9 de março de 2018

23. Uma asa e uma oração

— Ei, espere um momento, Tia — conseguiu dizer Asten, engasgando.
Amon e Ahmose se adiantaram, como se fossem intervir, mas o rosnado grave de Tia fez com que se detivessem. Quando nos certificamos de que eles não iam interferir, ela retraiu as garras e moveu a mão para o ombro de Asten, segurando a camisa dele com força, mas mantendo os olhos estreitados fixos nele.
Enquanto Asten esfregava o pescoço, a marca de uma mão se destacando na pele, Tia o acusou:
— Está com medo da leoa, Asten? Talvez você seja um consorte indigno e eu tenha escolhido meu parceiro com pouca sabedoria.
Com raiva, ela empurrou Asten para o lado e lhe deu as costas.
— Ahmose? — começou Tia, mas Asten se levantou de repente da cama, agarrou o braço dela e a fez girar.
Então puxou meu corpo contra o seu em um abraço do qual eu não podia escapar. Com uma expressão severa que não admitia discussão, falou sem olhar os irmãos:
— Que tal um pouco de privacidade?
Amon e Ahmose nos lançaram um olhar demorado e então saíram. Tia não queria mais ser contida. Soltou-se dele, mas Asten grunhiu. Ele agarrou os ombros dela e a empurrou contra uma parede, barrando nossa fuga com o corpo. Um calor se irradiava dele e sua pele reluzia na penumbra da alcova.
— Você vai me fazer a gentileza de ouvir, senhora leoa.
Tia se eriçou com a ameaça que reconheceu na voz dele. Algo dentro dela queria reagir ao desafio. Minha respiração saía ofegante enquanto o peito subia e descia. A raiva que ela sentia — não, que nós sentíamos — era uma coisa inebriante e quase tangível. No entanto, eu percebia que a fúria estava se esvaindo, transformando-se aos poucos em algo igualmente poderoso e talvez ainda mais perigoso. Através de Tia, eu tinha consciência do corpo dele encostado no meu e do modo como seus olhos fitavam os meus lábios.
O fato de me debater contra ele fez Asten prender minhas mãos contra a parede. Tia lançou-lhe um olhar cortante, enquanto todo o meu corpo se eriçava com fogo. Dava para ver que ele não estava com medo da felina feroz dentro de mim. Mesmo assim, Tia o instigava, precisando provocar uma reação.
— Você é covarde — disparou ela. — Admita.
Asten inclinou a cabeça de cara feia. Seu aperto nas minhas mãos diminuiu, mas não baixei os braços porque ele nos prendia no lugar com os olhos. Estávamos hipnotizadas por seu olhar. Éramos como dois predadores se encarando, vendo quem hesitaria primeiro. Lentamente ele baixou as mãos até que as pontas dos dedos roçassem nas palmas das minhas mãos. Então chegou mais perto, tão perto que seu cabelo roçou meu rosto com um toque de pluma.
Os instintos felinos de Tia eram uma confusão só. Parte dela gritava dizendo que deveria proteger meu pescoço vulnerável, fonte do meu sangue vital. Mas outra parte queria sentir os lábios de Asten na minha garganta. A respiração quente dele levantava os pelos finos do meu pescoço enquanto ele murmurava em um tom de voz baixo e perigoso:
— Só porque estou agindo com cautela não quer dizer que eu seja covarde, Tia. Não confunda minha hesitação com falta de... desejo.
Meu corpo estremeceu quando seus lábios roçaram o lóbulo da minha orelha e percorreram a linha do meu maxilar. Fechei os olhos, o lado humano convencendo o lado felino de que, embora isso fosse perigoso, era o tipo de perigo do qual gostávamos. Quando os lábios dele encontraram o canto da minha boca, Tia soltou um pequeno gemido de prazer. E nos entregamos à sensação.
Enquanto ele mordiscava o canto da minha boca e beijava meu rosto e meu queixo, suas mãos deslizavam lentamente pelos meus braços nus, hipnotizando minha pele, ateando fogo a cada nervo. Quando ele chegou aos meus ombros, correu as mãos sobre eles e envolveu meu pescoço. Mergulhando os dedos nos cabelos, inclinou minha cabeça e me beijou.
Tia desejava a sensação furiosa, chamejante. Agarrá-lo e correr pelo capim alto numa velocidade de tirar o fôlego. Mas ele a conteve, provocando e acariciando enquanto a beijava em um fogo lento que parecia jamais terminar. Ele levantou a cabeça e, com os polegares, traçou a linha dos meus malares. Tudo o que tinha feito era beijar Tia, e no entanto meu coração disparava no peito, como se eu tivesse perseguido uma gazela.
Os olhos castanhos de Asten eram poços redondos e reluzentes que me hipnotizavam. Tia lambeu os lábios, desejando sentir o gosto dele de novo.
Dessa vez foi ele quem gemeu.
— Repetiremos isso mais tarde. — Encostando a testa na minha, ele envolveu minha cintura com os braços e me puxou mais para perto. — Eu prometo.
Era difícil separar os sentimentos de Tia dos meus. Ashleigh era menos afetada. Não conhecia Asten como nós conhecíamos, mas até ela sentia uma agitação emocional. Os pronomes eram confusos. Ele me tocava, tocava meu corpo, mas eu sabia que era Tia que ele desejava.
Eu não achava que estivesse apaixonada por Asten. No entanto, naquele momento, poderia jurar que sim. Era a suprema experiência em 4-D.
Tentando acalmar as batidas do meu coração, ouvi Tia sussurrar com minha voz:
— Então por quê, Asten? — Pude sentir os músculos das costas dele ficando rígidos, mas ela precisava saber... nós precisávamos saber. — Se você sente isso por mim, por que não quer proteger meu coração?
— Você me entendeu mal — disse ele, recuando e segurando minhas mãos. Levou os lábios ao dorso de cada uma delas, beijando-as de um jeito que deixou Tia sem fôlego. — Eu vou cuidar dele. — E nos encarou com toda a sinceridade nos olhos. — Considero esse presente inestimável e juro protegê-lo até não ser mais capaz.
— Mas não quer mantê-lo dentro de você — disse minha voz, categórica.
A leoa estava confusa e magoada. Sentia-se como qualquer humano depois da primeira picada da rejeição. A ideia de que agora era mais humana do que leoa a incomodava.
— Não. — Asten recuou um passo e me virou as costas. Eu ia me afastar e então ele se moveu. — Mas vou lhe oferecer o meu.
Asten estendeu as mãos e Tia olhou do rosto sério dele para o que estava aninhado nelas. Um escaravelho de diamante cor de chocolate com patas e asas de bronze repousava em suas palmas. Ela tocou a superfície do escaravelho, maravilhando-se com a pedra lisa, quase fria. Uma leve pulsação disparou nas pontas dos meus dedos e soubemos que eram os batimentos do coração dele.
— Mas eu pensei... — começou Tia.
— Pensou o quê? Que eu não gostava de você? Que uma fada e uma humana mereciam o amor, mas uma leoa não?
Ela se imobilizou. Era exatamente o que tinha pensado.
Asten pegou minha mão e pôs o escaravelho nela.
— Você pensou que eu gostava de Lily — acrescentou baixinho.
Ela o encarou rapidamente, mas os cílios dele estavam abaixados, escondendo os olhos.
— E não é verdade? — perguntou Tia.
Ele fez uma longa pausa, a boca se contorcendo antes de responder.
— Admito que amar uma humana seria mais fácil em muitos sentidos. Mas... — Asten pôs o dedo sob meu queixo, levantando meu rosto de modo a nos olhar diretamente nos olhos — ... a esta altura conheço vocês duas bastante bem. Gosto de Lily. Mas é em você que estou interessado, Tia.
Suas palavras eram o que Tia desejava escutar. No entanto, ela fora testemunha do diálogo doce e terno de Ahmose e Ashleigh. Também sabia o que Amon e eu sentíamos um pelo outro. Alguma coisa estava errada. Algo que Asten não queria lhe dizer, e isso a chateava. Ela não gostava da falsidade humana.
— O que você está escondendo de mim? — perguntou. — Está com vergonha de me contar seus verdadeiros motivos? Está com vergonha dos seus sentimentos?
Ele ficou boquiaberto.
— Não, Tia. Como você pode pensar isso?
Tia virou-se e fitou o escaravelho do coração dele. Uma lágrima caiu na superfície da pedra e ela passou o polegar por cima. Tia estava chorando? Tia estava chorando! As leoas não choram. Seu choque com a reação emocional reverberou em minha mente. Irritada, ela enxugou as lágrimas e se soltou da mão dele.
Asten deu a volta e segurou meus ombros.
— Isso não tem nada a ver com você. Não sinto vergonha. É só... — ele passou a mão pelos cabelos e andou para um lado e para outro no cômodo pequeno. — … é só que meu coração não é... feito do mesmo jeito.
— Como assim? — perguntou Tia, inclinando minha cabeça.
— Quero dizer que eu... — Ele engoliu em seco e suspirou. Então sentou-se pesadamente na cama e pousou a cabeça nas mãos. — Eu já tentei, Tia.
— O quê? — perguntou ela, sem saber se entendera as palavras que ele havia murmurado.
Ele ergueu os olhos, o constrangimento colorindo-lhe as faces e o pescoço.
— Não funcionou. Quando você estava lá fora com Ahmose, eu tentei absorver seu coração. Achei que isso pouparia tempo. Eu já sabia como me sentia, mas... não consegui. Amon sabe — acrescentou, desalentado. — Ele acha que pode ter a ver com meu julgamento no mundo dos mortos. Sinceramente, também pode ser porque eu não sou o príncipe que nasceu para essa tarefa. Podem ser várias coisas.
Tia sentou-se ao lado dele, tão atônita que a princípio não soube o que dizer.
— Mas... — começou ela — ... mas você me deu seu escaravelho.
— É. Aparentemente ainda tenho um. Se você não o quiser, vou entender.
Não o quiser? Não querer o coração do feroz e ardente deus das estrelas? Como ele pode pensar uma coisa dessas?
Tia fechou minha mão num reflexo, envolvendo o escaravelho. Com cuidado, colocou-o no meu colo e se virou para o homem ao seu lado. Segurando-lhe o rosto, olhou fundo em seus olhos.
— Agora me escute, Asten. Não há nada de errado com o seu coração. Não há nada de errado com você. Quando tudo isso terminar, vamos procurar uma resposta para essa questão. Mas por enquanto isso não tem importância.
— E se isso significar que você está perdida para Wasret? Talvez você devesse encontrar outro que possa chamá-la das trevas — disse ele, cansado.
— Asten, não existe mais ninguém que eu consideraria.
Ele assentiu com a cabeça e perguntou, quase hesitante:
— Ainda quer ficar ligada a mim?
— Você pode fazer o encantamento sem absorver meu coração?
— Posso.
— Então vá em frente.
Asten ergueu as mãos e teceu uma nuvem estrelada, em seguida entoou o feitiço que ligaria Tia a ele para sempre. Quando terminou, tomou-a nos braços e os dois ficaram ali sentados juntos por vários minutos, simplesmente abraçados um ao outro. Então ouvimos uma tosse fraca do outro lado da cortina.
— Você deveria dormir agora — disse Asten. — Vamos partir quando o sol se puser.
Tia moveu a cabeça em assentimento.
— Boa noite, então.
— Boa noite.
Ao sair dos braços dele, Tia recuou e eu voltei à frente. Quando abri a cortina, vi Ahmose e Amon parados. Segurei a mão de cada um deles e as apertei, e então voltei para minha alcova. Embora tenha me deitado, fiquei me revirando enquanto minha mente repassava os vários possíveis motivos para Asten não conseguir absorver o coração de Tia.
Incapaz de me separar deles, coloquei os três escaravelhos embaixo do travesseiro e enfiei a mão também sob ele, de modo que meu braço tocasse cada um dos três. As leves pulsações de cada coração nos tranquilizaram. Tia e Ashleigh falaram comigo até tarde. Quando todas por fim concordamos com relação a um caminho, finalmente fechei os olhos e dormi.
Tive a impressão de que apenas alguns minutos haviam se passado quando uma mão tocou meu ombro.
— Eles estão se reunindo lá em cima, Lily — disse Amon. — Venha quando estiver pronta.
Grogue, me levantei da cama e joguei água fria no rosto. As roupas limpas que estavam numa pilha muito bem dobrada quase encheram meus olhos de lágrimas. Depois de vestir uma blusa larga enfiada numa calça macia, fiz uma tentativa débil de passar os dedos pela massa de cabelos embolados, mas logo desisti.
Com cuidado coloquei cada um dos escaravelhos do coração na aljava, onde as poucas e preciosas flechas de Ísis estavam, e examinei o arnês de couro. Ele não tinha encolhido nem se afrouxado com a água do Rio Cósmico. Botas confortáveis completavam o traje. Quando fiquei pronta, com o arco, a aljava e o arnês com as facas, saí da alcova e encontrei os três homens me esperando. Assenti com a cabeça para cada um deles e disse:
— Vamos.


A criada de Néftis nos esperava na base da escada. Eu a acompanhei, os Filhos do Egito vindo logo atrás. Após alguns passos, senti meu pescoço formigando e quente, como se alguém segurasse uma vela acesa perto demais dele. O calor envolvia o pescoço como uma coleira apertada e subia lentamente pelas faces.
Quando olhei para trás, imaginando se mais alguém estava com o mesmo problema, três pares de olhos se fixaram na minha direção. Meus passos ficaram mais pesados. De repente, minhas roupas irritavam a pele. Puxei a camisa, abanando a pele com o tecido. O sangue nas veias se transformou em lava. Uma fome líquida se empoçava na minha barriga.
O fogo se esvaiu quando uma mão segurou minha cintura. Era como gelo tocando uma testa febril. Amon murmurou baixinho no meu ouvido enquanto erguia a bainha da minha camisa e desenhava pequenos círculos na pele.
— É um efeito colateral do elo, intensificado pelo seu lado esfinge.
— O que está acontecendo comigo? — perguntei, os lábios trêmulos.
Seus olhos castanho-esverdeados reluziram na caverna escura.
— O sangue da esfinge é volátil. Especialmente quando ela aceita um parceiro.
Engoli em seco.
— Mas nós não... — minhas palavras ficaram no ar enquanto eu percebia como a conversa tinha ficado esquisita — ... acasalamos — consegui desembuchar finalmente.
Os lábios de Amon se retorceram.
— O fogo queimou em você antes, apesar de nossa falta de... como você diria?... uma lua de mel?
Confirmei com a cabeça, ao mesmo tempo fazendo uma careta. Lembrei-me vagamente do Dr. Hassan falando algo sobre o sangue da esfinge. Desejei ter prestado mais atenção.
— Você se lembra de como nosso elo a levou a me encontrar no mundo dos mortos?
— Lembro.
— Imagine aquilo multiplicado por cinquenta. — Quando ergui uma sobrancelha, lançando-lhe um olhar do tipo “Você não pode estar falando sério”, Amon explicou: — Quando uma esfinge escolhe um companheiro para toda a vida, eles se unem de tal modo que só ele pode esfriar o sangue ardente dela. Quando você me deu seu escaravelho do coração antes de sairmos do mundo dos mortos, o primeiro elo com a esfinge foi cimentado.
— Mas pensei que nos unimos permanentemente na pirâmide — falei, esfregando os braços, a pele pinicando, ainda que mais fria.
Amon balançou a cabeça.
— Ali era só você, a humana, Lilliana Young. O elo da esfinge só poderia ocorrer quando Tia também me aceitasse. Isso só aconteceu quando você me deu seu coração. Se ela tivesse sido contra, você não poderia tirá-lo. O fato de Tia e Ashleigh poderem extrair seus escaravelhos do coração também significa que todas vocês concordam com os elos criados.
— Certo, mas esse negócio do fogo é novo. Nós não queimamos na fazenda da vovó. Isso só acontece de vez em quando? Pode ser ligado e desligado?
— Não. Não exatamente. A mente é poderosa. Sem suas lembranças de mim, seu corpo não era dominado pelo calor. Desde que suas memórias despertaram, eu estive ao seu lado, mantendo o fogo a distância. Normalmente você não o sente estando perto do companheiro. Mas, quando uma esfinge vai para a batalha, o que estamos prestes a fazer, as brasas se tornam um fogo selvagem. É um modo de preservar você. O fogo alimenta suas habilidades na batalha. No seu caso, a reação é mais ampliada ainda agora que está ligada a três homens diferentes. Seu sangue queima por cada um de nós, e nós sentimos. É uma mensagem para nós de que você está indo para o perigo. Se isso acontecer quando estivermos separados, podemos ir diretamente a você, seguindo o fogo, para ajudá-la a derrotar qualquer inimigo que ameace sua vida.
— Espere um minuto. Você disse que isso normalmente não vai acontecer quando eu estiver perto de você. Então o que significa se acontece quando estamos juntos?
— Quando estamos juntos, quer dizer... quer dizer que você deseja estar mais perto. — Amon segurou minha mão, entrelaçando os dedos nos meus. — Quando o seu sangue chama, não podemos negar a atração. É um canto de sereia para nós. Comigo foi sempre assim, mesmo antes de você virar esfinge, mas agora a força é irresistível. Qualquer separação, a partir deste momento, será quase insuportável para nós. Qualquer um de nós — acrescentou para que os outros ouvissem.
— Então enquanto você, Asten e Ahmose estiverem perto, eu não vou queimar feito um foguete entrando na atmosfera?
— Nós precisamos tocar você para afastar as chamas assim que elas começarem. Mas o fogo não fará mal a você, jovem Lily, apesar de às vezes ficar avassalador. Eu deveria ter previsto essa reação ao serem feitos três elos. Você é uma esfinge e, portanto, está sujeita aos instintos que governam essa criatura. Unir-se a uma esfinge não é uma coisa a ser encarada de modo leviano.
Vendo minha expressão preocupada, Amon acrescentou:
— Nós não estamos arrependidos. Nenhum de nós. Nem pense em imaginar que não estamos tão comprometidos com você quanto você conosco. Levamos nossos votos a sério.
Votos? Nossa ligação significa que... estamos casados? Uau. Eu não estava nem um pouco no lugar onde havia pensado que estaria nessa idade. Não achava que iria me casar antes dos... bom, acho que nunca tinha pensado de verdade em casamento, pelo menos não a sério. Mas mesmo assim — lancei um olhar de lado para meus novos companheiros, admirando-lhes o queixo e os ombros fortes, senti a mão entrelaçada na minha e soltei um suspiro.
— Uma garota poderia se sair pior.
Quando chegamos ao topo da escada fomos cercados imediatamente pelos deuses. Néftis me dirigiu um olhar demorado, perspicaz — do tipo que dizia que tinha conhecimento de todas as coisas que havíamos feito.
— Ísis — anunciou ela —, chegou a hora.
A bela deusa alada se aproximou e andou em círculo à nossa volta, murmurando palavras suaves que não distingui. O sol havia acabado de se pôr e o céu tinha um tom fugaz entre roxo e preto. Num instante, isso desapareceu. Então algo roçou minha consciência. Eu poderia jurar que ouvia sussurros em minha mente. Não eram nada parecidos com os de Tia e Ashleigh. Pareciam... estranhos.
— Este encantamento — disse Ísis, me distraindo das vozes — vai canalizar as energias do Cosmo, de modo a mantê-la escondida da Devoradora. Se ela capturar Amon de novo, seus corações unidos não vão levá-la a você, e vice-versa.
— É assim que a senhora e Osíris estão conectados? — perguntei.
— Não exatamente. — Ísis inclinou a cabeça. Seus lábios se franziram, depois formaram uma palavra: — Espere — pediu. Então fechou os olhos e levantou o nariz como se procurasse um cheiro. — Ora, ora, você andou ocupada. Sabíamos sobre Amon, claro, mas isso... — disse, indicando Asten e Ahmose. — Isso é novo, não é?
Enrubescendo, assenti com a cabeça.
— Hum... — disse Ísis. — Isso... complica as coisas. — Virando-se para Amon, ela perguntou: — Entendo os motivos de usar meu encantamento para seu benefício, mas por que o deu aos seus irmãos?
Amon, tão alto quanto a deusa escultural, parado diante dela, corajosamente respondeu:
— Eles têm tanto direito à felicidade quanto eu, imagino.
— Interessante. — Um canto da boca de Ísis subiu e seus olhos brilharam de forma reveladora. — E muito generoso, devo acrescentar, considerando que você uniu a mulher que ama aos seus irmãos. Por causa disso terei de fazer algumas mudanças.
Ele não se deu ao trabalho de esclarecer que o encantamento tinha sido para Tia e Ashleigh, e não para mim, mas talvez para ela isso não tivesse importância. Ou... mordi o lábio, pensando. Será possível que Amon não tenha me contado todos os detalhes do encantamento? De qualquer modo, agora era tarde demais para fazer alguma coisa. Eu teria de confrontá-lo sobre isso mais tarde.
Ísis se virou, andando de um lado para outro. Suas asas lustrosas estremeceram ligeiramente. Lembrei-me da sensação de suas flechas com extremidades emplumadas roçando no meu rosto quando eu puxava a corda do arco e me perguntei se ela sentiria dor ao perder uma pena.
Quando Ísis chegou a uma decisão, pediu que os Filhos do Egito formassem um triângulo à minha volta. Amon deveria colocar uma das mãos sobre meu coração e outra no ombro de Asten. Asten e Ahmose também deveriam colocar uma das mãos no ombro do irmão ao lado e a outra no meu ombro.
— Como vocês já optaram por unir os corações — disse Ísis —, vou terminar a parte do encantamento que Amon iniciou, mas saibam que vocês ainda terão o poder de se afastar, se quiserem.
— Espere aí — falei. — Eu achava que nossos elos eram indestrutíveis. Que nada poderia se interpor entre nós.
— E nada pode — disse Ísis —, a não ser vocês mesmos.
— Não entendi.
— Vocês uniram seus corações, mas, como sabem, um coração pode se partir. — Ísis olhou para sua irmã, Néftis, que baixou a cabeça olhando as próprias mãos. — Mas existe um elo mais profundo do que a simples troca de corações. É uma união compartilhada por dois seres que se conectam de modo tão profundo que se tornam um só. Esse é o encantamento que criei e que me conecta a Osíris. É um elo de almas, do poder cósmico de que nós dois somos constituídos.
Ela fez uma pequena pausa antes de continuar:
— Para isso precisei entregar uma parte de mim. Agora nós compartilhamos nossa energia, cada um sente a dor do outro. Se um morrer, o outro também morre. Esse é um encantamento oculto. Uma invocação que nem mesmo Amon pode discernir, porque foi realizado aqui nesta montanha, onde nem as estrelas podem ser testemunhas.
Depois de mais uma breve pausa, Ísis prosseguiu:
— Não vou coagir seus afetos nem tirar sua força interna para criar um elo tão duradouro neste momento. Mas vou ligar vocês seis. A partir deste ponto, vocês estarão amarrados uns aos outros. O único modo de separá-los depois disso é romper a amarra. Quando isso acontecer, se acontecer, irá devastá-los. Vocês podem se recuperar desse rompimento, mas talvez não se recuperem. Entenderam?
Todos dissemos que sim.
— Mais uma vez, saibam que não vou tocar nos laços que vocês mesmos criaram; em vez disso, vou criar uma sizígia, um encantamento poderoso que servirá para reforçar os laços entre os Filhos do Egito, assim como os das Progenitoras de Wasret. — Ela tocou o ombro de Amon com o rosto cheio de simpatia. — Amon, se você tivesse me procurado, eu poderia ter guiado seu caminho, reforçado o elo que você tentou criar, de modo que nada pudesse realmente rompê-lo. Um elo assim teria impedido tudo o que aconteceu com sua amada. É uma pena que sua escolhida seja aquela que minha irmã estava esperando.
Amon enrijeceu os ombros e seu olhar encontrou o meu. Seus olhos estavam cheios de tristeza e desculpas. Eu queria tranquilizá-lo, dizer que entendia e não me arrependia. Talvez ele pudesse ler minha mente, mas eu desconfiava que ele havia desligado essa habilidade. Amon optou por responder a Ísis com um simples aceno de cabeça.
— Irmã — disse Ísis —, é hora de começar.


Um sopro de ar gelado varreu a montanha. Minha pele se arrepiou e ficou fria, como se gelo houvesse queimado meus braços. Quando o vento cessou, fiquei parada, olhos fechados, sentindo a batida não de um, não de três, mas sim de seis corações. Engoli em seco, abri os olhos e descobri que fitava diretamente os de Amon. Ele me dirigiu um sorriso breve e levantou as sobrancelhas numa pergunta silenciosa.
Com um ligeiro aceno da cabeça, eu disse a ele que sim, eu estava bem. Na verdade, mais do que bem. Depois do encantamento, sentia uma conexão ainda mais profunda com os outros. Mas isso não tinha nada a ver com amor — pelo menos não com o amor romântico. Era mais como se fôssemos uma unidade, um grupo de guerreiros indo para a batalha. Se fosse pedido que nos colocássemos no caminho do perigo para proteger uns aos outros, era o que faríamos.
Amon levantou as mãos murmurando um encantamento e a areia se juntou ao redor dele, redemoinhando em sopros intensos. Quando se acomodou, ele usava uma reluzente armadura de batalha, com as cimitarras mortais presas às costas. A areia girou em torno de Asten e Ahmose enquanto eles também se preparavam para a batalha.
Fiquei parada, torcendo as mãos desconfortavelmente. Néftis se aproximou.
— Por que não usa seu poder para criar a sua armadura? — perguntou.
Como eu poderia compartilhar meus temores com a deusa que estivera procurando Wasret praticamente desde o início dos tempos?
Ísis tocou o braço da irmã.
— Ela está preocupada com a hipótese de que a invocação do poder chame a outra — explicou.
— Ah! — exclamou Néftis. Em seguida, comprimiu os lábios, me examinando por um momento, os olhos mais luminosos do que um céu de verão. Depois disse: — Entendo sua hesitação. Você quer permanecer sendo você mesma pelo maior tempo possível. — Quando apenas concordei com um gesto da cabeça, infeliz, ela continuou: — Sua capacidade de se vestir estava presente antes de você acrescentar Ashleigh ao círculo, não estava?
— E-estava — gaguejei, lembrando-me de como Nebu me ensinou a usar o poder recém-adquirido em Heliópolis. — E o escaravelho de Amon me vestiu com uma armadura quando enfrentei a Devoradora no mundo dos mortos.
Néftis sorriu.
— Pode continuar a usá-la. Ela vem de dentro de você. É parte de ser esfinge, portanto não é exclusiva de Wasret. A proteção que vem de seus escaravelhos do coração é resultado do amor que seus rapazes têm por você.
Engoli em seco.
— Tem certeza?
Ísis riu.
— Se minha irmã diz, deve ser verdade.
A expressão de Néftis ficou tensa, mas então ela segurou minha mão.
— Confie em mim.
— Certo — falei, voltando a respirar. — Aí vai.
Com cuidado, quase hesitantes, Tia e eu nos juntamos para usar o poder da esfinge. Partículas de areia sopraram sobre nossos pés e envolveram nossas pernas. Ganhando confiança, invocamos mais areia. O vento soprou mais forte, criando uma parede móvel entre nós e os outros. Minhas roupas batiam no corpo e meu cabelo chicoteava como frenéticas serpentes da Medusa.
Quando o vento assentou, eu usava uma túnica de couro que se ajustava a minha cintura e era coberta por finas placas de metal. A blusa era escura e feita de um material cinza de trama apertada, assim como as calças justas. Botas com placas blindadas e luvas de metal protegiam a parte de baixo das pernas e os pulsos. Uma gola e placas de ombro de metal completavam a vestimenta. A roupa era pesada, mas daria proteção. Especialmente se tivéssemos de enfrentar aqueles demônios alados.
O arnês tinha saído dos meus ombros e virado um cinto de couro que pendia dos quadris. Agora minhas facas-lanças estavam facilmente acessíveis, uma em cada quadril. Treinei sacá-las e quando as coloquei de volta elas se encaixaram no lugar quase por vontade própria.
A aljava e o arco ainda estavam na posição de sempre, cruzando as costas. Por um breve momento entrei em pânico ao não encontrar os escaravelhos do coração na aljava. Então Ísis apontou para minha cintura e vi que os escaravelhos cintilantes estavam engastados no cinto. O de Amon no centro, ladeado pelos outros dois. Quando os toquei, as pedras reluzentes se expandiram em escamas sobrepostas que envolveram meu corpo como uma armadura. Eram rijas como diamantes, mas não pesavam nada.
Ísis andou à minha volta, inspecionando a vestimenta. Franziu a testa e balançou a cabeça.
— O que há de errado? — perguntei, ajeitando as tranças que formavam um coque na minha nuca. — Esqueci alguma coisa?
— Acho que sim — respondeu ela.
Verifiquei a aljava, puxei a camisa e olhei para Asten, que apenas deu de ombros.
Suspirando, Ísis disse:
— Dói ver um presente assim ser desperdiçado.
— Que presente? O arco e as flechas? Eu usei o mínimo possível, mas...
A deusa sibilou e agitou as mãos no ar.
— Não, não estou falando das flechas.
— Então o que... — comecei.
A deusa levantou as asas e as agitou.
Ao ver a expressão atônita ainda no meu rosto, Néftis veio em meu socorro.
— O que minha irmã está se perguntando é por que você não está usando suas asas.

6 comentários:

  1. Agora a Lily tem asas tbm! !

    Flavia

    ResponderExcluir
  2. Caramba a garota é um super ultra combo de poderes :o

    Só falta dizer que ela solta laser pelo olho tbm u.u

    ResponderExcluir
  3. Mas realmente a esfinge tem asas no primeiro livro eles falam sobre uma imagem da esfinge ser de um leão alado

    ResponderExcluir
  4. Como assim Brasil???
    Este livro vai acabar me matando, se duvidar, ne durmo esta noite.

    ResponderExcluir

Se você não tem conta no Google e quiser comentar, utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!