9 de março de 2018

22. Corações trocados

Todos no topo da montanha me olhavam em expectativa, a esperança iluminando seus rostos. Isto é, todos menos os três homens atrás de mim, cuja opinião mais me importava. Sustentada por sua dedicação a mim, eu me preparei para responder.
Com o coração pesado, afirmei baixinho:
— Sim. Vou ajudar.
Quase como um só, os Filhos do Egito empertigaram os ombros, parecendo se preparar para a luta inevitável com a qual eu tinha acabado de me comprometer.
— Nós vamos ajudar você — disse Amon, verbalizando o sentimento dos três irmãos.
Pus a mão sobre a dele, que ainda pressionava meu ombro.
— Diga o que precisamos saber — falei.
Néftis ia falar, mas Ísis se adiantou. Suas palavras se derramavam tão depressa que eu me perguntei como ela conseguira segurá-las por tanto tempo. Era uma versão muito diferente da deusa gelada e silenciosa que eu tinha conhecido. Talvez sua preocupação com o marido provocasse a mudança de comportamento.
— Primeiro precisamos proteger você da Devoradora. Vou tecer um encantamento, um encantamento poderoso, de modo que ela não consiga descobrir os outros se capturar um de vocês. Tenham em mente que tentaremos evitar isso a todo custo, mas devemos estar preparados para qualquer coisa.
Inclinei a cabeça.
— Quer dizer: fazer conosco a mesma coisa que fez com Osíris? É por isso que ela o está torturando em vez de procurar vocês, não é?
— Sim — respondeu ela, baixando os olhos. — A montanha nos esconde dela, mas, assim que sairmos daqui, ela pode nos encontrar. Então nem mesmo nossa mãe, Nut, poderia nos abrigar da visão dela. E nenhuma caverna que nosso pai, Geb, possa criar seria suficientemente profunda. Estamos preparados para as consequências disso, mas vocês quatro são importantes demais para corrermos o risco de perdê-los numa batalha com a Devoradora. No fim, ela não terá importância. Devemos reservar a maior parte da sua energia para Seth.
— Então por que simplesmente não a deixamos de lado e procuramos Seth? — perguntei. — Vocês sabem, se cortarmos a cabeça da cobra, o resto do corpo morre.
— A não ser que isso faça com que duas cabeças brotem — murmurou Asten de forma quase inaudível.
Ísis estremeceu diante da minha analogia, mas Néftis prontamente respondeu à pergunta:
— Seth investiu muito de sua energia na Devoradora, assim como fez com Sebak. Ao derrotar o necromante de uma vez por todas, vocês enfraqueceram o controle de Seth. Será quase impossível dominá-lo, mesmo com todas as nossas forças combinadas, mas, se cortarmos os laços entre ele e a Devoradora, isso irá torná-lo muito mais vulnerável.
— Espere um minuto. — Um fato que eu ficara sabendo sobre Seth muito tempo antes me veio à memória. — Uma vez o Dr. Hassan disse que Seth podia criar, mas que só fazia isso para desfazer a coisa que tinha criado. Será que, sem querer, não vamos dar mais poder a ele nos livrando da Devoradora?
— O seu Dr. Hassan, mesmo tendo possuído o Olho por um curto tempo, e apesar de ser muito sábio para um mortal, não entende tudo — respondeu a deusa loura. — A Devoradora já compartilhou de livre vontade suas energias e seus poderes com Seth. Ele não pode tomar mais do que já tomou, mesmo se decidisse desfazê-la. Ele só pode ganhar de volta o que emprestou a ela para que fizesse sua vontade. Quando o Dr. Hassan falou sobre criar e desfazer, estava se referindo aos Filhos do Egito. Como entender isso é importante, vamos contar o que pudermos. Deixe-me começar dizendo que o que sabemos sobre os planos de Seth com relação a eles é muito pouco, mas supomos que, ao gerar os Filhos do Egito, ele estava tentando recriar o encantamento que Ísis teceu. Pelo que discernimos, Seth estava canalizando boa parte de seu poder para os três rapazes. O modo como fez isso ainda é um mistério para nós. Seria impossível para ele recriar o encantamento dela.
— Por que seria impossível? Ele não tinha poder para isso?
— Não era poder que ele não tinha — disse Ísis. — Fazer encantamentos exige um certo talento, sem dúvida, mas esse encantamento específico exige mais ainda. O ingrediente-chave é o amor. Amor e um coração disposto. O amor não é uma coisa que Seth consiga entender.
Quando as duas deusas ficaram em silêncio, Anúbis acrescentou:
— O fato de Seth mexer com necromancia é provavelmente uma chave para entender suas motivações. O que sabemos é que a energia cósmica só pode ser utilizada e controlada de determinados modos. A morte, tanto a primeira como a segunda, parece ser um catalisador para romper e criar laços; a energia cósmica flui através dessas conexões.
—Isso explicaria a conexão dele com a Devoradora — sugeri. — Aqueles dois são farinha do mesmo saco. Ela ganha energia comendo corações, o que não é muito diferente de desfazer. Como a morte é um catalisador, faz sentido que seja desse modo que ela se mantém alimentada, por assim dizer.
— Sim — refletiu Anúbis, coçando o queixo áspero. — Não é de espantar que eles tenham sido atraídos um para o outro, mesmo através dos muros da prisão de Seth.
— Certo — acrescentei com um riso de escárnio. — Acho que eles eram como Píramo e Tisbe falando através da fresta na parede. — Todos os deuses me olharam sem entender. — O quê?... Vocês não estudam poesia romana antiga em Heliópolis? Bom, acho que para vocês não é tão antiga. — Nenhuma reação ainda. — Shakespeare? — Ergui as sobrancelhas e depois suspirei. — Deixem para lá. Continuem, por favor.
Anúbis me observou por um instante, depois prosseguiu:
— Seth foi recusado pelos Filhos do Egito, mas encontrou parceiros dispostos em Sebak e na Devoradora. Apesar de não poder fazer o mesmo encantamento de Ísis, há uma conexão inegável entre os três. É por isso que ele reabsorveu Sebak justamente no momento de sua morte no reino mortal.
— Espere aí — falei, levantando a mão. — Está dizendo que ele desfez Sebak? Mas isso foi, se não instantâneo, pelo menos rápido. O Dr. Hassan disse que desfazer exige muito tempo.
Anúbis lançou um olhar para Ísis, que explicou:
— O ato de desfazer acontece muito depressa, pelo menos para a criatura em que Seth está concentrado. Infelizmente, quando ele desfaz uma árvore ou um animal, parece que tem a capacidade de desfazer toda a espécie. Isso não é inevitável, já que o vimos desfazer vários indivíduos e a humanidade ainda existe, mas é possível. Provavelmente, era a esse tipo de desfazer a que Hassan estava se referindo. Se Seth estava tentando desfazer toda a humanidade ao destruir os Filhos do Egito, então sim, levaria algum tempo. Felizmente, nós o impedimos antes que isso acontecesse.
Depois de uma pausa, Anúbis acrescentou:
— Você também deveria saber, Lily, que, ao desfazer toda uma espécie, ele ganha as habilidades e vantagens dessas criaturas.
— Como as garras de Tia — murmurei.
— Sim — replicou Ísis. — Mas não ganha somente as garras; ele pode se tornar essa criatura completamente. Isso mascara sua presença. Nem mesmo nós podemos detectá-lo quando aparece na forma de um animal. Se bem que alguns dos favoritos dele se tornaram muito familiares para mim.
Néftis pegou a mão da irmã e apertou. Mais uma vez fiquei arrepiada e decidi não pedir mais informações sobre isso.
— Certo — falei. — A conexão de Seth com a Devoradora faz sentido, mas e quanto a Sebak? Por que ele o escolheu, encheu-o de poder e depois o abandonou?
— Quando a morte dele era certa — começou Anúbis —, Seth reabsorveu a energia que tinha dado ao necromante. Então lançou o que restava de Sebak no Poço das Almas para o caso de precisar de novo. Ainda que Sebak fosse mortal, era um feiticeiro poderoso. Provavelmente foi isso que despertou o interesse de Seth. Mas, assim que vocês provocaram a primeira morte dele, Sebak ficou preso na forma do deus crocodilo e não podia mais lançar mão de seus feitiços. Depois disso, Seth praticamente o ignorou, perdendo o interesse.
— Sebak disse que desejava provar seu valor ao mestre. Foi assim que Seth soube onde estávamos — falei. — Além disso, no barco havia shabtis lacaios que estavam tentando se comunicar com Seth. Devemos nos preocupar?
Néftis e Anúbis se entreolharam.
— Tem uma coisa que não contamos a você, Lily — disse a deusa.
Bufei de um modo muito pouco elegante.
— Não diga. Bom, fale logo. Não creio que possa ficar muito pior.
A deusa se encolheu.
— A resposta à sua pergunta é “não”. Seth não pode exatamente... ver você. Isso é parte do que a torna especial. O Dr. Hassan explicou o que era uma pedra ovo de serpente, não explicou?
Franzi as sobrancelhas, confusa, e respondi:
— Explicou.
— Bom, este lugar onde nós estamos escondidos é um gigantesco ovo de serpente. É por isso que Seth não pode nos encontrar. E você... você também é um ovo de serpente.
— Como posso ser um ovo de serpente? Quer dizer que sou feita de ossos de cobra?
O modo como o rosto dela se franziu me deixou muito desconfortável.
— Há uma coisa em você, Lilliana, uma coisa que a esconde da visão dele e da nossa. Pode ser Wasret, mas não creio. Você possuía essa capacidade mesmo antes de se tornar esfinge. É por isso que nem suas irmãs sabiam sobre as memórias escondidas que você guardou no seu escaravelho. É uma coisa boa ser um ovo de serpente, garanto.
Mordi o polegar, pensando.
— Então Sebak e os shabtis espiões deveriam informar nossa localização a Seth, já que ele não podia nos ver.
A deusa assentiu com a cabeça.
— Enquanto Sebak tinha você na mira, Seth também tinha.
— Então por que Seth não atacou quando nos encontrávamos no rio? Nós estávamos fracos. Vulneráveis.
— Ele podia ver você, mas não sabia onde estava exatamente — explicou Anúbis. — O rio é vasto. Cobre todo o Cosmo. Seria como procurar um grão de areia no deserto e, como você sabe, é muito fácil se perder por lá.
— Sim — falei, lembrando-me de que tínhamos chegado muito perto disso. Eu quase havia perdido Asten e Ahmose no rio. Tinha sido um golpe de sorte encontrarmos Cherty. Contive o soluço que ameaçou escapar quando pensei no barqueiro perdido.
Anúbis interrompeu meus pensamentos sombrios:
— Quanto aos shabtis, provavelmente estavam encarregados de vigiar Cherty. Se ele deixasse vocês num lugar que Seth reconhecesse, ele poderia ir atrás de vocês. A exceção era a Ilha dos Perdidos. É por isso que Maat escondeu os Filhos do Egito lá.
— Mas você disse que não sabia onde os escondeu — falei à deusa austera.
— Eu não menti, se é isso que você quer dizer — contrapôs Maat. — Eu realmente não sabia onde eles estavam. Cherty me falou do seu paradeiro. A Ilha dos Perdidos é um lugar que só você e o Desbravador poderiam ter descoberto. Era seguro. Seth não poderia segui-los até lá, e, como ela muda de lugar o tempo todo, é praticamente impossível ser descoberta.
— Quando vocês escaparam da ilha — disse Anúbis —, sem querer atraíram a atenção de Sebak. E depois, quando causaram a segunda morte do necromante, isso feriu Seth. Vimos isso na hesitação da Devoradora. Ele não esperava por isso e, como resultado, afastou-se dela e a deixou praticamente sozinha aqui. Isso nos deu uma abertura.
— Não que ela fique realmente sozinha — observou Néftis. — Mesmo assim, acreditamos que, se conseguirmos destruir a Devoradora antes que Seth possa reabsorver a energia que entregou a ela, isso quebrará qualquer laço que exista entre os dois. Assim que ela também experimentar a morte final, a energia que liga os dois irá se esvair completamente e ele terá de se defender sozinho.
— Bom, o que iria impedi-lo de desfazer a Devoradora assim que a encurralarmos, como fez com Sebak? — perguntei.
— Vamos distraí-lo — respondeu Néftis, os olhos seguindo para Ísis.
— Mas... mas não é exatamente isso que ele quer? — gaguejei.
— Seth não pode ter o que deseja — disse Ísis, soturna, com um tom perigoso na voz. — Está fora do seu alcance para sempre.
— Mas você irá fazê-lo pensar que ainda é uma possibilidade, irmã — observou Néftis. — Isso vai nos dar tempo.
As duas irmãs trocaram um olhar.
Estremeci, um calafrio desagradável percorrendo meu corpo. Parte de mim queria perguntar o que Seth desejava da deusa linda, que por acaso também era cunhada dele. Mas, no fim das contas, dava para adivinhar.
— Apesar desse dramalhão mexicano dos deuses — falei, voltando-me para Néftis —, eu achava que a senhora era esposa dele. Não seria melhor se fosse a senhora a... vocês sabem... distraí-lo?
— Não — disse Amon-Rá, falando pela primeira vez. Seu corpo reluziu por um instante com um poder tão brilhante que escondeu as bonitas feições. — Ele já fez mal suficiente a ela.
— Certo. — Mordi o lábio. — Ainda há uma coisa que não entendo. Se Seth está livre e pode desfazer qualquer coisa que escolher, e se é poderoso a ponto de fazer todos vocês se esconderem nesta montanha, por que já não desfez tudo, simplesmente? Ele poderia destruir Duat ou a Terra e todos os seus habitantes sem pensar duas vezes. O que o está impedindo?
Dessa vez Amon-Rá respondeu:
— Primeiro, porque se convenceu de que está apaixonado por Ísis. Quer possuí-la e possuir Néftis, e fazer com que as duas governem ao seu lado como rainhas. Se ele tentasse desfazer Duat ou qualquer outro refúgio para onde fôssemos, iria se arriscar a perdê-la.
— Isso é perturbador, mas tudo bem.
— Segundo, apesar de estar tecnicamente livre da prisão que fizemos para ele, Seth continua contido.
— O que isso quer dizer exatamente?
— Nossos avós Tefnut e Shu abriram mão de suas formas corpóreas para prendê-lo — esclareceu Néftis. — Para explicar isso em termos que você possa entender, Seth ainda está algemado, apesar de não estar confinado atrás das paredes de sua jaula.
— Entendo — falei, apesar de não entender de verdade. Havia muitas perguntas sem resposta. O que significava algemar um deus? Ele ainda podia vir atrás de nós? Desfazer coisas? Assumir uma forma animal? — Então, esse encantamento... — comecei.
— Pode esperar por enquanto — disse Néftis. — Vocês devem estar cansados. Sua jornada até aqui foi árdua. Venham. Vamos lhes servir uma refeição e depois vocês vão descansar até a noite. Enquanto isso, nós vamos nos preparar.
Amon-Rá bateu palmas. A superfície de uma grande pedra cortada tremeluziu e surgiram sobre ela bandejas de comida. Ahmose começou imediatamente a servir um prato, que me entregou. Dirigi-lhe um sorriso agradecido e ele foi fazer outro.
Enquanto os três homens enchiam seus pratos com grossas fatias de carne, legumes assados, frutas cozidas e pão, passei pelos vários deuses e deusas, que conferenciavam em voz baixa, até que encontrei um banco vazio.
Tinha acabado de dar o primeiro gole no líquido dourado que enchia minha taça quando alguém se sentou ao meu lado.
— Vejo que ainda está usando meu presente — disse um homem. Engasguei com a ambrosia e me inclinei para a frente, tossindo. Depois de pousar a taça, perguntei: — O que está fazendo aqui, Hórus?
— Não é óbvio? Estou escondido com os outros.
— Não. Quero dizer aqui aqui. Sentado no meu banco e pegando no meu pé.
— Não estou pegando no seu pé. Na verdade, fico magoado com essa sugestão. Como você é injusta comigo, quando tudo o que fiz foi sentir sua falta!
— Foi, é? — perguntei com um risinho.
— É tão difícil assim acreditar?
Corri os olhos ao redor.
— Acho que não. Não posso deixar de notar que não existem muitas mulheres aqui para mantê-lo distraído. Pelo menos nenhuma que não seja parente.
— Verdade. Mas... — ele pegou minha mão e levou meus dedos à boca, beijando-os de modo muito deliberado — ... você sabe que nenhuma outra mulher está à sua altura.
Suspirei. A fada na minha cabeça deu um risinho. E a voz interior de Tia trovejou, gutural.
Um prato bateu ruidosamente no banco de pedra e Amon surgiu. Olhou da minha mão para o deus que a segurava.
— Acho que você usurpou meu lugar — disse Amon, mal contendo a tensão nos braços.
Hórus gargalhou.
— Foi, jovem deusinho? Eu estava dizendo a Lily como os salões de Heliópolis ficaram monótonos quando ela partiu.
— Que interessante — disse Amon. — Eu pensaria que, se havia alguma coisa desinteressante em Heliópolis, seria graças a você.
Hórus estreitou os olhos para Amon.
— Tome cuidado, garotinho. Já tive a generosidade de permitir que você pegasse meu falcão dourado de empréstimo. Não tente fazer com que eu me arrependa desse presente precioso.
— Essa é a diferença entre nós — disse Amon, inclinando-se para ele e olhando de cima o deus sentado. — Eu jamais abriria mão de uma coisa tão preciosa.
Levantando-se com os punhos cerrados, Hórus disparou:
— Seu moleque ingrato. Parece que você está precisando aprender uma lição.
Antes que ele pudesse fazer qualquer movimento, Ahmose e Asten surgiram atrás de Amon.
— Ele estava incomodando você, Lily? — perguntou Ahmose.
— Não é óbvio? — observou Asten.
Então me interpus entre eles, a mão pressionando o peito musculoso de Amon e o de Hórus.
— Hórus não quis dizer nada com isso.
— Ah, acho que quis sim — reagiu Amon, o olhar fixo no deus.
Vendo que ele não iria recuar, tomei seu rosto entre as mãos. Os olhos de Amon estavam iluminados por um brilho verde. Ele estava prestes a canalizar seu poder.
— Ei — falei docemente, e ele por fim afastou o olhar de Hórus e me encarou. — Essa luta não vale a pena. Vamos nos concentrar naquela em que precisamos pensar de verdade. Além disso — lancei um olhar significativo para o deus atrás de mim —, eu posso lidar com ele.
Hórus gargalhou.
— Acho que eu gostaria disso.
Dessa vez foi Asten que avançou, desafiando o deus:
— Lily não é sua. Se sabe o que é melhor para você, afaste-se dela.
O deus deu um risinho.
— Ela é sua, então, Sonhador? Ou sua, Desbravador? — Um olhar magoado atravessou o rosto dos dois, mas eles não disseram nada. — O que, exatamente, vocês três vão fazer com uma mulher? — perguntou Hórus. — Me digam. Vão rasgá-la ao meio? — Ele se virou para Amon, cujos olhos brilhavam com farpas cristalinas e mortais. — Desculpe — disse Hórus em tom fingido. — Em três partes?
— Hórus! — interveio Ísis, pousando a mão com força no ombro do filho. — Sua conduta é inadequada.
O deus parou instantaneamente, fazendo uma reverência a Ísis.
— Peço desculpas, mãe. Minha intenção era apenas verificar o presente que dei a Lily. Quanto a essas três marmotas espinhentas — disse, indicando os Filhos do Egito —, eu só estava me divertindo um pouco ao provocá-los. Eles pareciam ansiosos por uma luta para liberar um pouco da frustração contida.
— Seja como for — declarou Ísis —, haverá lutas suficientes para todos nós mais tarde. Venha, filho. Quero conversar com você antes de ir embora.
— Não, mãe. Por favor, reconsidere isso. Papai não quereria...
— É por seu pai que faço isso — disse ela baixinho. — Não torne a situação mais difícil do que já é, filho.
Eu imaginaria que ser repreendido pela mãe diante de uma garota seria embaraçoso para Hórus, mas, na verdade, ele parecia muito mais preocupado com o bem-estar dela do que com as aparências. Isso me fez gostar mais dele. Sem dúvida, havia mais em Hórus do que ele aparentava à primeira vista.
Assim que se afastou, começamos a comer. Amon, que atipicamente não estava comendo com prazer, disse baixinho:
— Sei o que você pretende fazer.
— Deve ser bom conseguir xeretar qualquer coisa que você queira.
— Não é... bom. Muitas vezes desejei não ter o Olho, especialmente em situações como esta.
— Eu sei — respondi baixinho. — Mas precisamos dele. Você sabe que não é algo que possamos pôr de lado, por mais que a gente queira.
Uma cidadã de Heliópolis que rondava Néftis se aproximou e perguntou se tínhamos terminado a refeição. Quando fiz que sim, notando que nenhum dos irmãos havia comido com a vontade de sempre, ela pediu que a seguíssemos.
Levou-nos até um toldo grande que abrigava a abertura de uma caverna na encosta. Era alta a ponto de nem mesmo Ahmose ter de se abaixar, e suficientemente larga para dois de nós entrarmos ao mesmo tempo. Castiçais esculpidos em pedra faziam a luz de tochas dançar nas paredes. Dentro, o ar era fresco e um pouco úmido.
Descemos por uma série de degraus de pedra até chegarmos a uma caverna ampla. Algumas alcovas tinham sido arrumadas para nós. Numa delas ficavam três camas, uma bacia de pedra para se lavar e roupas limpas. A outra tinha uma cama muito maior, coberta com tecidos de seda em tons de dourado, cinza metálico e bronze. Um espelho adornava a parede e o piso de pedra era coberto por um tapete espesso. Era muito convidativa.
Quando a mulher saiu, verifiquei minha aparência no espelho. Ajeitando os cabelos castanhos, parei, pegando uma mecha loura. Virando-me, notei outras, umas mais sutis, algumas mais antigas e desbotadas e outras ainda mais novas. Cada homem tinha deixado uma lembrança visível. Puxei os cabelos para trás e os prendi com um nó na nuca.
Vamos mesmo fazer isso?
Vamos dar uma opção a eles, disse Tia.
E se disserem não?, perguntou Ashleigh.
Não vão dizer, respondeu Tia, confiante.
De qualquer modo, é um risco, falei. Mas é a única solução que me ocorre. Se vocês tiverem outras ideias, esta é a hora.
Tia e Ashleigh nada disseram, então me preparei e deixei o quarto, indo ao encontro dos homens. Detive-me do lado de fora da alcova, cuja entrada era coberta com um tecido, e já ia pigarrear anunciando minha presença quando os ouvi falando.
— Não podemos deixar que ela faça isso — disse Amon.
— Não sei como podemos impedir — retrucou Asten.
— Prefiro que elas fiquem com você a vê-las desaparecer — observou Ahmose.
— Entre, Nehabet — gritou Amon.
Constrangida por ter sido descoberta escutando, tropecei, chutando pedrinhas soltas, e me segurei na entrada de pedra. Abaixando-me para passar por baixo do tecido, entrei no quarto deles, muito menor, e levei as mãos às costas, apertando a pedra preciosa que tinha pegado no bolso escondido na aljava.
Asten falou primeiro:
— Não queremos que você faça isso.
— Faç... faça o quê? — gaguejei, pondo o escaravelho de Amon no bolso.
— Entregar-se a Wasret.
Piscando, falei:
— Ah. Era sobre isso que vocês estavam falando.
— Não é por isso que você está aqui? — perguntou Ahmose. — Para dar a má notícia? — Os cílios escuros baixaram, lançando sombras nas faces.
Fiquei incomodada por Ahmose não conseguir mais me olhar nos olhos.
— Não. — Mordi o lábio. — Não estou planejando fazer esse tipo de anúncio. Na verdade, ainda tenho esperança de evitar a vinda de Wasret, se for possível.
Amon franziu os lábios.
— Então, o que é?
— Eu... — Torci as mãos. — Tive uma ideia. Quero dizer, nós tivemos uma ideia. Achamos que é um modo de permanecer conectadas com vocês. Como estou com Amon. Queremos formar um elo.
— Um elo? — perguntou Amon. — Quer dizer, como o que usei com você em Nova York?
Assenti com a cabeça.
— Refiro-me ao permanente. O que você criou antes de morrer, na pirâmide.
— Você se lembra do que falei sobre isso? — perguntou Amon baixinho.
— Lembro.
— E as outras sabem?
— Sabem.
— Talvez não funcione — disse Amon.
Ele se levantou e tomou minhas mãos nas suas.
— Você sabe o que sinto por você, jovem Lily. E não quero que confunda minha hesitação com reticência, mas preciso entender o que você espera conseguir antes de tentar ajudá-la a fazer esse encantamento.
— Certo — falei, umedecendo os lábios. — Primeiro, você disse que ter meu escaravelho do coração o ajudou a me encontrar, que eu não desapareci completamente da sua visão, certo?
— Sim. Correto.
— Você também disse que podia ler meus pensamentos se quisesse, mas não os de Tia e Ashleigh.
Amon fez que sim com a cabeça.
— Bom, nós achamos que há um motivo para isso. — Respirei fundo, olhando a expressão insondável de Asten e Ahmose. — Achamos que o escaravelho do coração que você tem pertence só a mim.
— Acho que não entendi.
Asten se adiantou e segurou uma de minhas mãos.
— Isso é possível? — perguntou, os olhos se iluminando. — Faz sentido. Cada uma delas tem um mundo dos sonhos diferente.
— Claro que são diferentes — disse Ahmose. — Vá direto ao ponto.
— Ah! — soltou Amon. — Entendi.
— É melhor alguém explicar do que estão falando — exigiu Ahmose.
— Ahmose — comecei —, nós achamos que Tia e Ashleigh têm, cada uma, o próprio escaravelho do coração. Se estivermos erradas, não perdemos nada, mas, se estivermos certas...
Amon ergueu a mão.
— Vamos conter as esperanças até verificarmos com certeza a primeira premissa. Venha, Lily. Vamos descobrir.
Tomando minhas mãos, Amon me puxou para ele. Fitando os meus olhos, disse:
— Tia? Você pode vir à frente?
A leoa se desenroscou do fundo da minha mente e trocou de lugar comigo. Meus músculos se enrijeceram com sua força e ela piscou. Virando-se para Asten, ergueu um canto da boca e depois apertou as mãos de Amon.
— Eu tenho um coração para compartilhar? — perguntou Tia baixinho. — Não tenho certeza se algum dia tive.
— Você tem, sim — disse Asten com suavidade.
— Ponha a mão sobre o coração — instruiu Amon. Quando ela fez isso, ele cobriu a dela com a sua. — Agora concentre-se. Ashleigh e Lily, tentem aquietar seus pensamentos. Fiquem o mais imóveis que puderem. Tia, feche os olhos e se veja em sua mente. Encontre sua verdadeira natureza. Pense no que a torna forte. No que é somente você. Pense nos seus talentos. Nas coisas que você ama. Agora... concentre todas essas coisas num só lugar. Ouça seu coração batendo. Imagine que cada batida é a liberdade. É sua pata batendo no chão enquanto você corre. É isso. Um... dois... três... Envolva-o com os dedos e puxe.
Amon recuou e Tia abriu os olhos. Em sua mão havia um reluzente escaravelho dourado. A pedra preciosa amarela tinha uma faixa de luz que traçava uma linha reta vertical em seu centro. Na base não ficavam as patas finas de um inseto, e sim as garras de um leão, e poderosas asas douradas se projetavam de ambos os lados. No topo havia uma leoa dourada com olhos vazios que cintilavam com a luz da pedra por trás deles.
— É um olho de gato — disse Amon. — Bem adequado!
Tia passou a ponta dos dedos pela pedra. Asten estendeu as mãos, perguntando:
— Posso segurá-lo para você?
Ela assentiu distraidamente.
— E agora Ashleigh — anunciou Amon.
Tia recuou para o lugar onde eu pairava no escuro e Ashleigh se adiantou. Amon repetiu o processo e logo, na palma dela, via-se um escaravelho verde com delicadas patas de borboleta e asas de fada. Com um brilho no olhar, ela o entregou a Ahmose para que o guardasse em segurança.
Em seguida, Amon disse:
— Você estava certa. Cada uma tem um escaravelho. Agora, senhoras, quais são suas intenções exatamente?
Bom, é meio óbvio, não é, garoto? — disse Ashleigh, usando minha voz. — Eu gostaria de perguntar àquele cara bonitão ali, todo carrancudo, se ele pode cuidar do meu coração.
Ahmose respondeu franzindo as sobrancelhas, segurando meu cotovelo e me guiando para fora da caverna, de modo que seus irmãos não nos escutassem.
— Ash — começou ele —, isso que você está pedindo...
É, é importante, eu sei. É assim que você vai nos encontrar se a gente se perder de novo.
— Significa muito mais do que isso.
Ah, garoto — disse Ashleigh, estalando a língua e aproximando-se dele. — Depois de tudo o que passamos juntos, você não deseja estar comigo?
— Você sabe que desejo.
— Então que bicho maligno está atormentando você?
Ele passou a mão no queixo, a barba por fazer arranhando-lhe a palma.
— Só acho que você não se dá conta completamente das implicações...
Pondo a mão em cima da dele, envolvi a pedra verde com seus dedos.
— Nós três entendemos as implicações. Você não vê? É um palito de fósforo que estamos lhe dando, uma luz pequenina que a gente pode seguir para encontrar o caminho de casa no escuro. E não se engane, garoto, você é minha casa. Se o mantiver perto, eu volto para você. Não duvide disso.
Segurei sua camisa e o puxei para baixo, capturando seus lábios com os meus. Seus braços envolveram minha cintura, me puxando mais para perto, enquanto um som grave escapava do fundo de sua garganta. Ahmose me apertou com tanta força que eu mal conseguia respirar. Mas respirar parecia não ter muita importância. Eu não tinha percebido que ele havia me levantado até que ele, ao fim do beijo, me pôs no chão, firmando meus membros trêmulos.
Bom, é assim que uma garota deve ser beijada — falei com um sorriso malicioso e um brilho maroto nos olhos.
Ahmose afastou um fio de cabelo do meu rosto enquanto me fitava no fundo dos olhos. Não havia nada de provocador no modo como me encarava.
— Quero que você saiba que eu sei o que isso significa — disse ele. — Aceito seu presente, Ash. A partir desse momento meu coração só vai desejar você.
Ele começou a entoar um encantamento familiar. O que iria nos unir permanentemente. Ao terminar, deu um passo para trás, colocando o escaravelho verde sobre o coração, e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a pedra afundou em seu peito. Quando ela sumiu, um sorriso suave levantou os cantos da boca de Ahmose.
— É como deveria ser — disse ele com um suspiro.
Erguendo a outra mão, tocou o peito e uma luz tremeluzente apareceu entre seus dedos. Um escaravelho se materializou. Era uma pedra da lua. Com apenas uma breve hesitação, ele me entregou a joia e a envolveu com meus dedos.
— Sei que você não pode guardá-lo do mesmo modo — disse ele. — Mas mesmo assim é seu.
Meu lindo Ahmose — disse Ashleigh —, vou sempre guardá-lo como um tesouro.
Coloquei seu precioso escaravelho no meu bolso, junto ao de Amon. Ele beijou minha mão e a passou pelo seu braço enquanto me guiava de volta até os outros. Quando entramos na alcova, ele disse:
— Está feito.
Ahmose pôs-se de lado e me virei para Asten, que segurava o escaravelho dourado, olhando-o pensativamente, sentado na cama. Ele me olhou e mordeu o lábio, o rosto bonito perturbado. Depois de um momento cheio de tensão, ele disse:
— Acho que não vou guardar esse escaravelho exatamente do mesmo modo que Amon e Ahmose.
Num piscar de olhos Tia chegou à superfície. Nossas garras emergiram, ela se esgueirou até Asten e levou a palma da mão ao pescoço dele. Quando apertou, os olhos dele se arregalaram. A leoa estreitou os seus e sibilou:
— Vou lhe dar exatamente cinco segundos para explicar sua atitude antes de picá-lo em pedacinhos e jogar sua carcaça retalhada e mentirosa aos quatro ventos, para que os abutres se fartem.

8 comentários:

  1. Ha nececidade de dizer q engasguei de rir nesse final, kkkkkkkkk

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  2. Jeito Tia de dizer: "TE APRUMA GAROTO" kkkkkkkkkkkk

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  3. Acabei de me tornar fã da Tia kkkkkkkkk

    Flavia

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  4. "— Vou lhe dar exatamente cinco segundos para explicar sua atitude antes de picá-lo em pedacinhos e jogar sua carcaça retalhada e mentirosa aos quatro ventos, para que os abutres se fartem."

    ahuahuahuahuahuahuahua

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  5. Cara..... Sinceramente nao esperava por isso kkkk. ✌😎

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Boa leitura, E SEM SPOILER!