9 de março de 2018

26. As Águas do Caos

Acordei com o crepitar de uma fogueira. Tentei me mexer, mas cada parte de mim doía de um modo que eu nunca havia sentido antes. Com um gemido, virei o cotovelo para o chão, querendo levantar o corpo, mas caí de volta pesadamente. Um par de braços me pegou antes de eu bater no solo.
— Shh. Fique parada — murmurou a voz de Amon no meu ouvido. — Estamos seguros por enquanto.
— E Ahmose? — consegui perguntar.
— Está aqui. Descansando. Foi necessário quase todo o poder que ainda restava nele para salvar você. Não fossem ele e o emblema de Hórus, um de vocês certamente teria perecido. Ainda que Anúbis tivesse podido cuidar do corpo de um de vocês, Cherty se foi. Não haveria passagem segura para o além. Na melhor das hipóteses, suas almas estariam perdidas; na pior, virariam comida para Apep.
É bom saber, pensei. Levei a mão ao pescoço e encontrei o colar que Hórus tinha me dado. A Estela de Cura havia sido muito útil. Amon indicou o outro lado da fogueira, onde Anúbis estava sentado perto de Ahmose adormecido. Anúbis também parecia descansar. Ele se encontrava sentado com as costas apoiadas numa parede de terra, o joelho levantado, o braço apoiado nele, a mão encostada na testa.
— Como ele está? — perguntei.
— Anúbis vai sobreviver.
— Ashleigh quer ver Ahmose — sussurrei para Amon.
Ele assentiu e me levantou.
Recuei, deixando Ashleigh tomar a frente. Ela pegou a mão dele e a segurou com gentileza. Lágrimas turvaram minha visão, fazendo a luz da fogueira dançar em padrões tremeluzentes no rosto dele. Ela se inclinou mais para ele, pressionando a mão sobre seu coração. Uma luz brotou sob a camisa de Ahmose enquanto ela canalizava o poder de que fora imbuída pela árvore das fadas.
Depois de terminar, Ashleigh se recostou e perguntou a Anúbis:
— Pode contar o que aconteceu com os outros?
— O grupo comandado por Maat foi capturado e destruído. A Devoradora me obrigou... — ele parou e enxugou os olhos — ... me obrigou a assistir. Demorou muito. Maat era poderosa. A Devoradora disse... — Anúbis parou e um tremor percorreu seu corpo. — Ela disse que Maat nutria um amor secreto por mim. Eu respondi que ela estava enganada. Que Maat discutia comigo o tempo todo. Que me odiava pela maneira como eu escapava das regras dela e pelo modo como eu zombava de sua natureza rígida. — Anúbis fungou com tristeza e trincou o maxilar. — Mas então Maat se virou para mim, o horror enchendo seus olhos, e eu soube que a Devoradora falava a verdade.
— Ah, Anúbis. Sinto muito — disse Ashleigh.
A tristeza nublou as feições dele.
— Agora acho que jamais saberemos o que poderia ter sido.
— Não havia como salvá-la, então? — perguntou Ashleigh.
— Não. Eu preciso capturar a essência da vida antes que ela parta do corpo. A Devoradora suga tudo, até que não haja chance de recuperar coisa alguma. Maat se foi.
Ashleigh segurou a mão dele, apertou os dedos e se acomodou ao lado de Ahmose. Com nossa energia se canalizando para ele, dormimos de novo.
Descansamos até o amanhecer, quando nos sentimos recuperados o bastante para voltar à montanha e nos reunirmos aos outros. Assim que chegamos, descobrimos que restava apenas um terço das pessoas. Amon-Rá tinha conseguido voltar e Néftis não havia deixado a montanha. Eles se afligiram quando Anúbis contou sobre a perda de Maat. Compartilharam a boa-nova de que Osíris tinha sido encontrado e trazido de volta, e nós contamos sobre a morte da Devoradora. Nossa vitória estava manchada pela perda.
Deixando Amon-Rá, Anúbis e Néftis planejando, procurei Hórus e o encontrei ajoelhado perto do pai. Osíris estava pálido e febril, e no sono ele se remexia e chamava Ísis repetidamente.
Sem me cumprimentar, Hórus disse:
— Ele sente o sofrimento dela. Isso dói nele mais do que as dores do próprio corpo.
— Vamos salvá-la — falei.
— Espero que sim. Obrigado, por sinal. Obrigado por matar a Devoradora.
— Eu é que deveria agradecer a você. Sua estela me curou. Sem ela eu teria morrido.
Levei a mão à nuca, abri o fecho do cordão e o estendi.
— Você deve ficar com ela — disse ele, virando-se quando seus olhos úmidos encararam os meus.
— Ela pode curar seu pai? — perguntei. — Não curou os Filhos do Egito.
— A estela só cura quem faz parte da minha família.
Inclinei a cabeça.
— Então por que você a deu a mim?
— Pareceu... pareceu certo. O fato de ela curar você significa alguma coisa. Nós estamos conectados, você e eu, ao nosso modo.
Eu não sabia o que sentir com relação a isso, mas também não podia negar. Ajoelhando-me ao lado dele, coloquei a estela na palma de sua mão e dobrei seus dedos sobre ela.
— Seu pai precisa mais dela do que eu. Obrigada por sacrificar um presente desses por mim.
Hórus me dirigiu um olhar longo e penetrante. Depois, assentindo com a cabeça, pôs o colar entre as mãos do pai. Olhei o maxilar flácido e a pele úmida de Osíris. Hórus inclinou-se sobre a perna amputada do pai, banhando-a gentilmente. Enquanto fazia isso, murmurou um feitiço que terminou com:
— A água desfaz e faz de novo.
Depois de apertar o ombro de Hórus, deixei-o com o pai e voltei para onde estavam os outros.
— Qual é o plano? — perguntei a Amon e Ahmose, que se mantinham perto do grupo enquanto os deuses falavam.
— Parece que eles não estão dispostos a esperar que Seth se solte e os encontre. Em vez disso, vão procurá-lo — disse Amon.
— Isso é sensato, já que somos tão poucos? — perguntei.
Amon-Rá levantou os olhos de repente.
— Não somos tão poucos como Seth pode acreditar — disse com a testa franzida. — Preparem-se, cidadãos — anunciou. — Partiremos para a batalha em uma hora.
Anúbis se aproximou com uma expressão endurecida. Ele já havia se trocado. Estava limpo e vestindo uma armadura preta, mas seus olhos estavam cansados e havia uma determinação sombria na posição dos ombros. Usava uma espada à cintura e carregava um elmo com pluma preta embaixo do braço. Ouvi um ganido atrás dele e fiquei boquiaberta ao ver Abutiu vir mancando atrás do dono.
— Ele sobreviveu! — exclamei.
— Sim. — Os olhos tristes de Anúbis se franziram nos cantos e sua boca curvada para baixo se contraiu em um riso torto enquanto se ajoelhava e coçava atrás das orelhas do cachorro. — Pelo menos ainda o tenho. Ele foi trazido para mim quando descobriram Osíris. Dei um pedaço de mim para curá-lo. Tenho certeza de que meu sacrifício valerá a pena. Não é, seu bicho sarnento?
O cachorro pressionou a cabeça na mão do dono e lambeu seus dedos.
Passado um momento, Anúbis se levantou e disse:
— Abutiu vai ficar aqui com Osíris e alguns dos serviçais mais velhos de Amon-Rá, que não podem lutar. O restante de nós vai para a batalha. Fui instruído a ficar com vocês e protegê-los enquanto puder. — Ele meneou a cabeça para Ahmose e Amon. — Vocês dois se recuperaram o suficiente?
Com um movimento rígido da cabeça, eles indicaram que sim.
— Ótimo. Não vão viajar em sua forma de pássaro. São um alvo grande demais, e gostaríamos de manter sua identidade oculta pelo maior tempo possível.
Amon e Ahmose pareceram surpresos com isso.
— Aonde nós vamos? — perguntei, interrompendo. — Seth está em Heliópolis?
Anúbis balançou a cabeça.
— Seth ainda está algemado em sua prisão, mas quebrou as paredes. Nosso objetivo é acabar com ele antes que afrouxe as correntes e enquanto ainda está fraco pela perda da Devoradora. É provável que ele estivesse contando com ela para lhe dar energia suficiente para se soltar. Foi por isso que ela procurou o reino mortal. Banquetear-se com o coração dos vivos teria lhe dado poder suficiente para libertá-lo. Se Seth tivesse sido solto, duvidamos que fôssemos capazes de contê-lo.
— Certo, e onde fica a prisão dele? — perguntei.
— Fica no único lugar com gravidade suficiente para segurá-lo: nas Águas do Caos. O obelisco onde o prendemos orbita a borda. Devemos encontrá-lo lá e, com sorte, pôr fim a esta luta com nosso irmão de uma vez por todas.
Eu já ia perguntar “Como chegaremos lá?”, “Como vou respirar no espaço?” e “O que aconteceu com Ísis?” quando o ar à nossa volta estremeceu.
O tecido do céu ondulou e dezenas de formas douradas irromperam através dele. Meus olhos arderam enquanto eu lutava para conter as lágrimas.
— Como? — consegui dizer, e esta foi praticamente a pergunta mais idiota que eu já tinha feito.
— Eles foram inspirados pelo sacrifício dos irmãos e decidiram vir nos ajudar. Vão nos carregar para a batalha.
Unicórnios voavam acima de nossas cabeças, movendo as patas num galope e relinchando para anunciar sua chegada. Absorvi aquela visão e engoli um dolorido nó na garganta. Na minha mente, sabia que Nebu tinha morrido, mas mesmo assim esquadrinhei o céu à procura de sua forma familiar. Perdê-lo, além de Cherty e Maat, era algo que eu não iria superar tão cedo.
Meu braço foi envolvido por uma mão.
— Você está bem? — perguntou Amon.
— Vou ficar — falei e me virei para ele, esperando receber um abraço. Parei quando vi que ele já estava usando sua armadura dourada. Seus olhos cintilaram ao ver minha consternação. Ele se inclinou, segurou meus ombros e trouxe os lábios até meu ouvido. — Um dia, eu prometo, não haverá armaduras entre nós.
Enrubesci.
— Espero que sim — repliquei.
Amon recuou, segurando-me com os braços estendidos, e me olhou de cima a baixo.
— Eu preferiria ver você mais protegida, Nehabet.
Olhei para minha roupa arruinada e franzi o nariz.
— Eu também. Já volto. Não vá para a batalha sem mim.
Sua testa se franziu.
— Nunca mais vou sair de perto de você, jovem Lily.
— Que bom. Vou cobrar isso.
Seguindo para uma das tendas vazias que salpicavam o topo da montanha, invoquei a areia e deixei que ela limpasse meu corpo. Meus braços subiram e as roupas rasgadas e sangrentas se desfizeram até eu estar totalmente despida. O vento fustigou e raspou minha pele até ela brilhar. Revirou meu cabelo, chicoteando-o para trás e para a frente até que o senti batendo nas costas nuas, liso e sedoso.
Quando fiquei limpa, a areia se amalgamou, formando roupas. Fechei os olhos e visualizei não exatamente o que queria usar, mas como queria estar protegida. Um tecido macio e flexível envolveu meus membros. Placas leves cobriram meu peito, as pernas e os braços num padrão variegado que imitava minhas asas. Um arnês especial se formou com uma bolsa entre minhas escápulas e na armadura havia aberturas com bordas, de tamanho suficiente para as asas emergirem. Nos pés se formaram botas grossas, acolchoadas por dentro e amarradas com firmeza até os joelhos. Placas cresceram no topo das botas e se estenderam sobre as pernas, criando proteção para as canelas. Os bicos das botas tinham pontas afiadas e brilhantes. Agora os escaravelhos do coração repousavam numa placa grossa que se estendia de um ombro a outro.
Meu cabelo sedoso estava afastado do rosto e pendia pelas costas numa linha reta, que não se movia nem com o vento. Girei as facas-lanças, passei-as por cima da cabeça e as enfiei no arnês, depois coloquei a aljava e o arco no lugar que havia criado. Minhas armas estavam acomodadas com firmeza junto ao corpo. Quando saí da tenda, dobrando os braços e testando as botas, nem ouvi Ahmose e Amon se aproximarem.
Ahmose pegou minha mão e beijou meus dedos. Apesar de eu estar com luvas, elas não tinham dedos, para que eu pudesse usar o arco e segurar com firmeza as facas-lanças. Os cantos dos olhos dele se franziram quando disse:
— É uma honra lutar ao seu lado. Minha maça, meu machado e o resto de mim são seus, para fazer o que quiser.
— Obrigada — falei, com as faces ardendo. — Meu maior desejo é todos sairmos disto vivos.
— Farei o máximo possível para que isso aconteça — disse Ahmose.
Em seguida me virei para Amon, que estava com um quadril encostado na estaca da barraca, a mão no punho da espada, enquanto observava minha vestimenta. Fiquei mais ruborizada ainda sob seu olhar e mordi o lábio inferior antes de perguntar:
— Esqueci alguma coisa?
Seus olhos se arregalaram.
— Não, Nehabet. Eu estava pensando que jamais em meus longos anos vi uma mulher ou uma guerreira tão linda e formidável quanto você. Sinto pena de quem descobrir a ponta de sua lança na garganta, no entanto entendo como essa pessoa se sentirá.
— Por que diz isso? — perguntei inclinando a cabeça.
— Porque sei que tem o poder de despachar todos aqueles que se oponham a você. Por isso sinto pena deles. Mas entendo, porque, desde que a encontrei naquela primeira vez em Nova York, tive uma necessidade premente de me render, de corpo e alma, à sua vontade. Jovem Lily, quero que saiba, antes de entrarmos em batalha, que, de agora em diante, renuncio a todos os deuses e declaro que você é o único objeto de minha adoração.
Ele se ajoelhou diante de mim, segurou minha mão e a beijou.
Se um rapaz de Nova York tivesse me dito algo assim, eu teria chorado de rir, depois repetiria a história para o motorista de táxi no caminho de casa. Mas não podia rir de Amon. Ele era absolutamente sério, e uma pontada de preocupação penetrou na minha mente, acabando com qualquer possibilidade de uma reação hilária.
Estreitei os olhos e olhei para ele, desconfiada. Puxando-o para que ficasse de pé, apoiei as mãos nas amplas placas blindadas em seu peito.
— Você não está pensando em fazer alguma coisa maluca e nobre como daquela vez que me abandonou e foi para as pirâmides sozinho, está? Porque, se estiver, deve saber que agora eu sou uma garota diferente do que era na época.
Embora eu não achasse que fosse possível, ele me abraçou com força, nossas armaduras e armas retinindo de encontro umas às outras.
— Você é a minha Lily — disse ele. — A mesma Lily com quem banqueteei, ainda que nosso primeiro banquete tenha sido com cachorros-quentes requentados. Você pode estar mais poderosa. Pode estar usando armadura para a batalha. Pode ter enfrentado demônios e matado uma grande inimiga. Mas a garota por quem me apaixonei, que me salvou na pirâmide, que tem meu coração desde então, é a mesma que está à minha frente agora. E eu não a trocaria nem por todos os mundos do Cosmo.
Ele me beijou. E foi doce, suave e cheio de todos os desejos e promessas que eu não sabia se poderíamos cumprir. Mas sabia que esperávamos desesperadamente ter a chance de tornar isso possível.
— Eu te amo — falei quando nos separamos. — Mas não posso deixar de ver que você não respondeu exatamente à minha pergunta.
— Então aceite isso como resposta. Eu amo você como as flores amam a chuva. Elas abrem a boca para bebê-la e a chuva as sustenta. Você me dá substância, jovem Lily. Não vou... não posso sair do seu lado de novo.
Meu coração pareceu justo, pleno e quente no peito. Toquei seus lábios macios com a ponta do dedo e acariciei a barba começando a crescer em seu queixo.
— Acho que já ouvi esse negócio de substância antes, em algum lugar — falei com um sorriso. — Mas desta vez você não precisa me coagir.
Beijei-o de novo e encostei a testa na dele, não querendo me separar, mas era hora. Afastei-me, abri as asas e dois unicórnios pousaram. Seus cascos bateram com força no chão e relâmpagos dispararam deles, desaparecendo no solo e fazendo-o tremer. Suas caudas se agitavam nervosas, golpeando o ar como se lutassem contra um inimigo invisível. Eles se remexiam e dançavam enquanto esperavam que Amon e Ahmose montassem.
Quando estavam prontos, invoquei minhas asas e seguimos Amon-Rá para o céu. Ele agitou a mão e um portal se abriu. Hórus e Anúbis aproximaram-se de mim, de um lado, enquanto Amon e Ahmose protegiam o outro. Juntos, éramos uma tempestade de poder, um torvelinho de fúria. E estávamos a caminho da guerra.
Ouvi o relincho de um unicórnio embaixo de mim e olhei. Era Zahra. Arquejei.
Venha, Lily, disse ela. Eu ficaria honrada em carregá-la para a batalha. Você não precisa gastar sua energia tão cedo.
Eu... achei que você tinha seguido Nebu quando a brecha se fechou.
Meu pai não permitiu que eu fosse com ele, apesar de eu ter me oferecido. Ele queria que você tivesse uma montaria familiar para carregá-la para a batalha.
Obrigada, eu disse. Fico feliz por você estar aqui.
Bati as asas duas vezes e desci, pousando firmemente em suas costas. Por um momento imaginei que parecíamos uma gigantesca libélula de asas duplas. Ela estava certa, eu precisava preservar a energia, e fiquei agradecida por tê-la por perto. Embora ela mantivesse os pensamentos ocultos de mim, eu ouvia seus dentes rilhando. Zahra também estava com raiva pela perda de Nebu.
Entramos na boca cobiçosa do vórtice e fomos sugados, um a um. Um óleo denso e viscoso nos cobriu, mas logo saímos do outro lado, numa vastidão de espaço vazio. Perdi todo o senso de gravidade e fiquei boquiaberta diante da infinitude do Cosmo ao nosso redor. Minha pulsação disparou, a respiração saía em arquejos curtos e trêmulos e as pupilas se dilataram para captar o máximo de luz possível.
Eu não era a única boquiaberta com o lugar. Uma veia saltou no pescoço de Amon e até Anúbis parecia desconfortável, a boca comprimida numa linha fina e a expressão dura e decidida. Amon-Rá avançou e nós o seguimos — a respiração dos meus colegas guerreiros, as batidas das asas dos unicórnios e os sopros constantes de vapor quente saindo de suas narinas eram os únicos sons que eu conseguia escutar.
Quando saímos do vácuo escuro, houve uma sensação de espaço se comprimindo contra nós e então a luz penetrou a escuridão. Ela estalou e chiou como um fogo de artifício antes de desaparecer. Outra surgiu, dessa vez cor-de-rosa. Então vieram o amarelo e o verde, cada forma diferente da outra, cada cor espetacular. Logo mais e mais explosões de luz preenchiam minha visão, cada qual criando seu lugar especial no vazio imensurável.
— O que... o que é isso? — perguntei a Anúbis quando uma explosão turquesa preencheu minha visão.
— São galáxias nascendo.
Seu rosto ficou vermelho e dourado, as cores dançando nos traços fortes. Logo depois fios metálicos ficaram visíveis. Eles amarravam uma luz a outra como pontes oscilantes que atravessavam para lá e para cá, por cima e por baixo.
— É... é uma teia — murmurei, maravilhada.
— Sim — disse Hórus. — O que você vê é o que resta da Teia Cósmica. Suas linhas estão se desbotando.
— Porque não resta ninguém para tecer — falei.
Hórus me lançou um olhar agudo.
— Como você sabe? — perguntou.
Engoli em seco.
— Wasret e... eu tivemos uma espécie de confronto com uma aranha cósmica.
Anúbis ergueu as sobrancelhas, mas não disse nada.
Examinando o padrão de linhas que se entrecruzavam na escuridão do Cosmo, falei:
— É como um mapa gigantesco. Faz com que eu me lembre de como é a Terra vista do espaço à noite. Todas as luzes ligadas. Nova York sempre foi a mais brilhante.
— Sim. Mas, como isso é uma teia, o ponto mais brilhante está no centro. E é no centro que vamos encontrar quem procuramos.
À medida que nos aproximávamos, começamos a fazer uma curva, e o que parecia uma linha fina brilhando e crepitando no horizonte se alargou e se curvou até que pude ver para o que estávamos olhando. Era como uma coisa saída de um filme de ficção científica. Santo céu egípcio, pensei. Não. Nesse caso era só santo céu. Eu não tinha conhecimento suficiente de astronomia para entender o que era aquilo exatamente, mas para meus olhos de leiga parecia um buraco negro.
O que é isso?, perguntei a Zahra.
É a borda do Cosmo, foi a resposta do unicórnio.
A luz natural dos unicórnios se apagou quando o fenômeno cósmico surgiu. No centro havia de fato um funil espiralado, mas o restante transbordava de cores vibrantes. Parecia um lago borbulhando com uma camada de óleo, e na borda externa, presa a ele como um balão num fio de fogo, havia uma massa escura, impossível de discernir.
— É isso? — perguntei. — É ele?
— Sim — respondeu Anúbis. — Seth está acorrentado ao horizonte de eventos. O que você vê são os restos de sua prisão.
— Então é um buraco negro?
— Não. Pelo menos não no sentido que você entende. As Águas do Caos contêm todo o sangue da vida do Cosmo. As galáxias que nascem se originam aqui. Os blocos de construção da vida, a energia que percorre todas as coisas, vêm deste lugar. O que você percebe como um buraco é o desfazer. Nós algemamos Seth ao lugar onde a criação é mais forte. Isso cancela o poder dele e o vem confinando em sua prisão desde que os Filhos do Egito nasceram para sua segunda vida.
Agora o que eu estava vendo fazia mais sentido. O fenômeno conhecido como Águas do Caos tinha a forma de um anel, mas não girava feito um bambolê. Em vez disso, a camada superior era constantemente lançada por cima da borda, com cores fluindo como água pingando da borda do mundo. Quanto mais perto daquilo chegávamos, mais a matéria parecia se mover em determinados padrões. Partes subiam, separando-se do líquido, coalesciam e depois disparavam para galáxias distantes.
— O que era aquilo? — perguntei a Anúbis.
— Uma árvore. Uma baleia. Um gatinho recém-nascido. Um mundo novo. Uma estrela. Pode ser qualquer coisa.
— Mas eu achava que as Águas do Caos tinham sido drenadas.
Ouvi um leve suspiro antes de Anúbis dizer:
— As Águas do Caos preenchiam toda esta área do Cosmo. O lugar escuro onde entramos é agora um vácuo onde antes existiam vida e cor. Seth não está totalmente errado. O que você vê agora é resultado do trabalho dele. Mas suas motivações são distorcidas e tirânicas. Não poderíamos permitir que ele usasse esse poder gigantesco sem controle.
Chegamos mais perto, o silêncio me comprimindo enquanto eu pensava em tudo o que Anúbis tinha dito. Zahra sacudiu a cabeça e viramos num ângulo agudo. A matéria colorida adiante pingava da borda curva, caindo no espaço como uma cachoeira galática gigantesca. Era uma visão espantosa. Eu podia facilmente visualizar Cherty, com seu barco perdido, o Mesektet, surfando nas ondas de cor e depois desafiando o universo com um grito enquanto passava pela borda e afundava no esquecimento.
Enxugando uma lágrima do olho, examinei as Águas do Caos, maravilhada.
— Onde habitam os dragões — sussurrei.
Eu não sabia quanto estava certa.

2 comentários:

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