9 de março de 2018

19. A barriga da fera

Encontramos a praia rapidamente. Os dois grandes pássaros examinaram o litoral em busca do Mesektet, mas Cherty tinha ido embora. Depois de um breve debate, Asten e Amon decidiram que a única opção era sair voando à procura dele. Só Cherty tinha a capacidade de se orientar no Rio Cósmico. Se tentássemos fazer isso, encontrar Heliópolis ou mesmo a Terra sozinhos, inevitavelmente iríamos nos perder. A alternativa era ficar na Ilha dos Perdidos com uma aranha faminta e um crocodilo vingativo grande o bastante para comer nós quatro e ainda continuar com fome.
Contei-lhes o aviso de Cherty: não olhar para trás, para a ilha, quando fôssemos embora, e então, voando, deixamos a praia. Amon subiu bem alto, mantendo o sol às costas. O Rio Cósmico fluía lá embaixo, estendendo-se até onde a vista alcançava. Logo entramos na névoa que cercava a ilha. Até bem depois de deixá-la, mantivemos os olhos voltados para a frente, torcendo para que a ilha e o sol sobre ela tivessem desaparecido. Eu sabia que, assim que ela estivesse fora do campo de visão, mesmo que quiséssemos encontrá-la de novo, provavelmente não conseguiríamos.
Meu senso de equilíbrio desapareceu, o que era preocupante, especialmente para a felina dentro de mim. Na verdade, logo ficou difícil discernir entre o espaço acima e o rio abaixo. Por duas vezes quase mergulhamos nele acidentalmente. Era como estar num salão de espelhos. No espaço.
A gravidade funcionava de modo diferente agora que não tínhamos as tábuas do barco de Cherty, sólidas, sob os pés. Meu cabelo subia, descolando-se dos ombros, e meu corpo parecia não ter peso. A única coisa que me orientava era estar agarrada com força em Amon. Ele estava preocupado. Assim como minhas passageiras interiores.
Ficar perdidos no rio era bastante fácil quando estávamos no barco, mas pelo menos ele fornecia algum senso de equilíbrio, de normalidade, no terreno cósmico e móvel. Bastaria um escorregão e mergulharíamos de cabeça no rio, virando o jantar das criaturas que assombravam as águas escuras. Eu sabia que Apep ainda estava ali, e também sabia que o único modo de impedi-lo de nos devorar era Wasret.
Nenhuma de nós estava ansiosa para se entregar a ela de novo. Pelo menos não enquanto nos restasse qualquer outra escolha. Amon tinha nos trazido de volta. Eu não sabia se ele conseguiria fazer isso uma segunda vez. Era um risco grande demais.
Voamos durante horas e horas. A vigilância necessária para nos manter acima do rio estava cobrando um preço alto, especialmente dos pássaros. Eu sabia que Amon e Asten precisavam de comida. Seus novos corpos estavam famintos quando acordaram, mas nem eu nem Ahmose tínhamos nada para dar a eles. As duas múmias recém-despertadas estavam fazendo todo o trabalho, e dava para ver que sua energia começava a diminuir.
Ahmose se esforçava ao máximo para encontrar um caminho, mas agora que tinha localizado os irmãos a trilha que buscava estava menos clara. Os Filhos do Egito sempre tiveram um senso de orientação em relação a todas as outras coisas no Cosmo, mas o Rio Cósmico era diferente. Era selvagem e indomado. Regras medíocres como gravidade e direção não se aplicavam muito a ele. Agora que os irmãos estavam fortalecidos pelo reencontro, Ahmose deveria ter se recuperado. No entanto, ele estava totalmente sem senso de direção. Era isso que, aliado ao fato de viajarmos pelo rio, nos deixava voando às cegas.
— Pegue minha energia — implorei a Amon quando ele tombou para um lado inesperadamente, lutando em seguida para se aprumar.
Nosso elo contínuo ainda permitia uma troca de energia, mas Amon era muito teimoso e parecia decidido a impor limitações extremas à minha oferta. Ele cedeu, mas só pegou o suficiente para sustentar o voo.
Enquanto eu acariciava as penas do seu pescoço, forcei minha energia para dentro dele. Ela escorria das pontas dos meus dedos para seu corpo numa lentidão frustrante. Isso me exauriu, mas nem de longe tanto como quando eu era totalmente humana. Percebi que Tia e Ashleigh também estavam compartilhando sua energia.
Continuamos assim por um bom tempo. Ashleigh e Tia estavam frustradas porque não podíamos ajudar Asten e Ahmose do mesmo jeito. As duas debateram sobre como poderíamos fazer isso. Eu não sabia quanto da nossa força combinada estava mesmo ajudando Amon, mas começamos a nos sentir sem energia. Logo tombei sobre seu pescoço, exausta, mas mantive as mãos apertando-o com força. Depois de mais uma hora, ele interrompeu o fluxo totalmente, insistindo que havia aceitado o suficiente.
Basta, Nehabet, disse.
Estremeci, sem perceber como tinha chegado perto de cair no sono.
Esfregando os olhos, falei:
— Mas é você quem está voando. Eu só estou aqui montada, e faz menos de um dia que comi.
Ahmose e Asten viraram a cabeça para nos olhar. Minha voz tinha atravessado o espaço e me encolhi, esperando não ter falado alto a ponto de atrair a atenção de Apep.
Não, contrapôs Amon com paciência, você esteve no Poço das Almas por mais de um dia, lembra? Além disso, não vou deixá-la enfraquecida a ponto de cair. Perder você no rio seria impensável. Você sabe o que vive nessas águas.
Estremeci. Nesse ponto ele tinha razão. Eu não queria mesmo cair.
Olhando à esquerda, vi Asten planando, preservando o máximo de energia possível.
— Como eles estão? — perguntei, a voz mais contida.
Como eu tinha contato direto com Amon enquanto ele estava em sua forma de pássaro, ele podia falar comigo mentalmente, assim como Tia e Ashleigh. Ele também podia ouvir os irmãos dessa forma, desde que estivessem perto, mas eu não podia falar com os dois. Sabia que Ahmose estava fraco. Ele tinha feito alguma coisa por mim, algo que Wasret sabia, mas ele escondera isso de nós e, por mais que tentássemos, não conseguíamos lembrar.
Eles estão... tentando não desistir.
Meus olhos se encheram de lágrimas ao ouvir essas palavras. Era óbvio que o que quer que Ahmose tivesse feito havia cobrado um preço enorme, e não somente dele. Os Filhos do Egito eram conectados, e, se eles estavam com dificuldade para sustentá-lo, a situação devia ser muito ruim. O fato de Amon não dizer nada também me alarmava. Talvez eu estivesse vendo mais do que existia, mas conhecia o coração de Asten e o de Ahmose. Não era só a jornada árdua que empreendíamos que os fazia pensar em desistir. Era mais do que isso. E tinha tudo a ver comigo, ou pelo menos com nós três.
O íbis estelar inclinou a cabeça, me espiando com um olho reluzente enquanto levantava as asas. A fadiga tomara conta dele havia muito. A cada vez que batia as asas eu me encolhia, vendo o esforço que ele fazia para isso. Eu me perguntei quanto tempo poderíamos continuar nesse caminho até que seus membros exaustos não funcionassem mais e eu o perdesse junto com Ahmose. Meu coração se partia só de pensar, por isso voltei o pensamento para a primeira vez em que nos vimos.
Para um observador casual, Asten parecia um daqueles homens egocêntricos, capazes de irritar qualquer mulher a ponto de ela ir embora, mas também era charmoso a ponto de trazê-las de volta. Era escandalosamente bonito, como os rapazes mais maliciosamente desejáveis. Era uma tentação que atraía uma garota a lugares perigosos. Mas esse era ele apenas superficialmente. Pelo menos do meu ponto de vista.
Curiosamente, Tia enxergava Asten de modo bem diverso. Uma leoa procurava um companheiro poderoso. Nesse sentido, ela admirava os três Filhos do Egito, mas Asten ocupava um lugar especial no seu coração. Quando ela o olhava, não via o homem petulante com um brilho maroto no olhar. Via alguém igual a ela. Alguém que não se encaixava com os outros, mas que tinha feito seu lar com eles e lutava ao lado deles assim mesmo. Tia gostava que ele a visse, que a reconhecesse e se aconselhasse com ela.
O íbis planava atrás de nós, descansando um pouco enquanto aproveitava o empuxo de Amon. Mordi o lábio e fechei os olhos. Tia lamentava. Por mais que eu amasse Amon, sabia tanto quanto ela que Asten precisava de nós. Ele desabrochava quando estávamos com ele. Nós o lembrávamos de que ele era bom, forte e digno de ser um Filho do Egito, apesar de suas origens mortais. Ele se sentia livre conosco e relaxava a guarda. Não precisava se preocupar com aparências.
Amar Asten era fácil. Fazia sentido. Sabíamos que ele vinha observando nossos sonhos havia muito tempo. Ele se vira como parte deles, no entanto negava a si mesmo seu sonho para mostrar lealdade ao irmão. Isso tornava Asten realmente especial. Ele tinha um coração terno. Via cada sonho, tanto os bons quanto os ruins, e se preocupava conosco de qualquer modo.
E havia Ahmose. Não era possível negar que o que eu sentia pelo grandalhão era mais do que amizade. Eu tinha me apaixonado por ele antes de me lembrar de Amon. Meu coração ainda doía ao vê-lo com Ashleigh, sabendo que ele a amava mais do que a mim. Permiti que essa dor permanecesse, ainda mais sabendo que tinha feito o mesmo com ele.
Em minha defesa, Ahmose sabia de minha ligação com Amon enquanto dava em cima de mim — bom, em cima de nós. Em sua mente, via nossos caminhos se fundindo. Sentia que isso era inevitável. Nesse aspecto, sua experiência não era muito diferente da de Asten. Mas, enquanto Asten havia sonhado em ficarmos juntos e depois se negado esse sonho, Ahmose tinha abraçado a possibilidade e vindo atrás de mim. Certo: ele saiu de campo muito facilmente quando pedi. Submeteu-se a Amon quando recuperei a memória. Mas eu sabia que isso doía nele. Ele se sentia traído por mim, por nós três.
Ele tivera muita certeza de que seu futuro era com Wasret. Talvez ele fosse o irmão a quem nós três estivéssemos mais ligadas. Não gostávamos de pensar no ponto de vista de Wasret, mas isso pairava em nossa mente.
Quanto a Amon... quando eu pensava no deus dourado que me carregava nas costas, minha boca se curvava num sorriso involuntário. Amon era meu. Isso era simples. Era... bem, era perfeito. Apesar de tratar Tia e Ashleigh com deferência, ele não as amava, não da maneira como me amava. Para ele não havia confusão. Wasret não exercia nenhuma influência sobre ele. Apesar de Ahmose acreditar, Amon não considerava que o fato de virarmos Wasret significava que eu ainda estaria lá dentro, em algum lugar. Eu tendia a concordar com ele. Para nós não estava claro aonde Wasret ia quando não habitava nosso corpo, mas era bastante óbvio que ela não estava ali. E, apesar de não termos lembrança nítida do que tinha acontecido conosco quando ela estava no controle, sabíamos que os seres que éramos tinham sido bloqueados. Na verdade, tinham começado a diminuir.
É o escaravelho do coração, disse Amon, interrompendo meus pensamentos.
— Como assim? — gaguejei.
Eu não queria me intrometer, mas achei que você deveria saber que foi através do seu escaravelho do coração que eu a trouxe de volta. Ele a impediu de desaparecer completamente. Embora eu deva alertá-la de que não sei se vai ser assim de agora em diante. Tenho medo de que, agora que você está com todas as lembranças de volta, não haja nada ancorando-a. Quando ela possui você, ocupa tudo.
— Você me ancora, Amon. Se for possível me trazer de volta, você vai fazer isso.
Espero que esteja certa, jovem Lily. Houve uma pausa e então Amon disse: Você também deve saber que estar com seu escaravelho do coração permite não somente que eu me comunique com você, mas também que leia seus pensamentos.
— Ah. Bom, isso é... esquisito. Até que ponto você ouviu? — perguntei enquanto tentava rapidamente pensar aonde todos os meus pensamentos tinham me levado.
Eu havia aprendido que nada entre mim, Ashleigh e Tia era segredo. Supus que teria de colocar Amon na lista. A ideia era ligeiramente desconcertante.
Amon ficou quieto por um momento.
Possuir seu coração significa que tenho acesso a todos os seus desejos, esperanças, pensamentos e anseios. Isso me sustentou durante o tempo em que estivemos separados, quando eu estava impedido de me comunicar com você, se bem que houve situações em que isso foi difícil. Mas você deve saber que possuir o seu escaravelho do coração não me dá acesso aos pensamentos de Tia ou Ashleigh. Só ouço sua reação a elas.
— E isso só está acontecendo desde que recuperei a memória?
Não.
Engoli em seco.
— Quer dizer que você sentiu meus... desejos, ouviu meus pensamentos, mesmo quando eu não podia me lembrar de você?
Sim, respondeu ele baixinho. A única exceção foi quando Wasret assumiu o controle. Os poderes de Wasret turvam minha conexão com você.
— Quer dizer que eu desapareço?
Não exatamente. Você não vai embora... mas é como se estivesse escondida atrás de um muro de areia, onde não posso vê-la com clareza. A cada momento que fica aqui, ela se enraíza mais profundamente e você se afasta cada vez mais do meu alcance.
— É disso que eu tenho medo.
Eu também tenho. Então Amon perguntou: Você está com raiva de mim, jovem Lily, por eu ter visto as coisas que vi?
— Com raiva? Não. Não com raiva. Acho que só não entendia todas as consequências de lhe dar meu escaravelho do coração.
Você... quer que eu o devolva?
— Não — respondi automaticamente, mas então pensei um pouco mais.
Será que eu queria?
Se a ideia de que eu posso ler seus pensamentos a deixa desconfortável, posso me conter para não fazer isso.
— Quer dizer que você pode ligar ou desligar esse recurso?
De certa forma. É parecido com a maneira como você protege seus pensamentos de Tia e Ashleigh.
— Eu posso ler seus pensamentos também? Eu não sabia que ler seus pensamentos era um brinde que acompanhava a compra.
Ele não perguntou o que minha expressão moderna significava, apenas se limitou a responder à pergunta:
Você pode, mas para isso teria de absorver meu escaravelho.
— “Absorver” no sentido de colocá-lo no meu peito como você fez?
Sim.
— Isso dói?
Não. Pelo menos não em mim. Não sei como seria para um mortal, embora agora você não seja exatamente o que eu chamaria de mortal.
Senti sua hesitação.
— O que você não está me dizendo?
Colocar meu escaravelho do coração dentro de você poderia ser... confuso para Tia e Ashleigh.
— Como assim?
Como elas residem dentro de você, são suscetíveis aos seus sentimentos, assim como você é suscetível aos delas.
— E...? — pressionei.
Com nossos escaravelhos do coração trocados de modo tão completo, nossos sentimentos um pelo outro irão nublar a mente delas. Elas não poderão ignorar nossa ligação.
— Quer dizer que isso fará com que elas esqueçam os outros?
Elas não vão esquecer, mas provavelmente vão evitar as pessoas de quem gostam.
— Então isso tiraria a liberdade delas.
Sim.
— Então por enquanto vamos deixar isso de lado.
Como você quiser.
— Bom... então parece que há algumas coisas que precisamos conversar... — comecei.
Você não precisa explicar nada. Assim como ouço seus pensamentos e percebo seus desejos, também sinto o que os motivou. Não culpo você por nada. O tempo e a atenção que você deu aos meus irmãos não provocam ciúme em mim como provocam neles.
Após uma pausa, prosseguiu: Não é porque não me importo em ver você nos braços de outro homem. Acredite quando digo que isso me angustia, como angustia os dois. Mas é porque conheço perfeitamente sua mente e seu coração. Se você fosse apenas você mesma, não teria ficado tentada. Mesmo agora, são sua compaixão e sua gentileza que a impelem. Não é o desejo de ter um príncipe em cada braço e um ajoelhado aos seus pés.
Ele pareceu pensar antes de continuar:
Na verdade, meu conhecimento íntimo do seu coração me dá mais confiança do que me alarma. É com meus irmãos que estou mais preocupado. Não desejo que eles sintam a dor e o sofrimento da perda, mas não vou abrir mão de você para eles, Lily, principalmente quando conheço seus sentimentos de verdade. Eles podem precisar de vocês três, mas eu só preciso de você. Você é tudo o que eu quero. Tudo em que eu penso. Se o Cosmo me fizesse uma companheira perfeita, com quem eu pudesse compartilhar a vida, seria você.
Meus olhos se encheram de lágrimas e pisquei rapidamente, mas algumas escorreram pelo meu rosto.
— Eu escolheria ficar com você também — falei, enxugando os olhos. — Quero dizer, eu escolho. Escolho estar com você.
Era a verdade, e parecia certo no meu coração, mas eu não podia ignorar as outras duas garotas no fundo da mente. Meu coração era ligado a Amon em mais de um sentido, e não havia como mudar isso.
O balanço de seu corpo me acalmou e não demorou para que eu caísse no sono.


Acordei com o som de uma voz calorosa ressoando pelo Cosmo:
— Olá, guardiões!
Os pássaros se viraram ao mesmo tempo e voaram na direção do barco de Cherty, que balouçava nas águas do rio, agitando um torvelinho de estrelas.
Quando sobrevoamos o barco, eu ri, alegre, vendo o capitão de rosto vermelho com um braço na cana do leme, firmando o Mesektet para nossa aproximação. Ele franzia os olhos e gritava para nos apressarmos, um grande sorriso iluminando seu rosto.
Asten aproximou-se com as asas batendo loucamente enquanto pairava sobre o barco. Ahmose saltou com leveza e depois me pegou quando deslizei das costas de Amon. No momento em que ele me pousou no convés, o íbis estelar recolheu as asas, o grande corpo tremeluzindo, e então desabou. De um salto, Ahmose pegou o irmão justo quando ele assumia a forma humana, evitando que se chocasse no convés. Asten estava tão exaurido que não conseguia se mexer.
— Aqui, Sonhador — disse Cherty, trazendo-lhe um odre de água e abrindo sua sacola de suprimentos.
Amon pousou em pé mas sentou-se rapidamente, as costas apoiadas na amurada do navio enquanto fechava os olhos e ofegava. Levei água e comida para ele e, depois de comer um pouco, Amon relaxou o corpo, apoiou a cabeça no meu colo e caiu imediatamente no sono.
Quando levantei os olhos para Ahmose e fiz um gesto de cabeça na direção de Asten, ele disse:
— Ele vai ficar bem. Os dois só precisam descansar.
Cherty se agachou perto de mim.
— A viagem está tranquila por enquanto. Meus passageiros foram deixados no cais do além. — Fez um muxoxo. — Bem, no que resta dele.
— E eles? — perguntei, apontando dois fantasmas que restavam, pairando no canto do navio e nos observando com olhos escuros e expressões pétreas.
— Aqueles dois deram uma olhada e decidiram ir para pastagens mais verdes. Perguntaram se podiam ficar a bordo e se eu poderia deixá-los no próximo porto. Eu estava me sentindo mais afável do que o normal, por isso concordei. Cá entre nós, eu também não quereria ficar lá. Ainda é melhor na Ilha dos Perdidos. Vocês vão ter de me contar sua aventura quando estiverem dispostos. Mas por enquanto durma um pouco também, mocinha. Acordo vocês quando chegarmos a Heliópolis.
— Obrigada.
Consegui dar um breve sorriso para Cherty e, com uma das mãos no cabelo de Amon e a outra presa na dele, pressionada contra seu peito, encostei a cabeça na amurada e dormi também.
Não sei por quantas horas dormimos. A sensação é de que podiam ter sido dias; quando acordamos, estávamos esfomeados. Cherty não somente distribuiu suas rações típicas, como conseguiu apresentar uma abundância de peixes suculentos grelhados (não me permiti pensar de que espécie seriam), frutas em conserva que espalhamos em biscoitos secos, carne de porco seca (pelo menos achei que era de porco), picles e uma tigela de feijão e arroz. Comemos até ficar saciados e agora que tínhamos dormido e a barriga estava cheia, minha mente voltou-se para outras coisas, como banho e roupas.
Depois de puxar a bainha da minha camisa imunda, olhei para Amon e Asten, esperando que ainda estivessem usando suas saias brancas. Em vez disso, vi que vestiam roupas de marinheiro surradas e largas. Amon usava calças largas amarradas com uma corda na cintura e uma camisa de gola aberta que tinha visto dias melhores, mas seus pés continuavam descalços. Parecia um rei pirata, de pé em cima da amurada, segurando-se numa corda para se equilibrar. Senti uma vontade louca de me juntar a ele e desfrutar dos borrifos do rio no rosto enquanto ficava no calor de seus braços.
Asten usava uma calça parecida, mas cortada logo acima dos joelhos. Sua capa estava puída e esgarçada, e ele obviamente não tinha encontrado uma camisa. O corpo musculoso de Asten estava muito magro, mesmo depois de termos consumido uma grande parte da refeição, sinal da quantidade de energia que tinha despendido no voo. Mesmo assim, parte de mim gostava de ver a grande área de pele exposta. Duas botas velhas protegiam seus pés, mas ele caminhava pelo convés confiante, como se tivesse nascido navegando.
Fui até Cherty.
— Obrigada por emprestar suas roupas de reserva.
— Não foi nada — disse ele e desviou o olhar.
Manchas vermelhas subiram por seu pescoço.
Olhando seu rosto, meus olhos se estreitaram.
— Ahmose contou a você.
Cherty deu de ombros.
— O suficiente. Wasret assumiu o comando. Ninguém quer perder você só para ter roupas mais bonitas.
— Bem, obrigada de novo.
— De nada. É bom ter você de volta, mocinha. Eu... queria que soubesse que fiquei lá na ilha enquanto meu barco permitiu.
— Eu entendo — falei, pondo a mão em seu braço para tranquilizá-lo. — Não o culpo por ter ido embora. Você nos alertou.
Ele resmungou e cuspiu por cima da amurada.
— Esperei dois dias. O gemido dos fantasmas ficou tão ruim que eu não conseguia ouvir meus pensamentos. Quando o Mesektet começou a se sacudir, doido para ir embora, eu o contive pelo máximo de tempo possível.
— Eu sei — falei, surpresa ao ver uma umidade reveladora nos olhos dele. Não querendo que o grande capitão, o barqueiro, fosse apanhado num estado tão emotivo, mudei de assunto: — A que distância estamos de Heliópolis?
— Agora não está longe. A costa fica logo depois do horizonte. Vocês quatro dormiram boa parte do caminho. Fiquei surpreso quando me encontraram. Os deuses devem estar sorrindo para vocês, para terem chegado tão longe sozinhos.
— Acho que, se os deuses estivessem mesmo sorrindo para nós, estaríamos um pouco melhor do que agora.
— Talvez. Os deuses andam meio ocupados ultimamente.
— É. Imagino que sim.
Nesse momento o barco se sacudiu, atingido por alguma coisa por baixo. Cherty pegou suas varas pontudas na lateral, erguendo-as.
— Pegue o leme, mocinha, enquanto vou ver que fera está caçando a gente.
Outro golpe balançou o navio. Asten e Ahmose se inclinaram sobre a amurada, apontando para alguma coisa. Olhei por cima do ombro e vi uma cauda espinhenta e blindada desaparecer no rio. Os dois fantasmas tinham se aproximado mais de mim. Eu não sabia se eles queriam minha proteção ou se estavam apenas curiosos. Amon veio até mim rapidamente, um par de espadas malignas se materializando em suas mãos.
— Nunca vi essa fera antes — gritou Cherty.
— Nós vimos — retrucou Amon. Para mim, acrescentou: — É o necromante.
O alarme percorreu meu corpo.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Como ele nos encontrou?
— Não sei, mas teremos de acabar com ele de uma vez por todas.
— Mas como? Ele é tão grande!
— Vamos lhe dar uma segunda morte.
— Mas você disse que ele só estava semimorto. Então não o matamos completamente antes.
— Está certa. O feitiço que Hassan usou o baniu do reino mortal. E ele veio para cá. — Amon me segurou firme enquanto o barco era empurrado de lado, correndo o risco de emborcar. — Precisamos acabar com ele de uma vez por todas. Fique aqui. E não use seu poder. — Quando assenti, hesitante, ele baixou a cabeça para me olhar nos olhos. — Por favor — acrescentou, esperando que eu respondesse, depois de ter lido meus pensamentos.
Quando ficou satisfeito com minha reação, foi ajudar os irmãos.
Ahmose invocou os mesmos meteoros que tinham mantido Apep longe e os fez chover sobre o rio. Sua maça de aparência maligna, prateada e afiada, e o machado mortal estavam a seus pés, esperando para ser usados. Asten empunhava seu arco e disparou as flechas contra a água enquanto a fera passava embaixo do barco. Os projéteis se moviam mais como torpedos do que como flechas assim que batiam na água, mas mesmo assim resvalavam no couro áspero do crocodilo.
Amon invocou a poder do sol e bolas de fogo gigantes apareceram em suas mãos. Ele as atirou contra a fera, mas esta submergiu. O réptil gigante passou por baixo do navio, levantando-o nas costas. O Mesektet despencou na água com um estrondo. Fiquei aliviada ao ver Ahmose ainda na proa, mas Asten e Amon tinham sumido.
— Onde eles estão? — gritei, mas no mesmo momento olhei para a água e soube.
Asten e Amon desciam rapidamente o rio estrelado, cavalgando as costas da fera e golpeando-a com suas armas. Em retaliação, a fera mergulhou, deixando-os na superfície. O rio ficou imóvel e, enquanto Amon e Asten voltavam para o barco, examinei o horizonte, à procura do monstro que eu sabia que espreitava embaixo da superfície.
Então vi a criatura emergir. Sua cauda poderosa se agitava para trás e para a frente e as mandíbulas enormes se escancararam para engolir os homens que nadavam. Sebak dirigiu-se à minha mente: Eu disse que voltaria para pegar você. Esta refeição será tremendamente prazerosa.
Ahmose usou seu poder para fazer chover pedras flamejantes sobre a fera, mas muitas erraram o alvo. Ele estava obviamente preocupado com a possibilidade de acertar Amon e Asten. Os dois alcançaram o navio e estavam subindo a bordo. Mas o monstro continuava vindo em nossa direção, a boca aberta, os dentes afiados brilhando à luz das estrelas. Ia abalroar o barco e partir os dois ao meio com uma mordida.
— Não! — gritei, escalando a amurada enquanto Ahmose os ajudava a subir. — Você não vai pegá-los!
Justo quando eu ia canalizar meu poder, ouvi o som de pés no convés.
— Venha, fera! — gritou Cherty, correndo. — Mostre o que você tem!
E então saltou por cima da amurada com um terrível grito de guerra, levantando as varas pontiagudas acima da cabeça. Minha respiração ficou presa nos pulmões enquanto eu o olhava cair com as armas apontadas para cravá-las na cabeça do crocodilo. O monstro inclinou a cabeça para cima no último minuto e pegou Cherty pela cintura. O corpo imenso bateu no barco, criando um buraco enorme que fez entrar a água. Eu sabia que o barco ia se curar, mas não podia dizer o mesmo do capitão.
Com um estalo terrível, as mandíbulas do bicho se fecharam de novo e de novo. O grito de Cherty se transformou num gorgolejo quando o crocodilo o sacudiu com força e engoliu a metade inferior de seu corpo enquanto se agitava na água. O capitão reuniu as últimas forças e conseguiu golpear a fera no olho com uma das suas varas, mas isso não bastou. Inclinei-me sobre a amurada, cobrindo a boca com a mão, vendo, dominada pelo choque e o terror, Cherty desaparecer, descendo aos poucos pela garganta pálida do crocodilo até sumir totalmente.
— Não! — gritei, meu corpo todo tremendo de fúria e dor enquanto eu socava o corrimão.
As lágrimas turvaram minha visão e eu também me transformei em fera. Rapidamente enxuguei os olhos, gostando das trilhas quentes e ardentes que desciam por meu rosto. Eu vou destruí-lo.
Um par de braços me envolveu. Eu me debati.
— Asten, me solte! — exigi.
— Não há como ajudá-lo agora.
— Mas eu posso...
— Não.
Não havia hesitação na voz de Asten. Ele não admitiria discussão. O horror e a angústia me atravessavam como uma coisa viva. Eu me contorcia, mas Asten se manteve firme. Nesse momento, o crocodilo gigante saltou da água, saindo inteiramente do rio e deslizando por cima do barco como se fosse um pássaro reptiliano gigantesco procurando um peixe.
Amon e Ahmose agiram. Os dois correram e saltaram, erguendo as armas até a barriga exposta do crocodilo. Quando este passou sobre eles, as lâminas acharam o alvo e se cravaram fundo na pele macia dali. Densas cortinas de sangue preto escorreram dos cortes fundos. Quando ele chegou ao outro lado do barco, já sabíamos que estava mortalmente ferido.
O bicho caiu pesadamente no rio e nós esperamos, a respiração suspensa, atentos à água agitada até que ela se acalmou. Não havia sinal da fera. Nenhum movimento na água. Então algo se agitou. A princípio eu não tive certeza se era o crocodilo gigante, o corpo pálido virado na água, mas era.
Tinha finalmente morrido.
Amon e Ahmose vieram até mim, manchas de sangue preto no rosto e nos braços. O rio ficou oleoso, a superfície puxada para trás como pele rasgada, expondo a fera degradante que tinha vivido dentro dele.
Rapidamente a água recomeçou a borbulhar enquanto criaturas invisíveis, atraídas pelo cheiro do sangue do crocodilo, começavam a se refestelar.
Enjoada e de coração partido, virei-me e encostei o rosto no ombro de Asten, soluçando, inconsolável.
Só ergui a cabeça quando ouvi um som estranho. Os dois fantasmas que tinham ficado encolhidos o tempo todo estavam sussurrando, olhando as estrelas.
— O que... o que eles estão dizendo? — perguntei.
Estavam falando uma língua que eu não entendia.
Asten franziu a testa.
— Estão dizendo... Mestre, o necromante morreu. Eles estão chegando!
— O quê? Não enten...
Com uma expressão violenta, Amon decepou a cabeça dos dois fantasmas.
— Eram shabtis espionando para Seth — disse. — Agora ele já sabe.
Ahmose passou por trás de mim, indo para o leme, e o navio se moveu à frente com um espasmo, apenas parcialmente refeito. Logo deixamos para trás o cadáver semicomido do necromante, além dos restos do nosso querido amigo. Eu estava inconsolável. Amon tentou fazer com que eu comesse ou bebesse, mas recusei todas as tentativas deles para me reconfortar. Quando a costa de Heliópolis surgiu no horizonte distante, não senti nada. Nem alegria nem necessidade de ajudar os deuses. Tudo o que eu sentia era tristeza pelo que fora perdido.
Nem sequer registrei o fato de que estávamos afundando lentamente.

8 comentários:

  1. "Na verdade, meu conhecimento íntimo do seu coração me dá mais confiança do que me alarma. É com meus irmãos que estou mais preocupado. Não desejo que eles sintam a dor e o sofrimento da perda, mas não vou abrir mão de você para eles, Lily, principalmente quando conheço seus sentimentos de verdade. Eles podem precisar de vocês três, mas eu só preciso de você. Você é tudo o que eu quero. Tudo em que eu penso. Se o Cosmo me fizesse uma companheira perfeita, com quem eu pudesse compartilhar a vida, seria você."
    Que declaração mais linda Amon

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  2. O que eu não entendo é que no outro livro ela não precisava de tornar Wasret pra trocar de roupa e a impressão que dava é que era o escaravelho do Amon que fornecia a roupa a ela. Se eu não me engano quando ela saiu com o Anubis da casa da avó dela , ela já estava usando uma roupa que o escaravelho forneceu. ( vou até voltar lá pra confirmar), mas se for isso mesmo pq ela não pode usar agora? E as garras acredito que ela usou antes de ter a fada com ela, então ela ainda não podia usar o poder da Wasret. E ela agora não quis usar nem as garras. Vamos ver se esclarece mais pra frente.

    Flavia

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    1. Nos capítulos anteriores, Wasret explica que antes essas habilidades eram a conexão das 3, porém, agora, ao usá-las, parece que despertam a Deusa, já que ela já nasceu!

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  3. Cherty naaaooooooo 😭😭😭😭😭😭

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Boa leitura, E SEM SPOILER!