Seth de uma vez por todas — respondeu Hórus.
Virei-me para Amon, procurando o sorriso tranquilizador que ele me dava com tanta frequência ao me olhar, mas sua expressão estava fechada. Zahra movia-se ao lado da montaria dele, acompanhando o passo do grande unicórnio que se parecia tanto com Nebu.
— O que foi? — perguntei a ele.
— Não sei. Parece que alguma coisa está errada. Meu peito está queimando. Não estou entendendo.
— O meu também — disse Ahmose.
— Isso é estranho — falei, esfregando meu peito.
De repente meu coração também começou a queimar. Zahra parou, eu passei uma perna sobre suas costas e apeei, pousando com força na superfície escorregadia por baixo das reluzentes Águas do Caos. De súbito me sentia sufocada pelas roupas. Puxei a gola, sentindo que a armadura estava parecendo mais uma mortalha.
Amon e Ahmose aparentemente sentiam a mesma coisa. Levantei a mão para tocar o rosto de Ahmose, mas puxei-a de volta, sibilando.
— O que está acontecendo conosco? — perguntei a Anúbis, que apeou de seu unicórnio.
Ele fechou os olhos, entoando um encantamento. Seu rosto se franziu como se ele estivesse sentindo dor. O terror dominou sua expressão e ele veio rapidamente para o meu lado.
— Não! Não pode ser! — gritou, segurando meu braço.
E recolheu a mão rapidamente. Sua palma tinha adquirido um tom vermelho vivo.
Comecei a puxar os cabelos e me sacudir dos calcanhares até os joelhos, desesperada para acabar com a dor. Fechando e abrindo as mãos, pressionava as têmporas, gemendo. Queria perguntar a Anúbis o que estava acontecendo, mas não conseguia formar as palavras. Em vez disso, gesticulei feito louca, tentando mostrar que havia alguma coisa muito errada. De repente minhas costas ficaram totalmente eretas e gritei. Inclinando o rosto para as estrelas, que redemoinhavam acima de mim, senti o poder deixando o meu corpo. Ele pairou acima de mim como uma nuvem.
Em minha mente vi um homem, um homem cujo cabelo emoldurava um rosto tão bonito que rivalizava com as próprias estrelas. Sorri enquanto ele fazia promessas evasivas que para mim eram mais atraentes do que me deitar em capim de cheiro doce em uma noite na savana. “Tene, meu amor”, sussurrei enquanto beijava o canto de sua boca, onde os lábios se curvavam num risinho familiar. Alisei o cabelo sedoso, tirando-o da testa, para olhar nas profundezas de seus olhos.
Ele desceu as mãos da minha cintura para os quadris e abriu os dedos, me puxando para ele. Sorrindo para mim, disse:
— Está com vontade de brincar esta noite? Venha me procurar, então, minha linda garota atrevida.
Então ele me deu uma piscadela e recuou um passo. Eu já me preparava para ir atrás dele quando o sorriso foi sumindo lentamente de seu rosto até desaparecer por completo. A escuridão o amortalhou. Observei a mudança em seus olhos. Antes estavam abertos para mim. Eu podia ver meu reflexo neles, o amor empoçando no centro e se derramando. Mas agora as profundezas de seus olhos estavam fechadas, frias. Não guardavam nada além de segredos.
Segredos.
Segredos.
Meu corpo desmoronou e, quando abri os olhos, me sentia vazia e morta por dentro. A luz das Águas do Caos se derramava sobre mim numa névoa colorida. O calor estava se esvaindo, enquanto nuvens espumosas banhavam minha pele febril. Encolhi-me quando braços fortes me levantaram.
— O que aconteceu? — perguntei, ficando de pé.
— O elo — disse Anúbis, sério. — O elo foi cortado.
— Como... como isso é possível? — perguntei.
— É Asten — respondeu Amon com uma expressão vazia, desesperançada, transformando seu rosto. — Você não sente, Lily?
— Asten? — Fiquei parada, a boca entreaberta, em choque, tentando entender o que ele estava dizendo.
Anúbis segurou meus ombros e me virou para ele.
— Lily, você precisa saber que isso não é irreversível. Asten ainda pode ser salvo. Você não deve desistir dele.
Ergui as sobrancelhas. Desistir dele? Claro que eu não desistiria dele.
— Então ele não está morto? Tem certeza?
— Ele ainda vive — disse Hórus, passando um dedo ao longo da espada. — Por enquanto.
Uma dúzia de hipóteses percorreram minha mente ao ouvir suas palavras, e eu queria agarrar Hórus pelo colarinho e forçá-lo a dizer tudo o que sabia.
Hórus continuou:
— Asten só não está mais... — Ele balançou a mão no ar com um floreio, como se procurasse a palavra certa. — Não está mais protegido pelo seu elo. Agora o poder coletivo de vocês está separado do dele.
— O que você não está me dizendo? — ataquei, com as mãos nos quadris, encurralando Hórus, lançando-lhe meu melhor olhar do tipo “Não mexa comigo”.
O deus chegou a dar um passo para trás.
— Lily — disse Anúbis. — Não temos tempo para isso. Felizmente você se recuperou depois de ser separada dele. Havia uma chance de isso não acontecer, de que a quebra do elo destruísse todos vocês. O fato de você ter recuperado a força tão rapidamente é bom. Significa que ainda há esperança. Esperança para Asten e para nós. Mas, independentemente de qualquer coisa, precisamos encontrá-lo. Depressa.
— Quer dizer que ele está aqui? — perguntei, saltando para as costas de Zahra outra vez.
Ahmose estava curvado junto à pata dela, curando a mordida do demônio biloko.
— Receio que o rompimento do elo signifique que Asten está muito perto. Venha — disse ele. — Precisamos nos apressar.
Tia voltou a se lamentar e Ashleigh e eu fizemos todo o possível para consolá-la enquanto prosseguíamos. Agora que entendíamos o que havia acontecido, reconheci o que fora a visão. A cena que tínhamos testemunhado fora um pequeno vislumbre da mente de Asten. Tia confirmou que aquele sonho específico nunca havia acontecido na vida real nem em uma das paisagens de sonho dele. Ela esperava que isso fosse sinal de que ele estava perto. De que queria que o encontrássemos. Eu morria de medo de que ela estivesse certa. Preferiria que ele estivesse em Heliópolis, seguro. Que de algum modo tivesse escapado dos demônios alados e agora mesmo estivesse no topo da montanha, imaginando para onde teríamos ido.
Por fim, vimos a caixa-preta surgindo. Ao chegar mais perto, percebemos que era grande como um campo de futebol e parecia aberta; trechos dela tinham se dissolvido completamente, mas seu interior era tão escuro e ela ainda estava tão distante que não conseguíamos discernir tudo de onde nos encontrávamos.
A caixa, ou obelisco, como Hórus havia chamado, estava presa à borda do círculo reluzente onde nos encontrávamos. Quando chegamos ao ponto em que o elo que tremeluzia e crepitava tinha sido fixado, olhei para a caixa, que se balançava ligeiramente centenas de metros acima de nós. Parecia um gigantesco balão quadrado ou uma pipa, e a linha era uma ponte de relâmpagos se estendendo até o céu escuro lá no alto.
Engoli em seco, olhando o grande vazio de espaço entre nós e o objeto que buscávamos. Por sorte, tínhamos unicórnios. A ideia de escalar pela corrente eletrificada era terrível, um pesadelo.
— Tem certeza de que Seth ainda está lá em cima? — perguntei, estreitando os olhos enquanto examinava o objeto escuro no espaço.
— Se não estivesse, a corrente teria se partido e se dissolvido, voltando a ser pura energia — respondeu Anúbis.
— Certo, então qual é o plano? — perguntei.
— Deveríamos nos encontrar com Amon-Rá e Néfits aqui. Eles deviam ter chegado antes de nós, já que fizemos o caminho mais longo. O fato de não estarem aqui me deixa nervoso.
— Acha que os demônios alados e os bilokos os pegaram?
Anúbis examinou o céu ao redor.
— Não acredito. Amon-Rá é poderoso o bastante para que qualquer demônio que ouse mordê-lo pereça imediatamente. Quanto a Néftis, é uma espécie de profetisa. Enxerga o suficiente do futuro para saber como e quando alterar seu rumo. Não há motivo para não terem nos alcançado.
Anúbis coçou o queixo enquanto se virava, avaliando o céu acima de nós. Uma explosão de fagulhas brotou no topo do obelisco. Toda a estrutura se moveu e a corrente comprida oscilou para um lado e para outro na vastidão. Ouvimos o som inconfundível de uma mulher gritando.
— Mãe! — Hórus pulou nas costas de seu unicórnio e galopou, saltando da borda. Mergulhou abaixo das águas que caíam e depois irrompeu de novo, subindo em direção ao obelisco.
Anúbis ergueu as mãos com desgosto, olhando irritado para o deus.
— Jovem imprudente — sussurrou. — Lá vai ele, todo armado, esquecendo o objetivo do sacrifício da própria mãe. — Em seguida, franzindo as sobrancelhas, olhou para nós. — É melhor vocês não arranjarem ideia de seguir os passos de Hórus. Pensem antes de agir. Entenderam? Seth já sabe que estamos aqui. Não vamos lhe dar mais vantagens do que ele já tem.
— Entendemos, Anúbis — disse Amon.
— Ótimo. Vocês nunca estiveram com Seth. Pelo menos não pessoalmente. Mas vou alertar: ele é como uma tempestade distante. Você acha que tem tempo para se preparar para o ataque, mas... bum!... ele chega antes que você possa se abrigar. Ele circula você, espera como o caçador mais paciente. Estuda você e descobre seus pontos fracos. E então ataca. — Ele juntou as mãos. — Você é apanhado nos dentes do crocodilo.
Estremeci.
— E tenham uma coisa em mente — continuou Anúbis —, ele é muito mais perigoso do que parece. Vê-lo como um garoto magricela e impotente, insignificante, foi um erro. Ele se aproveitou de nossa cegueira. — Anúbis olhou para cima e acrescentou baixinho, o maxilar tenso: — Seth se tornou um homem cruel, que gosta de torturar. A destruição é seu objetivo final. Ele é ardiloso e inteligente. Se lhe derem a menor demonstração de simpatia, ele vai envenenar vocês. E não acreditem no que estiverem vendo. Seth pode mudar de forma, transformando-se em criaturas que vocês nunca viram. E faz uso das habilidades delas também. Resumindo: não o subestimem. Seria o seu fim.
— Então como vamos deter uma criatura dessas? — perguntou Ahmose.
— Vocês podem detê-lo porque Seth também subestima vocês. Ou talvez, de modo mais exato, ele se superestima. Seu objetivo será vencê-los. Como ele criou os Filhos do Egito, tentará usá-los, usar seu poder. Mas vocês podem resistir. Nós lhes demos essa capacidade. Mesmo assim, sua determinação e coragem são as únicas coisas que estão entre ele e seus objetivos finais. Seth não tentará matar um dos Filhos do Egito. Pelo menos não consigo imaginar que ele tentaria uma coisa dessas. Se tentasse, o resultado seria... bom, digamos apenas que seria muito desagradável para ele. Significaria sua queda.
Ele continuou sem pausa:
— Lily é a arma que ele não verá chegando. Somando vocês e nós, acho que podemos vencer. Precisamos vencer. Qualquer outro resultado é impensável. Boa sorte, meus filhos. — Anúbis segurou os ombros de Ahmose e Amon. Em seguida passou um dedo por meu rosto e me ofereceu um sorriso débil. — Boa sorte a todos nós — concluiu, murmurando suas últimas palavras para o céu vazio: — Que as estrelas abençoem nossos esforços esta noite.
Tínhamos acabado de montar nossos unicórnios quando ouvimos um guincho terrível vindo lá de cima. Um objeto disparou em nossa direção a uma velocidade espantosa. Girou no ar e nossos unicórnios movimentaram-se nervosos ao reconhecer o que era.
São Hórus e o unicórnio dele!, gritou Zahra. A bola de patas e asas girando se aproximou e se chocou com as Águas do Caos, produzindo um estrondo. Ondas de cor espirraram no ar enquanto nossos companheiros caídos criavam um amplo sulco de matéria. Deslizaram pela superfície escorregadia por uma grande distância antes de parar. Ondas se agitaram loucamente, batendo no peito de nossos unicórnios, alcançando minhas pernas. Por fim, eles pararam, desconjuntados, e a matéria jorrou rapidamente para preencher o espaço escavado.
Corremos, os cascos batendo e espirrando água, até chegarmos ao lado do deus caído e de sua montaria. O unicórnio debatia-se debilmente. Uma pata estava quebrada e um objeto trespassava seu flanco. Quando o puxei, vi que era a própria espada de Hórus. O deus estava preso embaixo do unicórnio e parecia inconsciente. A boca do animal arquejante espumava. Enquanto o unicórnio cravava os cascos nas águas nevoentas, lutando para encontrar um apoio apesar da pata quebrada, pude ver que ele estava aterrorizado. Tinha as orelhas inclinadas para trás e relinchava alarmado — não por si mesmo, mas por nós.
Meu sangue congelou. Examinando rapidamente o céu e não encontrando nada, apeei e me ajoelhei perto do unicórnio, passando a mão por seu focinho comprido e parando junto das narinas abertas. A respiração rápida e quente soprou na minha palma. Zahra encostou o focinho no dele e pude sentir seu lamento enquanto ela avaliava os ferimentos do animal. Ele estava morrendo.
Eu já ia pedir ajuda a Ahmose, mas ele se encontrava ajoelhado ao lado de Hórus, usando seu poder para salvar a vida do deus. Em vez disso, virei-me para Anúbis.
— Você pode fazer alguma coisa?
Ele balançou a cabeça.
— A maldição que caiu sobre os unicórnios impede que eu prepare sua alma para o além.
Zahra bateu com uma pata e soltou um relincho de lamento no momento em que o unicórnio deitou a cabeça. Passado um momento, o corpo do grande animal tremeluziu e tornou-se insubstancial. Então se dissolveu e foi carregado pelas Águas do Caos até a borda, de onde escorregou e desapareceu de vista.
Eu me segurei a Zahra, acariciando seu pescoço macio enquanto ela se afligia e olhava Ahmose trabalhar. Quando Hórus finalmente respirou e seus olhos se abriram, trêmulos, soltei o ar que estava prendendo. Mas a sensação de alívio ao ver Hórus ficar de pé lentamente foi logo dissipada quando ouvi um rugido vindo de cima.
Uma forma longa e sinuosa — não, duas formas longas e sinuosas irromperam do obelisco e vieram em nossa direção. Quando chegaram mais perto, circularam preguiçosamente acima de nós. Uma das duas, um dragão, tinha uma corrente de relâmpagos presa à pata. Ele pousou na superfície das Águas do Caos e se agachou, observando-nos como se avaliasse quem seria o aperitivo mais saboroso. Sua cauda se sacudia para trás e para a frente, fazendo a superfície sob nossos pés estremecer, como num terremoto.
A outra forma pairava no escuro. Quando o dragão levantou a cabeça e urrou, ela se aproximou e pousou. Seus anéis móveis eram familiares demais.
Olá de novo, deusa, disse Apep, batendo a cauda. Que prazer encontrar você aqui.
— Apep? — gritei, deliberadamente virando a cabeça para evitar seu olhar hipnótico. — Achei que você não se importava com os deuses ou com a guerrinha deles!
Eu não me importava, respondeu a cobra gigante, deslizando ao nosso redor, prendendo-nos no círculo de seu corpo. Mas este aí, disse, virando-se para olhar o dragão, prometeu encher minha barriga com todas as almas que eu puder comer. E, como você sabe, acrescentou, baixando a cabeça para me encarar, estou sempre com muita fome.
Ele se sacudiu de repente, abrindo a boca para mostrar as presas brilhantes. Águas espumosas lambiam suas escamas e, como antes, achei-as lindas. Na verdade, pareciam refletir as próprias águas a nossos pés. Bonitas demais. Dei alguns passos, aproximando-me da cobra, hipnotizada por sua extraordinária beleza.
Amon me puxou de volta e eu sacudi a cabeça, sacando em seguida minhas facas e alongando-as até virarem lanças. No entanto, antes que pudesse soltar um grito de batalha, o dragão falou diretamente conosco.
— Ainda não — disse, sua língua formando as palavras como se elas fossem estranhas para ele naquela forma. — Ainda faltam alguns jogadores, acho.
Vários objetos escuros, encobertos, vieram do obelisco, pousaram suavemente na superfície colorida das Águas do Caos perto da boca da cobra e desmoronaram imediatamente. O capuz escuro de uma delas escorregou para trás e eu arquejei.
— Néfits? — gritei.
Disparando em torno da cobra, corri para a forma caída e puxei o capuz gentilmente para trás. O dragão riu quando os cabelos dourados caíram sobre minhas mãos. Dois furos na pele deixavam escorrer veneno preto. Apep. Eu não sabia se o veneno da cobra iria afetá-la tanto quanto havia me afetado, mas precisávamos ajudá-la, e logo.
Anúbis e Ahmose mantiveram as armas apontadas para a cobra enquanto Hórus foi mancando o mais rápido que pôde até a outra vítima. Quase chegando, ele tropeçou e caiu perto do corpo. Puxou o capuz. Era Amon-Rá.
Rosnando, ele ergueu os olhos e gritou:
— O que você fez com minha mãe, sua fera abominável?
Mesmo a distância, os olhos de Hórus eram lâminas perigosas, abertas e prontas para cortar.
O dragão deu um riso afetado.
— Ah, Ísis está aqui, eu lhe garanto, cachorrinho.
Fui até a próxima pessoa, e a próxima, esperando ver Asten, mas só encontrei alguns dos guerreiros de Amon-Rá. Depois de verificar todos, eu me pus de pé e brandi as armas, juntando-me de novo a meus companheiros.
— Você pega a cobra — murmurou Amon. — Eu pego o dragão.
— Eu ouvi isso, principezinho — zombou o dragão. — Como seria divertido para você fazer o papel do cavaleiro com armadura matando o dragão! Tudo isso para impressionar sua princesa, não é? Que romântico! — disparou. — Bom, eu lhe garanto que não serei dominado facilmente e que não tenho absolutamente nenhum medo de você nem de qualquer outro cavaleiro com armadura brilhante.
O dragão fungou e nuvens de fumaça brotaram de suas narinas. Então ele espirrou, uma coisa muito pouco dragonesca. Eu ri, vendo o homenzinho que havia por trás da grande fera. Minha confiança cresceu, mas então pensei no aviso de Anúbis e reforcei minha determinação. Seth era mesmo ardiloso e eu tinha a sensação de que ele lutaria sujo.
— Acho que o seu ego está dizendo que você é um letreiro luminoso de 15 metros com seu nome em neon — gritei. — Infelizmente, você não serve nem para fazer figuração. Você se superestima e é despreparado. Por que não puxa uma cadeira e aprende com quem sabe das coisas, seu semideusinho mimado?
Talvez eu tenha ido longe demais ao provocá-lo, mas queria testá-lo em busca de fraquezas, do mesmo modo que Anúbis tinha dito que ele iria nos testar. O dragão me dirigiu um sorriso untuoso e estreitou os olhos.
— Tenho que admitir: estou ansioso para engolir você inteira. Vai ser revigorante depois de consumir seu campeão desgraçadamente bonito demais!
Era isso. A fissura em seu caráter. O ciúme rugia dentro dele como uma fera. Eu só precisaria balançar uma grande bandeira vermelha diante de seus olhos e ele viria direto para a minha espada. Eu precisaria ter cuidado, mas, sim, era possível derrotá-lo.
— Antes disso, porém — disse o dragão —, eu gostaria de lhes contar a história do dragão e do presunçoso São Jorge. Conhecem? — perguntou Seth quase educadamente. — Não? — Ele não esperou nossa resposta. — Então deixem-me dividir com vocês a versão verdadeira. Era uma vez uma cidade com mortais mimados que pediu ajuda a um dragão. “Estamos morrendo com a peste”, disseram eles. “Por favor, nos ajude!” O dragão sabia que as pestes eram o modo que a natureza empregava para manter o equilíbrio. Os cidadãos se apinhavam feito ratos. Eram imundos e vis. A Terra ficaria melhor se eles fossem varridos de sua superfície. Mas o dragão, que, para sua infelicidade, era bom demais, concordou em ajudar e pediu apenas uma recompensa em troca. Uma pequena prova de gratidão.
O dragão fez uma pequena pausa de suspense.
— Ele queria que a linda filha do rei lhe fizesse companhia e oferecesse a gentileza que ele merecia. Mas a filha do rei achou o dragão feio demais. Os chifres dele eram afiados demais, o hálito era quente demais e as garras desajeitadas iriam rasgar seus belos vestidos. Assim, em vez de oferecer a filha, o rei fez um sorteio e uma jovem era escolhida a cada ano e dada para o dragão. Inevitavelmente, a garota deixava o dragão com raiva ao tentar escapar. Às vezes ele ficava cansado dos soluços e da atitude de coitadinha enquanto ela se lamentava, implorando que a devolvesse à família. De um jeito ou de outro, ele reagia com violência, matando a jovem. Logo a cidade ficou sem moças e finalmente o rei infeliz mandou a filha. O dragão ficou empolgado, mas secretamente o rei mandou um cavaleiro com ela, um cavaleiro especialmente treinado para caçar dragões. Ao ver o belo cavaleiro que vinha salvá-la, a princesa ficou imediatamente caída por sua beleza afetada e não quis mais considerar a oferta sincera do dragão. Forçado a lutar, o dragão travou batalha com o cavaleiro e o teria derrotado, não fossem os gritos da moça. Ela distraiu o dragão e o cavaleiro o matou.
O dragão deu um sorrisinho.
— Agora, antes de vocês terem alguma ideia desse tipo, esta pequena luta de brincadeira em que vamos nos engajar terá um resultado totalmente diferente.
— É mesmo? — gritei. — E por que você acredita nisso?
— Porque desta vez não estou lutando sozinho. Seres inferiores, quero que todos conheçam meu filho. — O dragão torceu o pescoço, olhando alguma coisa às suas costas. — Filho? Por que não vem aqui e se apresenta aos nossos inimigos?
Uma figura encapuzada saiu das sombras lançadas pelo dragão. O homem ergueu as mãos e tocou a borda do capuz, e, quando fez isso, meu coração começou a bater tão loucamente que achei que iria explodir no peito.
Eu não tinha a intenção de demonstrar qualquer fraqueza ao meu inimigo, mas um nome escapou dos meus lábios quando ele puxou o capuz para trás. O som ecoou baixinho no espaço, um sussurro quase irreconhecível; voltou a meus ouvidos como se fosse sussurrado pela boca de um anjo:
Asten.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!