9 de março de 2018

24. Ganhando asas

— Minhas... minhas o quê? — perguntei, surpresa de ter encontrado a voz.
— Suas asas — disse Ísis. — Eu tinha certeza de que Hassan havia entendido — murmurou.
Pus as mãos nos quadris.
— Pelo jeito a senhora andou sendo discreta demais. — Apontei um dedo para a deusa, sacudindo-o no ar, e depois o movi num grande arco. — Isso serve para todos vocês.
Ísis suspirou e me dirigiu um olhar martirizado, como se eu fosse uma criança pedindo que ela explicasse a coisa mais básica.
— Você não se lembra de que o símbolo que encontrou no templo era da versão grega da esfinge?
— Sim, vagamente.
— E qual é a diferença entre as representações egípcia e grega da esfinge?
— Espere aí. Ele me contou. — Afastei-me alguns passos e voltei. — A versão grega é feminina.
— Sim, e o que mais?
— Ela tem asas?
— Muito bem. No dia em que deixei você para cumprir seu destino na planície africana, eu lhe dei não duas, mas três armas. — Ela fez uma pausa, esperando como uma professora impaciente que eu respondesse à pergunta não verbalizada.
— As facas-lanças — eu disse — e o arco com as flechas que fazem criaturas responderem às minhas perguntas e se dobrarem à minha vontade, e havia as...
Ísis levantou a mão.
— Não é isso que minhas flechas fazem.
— Não? Então por que os ceifadores...
Ela me interrompeu:
— Minhas flechas têm poderes curativos. No mundo dos mortos as flechas curaram as feridas místicas causadas pelo mal verdadeiro. Os ceifadores não eram de fato lacaios da Devoradora, por isso a flecha os libertou do controle dela. No caso dos cães do inferno, eles precisam se curvar ao poder da flecha, mas sua natureza é sombria. Por isso a flecha não os cura nem os transforma.
— E também não os matou — falei secamente.
— Não. Os cães do inferno não são vivos e nunca foram. São simplesmente sombras que nasceram no mundo dos mortos. Seu único propósito era perseguir os mortos no caminho da cura, de modo que os que estavam lá pudessem deixá-lo um dia. A Devoradora os usou e corrompeu.
— Ótimo. Que seja. Vamos voltar então à terceira arma que a senhora mencionou.
— São suas asas, claro.
— Certo, mesmo presumindo que eu tenha asas, e tudo indica que não tenho, como iria usá-las como armas?
— Quando minha pena entrou nas suas costas, doeu, não doeu?
— Claro que doeu. Ainda dói de vez em quando.
— Dói porque você mantém suas asas trancadas. Feche os olhos. — Quando ela viu que eu obedeci, continuou: — Concentre-se nesse calombo entre suas omoplatas. No lugar onde a pena entrou. Agora permita que essa irritação se expanda.
Eu me remexi, desconfortável, e estiquei as costas, girando o pescoço para um lado e para outro. A leve coceira se transformou numa ardência.
Sibilando, falei:
— Isso espeta.
— Só na primeira vez que emergem. Pense na dor como se fosse uma farpa. Vai se sentir melhor quando as asas saírem.
Minha pele se rasgou, a dor explodindo ao longo da coluna. Gritei e caí apoiada em um dos joelhos, pondo as mãos no chão enquanto ofegava. Mordi o interior da bochecha e senti gosto de sangue. Minhas garras emergiram e riscaram sulcos na poeira enquanto eu arfava. Com um último esforço, a agonia passou, deixando em seu rastro um alívio tão palpável que gargalhei.
Retraí as garras e fiquei de pé, mas quase tombei para trás com o peso.
Então algo me pegou e me firmou. A lua tinha nascido e, apesar de estarmos sob sua luz direta, sombras se cruzavam no meu rosto. Virei a cabeça devagar e vi uma asa pairando perto do meu ombro. Definitivamente não pertencia a Ísis.
Dei dois passos rápidos para trás e novamente experimentei o problema de desequilíbrio, mas dessa vez meu corpo se alçou no ar. As asas acima de mim bateram uma vez, duas, depois me pousaram no chão. Aparentemente a gravidade agora funcionava de modo diferente. Enrolei a asa direita em mim mesma até conseguir tocar as penas macias com a mão.
— Você as controla com a mente — disse Ísis. — Não vão ser tão difíceis de usar como você imagina. Você pode mandá-las embora de novo com um mero pensamento. — Estremeci, pensando no sofrimento que elas haviam causado ao emergir. A deusa deve ter lido minha mente, porque falou: — Não vai doer mais, agora que foram liberadas.
Testando sua orientação, mordi o lábio e desejei que elas se fossem. As asas se dobraram atrás de mim e se encolheram, desaparecendo. Levei as mãos às costas, tateando as omoplatas, mas as asas tinham sumido completamente.
— Antes de invocá-las de novo — disse Ísis —, posso sugerir uma ligeira mudança na sua vestimenta?
Confirmei com a cabeça, percebendo nesse momento que as asas tinham rasgado as costas da minha camisa. Indo até atrás de mim, a deusa murmurou alguma coisa e a areia subiu ao longo do meu corpo.
— Pronto — disse ela quando a areia se imobilizou. — Modelei sua roupa como a minha. Suas asas vão emergir de uma fenda longa nas costas da camisa, acima da túnica, se você tiver cuidado. Caso contrário, elas podem danificar sua roupa a ponto de ela não continuar cobrindo seu corpo.
Passei a língua pelos lábios e olhei para os rapazes, dizendo:
— Sem dúvida, vou tomar cuidado.
Fechando os olhos e me preparando para a dor, invoquei as asas de novo. Dessa vez não senti nada além de um alívio confortável. Era como tirar os sapatos de salto alto no fim do dia. Experimentei batê-las e meu corpo subiu mais de 1 metro do chão antes de descer novamente.
Com os olhos de felina arregalados, engoli em seco. Santos céus egípcios, pensei. Eu tenho asas. Se vovó e o Dr. Hassan pudessem me ver agora! Eu sentia saudade deles.
Olhando de perto, notei que as penas eram matizadas, assim como meu cabelo, as cores numa palheta de ricos tons metálicos — prata, platina e ouro. Encontrando uma pequenina pena felpuda, puxei-a e soltei um uivo. Era como arrancar uma mecha de cabelos. Esfreguei a ardência na asa ferida e a dor foi sumindo devagar.
Amon aproximou-se e ergueu a mão, mas fez uma pausa, como se pedisse permissão. Quando assenti, ele passou a mão pelo lado interno da asa, maravilhando-se, como tinha acontecido comigo. A sensação era inebriante, quase sensual. Eu podia senti-la na asa, mas também nas costas. Era como a melhor massagem possível dada pelo massageador mais quente do mundo, o que não estava muito longe da verdade.
Um arrepio percorreu minha espinha. Segurando o braço musculoso de Amon, dobrei as asas para trás como um pássaro, balançando a cabeça ligeiramente num pedido de desculpas. Ele deu um passo para o lado, baixando a cabeça, o cabelo caindo em seus olhos. Em qualquer outra ocasião, eu estaria adorando sua proximidade, explorando-a comigo, mas não podia me dar ao luxo dessa distração naquele momento.
Com as asas bem dobradas às costas, eu não podia mais vê-las, mas mesmo assim não havia como esquecer que estavam ali. Toda a distribuição do meu peso havia mudado. Não era muito diferente de quando tinha me transformado em esfinge. Eu era um animal novo.
Ashleigh estava empolgada, e quero dizer absolutamente empolgada, com a ideia de experimentá-las. Foi difícil conter a agitação de seu entusiasmo do tipo “Vamos pular da montanha”.
— Diga como nossas asas podem ser uma arma — pedi a Ísis. Então me encolhi e acrescentei: — Por favor. E obrigada — levantei a mão, indicando as asas — por isso. Deve ter sido um horror arrancar uma pena daquele tamanho.
— Vou admitir que foi doloroso, mas espero que tenha valido a pena, afinal. Agora você entende por que não quis que meu presente fosse desperdiçado.
— Entendo.
— As asas de uma esfinge — explicou Ísis — têm o poder de atrair grandes ventos. Ela pode dobrá-los à sua vontade, criando ciclones, tempestades de areia e tormentas. Você faz isso com a mente, mas também pode ser uma reação natural ao perigo, assim como suas garras.
— Sei. Bom, teria sido legal saber de tudo isso antes.
— Infelizmente não tenho tempo de lhe ensinar tudo o que sei sobre o poder da esfinge. Gostaria de ter — disse ela com tristeza. Empertigando-se, Ísis voltou-se para a irmã. — Está na minha hora — anunciou.
Néftis assentiu e as duas se abraçaram. Ísis acariciou as longas ondas louro-platinadas do cabelo da irmã. Quando se separaram, Ísis colou um sorriso no rosto, mas todos podíamos ver o medo e a dúvida por trás dele.
Hórus se adiantou e abraçou a mãe. Lágrimas rolaram de seus olhos vermelhos.
A montanha escura estava silenciosa. Quando Ísis se afastou, segurou o braço de Hórus e sussurrou alguma coisa no ouvido dele. Ele assentiu, o queixo tremendo. Desdobrando as asas, Ísis soprou um beijo para seus parentes, olhou a lua brilhante e, batendo as asas com vigor, saltou para o céu.
Quando a escuridão a engoliu, meu olhar seguiu para Néftis e Hórus. Eles estavam apoiados um no outro, sustentando a tristeza mútua.
— Ele irá desfazê-la — disse Hórus, enxugando os olhos.
— Não chegará a esse ponto — respondeu Néftis. — Lembre-se, ele ainda está algemado.
A expressão de Hórus era de desprezo explícito.
— Há muita coisa que um homem pode fazer para causar dor, mesmo sem os poderes de um deus.
— Seth acredita que a ama, sobrinho.
— Ele deveria amar você.
O rosto de Hórus era como uma nuvem de tempestade. Por enquanto a tormenta dentro dele estava distante, mas seria sensato nos prepararmos para quando ela estourasse.
— Do seu modo deturpado, ele ama — respondeu Néftis baixinho.
— Aquela cobra não sabe o que significa o amor — disse Hórus, e se afastou, nos deixando com sua tia.
Néftis virou-se para nós, o lábio inferior tremendo.
— Venham, vamos pôr vocês a caminho, está bem? Mas primeiro precisamos contar nossos planos.
Ela passou a hora seguinte explicando em detalhes sua proposta. Os deuses sairiam em três grupos, numa tentativa de distrair a Devoradora. Dois grupos atacariam a primeira onda de seus lacaios. O trabalho deles era destruir o maior número possível de demônios alados. O terceiro grupo entraria sorrateiramente no palácio de Amon-Rá e salvaria Osíris, levando-o ao topo da montanha para se recuperar. Nós deveríamos esperar até eles terem saído e atacaríamos a Devoradora quando ela fosse atrás dele. Esperávamos pegá-la de surpresa.
Dois grupos de deuses partiram, com Anúbis à frente de um e Amon-Rá do outro. Desceram a encosta com agilidade, como cervos. O terceiro, comandado por Maat, partiria junto conosco. O tempo que tínhamos antes que amanhecesse era suficiente apenas para voltarmos a Heliópolis e encontrarmos um esconderijo. Néftis nos despachou, indicando que eu deveria voar.
Desdobrei as asas no momento em que Amon e Asten se preparavam para se transformar em pássaros, mas Néftis nos deteve.
— Quase esqueci — disse. — Hórus quer falar com vocês antes de partirem. Agora preciso conversar com o último grupo.
Com Asten, Amon e Ahmose atrás de mim, procuramos Hórus e o encontramos sentado num banco de pedra embaixo das árvores, com as mãos na cabeça.
Quando ele levantou a cabeça ao nos aproximarmos, sua boca se retorceu, com o fantasma de um sorriso petulante.
— Veio me dar um beijo de despedida? — perguntou, provocando os homens atrás de mim.
— Não. Néftis disse que você queria falar conosco.
— Ah, sim. Tem a ver com seu pássaro de asas cortadas.
— Meu o quê?
Hórus agitou a mão no ar, indicando os irmãos.
— Você sabe, o que não pode mais voar.
Olhando Ahmose, quase pude sentir seu desejo de dar um soco na cara de Hórus.
O deus, sem notar ou se importar com a reação de Ahmose, levantou-se e foi até o toco de uma árvore, esbarrando de propósito no ombro de Ahmose. Em seguida, se ajoelhou e limpou as raízes.
Deixando os irmãos para trás, fui até Hórus.
— Se é que serve de alguma coisa, sinto muito — falei. — Com relação à sua mãe.
— Eu também — respondeu ele baixinho.
Satisfeito com seus esforços, Hórus se levantou e entoou um feitiço, um que pareceu estranhamente familiar a ela.
— Para trás, agora — disse quando terminou, segurando meu braço. — Ele quer ajudar. Devo admitir que fiquei surpreso. Você deve ter causado um grande impacto nele. Mas, afinal de contas, as jovens belas e virgens lindas costumam ter esse efeito — concluiu o deus com um risinho sem graça.
O chão ribombou e cambaleei de encontro a Hórus, minhas asas se levantando para me equilibrar. Nesse momento, um buraco se abriu no chão e uma forma dourada e reluzente saiu dele.
— Nebu! — gritei, feliz por rever meu velho amigo.
Olá, deusa. Que bom ver você.
— É bom ver você também. Obrigada por ter vindo.
De nada.
— Achei que você não queria participar da luta — falei, dando um passo à frente para acariciar suas costas.
Não queria. Mas, depois de deixarmos vocês, fui tomado por uma culpa terrível ao pensar no que você enfrentaria sozinha. Meu objetivo é protegê-la de Seth, nem que seja à custa de minha morte. Se bem que minha preferência, claro, seria não terminar desse modo. O unicórnio ergueu a cabeça para eu coçar seu pescoço. Acha que eu sou um animal nobre?, perguntou, batendo um casco no chão.
Rindo e recuando enquanto ele sacudia a crina, falei:
— Extremamente nobre.
Nebu me circulou, assentindo com a cabeça de forma aprovadora, e exclamou:
Suas asas novas são lindas! Com presentes assim, você é uma companheira digna de um unicórnio.
— Está tendo ideias, é, velho? — provocou Hórus com uma risada. — Você teria antes de se livrar da concorrência. — Ele inclinou a cabeça, pensativo. — Não posso dizer que me incomodaria muito com isso. Talvez abrisse espaço para um deus solitário. O que diz, unicórnio? Quer se juntar a mim para diminuir as fileiras?
Resfolegando, Nebu disse:
Quando um unicórnio coloca o chifre no anel, não há quem ouse interferir, nem um deus.
Revirei os olhos, mas depois dei uma risadinha quando Nebu relinchou e foi rapidamente cumprimentar os outros.
Depois que ele se afastou, Hórus pegou meu braço e me virou de modo que fiquei de costas para os outros.
— Obrigado — disse ele.
— Por quê?
— Por me distrair da minha tristeza. Você é muito boa nisso, sabe?
— De nada — falei, e abri um sorriso. — Você não é totalmente mau. Na verdade, pensando bem, é um cara bastante bom.
Hórus deu um passo em minha direção e passou a ponta de um dedo por uma pena reluzente.
— Tão generosa — murmurou. — E tão linda!
— Obrigada — falei, olhando-o incisivamente ao afastar a asa da sua mão.
Ele a baixou e sorriu.
— Agora, que tal aquele beijo de despedida?
— O beijo da jovem Lily não é seu, Hórus.
— Amon — disse Hórus, o desapontamento alterando o tom de sua voz. — Nunca está longe o bastante, não é?
— Eu ia dizer justamente o mesmo de você.
Curvando-se sobre minha mão, Hórus a beijou com um brilho malicioso no olhar.
— Até a próxima, Lily — disse. — Que ventos afortunados soprem na sua direção.
— E na sua também — respondi.
Hórus nos deixou e passei o braço pelo de Amon, indo até Nebu. Ahmose estava montado nas costas dele e Asten já havia se transformado no íbis estelar. Amon beijou meu rosto e perguntou:
— Está pronta?
— Mais do que nunca.


Assim que me vi no ar, com o falcão de ouro de um lado, o íbis estelar do outro e Nebu com Ahmose nas costas na retaguarda, soltei um grito de alegria, descrevendo um grande círculo. Deixei Ashleigh assumir o controle, já que voar, para ela, era uma habilidade natural e ela estava morrendo de vontade de fazer isso. Aceleramos rapidamente acima do terreno, com Ashleigh me orientando pelo caminho. O interesse de Tia era nulo; ela disse a nós duas que voar não era natural para os felinos. Mas, para mim, voar era muito, muito melhor do que andar. Fiquei pasma com a facilidade com que me adaptei. Apesar de não ter medo de altura e estar acostumada com arranha-céus, as montanhas-russas me deixavam meio enjoadas. Eu tinha achado que voar seria a mesma coisa, mas estar no controle dos giros e mergulhos não era somente empolgante, mas também afastava o enjoo causado pelo movimento.
Ashleigh me devolveu o controle, contente por desfrutar do passeio enquanto eu treinava. Passei por cima das árvores altas, roçando-lhes as pontas com as mãos. A paisagem escura era marcada por veios gélidos de azul e roxo brilhantes com pedras lustrosas que se moviam. Curiosa, cheguei mais perto e vi que a luz roxo-azulada vinha de um rio. As pedras eram peixes alados, cujas cores cintilavam. Eles saltavam do rio, batendo loucamente as barbatanas para chegar ao topo de uma cachoeira.
Eles estão na desova, disse uma voz na minha mente. As escamas se iluminam nessa época.
Arquejei. Era a voz de Ahmose, e não de Amon, como eu tinha esperado. Então percebi que agora Ahmose também podia ler meus pensamentos. A brisa noturna estava impregnada de luar. Eu quase podia sentir o gosto fresco dos raios. O luar me fez pensar em Ahmose e nas longas horas que tínhamos viajado juntos. Descobri que sentia saudade da proximidade que tínhamos tido naquela época.
Também sinto saudade de estar com você, ecoou sua voz familiar na minha mente.
Por que você pode ouvir meus pensamentos?, perguntei. Amon não podia escutar as vozes de Ashleigh nem de Tia, e você tem o coração de Ashleigh. Não deveria ser capaz de ouvir a minha.
Se isso a incomoda, peço desculpas.
Não me incomoda exatamente. Só é meio chocante.
Interessante, acrescentou uma terceira voz. Era Amon. Pode ser devido ao encantamento feito por Ísis.
Minhas asas bateram rapidamente, fazendo com que eu descesse e meu coração acelerasse. Desacelerando o movimento, estabilizei-me.
Você ouviu tudo?, perguntei.
Ouvi, respondeu Amon. Mesmo não querendo bisbilhotar.
Agora é tarde demais.
Não é uma coisa que possamos evitar, disse Amon. Não mais.
Poderia ser por causa da minha conexão com as três através de Wasret?, perguntou Ahmose.
Há um modo de descobrir, respondeu Amon.
Como?, perguntei.
Chame Asten. Se ele puder ouvir, saberemos que essa habilidade vem de Ísis, instruiu Amon.
Asten?, chamei mentalmente. Está me ouvindo?
Não houve resposta.
Tia? Você pode tentar?
Tia fez um esforço para se comunicar com Asten, mas o íbis continuou voando em silêncio ao lado, com a luz das estrelas piscando em suas asas. Ele não demonstrou nenhum sinal de ter nos ouvido.
Talvez seja porque ele não conseguiu absorver meu coração, sugeriu Tia com tristeza.
Talvez, respondi.
Continuamos voando até chegarmos à margem da floresta e depois descemos, com Asten e Amon assumindo novamente suas formas humanas.
Um sinal iluminou o céu no horizonte distante. Passaram-se apenas alguns segundos até ouvirmos os guinchos dos demônios alados. Recuando para as sombras escuras das árvores, Asten teceu imediatamente seu encantamento de simulação, por garantia. Ficamos olhando enquanto eles passavam às centenas acima de nós.
Outro sinal veio e uma horda tão grande quanto a primeira seguiu naquela direção. Era hora de nos movermos. Ahmose me jogou nas costas de Nebu e fomos rapidamente para os arredores de Heliópolis. As construções escuras e arruinadas se erguiam sobre o mar roxo escuro, com a torre de Amon-Rá ainda reluzente se destacando nos montes de destruição como uma pedra preciosa.
Seguimos para um jardim arruinado e nos escondemos embaixo de um caramanchão. As trepadeiras penduradas e os galhos quebrados das árvores nos ocultavam bem. Desci das costas de Nebu e vi meu reflexo nas águas escuras de um poço. Minhas asas estremeceram. Eu definitivamente não parecia a mesma garota de antes.
Afora as asas, meu cabelo, geralmente longo, liso e lustroso em razão dos produtos de beleza que usava, estava revolto e descuidado. Eu nem conseguia identificar sua cor. Estava encaracolado como os de Ashleigh. Até o tom da minha pele tinha mudado. Antes eu era clara como o luar, mas agora estava bronzeada como se tivesse passado o verão na Flórida.
Eu sempre tinha sido magra, mas agora meus membros eram esguios e fortes, mais parecidos com os de Tia. Até minha temperatura havia mudado. O normal para mim agora era algo entre a água bem quente de uma banheira e um fósforo recém-apagado. Cogitei se meu corpo ainda era realmente meu ou se eu estava me transformando numa nova pessoa.
Amon aproximou-se por trás e me abraçou desajeitadamente, tentando envolver as asas também. Eu as recolhi para dentro do corpo e ele me girou, vendo meu semblante franzido.
— Qual o problema? — perguntou, os olhos brilhando com uma luz verde iridescente.
— Praticamente tudo. — Suspirei. — Não me sinto eu mesma. Está tudo errado. As asas são só mais uma coisa, além de todas as outras. Sou uma estranha em minha própria pele. Tão deslocada quanto um par de chinelos num desfile de alta-costura. Não sou a garota que você conheceu em Nova York, Amon. Não mais.
— Não, Nehabet — respondeu ele. — Não é. — Ergui as sobrancelhas, surpresa por ele não estar tentando me apaziguar. — Seu caminho de hoje não é mais o de ontem. Se isso é bom ou ruim, é você que decide. Só sei que sua alma é uma chama inextinguível. Ela crepita como uma nuvem de tempestade cheia de relâmpagos. As mudanças no seu corpo não querem dizer nada. Eu reconheceria você, independentemente da sua forma.
O canto da minha boca se curvou para cima.
— Está tentando dizer que vai me amar quando eu estiver velha e grisalha?
— Não. Quero dizer que ainda vou amar você quando sua forma física se tornar pó e nada restar de nós dois a não ser nossas vontades. Não importa o que nos acontecer, não importa aonde a morte nos levar, encontrarei um modo de ficar com você. Acredita em mim?
Encostei a testa na dele.
— Acho que sim.
Nebu bateu com um casco no chão, nervoso.
— Alguma coisa está errada — disse Ahmose, deixando o lugar onde estivera montando guarda. Seus olhos prateados ardiam na noite. — Muitos caminhos terminaram abruptamente. Alguma coisa aconteceu com o contingente mandado para salvar Osíris.
— Achei que você não podia senti-los — falei.
— Lembra de quando eu disse que era difícil discernir os caminhos aqui?
Assenti:
— Lembro. Você não podia seguir os caminhos dos deuses.
— Isso. Bom, o grupo levado por Maat à casa de Amon-Rá era suficientemente grande para que eu o identificasse. Eles entraram, com vários caminhos convergindo para o mesmo lugar, mas de repente... simplesmente desapareceram.
— Então precisamos ajudá-los. Bom, como vamos fazer? — perguntei. — Entrar de fininho ou voar até o telhado?
— As duas coisas — respondeu Amon. — Eu e Asten vamos na frente, depois vocês três voam até o telhado. Com sorte, poderemos distraí-los por tempo suficiente para que vocês entrem, soltem Osíris e cheguem a um lugar seguro.
Eu já ia protestar quando Amon pegou minha mão.
— Asten vai nos ocultar — disse ele, sabendo como eu reagiria à separação. — Lembre-se de que, por causa da nossa conexão, agora estamos protegidos do mesmo modo que você. Ela não vai pressentir nossa presença.
Engoli o nó na garganta e mexi a cabeça, concordando. Asten e Amon se esgueiraram pela escuridão e desapareceram nas sombras entre os prédios que restavam.
Cerca de vinte minutos depois Ahmose decidiu que era hora. Montou nas costas de Nebu e eu abri as asas. Subimos, voando em círculos sobre a cidade escura. Quando um demônio alado guinchou, Nebu aproximou-se, suas asas roçando o prédio onde a criatura estava agachada. Ahmose acertou velozmente a cabeça dela com sua maça. O demônio despencou e seu corpo maciço bateu no chão com uma pancada forte.
Se havia outros demônios alados por perto, estavam em silêncio. Pousamos numa sacada arruinada. A pedra se partiu quando os cascos de Nebu tocaram a superfície e recolhemos as asas. Entramos em silêncio. Tirei minhas facas-lanças das bainhas. Estávamos do lado oposto do salão onde tínhamos encontrado Osíris, mas não havia sinal do deus. Viam-se, porém, algumas manchas de sangue muito nítidas no local onde ele estivera.
Seguimos em frente e encontramos os guerreiros que tinham acompanhado Maat caídos. Ahmose se agachou e virou um dos corpos.
— O coração deles foi comido — disse.
Sombriamente, inspecionamos um aposento após outro, mas não encontramos nada além de móveis quebrados e vidro despedaçado. Não havia sinal de Asten ou de Amon. O pavor cresceu em meu peito.
— Não entendi — falei. — Onde está todo mundo?
Nesse momento um estrondo sacudiu o prédio e cambaleei de encontro a Ahmose. Depois de me ajudar a recuperar o equilíbrio, ele segurou minha mão.
— Venha — disse. — Isso aconteceu no pátio.
Da sacada olhamos o ar cheio de demônios alados — muitos mais do que tínhamos visto partir. A eles se reuniam outros que voltavam carregando prisioneiros nas garras.
Um dos prisioneiros se soltou dos demônios. Estava acompanhado por um cão que rosnava.
— Anúbis — sussurrei para Ahmose. Quando ele foi encurralado e novamente capturado, vi, aterrorizada, a Devoradora surgir numa explosão de criaturas com asas de morcego e se materializar diante dele.
Seu riso gutural foi trazido pelo vento.
— Ah, ora, aqui está um com quem posso me divertir por um tempo.
O sol do alvorecer estendeu sua luz sobre a cena que se desenrolava abaixo de nós, banhando o pátio em raios vermelho-sangue. Antes que Ahmose pudesse me impedir, saltei da borda, abrindo as asas e soltando um grito de batalha. Demônios alados se viraram para atacar. Eviscerei um com minha faca e arranquei a asa de outro. Logo Nebu e Ahmose se juntaram a mim. Os cascos do unicórnio quase acertaram minha cabeça quando Ahmose afundou a maça no ombro de um demônio voador antes que este agarrasse minha asa.
Abrimos caminho lentamente até o chão, despachando um demônio após outro. Eles caíam um a um no pátio embaixo. A Devoradora ergueu os olhos para ver nosso progresso, com um sorriso confiante e alegre no rosto brilhante, mas demoramos muito mais tempo para alcançá-la do que eu tinha previsto.
Assim que chegamos ao chão, fui direto até um demônio alado ainda vivo e cravei uma flecha de Ísis nas costas dele. A criatura se retorceu, mas não respondeu quando exigi sua obediência.
O riso da Devoradora chegou até mim, vindo do outro lado do campo sangrento.
— Você achou que eu não aprenderia com meus erros passados? — perguntou. — Estes são leais somente a mim. E — acrescentou, aproximando-se — não têm cérebro suficiente para ser manipulado.
Arrancando a flecha e vendo-a se desintegrar na minha mão, mergulhei rapidamente minha faca-lança na cabeça da criatura, que tombou com uma língua preta saindo-lhe da boca. De perto, vi a mudança imediata em sua pele, que mudou de bronze escuro para um verde doentio e cinza. Pedaços dessa pele se soltaram e viraram pó enquanto a criatura se desfazia. Era como olhar metal corroído se desintegrando. Uma. Só restava uma flecha de Ísis. Com um tremor, virei-me para encarar minha inimiga.
Nebu pousou levemente ao meu lado e Ahmose apeou. Dezenas de demônios alados ainda enxameavam acima de nós, mas pareciam ter um respeito saudável por nossas habilidades, porque não atacaram de novo.
A Devoradora olhou para eles, a boca voltada para baixo numa expressão azeda. Ela ergueu uma das mãos, curvando o dedo na direção de Ahmose.
— Olá de novo, bonitão — disse. — Voltou para outro beijo?
Como Ahmose não respondeu, ela fez beicinho.
— Não? E eu que estava disposta a trocar este gostosão aqui por você — disse, indicando Anúbis. — Me deem licença, por favor. Vou ter de deixar vocês para mais tarde. Vou guardar todos para a sobremesa.
Ignorando-nos, ela se virou para o deus.
— Alguma coisa está errada — sibilei para Ahmose. — Ela nem está preocupada com a nossa presença. Considerando que quase acabei com ela na última vez em que nos encontramos, eu esperaria que ela mostrasse pelo menos um tiquinho de preocupação.
— Acho que você está certa. Ela preparou uma armadilha para nós. Mas, até que possamos descobrir qual é, precisamos tentar libertar os cativos.
Abutiu, o leal cão de Anúbis, estava caído ao lado dele. Tinha sido golpeado por uma lança, que o havia empalado, prendendo-o no chão, onde ele se debatia sem muito vigor, tentando se levantar de novo e proteger o dono. Ahmose e eu nos aproximamos, decididos a detê-la antes que ela ao menos pensasse em drenar o deus.
— Pronto, pronto — disse ela ao belo deus que se sacudia para a frente e para trás, tentando escapar dos demônios que o aprisionavam. — Não vai doer... muito — acrescentou com uma risada diabólica. Pondo a mão no peito dele, deslizou a palma até a barriga. — Ora — disse, mordendo o lábio —, gosto de homens que se mantêm em forma. Quando chegam a mim, todos os homens estão famintos demais. Consumir o coração deles é quase um favor que lhes faço. — A Devoradora estalou a língua, em sinal de apreciação. — É raro encontrar um espécime tão... vigoroso. Eu gostaria de saboreá-lo por um tempo.
Apoiando as palmas das mãos na barriga retesada de Anúbis, ela o puxou mais para perto, abrindo a boca para que sua luz verde vazasse.
— Acho que não — eu disse, e apertei um botão, alongando minha lança.
Mirei e então disparei. Girando como um dardo, ela seguiu direto para o coração da Devoradora. Mas, antes que chegasse ao alvo, um homem desceu do céu, agarrando-a no ar. Em seguida, ele pousou suavemente e largou minha arma, que caiu no chão com um estrondo.
Meu coração se partiu quando Ahmose disse o nome que eu não pude proferir:
— Amon?

4 comentários:

  1. Esse livro nao é o ultimo? Só acho q ta indi muito devagar, daqui a pouco começa a embolar tudo jogando informação, eu nem vi Seth ainda.

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    1. Sim! E estranho que no começo até estava indo, de repente deu uma estagnada...

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Boa leitura, E SEM SPOILER!