8 de março de 2018

2. Sou uma o quê?

Vovó pigarreou.
— Talvez devêssemos recomeçar — disse e então estendeu a mão. — Meu nome é Melda.
— Pode me chamar de Oscar — replicou o homem, apertando a mão dela e abrindo um sorriso caloroso. — Prazer em conhecê-la, Melda.
Se eu estivesse no comando do meu corpo, teria franzido a testa diante do bligeiro rubor que tingiu as bochechas dele quando percebeu que estava segurando a mão de vovó por alguns segundos a mais do que o necessário.
— Bom, então acho que eu deveria começar contando a... como era mesmo? Ah, sim, a versão simplificada dos acontecimentos.
Ele começou a contar a mais fantástica das histórias, envolvendo múmias, um necromante, uma diaba maligna sugadora de almas, deusas e muito, muito mais. Enquanto o homem continuava com a história, minhas vozes internas ouviam com muita atenção, fazendo pequenos comentários e acrescentando detalhes quando ele chegou às partes em que elas apareciam.
Todo mundo aparentava estar muito seguro de que as coisas incríveis que ele descrevia tinham acontecido de verdade. Eu não conseguia acreditar. Aquilo tudo não podia se referir a mim. Por que eu sairia de Nova York para seguir uma múmia? Me arrastar através de tumbas mortais cheias de armadilhas e lutar contra zumbis? Além disso, tinha sacrificado minha vida só para que ele salvasse o mundo? Eu devia ser mais altruísta do que pensava.
Aparentemente eu estava outra vez disposta a salvar o mundo entrando no inferno ou, sei lá, no mundo dos mortos, para encontrar esse tal cara, que era uma múmia, e levá-lo de volta para o além de modo que ele pudesse continuar fazendo seu trabalho. Claro, o trabalho dele parecia bem ingrato. Só tinha duas semanas vivo, depois precisava morrer para manter um tal deus maligno na prisão, o que claramente não funcionava, já que esse vilão tinha escapado e estava iniciando uma guerra.
Era uma boa história e as vozes na minha cabeça acreditavam que era absolutamente verdadeira, mas alguma coisa parecia estranha. Qual era a minha motivação? Por que eu iria embora e faria todas essas coisas? Como eu podia ser uma deusa? Ou uma esfinge, ou sei lá o quê? Eu não era uma guerreira.
Quando Tia sentiu minha dúvida, parou a conversa e disse:
— Lily precisa ver uma coisa.
Oscar e vovó assentiram e me acompanharam, saindo da casa. Tia parou perto do celeiro, ajeitou um monte de feno e perguntou a Hassan:
— Você está com nossas armas?
Ele assentiu e pegou uma mochila dentro do celeiro.
— Escondi aqui, depois de Anúbis sair.
Abrindo a mochila, ele me entregou um arco e uma aljava de flechas, depois pousou no chão um arnês com duas facas de aspecto maligno, cruzadas, projetando-se do topo.
— Acho que vamos experimentar o arco primeiro.
Com uma destreza inesperada, que só podia ser resultado de anos de treino, meus dedos ajustaram uma flecha, puxaram a corda e a fizeram voar com um estalo. A ponta se cravou no fardo de feno com força suficiente para uma nuvem de palha turvar o ar. Se eu tivesse controle do meu corpo, bateria palmas para ela.
Minha voz suspirou.
— Lily acredita que a habilidade é minha — disse Tia.
Que tal as facas?, sugeriu a fada irlandesa.
Dando de ombros, meus dedos se estenderam e pegaram o arnês. Joguei-o sobre os ombros, prendendo-o rapidamente no lugar. Sem nem pensar, corri, pulei por cima de um cocho d’água, puxei as facas das costas e fiz uma manobra de artes marciais espetacular. Rolei, apertei os botões que havia nas facas, que as fizeram se alongar até virarem lanças, e cravei as duas no espantalho do jardim da vovó. A palha do enchimento no peito dele explodiu, lançando no ar tufos dourados que desceram suavemente até o chão. A vítima desmoronou numa pilha de trapos velhos.
Uau!, pensei. Isso foi incrível! Parabéns!
Nós seríamos mais poderosas ainda se você se juntasse a nós, Lily, grunhiu Tia.
Se eu me juntasse a vocês? Ahhh... já estou aqui. Presa a vocês, por assim dizer.
Esse poder não é só nosso. Nós o compartilhamos com você. Na verdade, você já o tinha antes de eu subir a bordo.
Tenho certeza de que não sou eu que estou fazendo essas coisas, falei. Na verdade, nem sei por que estou conversando com vocês, que não passam de manifestações da minha loucura. Isso tudo é provavelmente um sonho complicado, e em algum momento vou acordar num hospital, sendo atendida por um médico jovem e lindo que vai dizer que eu finalmente me livrei do que quer que tenha provocado essa alucinação e que ele quer me convidar para sair. Com sorte, isso tudo vai ser só o resultado de uma pancada feia na cabeça.
Outro rosnado soou nos recessos da minha mente e senti medo. Eu tinha deixado Tia com raiva.
Como você ousa!, vociferou ela. Você desconsidera nossos feitos. Nossos sacrifícios. Se não acredita nas nossas capacidades, acredite nisto!
Minhas mãos foram erguidas de modo que pude vê-las claramente e então observei horrorizada os dedos se alongarem, formando garras com uma falange extra. Minha visão ficou mais aguçada e focalizei um inseto minúsculo que andava num tomateiro da vovó. Eu podia ver até os pelinhos nas costas dele. Houve um estalo e pude ouvir o farfalhar das folhas, embora não houvesse nenhum vento soprando na árvore grande atrás do celeiro.
Então escutei o som áspero de algum bicho no subsolo, cavando. Farejei o ar e percebi que o animal estava a mais de um quilômetro de distância.
Entrei em pânico e tentei apertar os olhos com as palmas das mãos, mas ainda não conseguia me mexer. Olhei para minhas mãos e fiquei horrorizada.
Não, não, não!, gritei repetidamente, incapaz de desviar o olhar, mas desesperada para fazer isso.
— Ela está com medo — disse Tia, desconsolada. — Não consegue aceitar o que somos. Tenho medo de que esteja tudo perdido.
— Nada está perdido até estar morto e enterrado — interveio vovó, a voz ressoando uma convicção de aço. — E mesmo então não tenho tanta certeza.
Ela se aproximou, parou à minha frente e pôs as mãos nos meus ombros — quentes, pesadas e tranquilizadoras.
— Agora ouça, Lilypad. — Era reconfortante tê-la ali, ouvir sua voz familiar. Um pontinho de normalidade num oceano de confusão. — Compreendo que essa coisa toda é meio perturbadora, mas não consigo aceitar um mundo em que você fique isolada de mim. Essa coisa é tremendamente estranha, sem dúvida, mas as mulheres da família Young levantam a cabeça e fazem o que é necessário. Não me surpreende nem um pouco que você tenha salvado o mundo duas vezes. A neta que eu conheço jamais se esquivou do que é importante, e isso parece bem importante.
Vovó acariciou meu rosto e depois deu tapinhas de leve nele.
— E mais: suspeito que o rapaz que você amou e perdeu era o mesmo que você foi salvar, não era?
Ela fitou os meus olhos, buscando confirmação, mas, mesmo que eu soubesse a resposta, não conseguiria mover os lábios para formar as palavras.
Por algum motivo, minhas duas vozes internas silenciaram nessa questão.
— Humpf — grunhiu vovó, e em seguida olhou para Oscar, mas ele apenas deu de ombros e levantou as mãos, como se também não quisesse comentar o assunto. — Certo, Lilypad. Vou lhe dar um tempo para pensar nisso enquanto conheço melhor essas duas garotas que estão visitando você e decidimos o que fazer em seguida.
Ela fazia parecer que eu estava tendo uma festinha do pijama e ela estivesse determinando as regras básicas.
— Mas espero que você se esforce bastante para aceitar a situação. A negação não é bem-vinda na minha fazenda. — Ela apertou meu ombro com um leve indício de preocupação nos olhos. — Quanto antes resolvermos essa confusão, mais cedo terei minha neta de volta.
O estrondo de um trovão ribombou no céu e um vento forte soprou meu cabelo, afastando-o do rosto. Nuvens escuras, roxas, se agitavam no céu como uma cavalaria do deserto. Grossas gotas de chuva caíram no chão, seguidas imediatamente por granizo. O som era ensurdecedor. Eu quis cobrir a cabeça com o braço, mas a que estava no comando do meu corpo ergueu o rosto e farejou.
— O que é isso? — perguntou ela.
— A batalha de Heliópolis começou — sussurrou Oscar.
— Venham — disse vovó. — Vamos entrar.
Depois de finalmente conseguirmos fechar a porta, que batia com violência, nos apinhamos em volta da pequena mesa da cozinha, espiando pela janela manchada pela chuva, as gotas grandes borrando tudo lá fora. O granizo batia no telhado com tanta força que eu me encolhi, torcendo para que a tempestade não arrancasse as telhas.
Oscar pigarreou e deu as costas, decidido, para a janela que sacudia.
— Não podemos fazer nada com relação a isso agora. Nosso trabalho é ajudar a preparar Lily.
— E para quê, exatamente, vamos prepará-la? — perguntou vovó.
— Ela precisa assumir o poder completo. Só então poderá derrotar o maligno.
— Derrotar? E como isso aconteceria, exatamente?
— Há muitas coisas que eu não sei, mas animem-se. Como viram, ela é perfeitamente capaz de desempenhar o papel de guerreira.
— É, mas...
A mão de Oscar cobriu a de vovó.
— Ela é a única esperança do mundo. Devemos ajudá-la a acreditar nisso. O resto vai se resolver sozinho.
Vovó pôs a outra mão sobre a dele.
— Era o que meu falecido marido sempre dizia. — Ela lhe dirigiu um sorriso lacrimoso, deu tapinhas na mão dele e depois ajeitou o cabelo para trás, prendendo os fios soltos no coque à nuca. — Muito bem, então, por onde começamos?
— Sugiro que comecemos traduzindo o pergaminho. Você poderia fazer o favor de tomar notas?
Vovó assentiu e tirou sua lista de tarefas da geladeira, prendendo a primeira folha de volta na superfície branca e trazendo o bloco e a caneta para a mesa. Só vovó acharia que ainda precisava guardar a lista de compras quando o apocalipse estava chegando.
Essa era mesmo minha avó. O que estava acontecendo comigo não era um sonho. Era real. Eles estavam certos. Eu poderia lutar contra tudo aquilo — dar murro em ponta de faca, para usar uma expressão que vovó dizia frequentemente — ou poderia levantar a cabeça e fazer o máximo para entender tudo. Quando Oscar começou a traduzir e vovó a anotar, prestei muita atenção.
— Esta passagem se refere às Fúrias. Elas possuem a chave que destranca o armazém onde são guardados os raios de Zeus. Viajam pelo céu à noite cantando sobre a justiça enquanto a luz da Lua marca seu caminho. Os maus escutam as vozes das filhas da Terra e sabem que, quando a canção terminar, o silêncio sem vento da morte virá para eles. As Fúrias estão para sempre ligadas aos deuses do Sol, da Lua e das estrelas, e, quando a vida delas se esvai, o Sol e a Lua são eclipsados e as estrelas caem do céu. Com tristeza, a Lua põe sua imagem sobre o próprio rosto para que todos vejam. — Oscar fez uma pausa. — Acredito que esta seja uma referência a Amon, Asten e Ahmose. Eles são os deuses associados ao Sol, à Lua e às estrelas.
Espere um segundo. Isso quer dizer que nós vamos morrer?
— Você está falando sobre nossa morte? — perguntou Tia, ecoando meus pensamentos.
— Não há como saber — respondeu Oscar.
Tia apenas assentiu, como se resignada aos fatos.
— Por favor, continue.
Por que isso não incomoda você? A nossa morte?, perguntei a ela.
Eu já morri uma vez, replicou ela. Aceitei isso há muito tempo.
Fale por você. Não quero abandonar o fantasma tão cedo, disse a outra voz.
Vou lhe lembrar que um fantasma é tudo que você é neste momento, disse Tia. Seu corpo não existe mais.
Nem o seu, retrucou a outra, irritada.
Obviamente.
Qual é o seu nome?, perguntei. Sei que a que está no comando é Tia. Mas quem é você?
Pude sentir o prazer que a outra experimentou quando falei com ela.
Sou Ashleigh, respondeu a voz. Sou uma fada. Pelo menos era. Vim da Irlanda.
Uma fada irlandesa. Claro. Por que não?
Prazer em conhecê-la, eu disse.
Então me concentrei de novo na voz de Oscar:
— A serpente ouve o lamento dela e emerge de seu covil, onde ela irá amarrá-la com uma corda. Ah — o erudito deu um tapinha no pergaminho — isto é uma descrição da Pedra da Deusa Tripla. É bem famosa. A inscrição na pedra se refere a uma deusa chamada Qetesh, que tem muitos nomes. A daqui indica especificamente que ela é a Senhora de Todos os Deuses. Seus símbolos são o leão e a esfinge. E, aqui, veja a arma que ela segura.
Ele virou o pergaminho para vovó olhar. Ela pôs os óculos de leitura e fitou o lugar para onde ele apontava.
— São as facas-lanças dela?
— Acredito que sim. — Oscar bateu no lábio, pensando na imagem. — A deusa mencionou sereias. Elas também cantam para atrair os homens e prendê-los. Talvez a canção de Lily seja o que será usado para prender Seth.
— Nós não cantamos — observou Tia, bufando.
— Cantar não precisa significar alguma coisa musical. Pode ser algo entoado ou um encantamento.
— Nós temos o poder dos nomes. — Ashleigh se empertigou, assumindo o controle.
Embora fosse o meu corpo falando, a voz soava diferente. Havia um nítido sotaque cadenciado.
Vovó sorriu.
— Você deve ser a fada.
— Ashleigh — disse ela. — Prazer em conhecê-la.
— Pode nos falar mais sobre os nomes, Ashleigh? — perguntou vovó, com a caneta a postos.
— Nós descobrimos os verdadeiros nomes das coisas. Isso nos dá poder sobre elas.
— Nomes, nomes... Sim, aqui há um trecho que fala do poder dos nomes. Diz: aquela que possui os olhos para ver, o coração para sentir e a alma para alcançar terá o poder de discernir todas as coisas. Ela, e somente ela, possuirá o poder de dar nomes e derrotar o Caos. — As sobrancelhas de Oscar se ergueram e ele se recostou na cadeira. — Será que pode ser tão simples assim?
Vovó passou o dedo no lábio.
— Nada é simples como parece. O que é que tem nessa parte?
— Este pedaço se refere à deusa Hécate.
— Ela é grega? — perguntou vovó.
— É. Além disso, é também uma deusa tripla. Neste desenho ela segura uma chave. — Ele fez uma pausa. — Interessante. Esta é a segunda vez que uma chave é mencionada. — Continuou: — Ela é guardiã das encruzilhadas e comumente considerada aquela que guia os fantasmas pelo caminho certo. Dizem que seu destino é lutar contra os Titãs. É honrada pelos deuses imortais, que irão se tornar seus reis adoradores. Seu animal símbolo é o cachorro e ela costuma ser representada com eles.
— Cachorros. — Tia fungou. — Não temos utilidade para eles.
— A não ser que isso se refira aos cães do inferno no mundo dos mortos. Eles se tornaram nossos serviçais depois que demos nomes a eles — acrescentou Ashleigh.
Oscar levantou a cabeça.
— Você se lembra do nome de algum deles?
— Claro. — Ashleigh riu. — Quem pode esquecer Aquele que Esvazia a Bexiga ao Vento? É um nome que jamais esquecerei.
— Você pode chamá-lo? — perguntou Oscar.
— Chamar o cão do inferno? — disse Tia. — Podemos tentar. — Ela fechou nossos olhos e gritou: — Venha até nós, Aquele que Esvazia a Bexiga ao Vento!
O ar se agitou à nossa volta e ouvimos um ganido precedido por um rosnado.
Você precisa nos ajudar, Lily.
Não sei o que fazer.
Junte sua mente à nossa, incentivou Ashleigh.
Eu não tinha ideia do que elas queriam de mim, mas, ao ser instigada, tentei fazer o que pediam.
Tia começou a respirar regularmente, concentrando-se, e algo dentro de mim mudou. Foi quase como se eu cruzasse os braços diante do peito e caísse para trás, confiando em Tia e Ashleigh para me segurar. Elas me prenderam num abraço tão forte que eu não conseguia saber onde eu terminava e elas começavam. Com uma só voz entoamos:
— Venha até nós, Aquele que Esvazia a Bexiga ao Vento!
O ar se agitou, criando um redemoinho na cozinha. Senti a escuridão se aproximar, da mesma forma que podia sentir a aproximação de uma tempestade. Todos percebemos um cheiro pungente no ar. O odor de enxofre, carvão queimado e ozônio. Era o cheiro de um inimigo. Uma sombra escura se materializou, mandíbulas batendo enquanto uma voz ofegante sibilava:
— O que você quer?
Vovó arquejou e Oscar a envolveu com um braço, puxando-a para trás e posicionando-se na frente dela.
Eu não conseguia me lembrar do que aquela criatura tinha feito conosco, mas me lembrava do gosto de sua maldade e do cheiro de cobre do sangue que ele havia derramado.
— Você vai nos ajudar? — perguntamos.
— Não tenho escolha senão fazer o que vocês pedirem.
— Você tem visto sua antiga senhora? — perguntamos.
— Não desde que vocês duas desapareceram. — A cabeça da criatura virou fumaça e depois se solidificou num novo ângulo, seus olhos se viraram para o lado.— O que é? Diga o que você sabe.
— A rainha está viva. Ela luta ao lado do Obscuro.
— Então a Devoradora se juntou a ele?
— Ssssim. — A palavra saiu num sibilo.
— Você sabe quais são os planos dela?
— Apenas boatos.
— E estes são...
— Que os dois estão caçando você. Vão tentar encontrá-la ferindo as pessoas que você ama — replicou ele.
Minha mente se fragmentou.
— Asten! — gritou Tia.
A criatura sombria gargalhou.
— Até mais, deusa.
— Eu... eu ordeno que você fique! — gritou Tia.
— Você soltou a coleira — disse ele com um estalo das mandíbulas. — Corra, deusa pequenina, pois garanto que minha mordida é muito pior do que meu latido.
A criatura me atacou com as garras afiadas, mas nós a jogamos longe com um tapa. Mentalmente, Ashleigh segurou Tia e a puxou de volta para o lugar. Nós nos reconectamos e, em uníssono, ordenamos que o cão do inferno fosse embora. A fera sumiu num fiapo de fumaça no momento em que saltava na direção de Oscar, as mandíbulas escancaradas.
— Ora, isso sem dúvida foi interessante — disse vovó enquanto a aliança mental que eu tinha com as outras duas ia se desfazendo aos poucos.
— Se com interessante você quer dizer mortal, sim, foi interessante — replicou Oscar. — Parece que Ashleigh estava certa. Descobrir o nome das coisas é algo poderoso mesmo.
— Parece que sim — acrescentou vovó. — Tem mais coisas aí?
— Há a menção às Valquírias — disse ele, e começou a ler: — Elas atravessam o mar aéreo. Três moças entram, mas uma cavalga adiante, de pele branca por baixo do elmo, a luz do sol brilhando nas lanças. Os cavalos tremem e das crinas o orvalho cai vermelho-sangue nos vales profundos. — Ele levantou os olhos. — Parece que elas montam cavalos alados através das nuvens e entram na batalha escolhendo quem vai viver e quem vai morrer.
— Talvez você esteja falando dos unicórnios — disse Tia.
— Unicórnios? — perguntou vovó, o queixo caindo. — Será que isso ainda pode ficar mais bizarro?
— Receio que sim — respondeu Oscar. — Aqui há uma referência às três irmãs bruxas de Shakespeare, encontradas na peça Macbeth. Especificamente a fala “O bem é o mal, o mal é o bem” é mencionada.
De repente minha memória voltou ao dia em que almocei com as garotas do meu comitê de formatura. Eu as chamei de Irmãs Esquisitas. Engraçado. Acabou que eu é que era estranha o tempo todo. Havia um bloqueio mental, quase como estática que amortalhasse a memória. Por algum motivo eu tinha ficado agitada durante a reunião. Naquele dia tinha ido ao museu, tentando escolher que faculdade fazer. Era aí que a memória parava. Por mais que eu tentasse, não conseguia acessar a parte que faltava.
Não posso ajudá-la, disse Tia. Só posso compartilhar as coisas que você me contou e as lembranças que temos juntas. No entanto, suspeito que a coisa que você não consegue ver seja Amon.
Você se refere à múmia?
É. Você o ama, disse Tia na minha mente, em tom casual.
Amo?
Seria possível? Será que eu tinha me apaixonado por esse cara que eu vivia salvando? Eu não conseguia imaginar nenhum homem por quem arriscaria a vida. Especialmente alguém que fizesse um bico como múmia. Era uma ideia perturbadora.
— Então realmente nada é simples como parece — disse vovó, interrompendo meus pensamentos.
— Isso deveria ser óbvio — observou Oscar.
— Então qual deve ser nosso primeiro passo? — perguntou vovó.
Oscar comprimiu os lábios e me olhou, estreitando os olhos, como se pensasse nos méritos de um aspirante a aprendiz.
— Não podemos fazer nada com relação à memória de Lily, a não ser lhe dar tempo. Até que ela se recupere, sugiro que treinemos as garotas a usar a capacidade de descobrir nomes e praticar suas várias habilidades. Quando ela estiver pronta, poderá invocar os irmãos, chamando-os como fez com o cão do inferno. Sem o Olho de Hórus, nós não podemos chamá-los, e Amon só terá essa capacidade daqui a um milênio.
— Não podemos simplesmente tirá-los do além? — perguntou Tia.
Oscar balançou a cabeça.
— Até que os corpos e as almas deles estejam unidos, eles não podem deixar aquele reino. Mas vocês invocaram o cão do inferno e ele tinha forma física por baixo de toda aquela fumaça. Tenho certeza de que serão capazes de trazê-los.
E se não formos?, pensei.
— Lily duvida da nossa capacidade de fazer isso — explicou Tia.
Oscar se inclinou à frente e falou com convicção:
— Confio que, se pudermos de algum modo ajudar as Fúrias dentro de vocês a se manifestarem, descobriremos a chave para destrancar essa porta.
Talvez a chave de que ele falava também destrancasse minhas memórias.
Mas, por mais que eu quisesse lembrar, parte de mim estava apavorada. E se eu não pudesse fazer tudo o que eles esperavam? E se eu não estivesse pronta? E se eu provocasse a destruição do mundo? E se o inimigo que andava de um lado para outro do lado de fora dos portões, aquele cuja presença eu sentia tanto quanto a de Tia e Ashleigh, conseguisse nos encontrar? Agora nem a fazenda da minha avó era segura.
Enquanto pensava na ajuda de que eu sabia que precisaria, fechei os punhos, cravando as unhas nas palmas das mãos. Quando as abri, vi pequeninos sorrisos de meia-lua na carne zombando de mim. A ideia de trazer os irmãos fazia meu coração se apertar e o couro cabeludo formigar. Eu não sabia se isso era bom ou ruim, mas uma coisa era certa: minha vida estava prestes a mudar para sempre. Eu estava tão cheia de preocupações que nem notei que não fora Tia que cerrara os punhos.

6 comentários:

  1. Chamaram logo a vergonha da matilha kkkk ho nominho kkk

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  2. Agora vai começar a ficar interessante.

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  3. Gente... Fiquei com medo agora dessa perda de memória da Lily. Veremos o que nos aguarda...
    Obs: achei MUITO fofo a vó da Lily com a Hassan 😍😍

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  4. sempre as melhores histórias tem que ter uma perda de memória kkkkkk me faz lembrar de Patch e Nora :3

    - Fer

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Boa leitura, E SEM SPOILER!