9 de março de 2018

20. Heliapocalipse

Foi Amon quem percebeu primeiro.
— O barco está morrendo — disse ele.
Alguma coisa nessas palavras provocou uma reação interior histérica, errada, e um riso meio de espanto, meio insano, irrompeu da minha boca. O Mesektet estava morrendo? Supus que isso fazia sentido. Ele era ligado ao seu capitão. Sem Cherty, o navio não podia ou não queria se curar. Asten e Ahmose se esforçaram para nos manter flutuando pelo maior tempo possível, mas logo ficou óbvio que teríamos de deixá-lo para trás.
Encolhi-me, imaginando se iríamos afundar com o navio. Existiam coisas malignas morando na água. Criaturas monstruosas em forma de vermes que teciam redes para capturar as presas, parentes maldosas das sereias chamadas serinas. Havia uma infinidade de peixes venenosos e agressivos à espera da próxima refeição. Eu havia tido uma experiência bem direta com alguns daqueles monstros. Na minha tristeza pela morte de Cherty, olhava-as com muito pouco medo. Depois de batalhar com o necromante, qualquer coisa parecia fácil.
— Vocês não podem se transformar e voar até o litoral? — perguntei a Asten.
Parecia a solução mais lógica. Mas ele explicou, nervoso:
— No momento em que o Mesektet afundar, Heliópolis vai desaparecer de vista, exatamente como a Ilha dos Perdidos. Provavelmente ficaríamos desorientados de novo no Rio Cósmico. O melhor que podemos fazer é nadar até a costa agarrados a um pedaço dele.
Parecia que um pedaço era mesmo tudo o que teríamos, isso com sorte. O Mesektet não estava apenas afundando, mas também encolhendo. A proa e a popa estavam muito mais próximas uma da outra do que originalmente e os costados também iam se estreitando cada vez mais. O mastro rachou, caiu no rio e foi cercado por criaturas que mastigaram as velas e destroçaram a madeira em pedacinhos, como se o barco fosse uma coisa viva. Observei aquilo tudo sentindo uma dor fria no coração.
Sentada na parte de trás, com a água batendo nos dedos dos pés enquanto seguíamos lentamente, passei a mão pelas tábuas escorregadias e sussurrei minha tristeza para o navio. Disse quanto admirava seu capitão e como o achei — a ele, Mesektet — lindo na primeira vez em que embarquei. Não tinha certeza se a embarcação ainda estava viva ao seu modo nem se me entendia, mas o Mesektet pareceu reagir, pelo menos segundo minha perspectiva. O leme se moveu, virando-nos em direção ao litoral distante.
Os rapazes corriam de um lado para outro no convés jogando fora tudo o que podiam, para nos dar mais tempo de diminuir a distância, e tentavam o mais rápido possível tirar a água do rio que entrava. Ahmose usou seu poder para erguê-la e jogá-la para fora, mas ela penetrava de novo quase instantaneamente. A água sibilava pelos costados, sacudindo as tábuas perto de mim, e finalmente inundou a proa. Então soubemos que não tínhamos opção a não ser deixar o navio.
Assim que os irmãos começaram a vir na minha direção, houve um estrondo quando uma criatura grande mordeu a proa. A popa ergueu-se da água e cravei as garras na madeira para me segurar. O que quer que fosse, arrancou um naco do convés. Quando a criatura caiu de volta, o rio invadiu tudo numa onda furiosa, sibilando. O navio caiu de novo na água e então finalmente desistiu. Quase pude senti-lo partindo. Era algo tão tangível quanto a perda de Cherty.
A água subiu, alcançando a minha cintura, e eu já não podia sentir o convés com os pés. Fiquei boiando enquanto resistia ao puxão do navio que afundava embaixo de mim. Bolhas irromperam em volta do meu corpo e alguma coisa agarrou meu braço e puxou. Bati em um peito sólido.
— Aqui — disse Amon, colocando um pequeno pedaço do navio em meus braços. — Precisamos nadar para longe dele o mais rápido possível. Vamos torcer para que ele atraia todos os predadores por enquanto.
Senti náuseas por usar o navio avariado de Cherty daquele jeito. Era como jogar um amigo para um bando de zumbis com o objetivo de salvar minha pele. Mas minhas pernas se moveram automaticamente quando Amon começou a me puxar. Asten e Ahmose aproximaram-se, cada um deles assumindo posição à minha volta, como se quisessem atrair a atenção para longe.
Asten segurava um pedaço da amurada e Ahmose uma seção do mastro. Quando olhei para o que eu tinha nas mãos, vi que era a cana do leme. Ainda que o litoral parecesse próximo, o rio nos empurrava em sentido contrário e lutamos por mais de uma hora antes de as ondas finalmente nos ajudarem e nos impelirem para a margem.


— Você sabe onde estamos? — perguntei a Ahmose.
A areia cobria minha pele, mas eu estava tão agradecida por me encontrar em terra que não me importei. A estela curativa começou a atuar sobre os cortes e arranhões da minha pele. Quando eu estivesse inteira, ia usá-la em cada um deles também.
— Do outro lado de Duat. Teremos de ir a pé para Heliópolis. Amon-Rá proíbe qualquer pessoa de se mover por suas terras usando tempestade de areia.
Assenti com a cabeça.
— Então vamos. Festejaremos em memória de Cherty quando chegarmos lá.
Seguimos rapidamente pelo terreno montanhoso até que o sol se pôs sobre as colinas. Enquanto Ahmose e Amon faziam uma fogueira, eu tirei o arco das costas.
— Venha, Asten — falei. — Vamos caçar.
Amon ergueu os olhos com uma expressão interrogativa, mas não disse nada. Ahmose simplesmente não nos olhou. Mas Asten me dirigiu o sorriso que eu não via desde o sonho.
— Sim, minha devoção.
— Corte o papo de “devoção”, caso contrário Tia vai acabar caçando você.
— Isso pode ser interessante.
Ele invocou a areia, que formou seu arco e uma aljava com flechas de ponta em forma de losango.
A noite estava escura. Muito poucas estrelas enfeitavam o céu, mas, com meus olhos de felina, a paisagem era facilmente visível, ainda que em vários tons de verde. Encontrei uma trilha de caça e a segui por vários minutos, ajustando a audição aos sons noturnos, até deparar com um cheiro irresistível, que já me era familiar. Sentindo-me mais leoa do que humana, fui me esgueirando, parando para esperar por longos minutos de cada vez. Peguei o arco, mas de repente parei, olhando as imagens gravadas na madeira. Antes elas eram estranhas para mim. Misteriosas. Escritas numa língua que nem o Dr. Hassan conhecia. Mesmo à luz fraca das estrelas, os relevos brilhavam como se iluminados por dentro.
Passando o dedo pela borda, entendi subitamente o significado delas. Agora eu sabia qual o verdadeiro objetivo do arco. Joguei-o fora imediatamente. Ele caiu no capim aos meus pés enquanto eu o olhava horrorizada.
— O que foi? — perguntou Asten, dando a volta na árvore para me encarar.
Ele havia abatido um animal. O cheiro de sangue estava nas suas mãos, quente e metálico. Era o cheiro de vida e morte. Normalmente a leoa que havia em mim não acharia nada de mais. Tia apreciava o fato de Asten ser um caçador ousado como ela. Mas minha parte humana se encolheu enquanto o sangue de uma criatura totalmente diferente preenchia minha mente.
Apontei para o arco.
— É dela — murmurei baixinho, a voz se afastando na brisa que levantava meus cabelos, afastando-os dos meus ombros.
— O que é dela? — insistiu Asten.
— O arco. Não é para uma esfinge. Não é meu nem de Tia. Ele foi feito para Wasret. É ela quem deve usá-lo em batalha.
Olhei o rosto bonito de Asten, agora sombreado, a boca tensa.
— Sei — disse ele.
Mas ele não sabia. Não de verdade. Começando a andar de um lado para outro e retorcendo as mãos, tentei explicar:
— Eu li. Os relevos. E então ele... ele falou comigo. Terei de sacrificar alguém que eu amo para matar a fera.
— Tem certeza? — perguntou Asten baixinho.
— Tenho.
— Lily — disse ele, ficando na minha frente para fazer com que eu parasse de andar —, vai ficar tudo bem.
— Não. Não vai, Asten. Você não entende? Wasret tem uma queda por Ahmose. Ela acha que ele vai ser o companheiro dela quando tudo isso acabar. Com isso restam apenas... apenas Amon e... e você.
— Talvez haja mais coisas do que parece.
— Não é assim que Wasret age. Nós mantivemos fragmentos dos pensamentos dela. Ela é muito direta. Se está se inclinando para Ahmose, significa que você ou Amon pode acabar fora de cena, e ela sabe disso.
Esperei que ele dissesse alguma coisa, mas pelo visto Asten tinha outras ideias. Ficou me examinando por um breve instante e depois voltou para o riacho e lavou metodicamente as mãos.
— Não vamos sacrificar você, Asten — falei, indo atrás dele.
Ele se levantou, pegou a carcaça do animal que tinha matado e a pendurou nos ombros, depois me dirigiu um sorriso tenso.
— Sei que não sou a primeira opção, Lily. Na verdade, eu esperava algo assim. Era só uma questão de tempo até que o Cosmo colocasse as coisas de volta em equilíbrio.
— O que você está dizendo? Que quer morrer?
— Não. Não quero morrer. Mas sou... sou diferente dos meus irmãos. Mais dispensável.
— Para mim, não.
— Seja como for, pequena esfinge, esta não é a hora para pensar nessas coisas. Na verdade, acho que é hora de comer. Estou faminto. O que acha de esquecermos essa pequena revelação por enquanto e voltar para fazer o jantar?
Minhas passageiras e eu ficamos irritadas com o modo como Asten recebeu a notícia. Também nos incomodou o fato de, bem no fundo, acharmos que ele podia estar certo. Peguei o arco, ainda que agora odiasse aquela coisa, e o pendurei com raiva nas costas.
Amon se levantou para ajudar Asten a preparar nossa caça quando entramos no acampamento. Sentei-me perto de Ahmose com uma careta.
Amon e Ahmose provavelmente acharam que eu estava irritada com Asten, mas eu estava furiosa era comigo mesma. Se fosse por mim, Tia e Ashleigh, não haveria dúvida. Não sacrificaríamos nenhum deles. E mesmo sabendo que Wasret não era nós, não de verdade, todas nos perguntávamos em que havíamos colaborado para que ela fosse o que era. Nós nos sentíamos traidoras.
Por que o Cosmo podia nos dar aqueles três homens maravilhosos como companheiros e depois esperar que sacrificássemos um deles? Não parecia justo. Não que qualquer coisa que tivesse acontecido até agora fosse justa.
Era justo termos perdido Cherty? Era justo que Tia e Ashleigh não tivessem corpos próprios e fossem forçadas a ser passageiras no meu? Era justo que nós três devêssemos de algum modo salvar o Cosmo? Não. Não queríamos nada disso.
Enquanto comíamos, peguei o arco odiado e examinei as marcas, esperando que tivesse entendido mal. Asten não sentiu necessidade de contar minha revelação aos irmãos e eu achei que precisava pensar um bocado nela antes de lhes contar. Os fachos de seus olhares me assombravam no escuro: prata, ouro e verde. Qual daquelas luzes eu iria apagar?
Passei as pontas dos dedos ao longo do arco. Não era uma língua, pelo menos não como qualquer outra da Terra, mas eu discernia o significado, e quanto mais olhava, mais clara a mensagem ficava. O arco tinha sido feito muito, muito tempo antes. Milênios antes, na verdade. Tinha um objetivo muito específico, e esse objetivo estava delineado. Ele fora criado para destruir Aquele Que Desfaz. O problema, e a parte que eu não conseguia aceitar, era que o arco só encontraria seu alvo verdadeiro, cumpriria o objetivo para o qual fora criado, depois do sacrifício de uma pessoa amada por quem o empunhava. Eu.
Apertando o arco quase a ponto de quebrá-lo, jurei que preferiria perder a batalha do Cosmo a perder um dos nossos rapazes. Se tivéssemos de morrer para que isso acontecesse, que fosse.
Ao concluir a promessa, um minúsculo fiapo de energia percorreu minhas veias. Então tive uma ideia e trabalhei com ela na mente, memorizando-a. Mesmo se Wasret surgisse de novo, ela iria se lembrar.
Esperávamos que isso bastasse.
Devo ter caído no sono, porque acordei com o sol da manhã no rosto, as mãos apertando o arco com força.
— Bom dia — disse Amon, agachando-se e me dando um pedaço frio de carne. — Ahmose está procurando um caminho. Asten o acompanhou.
Assenti com a cabeça e movi o arco para as costas, só para ver que Amon segurava meu arnês.
— Você o tirou de mim?
— Achei que você dormiria melhor sem as facas cutucando suas costas.
— Eu devia estar mesmo exausta para não acordar — falei, enfiando as mãos pelas alças de couro.
— Estava. Você nem se mexeu quando a ajeitei. Foi... desconcertante.
Segurei seu braço.
— Estou bem. Garanto.
— Quer conversar sobre isso? — perguntou ele, pondo o arco às minhas costas.
Amon sempre fora capaz de me decifrar com facilidade, mesmo antes de ter meu escaravelho do coração. Perscrutei-o, tentando identificar se estava conectado aos meus pensamentos, mas aparentemente ele havia desligado essa habilidade ao ver como isso me deixara desconfortável. Mesmo assim, era óbvio que ele sabia que algo estava errado.
— Não — respondi com um suspiro pesado. — Pelo menos não por enquanto.
Ele começou a se afastar, mas pus a mão em seu braço para detê-lo.
— Amon? — chamei. — Você pode... — Mordi o lábio com os dentes antes de continuar: — Você pode me ensinar a colocar o seu escaravelho do coração num lugar mais seguro?
Amon inclinou a cabeça, me examinando.
— Quer dizer, guardá-lo como eu faço?
— Sim. — Fiz um gesto com as mãos. — Não agora, só quero saber como fazer quando estiver preparada.
— Entendo.
Ele parou por um momento, em seguida pôs a mão sobre o coração e tirou minha pedra. A joia reluzente brilhou na palma da sua mão. Fiquei com vontade de examiná-la mais. Não havia tido a chance de observar as diferenças entre a dele e a minha, mas sabia que tínhamos apenas alguns instantes até a volta de Ahmose e Asten.
— Para colocá-lo dentro de você — explicou ele —, basta pensar na pessoa amada enquanto segura o coração dela. E no que você sacrificaria para mantê-la em segurança. — Amon colocou a joia perto do peito e fechou os olhos. — Seu corpo absorve automaticamente a pedra, para protegê-la. — Lentamente o escaravelho se fundiu à sua pele. — Mas, Lily — disse ele assim que o escaravelho desapareceu —, depois de fazer isso, o seu coração só vai ansiar por essa pessoa. É um compromisso que não pode ser rompido.
Pus a mão sobre seu coração.
— E você fez isso por mim? — murmurei.
— Fiz. E não me arrependo.
Mais do que qualquer coisa, desejei ser capaz de retribuir seu gesto doce naquele momento. Mostrar a Amon como eu me sentia. Que estava tão comprometida com ele quanto ele comigo. Mas eu não podia fazer aquilo. Ainda não. Em vez disso, ofereci-lhe um sorriso doce e um beijo suave.
— Prometo que seu escaravelho logo estará ao lado do meu coração — falei.
Amon me abraçou e aninhou minha cabeça sob seu queixo enquanto acariciava meus cabelos.
— Encontramos um caminho! — gritou Ahmose entrando no acampamento.
Afastei-me de Amon, lamentando não ter sido mais rápida ao ver a expressão de dor no rosto de Ahmose e no de Asten. Mesmo assim, consegui lhes dar um sorriso de encorajamento.
— Vamos indo, então — falei. — Temos muito a fazer.


À tarde escalamos um pico alto. O vento trazia um cheiro terrível e familiar de deterioração e podridão. Quando chegamos ao cume, olhamos para baixo e minha respiração ficou presa no peito. Vínhamos viajando por florestas densas cheias de caça. Agora, vendo o que se estendia à nossa frente, entendi por que a floresta estava tão apinhada de animais.
— Tudo queimado — falei. — O que poderia ter feito isso?
As grandes árvores e as colinas estavam enegrecidas, e os tocos restantes pareciam fileiras e mais fileiras de lápides. Havia buracos no chão, onde os animais que tinham tocas haviam tentado se esconder, mas dava para sentir o cheiro de suas carcaças calcinadas apodrecendo. Um monte escuro se mexeu e se desfez. Um grito ressoou quando uma massa de seres alados, pássaros parecidos com morcegos, saiu de cima de uma criatura caída e subiu no ar.
Ao reconhecê-los, deixei escapar um silvo.
— Eles não deveriam estar em Heliópolis — falei baixinho, o horror tomando conta de mim.
— Não — concordou Ahmose. — Eles só aparecem quando sua senhora está por perto.
— A Devoradora está aqui — disse Amon, a voz falhando.
Não havíamos tido muito tempo para conversar sobre o que ela havia feito com ele, mas eu tinha uma boa ideia. Se ela estava em Helióplis, coisas pavorosas vinham acontecendo.
— Mas certamente os deuses... — comecei.
— Se ela está aqui — disse Amon —, é possível que eles tenham abandonado a cidade.
Agachamo-nos atrás de uma pedra grande, esperando que as criaturas parecidas com morcegos deixassem o vale. Se nos vissem, certamente alertariam sua senhora.
— Eles estão indo para Heliópolis — afirmou Ahmose. — Tenho certeza.
Depois de uma breve discussão, decidimos permanecer no caminho para Heliópolis. Entraríamos na cidade ao escurecer e tentaríamos descobrir o que estava acontecendo antes de darmos o próximo passo. Asten usou sua capacidade para nos encobrir com uma névoa de sombras e Ahmose escondeu o sol atrás de nuvens enquanto descíamos a encosta.
Quanto mais perto chegávamos da cidade, mais terrível a situação parecia. Onde houvera construções reluzentes, com plantas verdes pendendo como véus nas laterais e pontes ligando-as entre si, agora víamos cascas arruinadas. Parecia que bombas tinham sido jogadas sobre toda a cidade. Grandes crateras estavam cheias de entulho e pedras. O grande estábulo e os jardins de Osíris estavam completamente arrasados. Até o rio, normalmente de um roxo brilhante onde tocava a margem, estava quase preto e destroços eram lançados de um lado para outro na praia.
Não havia sinais dos cidadãos que tinham seu lar na cidade. Eu não sabia se isso era bom ou ruim. Sabia que a Devoradora gostava de juntar pessoas e se alimentar delas. Talvez já tivesse comido todo mundo. Mais provavelmente estava com todos trancados para uma diversão fácil. Onde estaria Amon-Rá? Como ele podia abandonar sua grandiosa cidade?
Olhei a torre alta onde Amon-Rá morava e de onde governava. Ainda estava intacta. Talvez ele ainda estivesse ali. Talvez tivesse conseguido impedir a Devoradora de entrar e ele e seu povo estivessem trancados lá dentro.
Quando apontei para ela, todos concordaram que precisaríamos saber, por isso buscamos um lugar onde pudéssemos ficar escondidos até a noite. Eles encontraram uma casa meio destruída que devia ter pertencido a um sapateiro, pois havia pedaços de calçados inacabados por toda parte, além de moldes de solas de tamanhos diferentes. Asten e Amon remexeram no entulho até que cada um encontrou um par que lhes servia. Ahmose usou sua pouca energia para curar os pés feridos e doloridos dos dois e, quando terminou, sentou-se, ofegante. Tínhamos descoberto, para minha consternação, que a Estela de Cura de Hórus só funcionava em mim.
De onde eu encontrava sentada, fitei Ahmose e falei:
— Você não acha que deveria me contar o que fez?
— Você não sabe? — perguntou Amon, a surpresa evidente em seu rosto.
— Não. Ele não quer me contar. Só sei que fez alguma coisa para me salvar e se exauriu a ponto de nem mesmo Wasret conseguir consertar. Pelo menos não sem canalizar seriamente seu poder.
— Não foi nada — disse Ahmose. — Qualquer um de nós teria feito o mesmo. Além disso, agora não importa.
Suas palavras simples eram tremendamente reveladoras. Eu sabia que ele não estava mais falando sobre a fraqueza de seu corpo.
— Para mim, importa.
Ahmose ergueu a sobrancelha, no rosto uma expressão de teimosia, e me dirigiu um olhar que eu entendia bem.
Estreitei os olhos.
— Ei. Apesar do que você pensa, eu não o traí. Se alguém estava induzindo alguém, era mais você do que eu. Pelo menos eu tinha a desculpa da perda de memória. Você sabia. Você sabia como eu me sentia e optou por agir assim mesmo.
— Talvez sua memória não esteja tão intacta quanto você acredita, amor. Eu não a pressionei a fazer nada que você não quisesse.
— Seja como for...
— Lily? — Amon tocou meu braço e eu fechei a boca imediatamente, sentindo o rosto esquentar. Tínhamos uma plateia, na verdade uma plateia muito incômoda. — Talvez você devesse retornar à sua questão original. Ahmose sempre foi hábil em distrair a mim e a Asten de qualquer coisa que ele não quisesse contar.
Asten, no outro canto, deu uma risadinha.
Cruzei os braços e lancei um olhar muito sério a Ahmose.
Suspirando, Ahmose levantou um joelho e o envolveu com as mãos.
— Eu abri mão de parte de mim para salvar sua vida quando você morreu com a picada da serpente.
Meu queixo caiu, mas, de algum modo, consegui falar.
— Eu... — gaguejei. — Eu... morri?
— Você estava quase morta quando bateu na água. Quase todos os ossos do seu corpo se despedaçaram com o impacto. Com o veneno de Apep correndo nas veias, seus poderes foram quase anulados. Quando a água entrou nos seus pulmões, você se afogou. Cherty descobriu suas três almas trêmulas encolhidas num canto do navio. Tivemos de trabalhar juntos para curar você e colocar todas de volta no lugar.
Vocês têm alguma lembrança disso?, perguntei a Tia e Ashleigh.
Quando elas responderam que não, perguntei:
— O que você fez?
— Tirei seu corpo da água, usei meu poder para limpar o líquido dos seus pulmões e depois disse a Cherty que colocasse vocês três no corpo. Ele, claro, disse que não podia fazer isso. Pelo menos não sem que eu pagasse um preço alto.
Engoli em seco.
— Com que você pagou?
— Você deve entender que Cherty, se pudesse, teria feito mesmo sem o pagamento, mas o Cosmo exigia um equilíbrio, uma troca.
— Quanto? — perguntei de novo, tremendo enquanto esperava a resposta.
Ahmose ficou em silêncio.
Como ele não falava, Amon interveio:
— Ele precisou dar alguma coisa em troca de cada uma de vocês. Vocês se lembram dos jarros canópicos? Que eles contêm energia suficiente para nos sustentar enquanto estamos vivos?
Confirmei com a cabeça.
— Ahmose abriu mão de três dos seus quatro jarros — prosseguiu Amon. — Por Tia, ele abriu mão de seu domínio sobre os animais. Por Lily, abriu mão da capacidade de extrair energia da Lua. E, por Ashleigh, abriu mão das asas.
Pude ouvir Ashleigh soluçando no fundo da minha mente. Lágrimas quentes também ardiam em meus olhos.
— Foi por isso que ele não conseguiu se transformar no grou — murmurei.
— Sim. E também é por isso que ele está tão exaurido. Ele não ousou abrir mão de seu dom de desbravador nem da capacidade de curar os outros. E, obviamente, ainda precisava da capacidade de comandar o tempo. Mas, sem tirar energia da Lua, ele mal consegue se sustentar. Todos os poderes que manteve se enfraquecem se não são renovados, especialmente quando ele os usa com muita frequência.
Olhei para Ahmose, que estava examinando as próprias mãos cruzadas. Depois de apertar a mão de Amon, fui até Ahmose e segurei seu braço pesado, passando-o pelos meus ombros.
— Obrigada — falei, dando um beijo suave em seu rosto.
Ahmose suspirou fundo e me puxou para mais perto, de modo que eu pudesse pousar a cabeça em seu peito.
— Como eu disse — seu peito ribombava sob o meu rosto enquanto ele falava —, qualquer um de nós teria feito o mesmo.
A sala ficou silenciosa. Devíamos ter dormido, porque toda aquela conversa parecia um sonho, até que acordei envolta nos braços fortes de Ahmose. Ele piscou, abrindo os olhos, e esfregou minhas costas. O luar se derramava sobre nós por uma janela quebrada e eu me desesperei, pensando que ele não podia mais obter forças dos raios prateados. Com um sorriso de desculpas, deixei-o e fui até a porta aberta que pendia frouxamente das dobradiças, onde Amon estava.
Ele roçou os lábios na minha testa e me lançou um olhar pungente, um olhar que dizia que entendia e não precisava ser tranquilizado por mim.
Estendi a mão e ele a segurou, prendendo-a calorosamente na sua.
— Você acha que é seguro tentar entrar lá agora? — perguntei.
— Se vamos tentar, agora é a hora certa — replicou ele.


O vento corria pelos espaços entre as casas e as lojas, assobiando lugubremente e gemendo feito os fantasmas plantados no Pântano do Desespero enquanto íamos em direção à torre.
Finalmente encontramos uma entrada escura para a torre que estava aberta. Eu já ia sair ao luar para ir até lá quando Asten me puxou de volta e apontou para cima. No alto da torre, quase escondidas na construção, havia grandes criaturas com asas espessas.
— O que são essas coisas? — sussurrei. — São muito maiores do que os morcegos da Devoradora.
— Ouvi falar neles, mas nunca tinha visto nenhum, nem no mundo dos mortos. São chamados de demônios do céu. Você poderia pensar que são gárgulas, mas eles são muito, muito piores do que qualquer coisa que o mundo mortal possa imaginar. São um cruzamento entre os lacaios alados da Devoradora e seus lobos.
— Como vamos passar por eles?
Em resposta, Asten criou uma de suas nuvens de vaga-lumes mágicos. Entramos todos nela e começamos a atravessar lentamente o terreno enluarado em direção à torre. Um guincho veio lá de cima, seguido por outro. Eu teria corrido, mas Amon me conteve.
— Eles sabem que estamos aqui. Podem sentir nosso cheiro, mas não podem nos ver — sussurrou.
Criaturas aladas decolaram, enxameando o ar com seus corpos escuros. Moviam-se acima da terra como bolas espelhadas de discoteca captadas em negativo. Quando finalmente atravessamos a porta, Asten deixou sua magia se esvair e prosseguimos pelo interior da torre.
Os corredores estavam escuros; os candelabros nas paredes, apagados. Belíssimos espelhos dourados tinham sido estilhaçados; cortinas diáfanas, rasgadas; as varas, quebradas. Até o piso de ladrilhos antes brilhante tinha sido destruído, seus lindos padrões arruinados.
Subimos um andar após outro, encontrando apenas destruição. Por fim alcançamos o último, onde Amon-Rá morava. Quando chegamos ao átrio grandioso onde eu havia conhecido Hórus, levantei a mão. Tinha ouvido alguma coisa. O ofegar de um homem ou de um animal e o retinir familiar de correntes.
Fui me esgueirando por trás de uma cortina e olhei a cena à minha frente. A fonte dourada fora derrubada e as árvores haviam sido reduzidas a tocos queimados. No divã onde Hórus tinha tentado me seduzir, havia uma figura reclinada. Parecia estar totalmente sozinha e seus membros estavam acorrentados ao chão.
Em silêncio, dei a volta para ter uma visão melhor, com os Filhos do Egito me seguindo. Parávamos com frequência, a leoa dentro de mim paciente e atenta. Juntos esperamos e tentamos ouvir qualquer sinal de alerta por parte do homem, mas ele parecia estar dormindo. Minhas narinas se abriram quando senti cheiro de suor e sangue. Chegamos mais perto.
Puxando a cortina para olhar melhor, vi o hematoma roxo na lateral do rosto do homem. De repente ele se mexeu, o olhar se fixando nos meus olhos.
— Lily — disse ele num sibilo engasgado, a boca inchada mal conseguindo formar as palavras.
Saí do meu esconderijo.
— Osíris? — perguntei. Quando vi o que tinha sido feito com ele, me encolhi. Sua perna, do joelho para baixo, havia sumido. O coto estava coberto por ataduras frouxas e ainda sangrava. Havia um machado de duas lâminas encostado à parede, com manchas vermelhas nos gumes. Ajoelhei-me ao lado dele, pondo a mão em seu braço trêmulo. — O que aconteceu com você? — perguntei, a voz embargada.
— Não há tempo — murmurou ele. — Você precisa se juntar aos outros. Estão escondidos no grande ovo de serpente. No topo do monte Babel. — Ele tossiu e o sangue escorreu de sua boca. — Ela não pode encontrar você aqui!
Amon e Asten surgiram por trás de mim. Osíris olhou para eles, suplicante.
— Por favor — disse com um gorgolejo — levem-na. Agora!
— Mas podemos ajudar você — comecei.
— Não devem fazer isso. Ela vai saber que estão aqui. Não se preocupem comigo — disse quando viu a hesitação no meu rosto. — Ela só pode fazer mal ao meu corpo. Minha alma pertence a Ísis. Enquanto ela estiver viva, eu sobreviverei.
Ouviu-se um barulho no corredor ao lado.
— Vão! Depressa!
Um instante depois de nos enfiarmos atrás da cortina ouvimos o ruído de saltos quando alguém entrou na sala.
— Estamos falando sozinhos agora, Osíris? Algum passarinho veio visitar você? Não? Ah, bem. Ainda podemos ter esperança. Bom, meu bichinho bonitinho, onde é que estávamos? — Ela deu uma risada sedutora. — Isso mesmo. Estávamos discutindo onde sua mulher pode estar escondida. — Como não houve resposta, ela continuou: — Não se desespere. Tenho a intenção de ficar com você para mim assim que meu senhor a tomar como esposa. Afinal de contas, vou precisar de alguém para me distrair. Pelo menos por um tempo. Vai ser um tremendo prazer olhar a chama do amor entre vocês tremular e morrer enquanto ele desfaz o laço entre os dois.
Meus punhos se fecharam escutando a voz da mulher que eu tinha passado a odiar. Só as mãos de Amon nos meus braços me impediam de atacá-la. Uma luz verde se esgueirou por baixo da cortina. Eu sabia que isso significava que a Devoradora estava se alimentando de Osíris. Enquanto ela estava ocupada com ele, recuamos em silêncio, mantendo-nos por trás da cortina. Asten nos cobriu com sua nuvem cósmica para não sermos notados.
Parecia errado demais dar as costas ao deus capturado, mas, a não ser que eu estivesse disposta a me entregar a Wasret outra vez, sabia que não éramos páreo para a Devoradora. Fechei os olhos e deixei as lágrimas correrem em silêncio ao sairmos da sala. Assim que nos vimos fora, descemos rapidamente as escadas, sabendo que precisávamos encontrar os outros imortais para traçar um plano.
Apertei a mão contra a boca quando Osíris começou a gritar.

3 comentários:

  1. Gente, espero que a Ísis arranque a cabeça dessa víbora putrificada :(

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  2. Essa demônia tem que morrer lentamente. ..

    Flavia

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Boa leitura, E SEM SPOILER!