9 de março de 2018

25. A bruxa está morta

— Amon? — ecoei, depois de recuperar a capacidade de falar. — O que você está fazendo?
A Devoradora se virou para nós.
— Que bom. Estava me perguntando quando você ia aparecer. Eu deveria saber que, no momento em que a garota chegasse, você não estaria muito atrás. — A mulher pôs as mãos nos quadris e caminhou ousadamente pela grama, mas, quando fez isso, toda a área tremeluziu e desapareceu.
A Devoradora desapareceu por um momento e depois ressurgiu. Também devia ter sido distraída pelo incidente. Ela parou e riu, girando com os braços no ar.
— Logo, meus lacaios — gritou para o que eu presumia que fossem seus demônios alados. — Agora falta pouco.
Isso não está cheirando nada bem, pensei. O que ela está aprontando?
Havia algo errado. A Devoradora estava confiante demais. Eu torcia para que isso não significasse que tinha Amon sob controle de novo. Nós tínhamos nos separado por pouco tempo, mas com ela qualquer coisa era possível.
Amon havia sumido ao mesmo tempo que ela. Quando reapareceu, veio na nossa direção. Eu me preparei para um ataque, mas, quando ele chegou mais perto, relaxei, vendo o calor em seus olhos, e não a expressão vazia que ele tinha em Heliópolis. Aquele ainda era o meu Amon.
— Ainda não podemos matá-la — disse ele, correndo até nós e devolvendo minha arma.
Eu a peguei, aliviada por ele continuar do nosso lado.
— Por que não? — perguntei.
— Primeiro, precisamos fechar a barreira para o reino mortal. Seth deu à Devoradora o poder de rompê-la. — Ele estendeu a mão, indicando a área ao nosso redor. — Está vendo onde os dois mundos estão começando a se fundir? Deveria estar visível para você agora. Com o Olho, notei vestígios quando entramos no prédio.
Quando indiquei que não conseguia ver nada, ele examinou o terreno e apontou para as torres quebradas de Heliópolis. O ar tremeluziu e, quando semicerrei os olhos, pude distinguir a Times Square.
— Ah, não — falei. — Não pode ser.
Corri adiante, girando à medida que um prédio após outro ganhava forma. Eles apareciam e desapareciam, como se tentassem se fixar em Heliópolis. Um instante depois, surgiram calçadas e ruas, assim como imagens fantasmagóricas de mortais do meu mundo. Logo eles perceberam nossa presença e passavam por nós, de sobrancelhas erguidas, lançando-nos olhares irritados.
De repente, eu estava em Nova York e conseguia ver o que acontecia segundo a perspectiva deles. Um grupo de pedestres parou bruscamente e ergueu a cabeça, olhando, confusos, as ruínas de Heliópolis que começavam a substituir edifícios da cidade. Um famoso teatro virou uma construção de mármore meio desmoronada. A Devoradora, que tinha desaparecido outra vez, se materializou ali perto e tentou agarrar um mortal que passava. O homem gritou e levantou os braços para se defender, mas o cabelo dela o atravessou direto. Ele então saiu correndo pela rua.
Um policial veio diretamente para nós. Não imagino o que ele pensou que fôssemos — uma garota de asas perto de um unicórnio dourado e uma vilã com cabelos afiados como agulhas. Perto de nós estavam Ahmose e Amon, dois homens que podiam ter saído de um videogame, um com uma grande maça e outro com reluzentes cimitarras douradas. Talvez achassem que éramos um grupo anunciando um novo espetáculo na Broadway.
Uma grande fonte quebrada, com uma estátua de um pássaro Benu levantando voo, surgiu no meio da rua, fazendo os carros se desviarem abruptamente. Um táxi se chocou com uma minivan e o policial levantou seu rádio, gesticulando enlouquecido enquanto tentava controlar a multidão que gritava. No entanto, tão rapidamente quanto tinha se materializado, a fonte desapareceu e nós sumimos com ela. Eu me vi de volta em Heliópolis, mas a alta torre de Amon-Rá ainda lampejava com pixels ondulantes que anunciavam a estreia de um filme, até que também sumiu, deixando pedra em seu lugar.
Um táxi surgiu de repente do ar. Vinha direto para nós. O motorista não parecia nos ver. Amon gritou e agarrou meu braço, mas estávamos presos entre a fonte e um prédio. Os sons familiares da cidade caíram sobre nós de uma vez. Por fim o motorista nos viu e freou, mas sua reação não foi suficientemente rápida. Ele ia nos atropelar. Instintivamente ergui os braços, as asas se projetando de ambos os lados, mas o táxi nos atravessou feito um fantasma e desapareceu na névoa junto com o barulho das ruas da cidade.
— Está piorando! — exclamei ao ver que os dois mundos se fundiam cada vez mais. — Temos de fazer isso parar! Tem certeza de que matá-la não vai dar certo?
Nesse momento, a Devoradora estava distraída com um camelô.
Amon gritou:
— Se a matarmos antes, as barreiras celestiais serão queimadas. A transição vai acontecer abruptamente, e não em estágios, e os dois reinos vão implodir. Todas as criações que vivem em cada um deles serão desfeitas instantaneamente. De qualquer modo, Seth vence.
— Quanto tempo temos? — gritei, acenando para que nosso grupo fosse até um espaço onde uma calçada se tornou visível. Uma escada de incêndio tremeluzia acima de nossas cabeças, fundindo-se com nossa realidade e em seguida voltando a sumir.
— Até que a brecha seja irreversível? — perguntou Amon, segurando o lábio inferior com as pontas dos dedos. — Imagino que isso aconteceria bem depressa. Os demônios alados estão de prontidão, à espera para entrar no reino mortal e pegar as vítimas vivas, reunindo-as para que ela as consuma. Assim que a Devoradora começar a se alimentar...
Amon deixou o resto no ar e eu estremeci.
— Cadê Asten? — perguntei, percebendo de repente que ele não estava por perto.
— Ele... — A expressão de Amon tornou-se pesarosa. — Ele foi levado pelos demônios alados. Estava examinando um prédio enquanto eu verificava outro. Quando ouvi seu grito e o encontrei, ele tinha sido engolfado por um contingente inteiro. Aparentemente, foi parar em um ninho de demônios adormecidos. Tentei salvá-lo, mas, quando consegui afastar os desgarrados, Asten havia sumido.
Minhas garras emergiram enquanto Tia urrava na minha mente: Precisamos salvá-lo!
Vamos fazer isso, tentei tranquilizá-la. Mas primeiro precisamos deter a Devoradora.
— Como podemos fechar a brecha? — perguntei, segurando a camisa de Amon e tirando-o da frente de um caminhão de entregas que surgiu do nada, atravessando o beco onde estávamos. Não soltei o fôlego até ele ter passado por nós.
— Só a energia celestial pode lacrar a brecha — respondeu Amon.
Minha visão ficou turva. Onde vamos conseguir energia celestial?
Amon olhou para o unicórnio, que o encarou de volta e soprou o ar suavemente pelas narinas.
Com a resignação tomando conta de minha alma, fechei os olhos e me preparei para invocar Wasret. Estávamos sem opções. Nebu cutucou meu ombro.
Eu posso fechar a brecha, disse ele. Os unicórnios têm esse poder. Você já sabe que podemos atravessar as barreiras. Podemos lacrá-las também. Mas uma abertura enorme como essa vai exigir a ajuda de muitos da minha espécie.
— Eles virão? — perguntei, pondo a mão nas costas do unicórnio.
Ele pareceu hesitar, depois respondeu:
Virão, se eu pedir.
Amon chegou mais perto.
— Tem certeza de que quer fazer isso, Nebu?
Não posso pensar numa causa mais nobre do que esta, Revelador. Obrigado por me ajudar a ver as possibilidades. Nebu encostou o rosto no meu, pousando a cabeça no meu ombro. Adeus, jovem esfinge. Talvez, se os deuses quiserem, eu a veja de novo.
— Ver de novo? — perguntei, mas Nebu se afastou, indo para o meio da rua.
Ele se empinou, as patas dianteiras escoiceando o ar, e, quando desceu, batendo no chão, uma onda de energia elétrica disparou em todas as direções.
Toda a área estremeceu e nós cambaleamos como se tivéssemos sido apanhados no epicentro de um terremoto. O corpo dourado de Nebu lampejou e uma luz azulada escorreu pela sua crina e pelo corpo que arfava, tornando-o branco como uma estrela pulsante. Partículas de areia dourada subiram de sua pele e pairaram onde o alicórnio deveria estar.
A Devoradora se levantou de onde estava inclinada sobre um bebê num carrinho e examinou, desconfiada, a multidão fantasmagórica. Quando viu Nebu, percebeu sua nova aparência e gritou. Ela correu em nossa direção, abandonando a busca de corações humanos, mas seus esforços foram insuficientes e muito tardios.
A terra tremeu e se partiu em duas, separando a Devoradora de nós, enquanto dezenas e dezenas de unicórnios emergiam. Seus relinchos e os cascos batendo no chão faziam barulho suficiente para distrair até os demônios alados. Estes deixaram rapidamente a área, buscando refúgio do melhor modo possível nos prédios em transição.
Nebu relinchou alto e os animais ao redor reagiram numa cacofonia louca. Ele encostou a cabeça em um depois do outro. Ao fazê-lo, os unicórnios dançavam e sacudiam o corpo. Areia dourada jorrava de seus corpos até eles se tornarem de um branco puro como seu líder.
Quando Nebu terminou, seus olhos de cílios compridos encontraram os meus e, ainda que nenhuma palavra ecoasse em minha mente, um sentimento sincero foi trocado entre nós. Então ele se virou e galopou. Como se fossem um só, os unicórnios partiram a toda a velocidade. O chão tremeu de novo e, se não fosse Amon, eu teria caído.
Eles abriram as asas e se alçaram no ar, com Nebu à frente. Parte de mim queria estender minhas asas e me juntar a eles. Suas formas reluzentes decolando em direção ao céu eram uma visão que eu jamais esqueceria. Eles eram lindos, mágicos, quase amedrontadores em sua glória.
O brilho do sol dourado nas pontas de suas asas fazia arder meus olhos. Eu os protegi, mas reconheci o corpo de Nebu avançando na direção da torre de Amon-Rá. No momento ela exibia um anúncio que piscava anunciando um desfile de moda. Quando se chocou contra a tela, Nebu explodiu em pura energia e a luz espalhou-se por toda a Times Square. Pedaços reluzentes caíam do céu, numa chuva crepitante.
Furiosa, a Devoradora abriu a boca e uma luz verde saltou na direção da manada de unicórnios. Mas a luz não chegou a alcançá-los. Um a um eles voaram para a parede de luz, que foi ficando mais brilhante à medida que cada unicórnio desaparecia em seu interior. Quando o último saltou na brecha, uma explosão sônica ressoou. Então o show de luzes se apagou.
Os carros desapareceram primeiro, depois os sinais de trânsito. O barulho de Nova York diminuiu até só restar o silêncio da Heliópolis arruinada. Os prédios tremeluziram e depois voltaram ao normal. O povo fantasmagórico piscou e seguiu cuidando de sua vida como se tudo não tivesse passado de uma estranha ilusão. Então eles também desapareceram.
A parede de luz tremeluzente foi ficando cada vez menor, até que tudo se imobilizou quando a brecha por fim se fechou. Eu pisquei uma vez, duas.
— Onde... onde está Nebu? — perguntei a Amon, girando para ver onde ele iria se rematerializar. — Quando ele volta?
— Ele... os unicórnios... não vão voltar — respondeu Amon baixinho.
— C-como assim, não vão voltar? — gaguejei, um horror gelado penetrando em minhas veias.
— Seus caminhos terminam aqui — disse Ahmose.
— Eles entregaram a vida, Nehabet — explicou Amon.
— Quer dizer... que estão mortos? — gritei, a voz trêmula. — Todos eles? — perguntei, olhando de um para outro.
— Sim. Eles se sacrificaram para fechar a brecha — respondeu Ahmose gentilmente.
— Mas... mas... — gaguejei, as lágrimas queimando, abrindo um caminho em meu rosto — ... mas os unicórnios são imortais.
— Jovem Lily — disse Amon baixinho —, muitos recebem o presente da imortalidade, mas, como você sabe, um presente pode ser devolvido.
— Não — gemi, balançando a cabeça. — Não. — As lágrimas desciam livremente enquanto eu pensava nas dezenas de lindas criaturas que tinham acabado de se sacrificar. — Eles nem podem entrar no além.
Desmoronei aos pés de Amon. Ele me abraçou e me levantou, aninhando-me em seus braços e depositando beijos suaves em minhas faces febris.
— Ele nem pediu sua recompensa — falei com os lábios tremendo.
Um grito de raiva me distraiu e me afastei de Amon para ver a Devoradora furiosa.
— Se vocês acham que isso vai me impedir, nos impedir, estão tremendamente enganados — cuspiu ela. — Vou fazer vocês se arrependerem do que fizeram. — Seu cabelo se retorcia no ar como cobras enquanto ela apontava para nós. — Tragam-nos para mim! — gritou em meio à fúria. — Mas, lembrem-se, o mestre os quer intactos!
Uma centena de demônios alados irrompeu dos prédios arruinados. Eles caíram sobre nós enquanto ela se virava para Anúbis.
— Sobre você, porém, ele não disse nada — observou ela, provocando o deus. — Eu ia estender um pouco isso, mas estou com fome e seus amigos fizeram a grosseria de mandar meu jantar de volta antes que eu pudesse saboreá-lo. Vamos logo com isso?
— Você ajuda Anúbis — disse Amon rapidamente a Ahmose, pegando o irmão pelo braço. — Distraia-a, mas tenha cuidado com o veneno. Não permita que ela ponha as garras em você. Vamos cuidar dos demônios alados e iremos ajudá-lo assim que pudermos.
Ahmose assentiu, sério, tocou a ponta dos dedos rapidamente no meu rosto e se afastou com a maça erguida. Engoli em seco, sabendo que tínhamos pouca chance de conter ao menos metade dos demônios alados, quanto mais ajudar Ahmose e Anúbis.
Amon pareceu ler minha mente, porque segurou meu braço.
— Não a invoque, jovem Lily. Ainda não. Por favor, nos dê uma chance de termos sucesso antes. — Depois de um momento confirmei com a cabeça, a dúvida ainda me dominando. — Por favor — acrescentou ele.
Amon me deu um beijo rápido, depois recuou e se transformou no falcão dourado.
Com um grito, ele saltou no ar e eu abri as asas para segui-lo. Ele voou direto para o grupo compacto de demônios que acelerava na nossa direção como meteoros com garras vindos de todos os lados. Despedaçou um demônio com suas garras, rasgando-o ao meio, e mandou outro para longe usando as asas. A criatura cortada caiu no chão e se desfez em pedaços com o impacto. Um a menos. Faltam noventa e nove.
Ashleigh assumiu o controle do nosso voo. Ela era brilhante, voando através da horda e sempre permanecendo fora do alcance. Os olhos de felina de Tia viam buracos onde os meus olhos humanos só enxergariam massas de corpos voando. Ajustei uma flecha no arco, dessa vez uma comum, e a disparei. Ela acertou o alvo, cravando-se no ombro de um demônio, mas ele continuou vindo na minha direção. O demônio alado rosnou e cravou as garras no meu braço. Eu os puxei, mas três arranhões fundos sangravam profusamente no meu antebraço.
Nossas asas se debatiam enquanto espiralávamos no ar. Minhas garras saltaram e as cravei no peito dele, onde o coração devia estar, e torci. A fera uivou e me empurrou para longe. Seu focinho se franziu enquanto ele afastava a mão do ferimento no peito e olhava, confuso, para o sangue preto.
O ferimento mudou de cor, ficando verde, e o corpo da criatura se fragmentou no ar. Seu grito foi interrompido quando a boca se dissolveu. Outro ser atravessou os restos do irmão, vindo para cima de mim de braços abertos e asas batendo. Dobrando minhas asas, mergulhei e depois as abri segundos antes de bater no chão. Erguendo a cabeça, estreitei os olhos ao me voltar para o sol nascente enquanto disparava para o alto, com uma massa de demônios alados vindo logo atrás. Derrubei alguns usando o poder da esfinge para estrangulá-los, mas precisava me concentrar e fazer isso um a um. Era um poder difícil demais de ser usado numa luta aérea.
Eu ouvia o falcão dourado mas não podia vê-lo. Ashleigh usava sua habilidade para se orientar entre os prédios. Roçando de propósito nos restos de uma torre, virei-me e a vi cair atrás em nossa esteira, desmoronando e levando junto meia dúzia de demônios. Mas, independentemente de quantos caíssem, um número ainda maior levantava voo para ocupar o lugar deles.
O céu escureceu e nuvens de tempestade se formaram. Eu sabia que era Ahmose nos ajudando do melhor modo que podia. Relâmpagos espocaram e acertaram vários demônios alados em rápida sucessão. Gigantescas bolas de granizo começaram a bater nas costas das feras, derrubando-as. Pousei numa plataforma rochosa com uma alcova rasa onde minha cabeça seria protegida e saquei as facas. Deixando o granizo fazer seu serviço, derrubei os que voavam perto de mim, cravando as facas-lanças em seu peito. Eles gritavam e caíam flacidamente, espiralando até o chão como pássaros desatentos que tivessem batido numa janela.
Quando o granizo parou, eles vieram em bandos, escalando as rochas e batendo as asas loucamente, tentando me alcançar na pequena alcova. Eu sabia que era apenas uma questão de tempo até me acuarem. Com um grito de batalha, saltei, as garras estendidas, e mergulhei entre eles, rasgando suas asas coriáceas. Quando saí do meio do bando, abri as asas e fui na direção do lugar onde tinha visto a Devoradora pela última vez, com dezenas de demônios alados no meu encalço. Eram muitos. Nunca iríamos dominá-los.
Consegui ver Ahmose lá embaixo, lutando contra a Devoradora. Ele tinha trazido uma nuvem de tempestade para cima dela e os relâmpagos acertavam o corpo da inimiga repetidamente, mas Ahmose estava de joelhos, lutando para permanecer de pé. Uma perigosa névoa verde fazia redemoinhos em volta das suas pernas e Anúbis continuava amarrado atrás dele. Eu sabia que Ahmose não era páreo para ela, principalmente em sua condição atual.
Examinei o céu procurando Amon. Ao ver suas asas douradas, bati as minhas para ir atrás dele. Quando Amon ainda estava a certa distância, sua forma mudou subitamente para a humana, em pleno ar. Gritei seu nome e subi, tentando alcançá-lo antes que ele se chocasse no chão, mas uma dúzia de demônios alados turvou o ar entre nós. Furiosa, derrubei um demônio depois do outro, mas Amon continuava caindo.
Então ele invocou suas armas. As cimitarras douradas reluziram ao sol e, enquanto caía, ele as brandia, decepando a cabeça de vários demônios. Depois se virou, girando no ar e ficando com as costas voltadas para o chão, e atirou suas espadas, empalando dois deles acima. As armas e os demônios se dissolveram no ar e, quando pisquei, Amon era um falcão dourado outra vez.
Ele girou, batendo as asas rapidamente, e tornou a subir, com uma horda furiosa em seu encalço.
Algo acertou minhas costas e rasgou minhas asas. Gritei e, seguindo o exemplo de Amon, recolhi-as no corpo. O demônio caiu mas eu fui com ele. Girando no ar, atravessei-o com a faca-lança, depois invoquei as asas outra vez, batendo-as furiosamente para recuperar altitude. Enquanto a estela me curava, passei da defesa para o ataque, virando de frente para o grupo que me seguia. Prendi dois num prédio com uma lança enquanto empalava outro.
A necessidade de ajudar Amon e Ahmose pesava em minha mente. Os dois eram guerreiros formidáveis, mas, se algo acontecesse com eles, eu sabia que me sentiria culpada.
Meu corpo estava coberto por arranhões que sangravam e havia uma perfuração em um ombro e uma mordida que ardia no outro. Uma das asas estava rasgada e doía terrivelmente. A estela não estava conseguindo dar conta. Desesperada, procurei Ahmose de novo, esperando ver a Devoradora ainda contida. Não estava. Ahmose agora encontrava-se amarrado e seguro por demônios, como Anúbis. Nosso tempo tinha acabado.
Eu estava prestes a dobrar as asas e mergulhar para ajudá-lo quando ouvi um grito vindo de cima. Amon, em forma humana, estava de pé em cima de um prédio. Uma massa de demônios alados circulava ao seu redor. A cada passo, as garras afiadas rasgavam seu corpo. Ele golpeou um e se desequilibrou, caindo apoiado em um joelho. Então soltou um grito ao escorregar do topo do prédio e desaparecer na lateral.
— Amon! — berrei.
Eu me sentia puxada em duas direções. Parte de mim queria desesperadamente descer até Ahmose, mas outra insistia que a situação presente de Amon era mais desesperadora. Virei-me para a torre.
Decidida a chegar até Amon e vendo os demônios se aproximarem de novo, bati as asas em movimentos amplos, ignorando a pontada de dor. Trinquei os dentes e avancei, me distanciando rapidamente dos demônios alados. Canalizando toda minha energia e meu poder, que diminuíam a cada instante, forcei as asas a me levar até Amon. Se pudesse alcançá-lo antes que ele batesse no chão, sabia que ele sobreviveria. Mas então eu teria de dar meia-volta imediatamente para salvar Ahmose. Eu precisava estar em dois lugares ao mesmo tempo.
Meu cabelo voava atrás de mim, o vento passando por meu rosto. A adrenalina me alimentava, reduzindo a dor dos ferimentos. Levantei as asas e senti os raios do sol tocando as penas. Então uma coisa aconteceu.
O ar que agitava minhas asas ficou eletrificado. Redemoinhos de luz dourada crepitavam à minha volta. Quando um inimigo se aproximou, a luz saltou em sua direção, envolvendo-o num funil. O corpo do demônio alado se sacudiu enquanto ele tentava se libertar e então a criatura se desintegrou numa explosão de pó.
Bati as asas com mais força, o jorro de energia se espalhando em rajadas, saltando de um para outro e mais outro, capturando-os numa nuvem elétrica em forma de funil. Bati as asas com intensidade e uma onda de luz acelerou na direção dos demônios que seguravam Ahmose e Anúbis, e eles também desapareceram.
Os que restavam ao meu redor fugiram e deixei-os ir. Virando-me, disparei mais uma vez na direção de Amon e o encontrei pendurado no topo do prédio pelos dedos. Sua camisa tinha sido retalhada. Os demônios do céu rasgavam seu corpo trêmulo com as garras e os bicos afiados.
Bati as asas, unindo-as, e uma explosão de luz disparou contra o bando que o envolvia. Eles se espalharam quase todos, desaparecendo em uma nuvem de poeira que desceu no ar. Meu poder recém-descoberto me preenchia, revigorando o corpo cansado. Um grande vento uivante irrompeu das minhas asas e espantou os poucos demônios que haviam sobrado.
Pairando no ar, aguardei que a poeira se dissipasse, esperando não ter ferido Amon nesse processo. Por um minuto fiquei alarmada. Não conseguia vê-lo. Voei ao redor do prédio e procurei seu corpo na pedra e depois no chão. Foi então que ouvi o grito do falcão dourado e o vi vindo em minha direção. Juntos voltamos para Ahmose. Eu só esperava que não fosse tarde demais.
Meus olhos se arregalaram quando vi a Devoradora. Ela segurava o grande corpo de Ahmose nos braços, a boca sobre a dele. Ele estava flácido, os membros pendendo como cordas soltas, e ela continuava agarrada a ele, sorvendo-o sofregamente. De longe parecia que ela estava acalentando uma pessoa amada, mas, à medida que nos aproximamos, pude ver seu cabelo envolvendo-o, espremendo-o como uma massa de serpentes constritoras, as farpas afiadas se cravando na pele dele, que se debatia debilmente enquanto uma luz verde vazava dos lábios grudados.
Pousei perto deles com agilidade. A fúria preenchia meu corpo.
Solte-o, sua bruxa traiçoeira. Não vou permitir que você toque em meu Ahmose. Largue-o agora, senão eu arranco seu coração e dou de comer para seus demônios.
Lentamente a Devoradora ergueu a cabeça, com fiapos verdes pendendo dos lábios reluzentes, vermelho-rubi. Uma luz verde cintilava em seus olhos e eles brilharam ao ver meu corpo devastado. Automaticamente tentamos estrangulá-la, mas era como tentar engolir uma melancia inteira: a Devoradora era poderosa demais. Com um suspiro casual, ela largou Ahmose como se ele fosse um saco de batatas e se levantou, ereta e alta, com um sorriso de quem sabia das coisas. Delicadamente enfiou os fiapos de energia restantes na boca e lambeu os lábios.
— Hummm — murmurou. — Continua tão delicioso quanto eu lembrava.
Fechei os punhos e já ia atacá-la quando Amon agarrou meu braço, esfriando instantaneamente meu sangue quente.
— Ele ainda está vivo, Ashleigh. Vamos fazer isso juntos.
— Sim, meu bichinho — disse a Devoradora, dirigindo-se a Amon com uma piscadela. — Infelizmente ele ainda está entre os vivos, por assim dizer. Não estaria se vocês não tivessem interrompido minha refeição. — Apesar de sua boca fazer um biquinho charmoso, os olhos disparavam adagas. Ela se inclinou para ele e envolveu seu peito possessivamente com um dos braços. — Acho que estou pronta para o segundo prato, bonitão — disse, encostando a boca no ouvido dele.
— Agora, Ashleigh! — gritou Amon, saltando e sacando as cimitarras para atacar.
A Devoradora simplesmente desapareceu de novo, transformando-se num bando de criaturas, e a espada dele cortou a massa agitada. Elas se afastaram, sem ser afetadas. Lentamente ele girou num círculo, esperando-a. Ouvimos seu risinho provocador e vimos sua luz verde, mas ela não tornou a se materializar.
Por mais que eu quisesse ajudar Amon, Ashleigh estava no controle total e não queria cedê-lo. Ajoelhou-se ao lado de Ahmose e tentou desesperadamente acordá-lo. Meus olhos estavam cheios de lágrimas. Com Asten sumido e Ahmose envenenado pela Devoradora, eu tinha a sensação de que os pedaços que nos mantinham juntos estavam se desfazendo. Bastaria um puxão forte para que meu mundo inteiro se desfiasse.
— Ai, meu garoto lindo. O que ela fez com você?
Amon cortou as cordas que prendiam Anúbis e o deus caiu nos braços dele.
— Ela matou a maior parte dos outros — disse Anúbis. — Maat se foi.
— Osíris? — perguntou Amon.
Anúbis balançou a cabeça.
— Ainda não. Continua trancado na torre. Ela sabia que viríamos tentar salvá-lo.
Assentindo sombriamente com a cabeça, Amon disse:
— É hora de ir. Você consegue andar?
Anúbis tremeu.
— Ela me exauriu, filho. Resta muito pouco em mim.
Amon pôs o braço de Anúbis sobre os ombros.
— Então vamos tirá-lo daqui.
— Não há tempo — disse Anúbis, a testa franzida. — Ela está brincando com vocês. Mantendo-os ocupados até que Seth se solte das algemas.
— Então vamos acabar com ela antes que ele consiga. Você terá de se segurar em Ahmose. Ashleigh — gritou Amon —, ajude a colocá-los nas minhas costas.
Amon mudou para sua forma de pássaro e Ashleigh permitiu que eu assumisse o controle outra vez. Anúbis, por mais fraco que estivesse, me ajudou a colocar Ahmose nas costas do irmão. Eu já ia ajudar Anúbis também quando a Devoradora reapareceu atrás dele.
— Vão embora tão cedo? Não podemos deixar, podemos?
Ela cravou os cabelos que se retorciam em Anúbis e o ergueu no ar. Ele gritou de dor. Desesperada, virei-me para Amon.
— Vá. Leve-o para um lugar seguro. Vou mantê-la ocupada até você voltar.
Amon decolou, mal conseguindo manter Ahmose, que gemia, nas costas.
Sua forma dourada desapareceu acima dos prédios. A Devoradora o observou partir com uma expressão divertida.
— Está pensando em atrapalhar meu senhor?
Seus olhos se iluminaram só de pensar nele.
— Seu senhor? — cuspi. — Pensei que uma mulher poderosa como você se irritaria com a simples ideia de ter um senhor.
Ela jogou Anúbis para o lado e ele tombou no chão, embolado.
— E quem diz isso é a garota que tem não um, mas três senhores.
— Os Filhos do Egito não são meus senhores. São meus companheiros. Guerreiros que estão ao meu lado.
— É mesmo? — perguntou ela, me avaliando. — Acho que talvez sejam muito mais do que isso. Devo admitir que você me impressiona. Ter os três Filhos do Egito na mão tão rapidamente é uma coisa a ser admirada. Diga — ela chegou mais perto —, o que você fez com os corações deles?
— Não sei do que você está falando.
— Acho que sabe, sim. O que você mandou embora mal tinha energia para dar, e o coração dele estava faltando. Sinal de que eles são muito mais do que simplesmente seus... guerreiros. — A Devoradora franziu o rosto enquanto me examinava. — Por que você é tão... insondável? Você ainda é mortal. Sinto o fedor de humanidade em você, e no entanto não sinto seu coração. Ele é poderoso. Disso eu sei.
A Devoradora andou lentamente à minha volta; meus nervos se arrepiavam com sua proximidade. Diminuindo a distância, ela segurou meu braço, as unhas compridas arranhando minha pele. Seu bafo quente me envolveu quando ela disse:
— Sei que você tem um. Experimentei o gosto dele, através de Amon. — Dava para sentir seu olhar se cravando em mim. — Meu senhor diz que você precisa ser apanhada viva, mas sem dúvida ele não se incomodaria se eu tirasse só uma provinha. — Seus olhos se fecharam. — O elo do amor verdadeiro é uma iguaria muito rara. Consumir um coração repleto disso é algo a que alguém como eu jamais poderia resistir.
— É porque você nunca experimentou isso por si mesma? — perguntei baixinho.
Seu rosto ficou vermelho.
— Meu senhor me ama.
— Seth ama Ísis. Néftis me contou.
— Néftis mente — rosnou a Devoradora. — Ela não compreende um homem como Seth.
Revirei os olhos.
— O que há para compreender? Uma pessoa que fere as outras não consegue amar. Ele rompe laços, não os cria. Até mesmo você, com sua experiência limitada, deveria ser capaz de reconhecer isso.
Sua testa se franziu e ela riu com amargura.
— E o que você, jovem como é, sabe sobre o amor?
— Sei que significa sacrifício. Estar disposto a dar tudo para proteger a pessoa amada. Os Filhos do Egito fariam isso por mim, eu faria o mesmo por eles. Diga: Seth abriria mão das ambições dele por sua causa? Viria correndo salvar a sua vida?
— Sua ingenuidade é risível. Não preciso responder às suas perguntas infantis. Eu sou a Devoradora. Absorvi todos os sofrimentos, todos os pecados, todo o ódio e toda a amargura que já fizeram parte do mundo. Isso vive em mim. Para mim, basta saber que Seth me ajudou a me libertar do mundo dos mortos. Talvez ele não me ame segundo sua definição, mas ele me valorizou a ponto de realizar meu desejo mais profundo e mais sombrio.
— Então sinto pena de você.
Ela me ofereceu um meio sorriso.
— É? E por quê, meu docinho suculento?
— Porque você merecia mais do que isso. Não é tarde demais, você sabe. Você pode mudar. Abrir mão dessa ambição e se tornar uma coisa diferente.
A testa dela voltou a se franzir, mas depois ficou lisa.
— Você acha que sabe tudo. Mas infelizmente vai descobrir — disse ela enquanto seus olhos brilhantes desciam até o meu peito — que me subestima tremendamente.
Com um movimento brusco, sua mão perfurou meu peito, penetrando a armadura, e eu uivei de dor. A Devoradora inclinou a cabeça para trás num grito de triunfo e mergulhou mais fundo, procurando meu coração. Eu ofegava, lágrimas escorrendo por meu rosto enquanto ela sondava. Trincando os dentes, segurei seu braço e envolvi seu pulso com as mãos.
Seu sorriso sumiu quando trinquei o maxilar e levantei as asas. Batendo-as com força, decolei, levando-a comigo. Ela empalideceu quando seus pés não encontraram mais apoio.
— Onde ele está? — sibilou. — Onde está o seu coração?
Ignorei-a e voei mais alto. Ela olhou ao redor, preocupada, depois voltou a me fitar. Fios do seu cabelo saltavam e se cravavam nos meus braços e nas minhas costas, os dardos ferozes penetrando abaixo da pele. Suas pupilas estavam enormes e as narinas se inflavam. Era óbvio que ela estava com medo, mas continuava cavando meu peito. Arquejando, eu a alertei:
— Se você parar, eu a deixo viver.
Seu rosto se retorceu numa máscara de ódio.
— Pode se esforçar — provocou-me. — Seu poder não é nada diante do meu. Eu sou a Devoradora. Eu sou...
— Sim, sim — eu a interrompi e, em seguida, olhei-a com uma sobrancelha erguida. — Mas eu sou nova-iorquina — sibilei. — E você mexeu com minha cidade.
Canalizando meu poder, bati as asas, deixando as penas captarem a luz do sol. Uma corrente elétrica chiou e crepitou. A Devoradora sacudia o corpo para trás e para a frente, batendo em mim com a mão livre. Olhei para os rios de sangue que escorriam por meu tronco e senti um puxão na cintura. Ela havia descoberto meu cinto com os escaravelhos do coração. Quando o arrancou, eu ofeguei e a soltei.
A Devoradora despencou, os cabelos cheios de farpas se soltando da minha pele enquanto sua mão escorregava do meu peito. Com a boca escancarada de espanto, ela acariciou os escaravelhos, completamente alheia à sua situação precária. O poder que eu tinha canalizado chegou ao ponto máximo e juntei as asas. Um feixe de luz saltou chiando na direção dela e, quando a atingiu, ela jogou os braços e a cabeça para trás, a eletricidade jorrando de sua boca e das pontas dos cabelos.
O cinto escorregou de seus dedos e ela debilmente tentou agarrá-lo, gritando. Sua pele ficou branca e depois reluziu. Eu podia jurar que vi seus olhos se fecharem e um sorriso de paz abrir-se em seu rosto antes que o corpo inteiro explodisse.
Flutuei até o chão, as asas mal me sustentando, e desmoronei perto de Anúbis. Ali perto, vi o cinto caído e me estiquei o mais que pude. Peguei-o entre dois dedos, puxei-o e apertei-o contra a ferida enorme em meu peito. O sangue encharcava o chão ao meu redor. Ouvi o grito de um falcão e senti uma sombra passar sobre meu rosto antes de fechar os olhos.

5 comentários:

  1. Respostas
    1. Sim! O título do capítulo foi até um spoilerzinho

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  2. Finalmente ação!

    Flavia

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  3. Mano do céu... Quanta emoção. Devoradora, você foi tarde querida 😘

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Boa leitura, E SEM SPOILER!