9 de março de 2018

21. A visão de Néftis

Atravessamos rapidamente o palácio de Amon-Rá. Ahmose nos guiou até a saída nos fundos do prédio, esperando evitar as gárgulas vivas que protegiam o recém-conquistado covil da rainha má. Logo ficou claro que as barulhentas sentinelas cercavam a cidade dizimada por todos os lados. Asten invocou sua nuvem de vaga-lumes e encobriu nossa fuga. Assim, apesar de os demônios alados voarem em círculos à nossa procura, logo os deixamos para trás.
Quando o sol surgiu no horizonte, pintando a paisagem com um vermelho macabro, o poder de Asten foi diminuindo ao mesmo tempo que o de Amon aumentava. Ahmose se ajoelhou, tentando encontrar o caminho para o monte Babel, mas descobriu que esse lugar não existia.
— Não entendo — falei quando Asten por fim deixou sua nuvem se dissipar depois de decidir que estávamos suficientemente longe, apesar de continuarmos nas terras incendiadas.
Ele se inclinou, ofegante, por causa do esforço de mantê-la por tanto tempo.
— Como esse lugar pode não existir? — perguntei.
— Talvez Osíris tenha se referido a um local fora de Heliópolis — sugeriu Amon.
Pus as mãos nos quadris e franzi a testa.
— Não foi o que pareceu. Precisamos descobrir onde é. Quanto mais tempo perdermos, mais sofrimento a Devoradora causará a Osíris — falei.
Um sentimento nauseante de culpa por ter deixado o deus nas garras dela revirava minhas entranhas.
— E se traçarmos o caminho de Ísis? — sugeriu Amon.
Ahmose balançou a cabeça.
— Não vai funcionar. Não tenho capacidade de traçar os caminhos dos deuses, especialmente aqui. As impressões que obtenho são vagas, na melhor das hipóteses. Minha capacidade funciona com mais precisão quando me concentro em vocês dois ou em Lily. Ao abrir mão do meu poder de absorver a energia da Lua, todos os dons que mantive diminuíram. Os caminhos simplesmente não são mais claros como antes.
— Então como vamos encontrar os deuses? — perguntou Amon.
— Wasret poderia encontrá-los — falei baixinho.
— Podemos descobrir isso sem ela — respondeu Amon imediatamente.
— Podemos? — Virei-me para ele. — Não tenho tanta certeza.
Amon trincou o maxilar, com teimosia, e se recusou a continuar com o assunto.
Era fácil pensar em fugir quando eu não via o que estava acontecendo. Mas nesse caso estaríamos abandonando todos os outros. A Devoradora os sugaria totalmente e os torturaria só por prazer. Então, quando estivesse farta, Seth viria limpar tudo. Ele desfaria a Terra. Talvez até todo o Cosmo. O que eu podia fazer, então? Se até os deuses estavam se escondendo de Seth e da Devoradora, a situação estava ruim. Ruim de verdade.
Enquanto os três homens discutiam sobre onde deveríamos procurar em seguida, tive uma conversa interior com as garotas na minha cabeça.
Podemos fazer isso e permanecer no controle?, perguntei, mordendo o lábio inferior.
Não há como saber, realmente não há, disse Tia.
Não podemos deixar que a Devoradora os pegue, acrescentou Ashleigh. Vejam o que ela fez com Osíris! Ela é uma feiticeira maligna. Eu preferiria me render a entregar nossos homens para alguém como ela.
Tem certeza de que quer correr o risco, Lily?, perguntou Tia.
Não. Neste ponto não tenho certeza de nada. Afastando-me alguns passos, sacudi as mãos para juntar coragem. Precisamos tentar. Só não... se fundam completamente. Pelo menos, tentem não fazer isso. Vamos nos combinar só o suficiente para descobrir aonde precisamos ir.
Ashleigh e Tia consentiram em silêncio e nossas consciências se aproximaram. Não percebemos como a atração de Wasret era intensa até que nos movemos de novo na direção dela. Ela era um ímã poderoso, e tínhamos acabado de acionar um interruptor, ligando-a. Desesperadamente, lutamos para resistir à luz brilhante que ameaçava nos engolfar. Era como lutar contra um maremoto. Nossa energia desapareceu rapidamente enquanto andávamos na borda do abismo. Se escorregássemos, sabíamos que iríamos nos perder.
Foi então que escutamos a voz.
Olá, de novo, disse ela.
O... olá?, gritei mentalmente. Estou... estamos mesmo falando conosco?
Não exatamente, respondeu a voz da mulher. Vocês são vocês mesmas e eu sou eu. Devo dizer que não foi gentil da parte do seu homem, Amon, me expulsar de modo tão abrupto. Eu não teria sido tão cruel com ele.
Optando por ignorar seu comentário sobre Amon, concentrei-me na outra revelação.
Quer dizer que você não é totalmente composta por nós três?
Não. Não sou.
Meus pensamentos eram um emaranhado caótico.
Impossível!, exclamaram Tia e Ashleigh, tão atônitas quanto eu.
Então o que é você?, perguntei.
O que eu sou? Que grosseria a sua presumir que sou um o quê e não um quem. Mas tecnicamente você está certa. Quem eu sou vem de vocês três; o quê vem de um lugar diferente.
Por que está falando conosco agora?, perguntou Tia. Você nunca fez isso antes. Poderia nos empurrar a qualquer momento e assumir o controle. Nós sentimos o seu poder. Está brincando conosco como se fôssemos bichos insignificantes que você pode jogar de uma pata para outra?
De jeito nenhum, respondeu ela. Vocês são parte de mim. Tão preciosas quanto meus olhos, minhas mãos e minha mente. Não considero vocês três bichos insignificantes.
Então o que você é?, perguntou Ashleigh. Por que deseja a nossa destruição?
Não lhes desejo mal... pelo menos não como vocês pensam. É simplesmente um fato que, para usar seu corpo, seus talentos e capacidades, eu preciso recriá-las. É um processo perfeitamente natural. Tudo o que é velho deve dar lugar ao novo. Um peixe pode sobreviver sem consumir seus companheiros? Um prédio pode ser construído sem tirar o minério e a pedra da montanha? Um fazendeiro pode cultivar a terra sem primeiro derrubar a floresta? A criação e a destruição são yin e yang. Quando acontecem do modo correto, estão em absoluto equilíbrio. Para que eu viva, vocês três precisam, infelizmente, deixar de existir.
Então como podemos estar aqui... neste lugar, juntas?, perguntei.
Porque estamos num espaço intermediário: a escuridão infinita que fica entre a memória e o potencial futuro. É onde eu nasci. Um lugar de observação. Onde o tempo se estende num eterno círculo de antes e atrás. Vocês já estiveram aqui, embora não tenham lembrança. Infelizmente suas limitações só permitem que existam aqui por um período finito de tempo.
O que você pretende fazer agora?, perguntou Tia sem rodeios.
Ah, o meu lado sempre prático. Não creio que eu já tenha dito como aprecio você e sua visão crua, franca, do mundo, Tia. É revigorante. Isso me mantém com os pés na realidade. A resposta à sua pergunta é que não planejo fazer nada. Vou simplesmente esperar aqui até vocês me invocarem. Não me preocupo muito com isso. É inevitável.
Você não vai tentar nos dominar?, perguntei, desconfiada.
Nunca tentei. Todas as vezes vocês me convidaram. A diferença entre nós é que eu não convido vocês de volta.
E por que não?, perguntou Ashleigh.
Ah, aí está o meu lado passional, impulsivo. Deixe-me perguntar, fada: é errado querer experimentar a vida e o amor? Eu não tenho o direito de colher as recompensas pelo meus esforços? O que dá a vocês três mais direito de existir do que eu?
Exatamente isso, falei. Nós somos três e você é só uma. As necessidades de muitos sobrepujam as necessidades de um só.
Wasret voltou a atenção para mim.
A humana sempre filosófica. Deixe-me perguntar-lhe então, Lily: você abriria mão de seu corpo para que Tia o possuísse, ou Ashleigh? As formas mortais delas estão mortas há muito tempo. Você permite que elas compartilhem a sua, mas permanece rigidamente no controle, não é? Qual é a sensação de ficar no segundo plano? De ser uma observadora silenciosa? Você conseguiria tolerar isso? É o que você pede a elas. Mas, afinal, os humanos sempre representam o papel dominante, não é? Só porque a fada e a leoa são diferentes não significa que sejam inferiores. Minha existência significa harmonia perfeita para vocês três. Não há vencedora nem perdedora. Se você realmente as amasse como irmãs, como diz, optaria por esse sacrifício. Traria esse equilíbrio. As necessidades de muitos, realmente. O que você quer mesmo dizer quando argumenta desse modo é que as necessidades da humana devem ter precedência.
Eu não tinha palavras para contra-argumentar. Sentia vergonha e raiva ao mesmo tempo. Será que meu pensamento era mesmo tão limitado? Ela não estava errada. E esse era o problema.
Ela continuou:
Eu não escolhi um homem que vocês três poderiam amar? Como podem ser tão egoístas quando o Cosmo está em jogo? Quando a vida dos seus outros dois homens corre perigo? A preservação das suas identidades individuais, ainda que compreensível, tem um custo. Ashleigh, você já abriu mão de si mesma uma vez. Sua mortalidade, sua humanidade, foi sacrificada simplesmente para se proteger de uma provação infeliz.
A voz de Wasret ficou no ar enquanto sua atenção se voltava para Tia:
E você, leoa? Estava desesperada por uma irmã para substituir a que você perdeu. Diga-me: para Lily, é melhor viver a existência dual que passou a levar quando você a tornou uma esfinge? Não creio. De fato, teria sido uma gentileza se você simplesmente a consumisse na planície. Como você obrigou Lily a se tornar sua irmã, ela cedeu um pedaço de si mesma.
Eu já ia protestar quando Wasret me acuou:
E finalmente chegamos a você, Lilliana Young. Você ansiava por uma vida com um significado, um propósito, livre do domínio dos seus pais. Mas isso é uma mentira que você repete para si mesma. Você acredita que seus pais a cerceiam, que a obrigam a frequentar determinada escola, agir de certo modo ou namorar determinado rapaz, mas isso não é culpa dos seus pais. Você é a responsável. Só você decide o seu destino. Você foi fraca porque se permitiu ser. O caminho em que está foi escolha sua. Na verdade, você o abraçou. Agora mesmo você gostaria de imaginar que eu a estou forçando. Que vou aniquilar sua existência para salvar o Cosmo. Mas não farei isso. Quando chegar a hora de tomar uma decisão, espero que você seja suficientemente forte para escolher o caminho certo. O caminho que não esteja atulhado pela dúvida com relação a si mesma e com a autopreservação. Mas saiba que, independentemente do que você decidir fazer, a escolha é e sempre foi sua. Só porque não gosta das opções que se apresentam a você não significa que não tem nenhuma. Aceite isso, Lily.
Nós três tínhamos ficado em silêncio. Que estranho levarmos uma bronca de nós mesmas! Devia ser a experiência mais bizarra da minha vida. E isso era dizer muito.
Flutuávamos no escuro, sentindo o puxão de Wasret, mas a sensação não era mais de que estávamos em um vórtice. Agora que sabíamos que tínhamos capacidade de resistir, podíamos fazer isso. Pairamos as três ali, não querendo nos olhar nos olhos, literal ou mentalmente.
Enquanto cada uma de nós juntava os próprios pedaços, ela disse:
Por ora vou ajudar vocês, dar o que buscam sem assumir o controle do nosso corpo. Mas saibam que, da próxima vez que recorrerem a mim, não serei tão generosa. Não posso me dar a esse luxo. Não diante da batalha que virá. Agora vocês sabem, e com o conhecimento vem a escolha. Quando retornarem, vou presumir que as três fizeram a sua. Para encontrar os deuses que vocês procuram, sigam na direção do sol nascente até chegarem a uma montanha tão alta que o pico roça as nuvens. Vocês saberão que é a certa quando ouvirem o zumbido de vozes nas árvores. No topo está o lugar que procuram. Mas estejam cientes de que o caminho até o topo é difícil. Vocês devem se manter perto dos seus homens. Não se separem em nenhuma circunstância.
Eu ia agradecer, mas me detive. Por que deveria agradecer a alguém que tinha me repreendido de forma tão completa? Então nós três fomos subitamente lançadas para fora do vórtice. Giramos e, durante um tempo, nos perdemos, mas voltamos lentamente. Pisquei e vi Amon me fitando com uma expressão intensa, o céu brilhando acima dele, o sol formando um halo em torno de sua cabeça. Horas deviam ter se passado, para o sol estar no zênite.
— Elas voltaram — disse Amon.
— Tem certeza de que não é Wasret? — perguntou Ahmose.
— Não. Sou eu... quero dizer, nós — falei, meneando levemente a cabeça.
— O que aconteceu, Lily? — Asten segurou meu cotovelo para me ajudar a ficar de pé.
Levantei-me, batendo os pés para voltar a senti-los.
— Nós... nós falamos com Wasret.
Os três rapazes baixaram as sobrancelhas numa expressão de preocupação quase idêntica. Seria engraçado se a situação não fosse tão séria.
— O que ela disse? — perguntou Amon.
— Ela estava... estava chateada porque você a mandou embora tão depressa. Disse... — hesitei.
Vá em frente, Lily, encorajou Tia. Não temos segredos umas das outras e eles não vão nos desprezar por causa disso.
— Ela disse que fomos egoístas e fracas e que deveríamos querer fazer o melhor para o Cosmo e para as outras.
— Vocês não foram fracas — disse Asten com o maxilar trincado.
— Nem egoístas — completou Ahmose, cruzando os braços.
— Ela obviamente não conhece bem vocês — acrescentou Amon.
— É justamente essa a questão — falei. — Ela conhece. Wasret somos nós, ou pelo menos parte de nós, gostemos disso ou não. Ela nos conhece melhor até do que nós mesmas. Mas há mais. Wasret não é somente nós. É mais alguma coisa. Há uma parte extra que a torna diferente.
Fitei o rosto de cada um e vi uma expressão nova, uma confirmação.
— Vocês sabiam. Todos vocês sabiam — acusei.
Ahmose falou primeiro:
— Dava para ver que havia alguma coisa nela que não vinha de vocês três. Era o modo como ela enxergava o mundo.
— Quando a examinei com o Olho de Hórus — começou Amon —, pude facilmente discernir vocês três, mesmo todas estando esmaecidas. Foi assim que eu as trouxe de volta. Concentrei toda a minha energia em ver somente vocês três e vocês ganharam força suficiente para retornar. Mas havia outra parte que recuou, que ficou para trás. Achei que teríamos tempo de falar mais sobre isso, mas tanta coisa aconteceu...
Suas palavras ficaram no ar. Pus a mão no seu braço.
— Temos estado meio ocupados desde então — falei.
— Eu não consigo ver os sonhos dela — murmurou Asten, e me virei para ele. — Deveria poder. Consigo acessar os sonhos de todas as criaturas do Cosmo, até mesmo os de Apep, se quisesse, mas não os dela.
Eu estava refletindo sobre isso quando outro pensamento me ocorreu.
— Asten? Você consegue ver os sonhos de todo mundo? Até dos deuses?
— Sim. Desde que não estejam bloqueando meu acesso. Mas, como eles não estão tecnicamente mortos, isso não acontece simplesmente quando nos encontramos, como com os que chegam ao cais. Acredite ou não, não tento invadir os sonhos dos outros. Por que está perguntando?
— Você consegue ver os sonhos de Seth?
Ele fez uma careta.
— Nunca tentei. Mesmo se conseguisse, talvez não gostássemos do que iríamos ver.
— Alguma coisa me diz que é tempo disso. Quero dizer, depois de encontrarmos o monte Babel.
— Mas ainda não sabemos onde ele fica — disse Asten.
— Agora sabemos. Wasret deu a informação sem cobrar nada. Bom, pelo menos sem uma troca de corpo. Mas nos avisou que da próxima vez não vai garantir nada.
— Então esperemos que não haja uma próxima vez — observou Amon, sério.
Eu lhe dirigi um sorriso débil. Não que eu não quisesse revelar tudo, só não sabia se os Filhos do Egito entenderiam de verdade — ou aceitariam — a experiência que havíamos tido com Wasret. Ela dissera quando fôssemos chamá-la de novo, e não se.
Minha intuição dizia que ela estava certa. Voltaríamos a recorrer a ela. E a próxima vez seria a última. Uma sensação de pesar me revirou por dentro e peguei a mão de Amon. Havia mais dor pela frente. Wasret disse que eu teria de aceitar. Todos teríamos. Mas o melhor para mim no momento era me concentrar na tarefa imediata.
Depois de verificar a posição do sol, partimos na direção que Wasret tinha indicado. Levamos o restante do dia para encontrar a montanha. Tínhamos penetrado na parte mais densa e escura da floresta nos limites de Duat. Até Tia estava nervosa e desconfortável.
Existem coisas antigas aqui, disse ela. Coisas que não deveriam ser descobertas.
Eu concordava. O topo do monte Babel estava coberto por nuvens cinzentas, embora Ahmose dissesse que não sentia umidade nelas. As encostas eram escuras, cobertas por árvores grandes que iam do sopé até onde a vista alcançava. Não havia uma trilha discernível.
Agora o sol estava baixo no céu. Eu sabia que seria perigoso subir no escuro, mesmo se a montanha não tivesse um elemento assustador, sobrenatural. Depois de alertar os três irmãos para que ficassem próximos, entramos lado a lado e sentimos imediatamente a agitação das árvores. Elas se tornaram ativas, nos batendo com galhos finos e fazendo com que tropeçássemos em raízes. Elas não nos queriam ali.
Então começaram a sussurrar, a princípio baixinho, mas em seguida os murmúrios foram ficando mais altos. Havia uma nítida percepção de que o mais inteligente seria voltar. Em dado momento, quando parei e recuei um passo, as vozes diminuíram, ficaram quase encorajadoras e reconfortantes. No entanto, no momento em que olhei para a frente de novo elas recuaram, golpeando-nos com intensidade cada vez maior. Ahmose foi o primeiro a reagir com mais do que apenas uma expressão incomodada.
Mais ou menos na metade da subida ele se imobilizou, os músculos definidos das costas tensos como se ele estivesse se preparando para um ataque. Quando paramos ao lado dele para olhar o que havia interrompido seu progresso, não vimos nada. Ahmose simplesmente olhava para o tronco de uma árvore enorme, com o maxilar se movendo e os olhos marejados de lágrimas.
— Ahmose?
Segurei seu braço. Como ele não respondeu, levantei a manga de sua camisa larga e pousei os dedos gentilmente em seu pulso. Os batimentos estavam muito acelerados, mas meu toque pareceu romper o transe.
— O que você viu? — perguntei.
Piscando rapidamente, ele resmungou:
— Não... não é importante. Vamos continuar.
Asten também começou a mostrar sinais de trauma emocional. Ficava tentando se afastar, dizendo que a tinha perdido e precisava encontrá-la. Olhava para a copa das árvores e examinava cada arbusto grande que encontrava. Até se agachava perto de cada riacho, olhando o chão, procurando rastros.
— Encontrar quem? — perguntei.
De novo, só quando segurei seu rosto entre as mãos e o fiz me encarar foi que seus olhos clarearam.
Amon conseguiu se manter mais focado. Quando perguntei por quê, ele apenas balançou a cabeça, como se não entendesse a pergunta. Presumimos que fosse o Olho de Hórus que o conservava centrado. Foi Amon que sugeriu que eu segurasse a mão de Asten e a de Ahmose enquanto continuávamos.
Isso tornou a subida um pouco mais difícil para nós, mas os dois puderam se controlar muito melhor assim. A subida já era extenuante por si só, mas a concentração mental necessária para continuar nos exauriu rapidamente. Paramos uma vez e descobrimos que permanecer no mesmo lugar não era boa ideia. Encostei-me numa árvore e fechei os olhos. Um instante depois minha mente era varrida pelas visões enviadas pelas árvores. Ao baixar a guarda, devo ter lhes dado um ponto de entrada e elas aproveitaram.
Sonhei que estava sendo levada, girando num redemoinho, e que nada, nem mesmo Amon, conseguia me puxar de volta. Durante um breve tempo, fiquei com Tia e Ashleigh, mas logo nem mesmo elas puderam permanecer comigo. Subindo cada vez mais, atravessei as nuvens e cheguei ao espaço. Planetas passavam por mim, depois estrelas e galáxias, enquanto eu era puxada para trás. Nada do que eu fazia conseguia deter a ascensão. Então, quando estava acima de tudo, pairando sobre o Cosmo no nada que o cercava, vi uma sombra o esmagar, enquanto eu soltava um grito silencioso. A vida, o amor e tudo o que tinha valor para mim num minuto estava ali e no outro havia desaparecido. Comecei a desvanecer, mas não liguei. Nada mais importava. Só sabia que não queria ficar sozinha.
Um tapa de leve no meu rosto me trouxe de volta e percebi que a palma da mão de Amon continuava pousada em minha face e que Asten e Ahmose se agarravam às minhas mãos. Aparentemente, enquanto descansávamos, as árvores tinham feito uma espécie de barreira à nossa volta, quase como se o terreno quisesse nos enjaular. Amon se recusava a sequer pensar na ideia de eu usar meu poder, por isso abrimos caminho com armas e minhas garras.
Quando chegamos ao pico pedregoso, caímos de joelhos, ofegantes. Dizer que a jornada tinha sido árdua seria eufemismo. Uma névoa densa nos envolvia a ponto de eu nem conseguir ver as feições do rapaz ao meu lado.
— Olá? — gritei, sem de fato esperar resposta.
Minha voz ecoou no topo da montanha e pareceu deslizar para o próprio espaço. O efeito foi fantasmagórico. Uma forma surgiu no meio da névoa. Foi ficando maior e, quando estávamos prestes a discerni-la, ela parou. Eu sabia que ela estava nos examinando, nos observando. Então, quem quer que fosse, devia ter ficado satisfeita, porque uma mão se ergueu e a névoa se abriu, revelando uma deusa que eu já tinha visto.
Os cabelos louros e compridos desciam por suas costas numa onda sedosa, e a prata ainda adornava seu corpo. Mas, em vez de finos braceletes e ornamentos de cabelo, ela usava armadura. A suavidade do rosto e do corpo tinha desaparecido. Em seu lugar, havia uma determinação de aço e algo mais: uma tristeza tão pesada que quase a esmagava.
— Lily — disse ela, assentindo ligeiramente com a cabeça. — Tia, Ashleigh. Estávamos esperando vocês. Venham.
Ela estendeu a mão e eu a aceitei. Imediatamente as vozes furiosas das árvores desapareceram. Dei um passo à frente e me virei, vendo Asten, Ahmose e Amon ainda ajoelhados. Os três estavam esmagados pelo peso das mesmas vozes que eu tinha ouvido. Levantei os olhos para a deusa, a pergunta não formulada flutuando entre nós.
— Você mesma deve dar as boas-vindas aos Filhos do Egito — disse ela. — Eles não podem cruzar a soleira sem você. Assim que fizerem isso, as estrelas irão reconhecê-los como seus companheiros e a loucura que elas causam irá se dissipar. Então vocês podem atravessar a montanha e até mesmo voar do pico sem problemas.
Eu não sabia se havia alguma cerimônia para as boas-vindas, mas toquei no ombro de cada um deles. Isso pareceu bastar. O alívio era evidente em seus rostos. Depois de se levantarem, Néftis se virou, indicando que eu deveria segui-la. A névoa retornou, preenchendo o ar atrás de nós e fazendo as árvores desaparecerem.
O topo da montanha era uma série de degraus de pedra perfurados por altas colunas de granito. Elas se estendiam até o céu como grandes lanças cravadas no solo. Imaginei que, do ar, aquilo deveria parecer a fortaleza de um dragão.
Seguimos por um caminho entre as colunas pontudas até chegarmos a uma rotunda de pedra. Uma série de aberturas levava ao interior da montanha. No centro da área aberta havia um grande buraco de fogueira cercado por bancos de pedra chata.
Com um estalo dos dedos, Néftis acendeu uma fogueira. Quando bateu palmas, outros deuses emergiram das cavernas escuras, inclusive Amon-Rá, Hórus, Ísis, Anúbis e Maat. Havia alguns outros que eu não reconheci, mas o número era pequeno, considerando a cidade dizimada que tínhamos visto.
Achei interessante que a tímida e recatada Néftis, que tinha permanecido sentada e silenciosa ao fundo durante nosso julgamento, tivesse a presença de espírito de comandar os outros. O fato de eles lhe darem toda a atenção não me passou despercebido.
— Ela chegou — disse Néfits simplesmente.
Em seguida, foi para o outro lado da fogueira, posicionando-se entre Amon-Rá e Ísis. Ficamos ali por um longo e pesado momento, entreolhando-nos por cima das chamas. Eu estava esperando que os deuses dissessem alguma coisa, qualquer coisa. Queria que explicassem por que tinham me mandado naquela jornada louca. Por que estavam escondendo informações. Queria perguntar o que desejavam de mim. Mas eles não disseram nada. Pelo jeito, eu teria de ser a primeira a falar.
Olhei de um rosto para outro, ficando mais irritada com a falta de comunicação a cada momento que passava.
— O que aconteceu com todos os outros? Todos os seus cidadãos estão mortos? — perguntei, deixando a acusação se evidenciar na minha voz. Agora que finalmente havia rompido o silêncio, fitei Amon-Rá, estreitando os olhos e cruzando os braços. — Vocês ao menos sabem o que está acontecendo lá embaixo ou será que só vieram aqui para cima enterrar a cabeça na areia, como sempre?
— Claro que sabemos — disse o deus sol com mais paciência do que eu merecia. — Nós a mantivemos longe enquanto pudemos, mas acabamos decidindo deixar que ela tomasse a cidade assim que colocamos todo mundo em segurança. Os cidadãos de Heliópolis estão escondidos por enquanto.
Era um alívio saber que a maior parte da população não tinha sido devorada.
— Acho que vocês esqueceram alguém — falei, ainda irritada.
Ouvi um som ofegante e olhei rapidamente para Ísis. A deusa escultural tinha se aproximado de Anúbis, que passara o braço por seus ombros.
— Então vocês o viram? — perguntou ela, a voz linda vacilando de emoção.
— Sim. Foi ele quem disse para virmos aqui. Ele está... — hesitei — ... muito ferido. — Ísis estremeceu, mas não disse nada, o olhar tornando-se pétreo. Percebi que ela já sabia. — A Devoradora o está consumindo — acrescentei, pressionando a deusa. — Ela quer saber onde vocês estão, para entregá-los a Seth.
Como tudo o que ela fez foi assentir com a cabeça, levantei as mãos.
— Não entendo a senhora. Sabe que ele está lá embaixo e o deixa sofrer nas mãos dela. Achei que o amasse.
— E amo — disse ela, um pouco de fogo acendendo seus olhos de nebulosa turbulenta. — Mais do que você imagina. Deixá-lo lá me mata.
— Então por que deixam? — acusei, olhando cada um deles. — Vocês são deuses. Certamente são páreo para ela.
— Eles o deixaram a meu pedido. — Néftis avançou e pôs a mão no ombro de Ísis, dirigindo-lhe um sorriso suave antes de voltar o olhar para mim outra vez.
— A seu pedido — ecoei, perplexa. — Por que a senhora faria isso?
— Há mais coisas acontecendo aqui do que é possível enxergar, Lilliana Young.
— Obviamente. — Dei um suspiro pesado. — Olhem, vocês não acham que é hora de me dar alguma dica? Preciso dizer que estou ficando cansada de ser um peão de vocês.
Néftis deu a volta na fogueira, vindo para o nosso lado.
— Você entendeu mal. Você não é nosso peão. É nossa rainha. Nós estamos neste jogo há muito tempo. Agora que todas as peças estão reunidas, é hora de fazermos as últimas jogadas. E torcer para que as estrelas tenham planejado tudo com tanto cuidado quanto esperamos.
Dei um passo para trás, a percepção desabando sobre mim.
— Vocês estavam atrás de Wasret esse tempo todo.
— Sim. Cada jornada em que mandamos você a preparava para o que precisávamos que você se tornasse.
Meu corpo tremeu ante essas palavras. Mãos quentes envolveram meus ombros e logo fui pressionada contra um peito rijo.
— Há muito tempo tive uma visão — continuou Néftis. — Nela, vi uma jovem, uma mortal muito especial, que realizaria coisas importantes. Coisas que nem os deuses poderiam fazer.
A deusa levantou as mãos em súplica, mas eu me mantive rígida nos braços de Amon. Ela suspirou e as baixou, levando-as às costas enquanto recomeçava a falar:
— Amon foi posto de propósito em Nova York e acordou no momento exato em que você estava perto. — Ela inclinou a cabeça na direção de Amon, atrás de mim. — Quando ele escapou do além, indo para o mundo dos mortos, vimos isso como uma oportunidade para testá-la, para determinar se você tinha a força para passar pelo Rito de Wasret. Quando você teve sucesso, soubemos que era quem procurávamos.
— Eu poderia ter sido morta.
— Poderia — admitiu Néftis —, mas você encontrou seu destino. — Ela sorriu. — Assim como sua leoa interior. Com Tia, você obteve os poderes da esfinge, que lhe permitiram entrar no mundo dos mortos. Esse era um lugar a que nem os deuses tinham acesso. Mas com a ajuda dos Filhos do Egito você não só entrou como sobreviveu e nos trouxe Amon de volta.
Néftis fez uma pequena pausa e continuou:
— Mas faltava outra peça. Sabíamos que, para você canalizar de verdade o poder de Wasret, precisaria se tornar a anfitriã de uma terceira jovem. Pois somente uma deusa tripla, uma união em que cada jovem estivesse atada às outras em perfeita harmonia, formaria uma verdadeira sizígia que permitiria a Wasret entrar em nosso reino.
Ísis deu um passo à frente.
— Por vários motivos, nem eu nem Néftis podíamos assumir o papel da terceira deusa, por isso Maat se ofereceu. Ela estava planejando abrir mão de sua forma física e se fundir com você depois de sua volta do além. — Ela abriu um sorriso triste. — Não esperávamos Ashleigh. Na verdade, nem sabíamos que ela estava no mundo dos mortos.
Olhei para Maat, ali parada numa postura rígida e orgulhosa. Estremeci. Pensando bem, Tia e eu preferíamos nossa fada interior.
— Quando a árvore das fadas se sacrificou e entregou sua tutelada, sabia o que estava fazendo — disse Ísis. — Ashleigh complementa vocês duas perfeitamente. Maat teria dado mais poder ao trio, mas Ashleigh traz seus talentos e sua personalidade. Funcionou, e isso era o mais importante. Não esperávamos que vocês precisassem usar seu poder tão rápido. A Devoradora foi uma complicação inesperada. Então Seth se libertou e tivemos de acelerar os planos.
— Quando o Dr. Hassan perguntou se as estrelas sabiam sobre mim, a senhora mentiu? — perguntei friamente a Ísis.
— Não exatamente — respondeu ela. — Sabíamos que Wasret estava chegando e esperávamos que fosse você, que tinha grande potencial. Nenhuma outra jovem havia estabelecido uma conexão com um Filho do Egito antes. O fato de você ter um relacionamento com os três...
Néftis a interrompeu rapidamente:
— O ponto, Lily, é que agora chegamos aqui. Basta dizer que estávamos esperando você. Sim, nós omitimos informações. Sim, fizemos você sofrer durante as provas. Sim, estamos depositando todas as esperanças em você. Apesar de tudo o que passou, conforte-se sabendo que estamos aqui agora. Estamos prontos para ajudar, para responder às perguntas e para lutar ao seu lado. O que precisamos saber agora é... você vai nos ajudar?

10 comentários:

  1. Sou eu q sou ruim ou vc também nao ajudariam esses ingratos???

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    1. Eu também não ajudaria,porque os deuses só sabe usar as pessoas

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    2. Eu não ajudaria pelos deuses... Mas ajudaria por aqueles que amo.

      E espero que a Limy coloque logo o escaravelho do Amon ><

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  2. Agora boiei, tem momentos em que fala que Isis aparece, mas depois do nada fala que é Neftis. Então,quem está falando?

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    1. Falando em que momento?
      Néftis foi quem apareceu no começo desse livro pra Lily, Hassan e a avó dela

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  3. Os deuses sempre usam os mortais para concertar suas besteiras, e falam que não tinham intenção!!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!