9 de março de 2018

18. O necromante

— Lily? Lily! — Vozes me chamavam aos gritos, mas minha mente estava escura e turva. Eu não conseguia abrir os olhos e minha cabeça martelava com a batida de mil tambores da selva. — Volte para mim, Nehabet, por favor — implorava uma voz.
Gemi.
— Amon? — Consegui envolver a palavra com os lábios, mas a língua estava grossa e parecia não me pertencer. Era como se eu tivesse me afogado e fosse puxada violentamente para a margem, mãos pressionando meu peito, tentando me fazer reviver.
— Espere — disse outra voz, e senti o toque frio de uma mão na testa. — Elas estão feridas.
— Onde? — perguntou um homem. — Como? Não estou vendo nenhum ferimento.
— Os ferimentos são internos. Elas foram rasgadas e separadas como a cobra. Amon provocou isso. — A acusação tinha vindo de Ahmose.
Apesar dos braços que me envolviam, eu me sentia fria, vazia. Estremeci e me recolhi, me distanciando mentalmente dos outros.
Outra pessoa se aproximou e tocou minha mão.
Algo se mexeu.
Asten? — sussurrou a leoa usando minha voz.
— Tia — disse ele, o alívio evidente em seu tom. — Você vai se recuperar? Vocês três estão aí?
— Sim. Estamos todas aqui, mas... falta alguma coisa.
— Wasret — disse Ahmose com um suspiro pesado. — Ela se foi. Levou pedaços de cada uma delas.
Senti um pequeno fiapo de energia percorrer meu corpo. Ahmose estava tentando nos curar.
Não — disse Tia, abrindo meus olhos. — Você não deve. Está fraco demais.
Ahmose cerrou o maxilar, teimoso, mas Tia foi inflexível e ele finalmente recuou. Asten pegou nossa mão e pousou um beijo rápido nos dedos, a preocupação marcando suas feições. Virando minha cabeça, Tia olhou o rosto do terceiro homem, o que nos segurava nos braços. A fisionomia dele ficou turva instantaneamente. Então eu dei as costas para todo mundo, até mesmo para Tia e Ashleigh. Enrosquei-me feito uma bola, gemendo ao fundo, incapaz de olhar além dos meus olhos.
Então o homem, aquele cuja voz tinha penetrado na escuridão, o que me segurava com ternura até pouco tempo antes, disse:
— Lily? — Sua voz era suave. — É hora de você lembrar.
Houve uma pausa.
Ela não quer, Amon — disse Tia.
— Eu sei que ela não quer. Está com medo. Todas vocês estão.
— Amon — começou Asten —, talvez você não devesse pressioná-las por enquanto. Deixe que descansem enquanto você invoca nossos corpos.
Um calor penetrou na minha pele nos pontos em que o homem me tocava. Era uma coisa familiar e reconfortante. O corpo dele estava arqueado sobre o meu, me abrigando, protegendo, enquanto tentava me instigar a sair. De algum modo, usando apenas a voz, ele havia criado um espaço onde estávamos somente eu e ele. Apesar dos outros ao redor, eu sabia que ele odiava me deixar nesse momento. Mas eu ainda não estava pronta para vê-lo, para falar de coisas que eu sabia que precisávamos falar.
— Eu trouxe o que você necessita — disse Ahmose, e entregou uma sacola a Asten.
O homem que me segurava se mexeu e suspirou.
— Certo — disse ele. — Ashleigh? Pode ficar aqui com Ahmose um pouco enquanto eu ajudo Asten?
Senti meus lábios se repuxando num sorriso enquanto a fada emergia.
Sim, posso — disse ela, e Tia se juntou a mim no fundo da minha mente, enroscando-se, solidária, ao meu lado. Se ela ainda fosse uma leoa, estaria lambendo nossas feridas.
O homem nos acomodou encostadas numa pedra. Ahmose sentou-se ao nosso lado e passou um braço pelo nosso ombro. Ashleigh se aninhou com ele e suspirou baixinho.
Que bom ver você, rapaz — disse ela.
— Também fico feliz em estar com você novamente.
— Tem certeza? Parece que você gostou da Wasret. Talvez esteja lamentando ter a gente de volta.
Ahmose ficou em silêncio por um momento. Pegou uma mecha do nosso cabelo e a enrolou delicadamente no dedo.
— Não. Não lamento ter vocês aqui. Nunca lamentaria isso. Mas você deve entender que, na ocasião, tudo o que eu tinha de você era Wasret. Como poderia rejeitá-la?
— Palavras bonitas ditas ao luar não têm o mesmo encanto durante o dia. Ela não é como nenhuma de nós.
— Não, não é.
— Você acha que pode vir a amá-la, então?
— Não sei. Ela não é tão... tão tranquila. Você se lembra de tudo?
— Não. Só uns fragmentos. Mas estão se esvaindo, como um sonho. Uma coisa de que lembramos, porém, é como ela se sentiu em relação a você. Ela quer manter você depois de tudo terminado. Presumindo, claro, que todos sobrevivamos.
Ahmose assentiu, solene, e Ashleigh entrelaçou os dedos nos dele.
Ah, rapaz, o que a gente fez com você? — Ela deu um beijo no braço dele.
— Pensamentos confusos franzem sua testa tanto quanto a nossa.
Juntos observamos Amon invocar seu poder. Sua forma brilhava como o sol na caverna escura. Pegando os frascos na bolsa trazida por Ahmose, ele os destampou. Quatro luzes dançantes orbitaram em volta dele, uma delas no formato de um pássaro. Então ele pegou uma coisa pequena e pôs na palma da mão. Enquanto ele entoava um feitiço, tecendo-o no ar, Ashleigh perguntou a Ahmose:
O que você trouxe?
— Os jarros canópicos deles. Além disso, Amon precisava de um pedaço do corpo mortal deles para criar novos. No caso de Asten, eu pude pegar uma mecha dos cabelos.
Entendi.
A energia girou num vórtice e Amon abriu a mão. Um vento varreu a caverna e levantou os fios de cabelo em sua palma. Houve uma pequena explosão no centro do vórtice. Luzes brancas e brilhantes, milhões delas, preencheram o redemoinho que girava diante de Amon. Elas foram rodopiando cada vez mais depressa. Ficaram tão brilhantes que precisei desviar os olhos. Quando a luz diminuiu, um corpo jovem e saudável tinha se formado e cintilava com a luz de estrelas.
Asten dirigiu-se para o corpo, que poderia ser seu gêmeo. Então, fechando os olhos, entrou na forma reluzente e desapareceu, com armadura e tudo. O corpo se contorceu, o peito subindo e descendo em sua primeira respiração. Quando abriu os olhos, eu vi Asten. Seu peito e as pernas estavam nus. Com o saiote branco enrolado na cintura, ele parecia o antigo príncipe egípcio ressuscitado que era.
Asten pegou a bolsa e abriu os outros frascos, depois pegou o segundo objeto e entregou a Amon. Este era maior, mais volumoso.
Ashleigh virou-se para Ahmose, uma expressão interrogativa no rosto.
— Os tecidos de Amon estavam apertados demais para eu pegar algum cabelo, por isso, no caso dele, foi mais fácil simplesmente trazer a mão — concluiu Ahmose com uma careta de desculpas.
A... a mão dele? — gaguejou Ashleigh.
A sensação de náusea dela foi algo que todas sentimos. Ficamos olhando, um tanto horrorizadas, enquanto Amon levantava a própria mão mumificada e desmembrada, sem se incomodar nem um pouco com o pedaço de seu antigo corpo. Invocando seu poder novamente, ele teceu o encantamento. A mão subiu no ar, brilhando como um enfeite de Halloween macabro pendurado numa árvore, antes de explodir em poeira. O pó brilhante foi sugado para o turbilhão de luz.
Dessa vez a bola de luz era dourada e explodiu em raios que preencheram um espaço mais ou menos do tamanho de um corpo humano, cada raio se tornando mais ofuscante até que Ashleigh precisou desviar os olhos. Quando a luz se dissipou, outro corpo havia surgido. O homem dourado que eu não suportava olhar foi na direção dele.
Das profundezas em que estava escondida, olhei a forma do homem e vi um maxilar cinzelado e lábios modelados. Seu peito forte estava nu como o de Asten, exibindo a pele lisa e dourada. Cílios escuros roçavam-lhe a face e, quando respirou pela primeira vez, seus lábios se separaram. Seus olhos brilhantes se abriram. Imediatamente se fixaram nos meus. Estremeci e a aura em volta dele se iluminou ainda mais, lançando seu corpo outra vez em pura luz dourada.
Seus ombros caíram visivelmente. Mas depois de apenas um momento de hesitação ele se aproximou e estendeu a mão.
— Jovem Lily? — perguntou. — Você vem comigo?
Ashleigh gostava de Amon e teria aceitado prontamente a ajuda dele para se levantar, mas eu a contive, sabendo que não era ela que ele estava chamando.
Deixe-me ir, falei baixinho.
Quando minha mão segurou a dele, foi porque eu me obriguei a estendê-la. Ele me ajudou a ficar de pé, fazendo um gesto com a cabeça para os dois irmãos, que nos observavam com olhos atentos. Amon indicou que eu deveria acompanhá-lo. Ele soltou minha mão no que supus fosse uma tentativa de me ajudar a ficar mais confortável.
Segui o homem dourado, que me afastou do buraco onde a cobra havia se enrolado para dormir. Contornamos pedras e passamos sob arcos rochosos até nos encontrarmos suficientemente longe de seus irmãos para sentir que estávamos a sós. Claro, nunca ficávamos realmente a sós, não com minhas passageiras interiores, mas pelo menos estávamos o mais a sós que as circunstâncias permitiam.
Quando ele parou e se virou para mim, as primeiras palavras que ouvi não foram as que eu esperava.
— Senti sua falta — disse ele, passando a ponta de um dedo pela linha onde começavam meus cabelos, empurrando para trás os fios soltos.
Algo dentro de mim se rachou. Um muro interior que eu tinha construído entre nós.
Engoli em seco e inclinei a cabeça, procurando algo para dizer.
— Mas você me viu — gaguejei. — No meu sonho.
— Mas não é a mesma coisa. Não é como antigamente.
— Como era antes?
Minha respiração ficou presa enquanto eu esperava sua resposta.
Ele não respondeu imediatamente. Em vez disso, apertou a palma da mão contra o peito e tirou alguma coisa dali de dentro. Algo que brilhava com uma luz diferente da luz de sua pele.
Ofeguei.
— Isso é... isso é o seu coração? — perguntei, abalada com a ideia.
— Não — respondeu ele simplesmente. — É o seu, pelo menos o seu escaravelho do coração. Você só precisa segurá-lo para restaurar tudo o que foi perdido.
As pontas dos meus dedos se estenderam quase por vontade própria, mas então recuei. As outras duas vozes na minha mente estavam silenciosas e imóveis. Esperavam ansiosas para ver o que eu faria.
— Por quê? — Minha voz se embargou. — Por que você quer que eu lembre? — Dei as costas para ele, desprotegida e vulnerável.
— Porque, Nehabet, o que você temia aconteceu. Wasret nasceu. Não quero que você se entregue de novo a ela sem saber de tudo. — Ele pôs a mão no meu ombro. Calor e afeto penetraram em mim. — Foi por isso que eu a mandei de volta, mesmo sabendo que causaria algum dano a todas vocês. — Meu estômago teve um espasmo; meus membros tremeram. — Por favor, Lily. Eu sei que dói. Dói em mim também quando penso no que podemos perder.
Virei-me para ele e sua mão escorregou pelo meu ombro até segurar a minha. Ele continuou:
— Não vê, Nehabet? Preciso saber que caminho você vai escolher, porque estou decidido a percorrê-lo com você. Se estão lhe pedindo que pese sua vida contra o bem do Cosmo, você precisa colocar tudo nos pratos da balança. Só você pode determinar qual valor é o maior.
O medo e a dor que tinham penetrado fundo no meu coração, fazendo-o pesar como uma pedra, como algo funesto e sem vida, se dissolveram diante dessas palavras. Sua aceitação completa envolveu minha alma e a acalentou.
Amon era a compaixão e o amor incondicional. Isso era libertador. O que quer que eu decidisse fazer, ele me apoiaria.
Respirei fundo, inalando o cheiro dele, e cheguei mais perto. Passando a mão por trás de seu pescoço, puxei o deus dourado para mim e pressionei meus lábios contra os dele. A luz me preencheu enquanto seus lábios de sol se moldavam aos meus. Correndo a mão por seu braço, abri os dedos e pus a palma sobre o escaravelho do coração. Nossas mãos se fecharam juntas e um vento forte preencheu minha mente.
As lembranças me inundaram. Vi tudo de uma vez: toda a dor, toda a alegria, todo o triunfo e toda a perda, culminando no mundo dos mortos, naquele último sonho que compartilhamos antes de eu deixá-lo para trás.
Seríamos separados de novo. Os deuses estavam contentes com o fato de eu ter salvado Amon, tê-lo trazido de volta do além. Eles não viam motivo para ficarmos juntos, mas tinham nos concedido um último momento. Uma única oportunidade para acumular uma quantidade infinita de amor num período de tempo finito. Uma última chance de dizer adeus.
Eu tinha dito a Amon que nunca iria esquecê-lo, e não esquecera. Só havia trancado no coração tudo o que sentia por ele e depois o colocara em suas mãos. Sabia que, ao fazer isso, mesmo se os deuses me usassem com objetivos próprios e me jogassem fora quando terminassem, mesmo que isso significasse minha morte, pelo menos Amon teria aquela parte de mim. Eu tinha esperança de que nos encontraríamos de novo. E também sabia que nosso reencontro poderia não acontecer até chegarmos ao além.
Ele tinha pensado que os deuses eram os responsáveis por nos manter separados, por roubar nossos sonhos. Não tínhamos podido nos ver, não de verdade, desde aquela última vez, apesar do nosso elo. Mas Amon percebeu que o motivo para isso ter acontecido não eram os deuses, era eu. Eu tinha feito isso com ele. Conosco.
Ainda assim, eu não lamentava. Ele tinha razão em pensar que eu estava preocupada com Wasret. Eu temera que me render a Wasret significaria perdê-lo. Sabia o que poderia acontecer, o que aconteceria, se ele optasse por permanecer ao meu lado durante as inevitáveis provações. Tinha pensado que esquecê-lo, afastar-me dele, iria mantê-lo em segurança, manter nosso amor em segurança. Ou pelo menos que esquecer de tudo tornaria a transição mais fácil quando Wasret inevitavelmente surgisse. Como eu poderia de boa vontade, consciente, abrir mão de algo incrível como o que tinha encontrado com Amon? Não saber era o caminho da covardia, mas era o único caminho que eu conseguia ver na ocasião.
O beijo terminou, mas me movi para ele de novo, para beijá-lo breve e suavemente mais uma vez — um pedido de desculpas pelo que tinha feito.
Quando abri os olhos, o brilho dourado havia diminuído e pude finalmente ver o rosto do homem que eu amava.
— Desculpe — falei, os olhos se enchendo de lágrimas. — Você tem razão. Nós deveríamos ter feito isso juntos.
— Eles não nos deram muito tempo para conversar — disse ele, me tranquilizando. — Mas saiba, jovem Lily, que estou com você, qualquer que seja o caminho que você escolha. — Ele acariciou meu rosto. — Se quiser fugir disso, do que eles esperam de nós, vamos fugir.
— Não. Pelo menos, não por enquanto. Primeiro preciso falar com Tia e Ashleigh. E depois teremos de consultar Asten e Ahmose também. Não somos mais só nós. — Encostei minha testa na dele. Cobri novamente meu escaravelho do coração com a mão de Amon. — Pode ficar com ele? — perguntei, sem saber se ele ainda queria, depois de tudo o que tínhamos passado.
— Sempre.
E Amon encostou o escaravelho em seu peito. Sua pele o absorveu e, quando a pedra sumiu, ele me envolveu nos braços.
— Você vai ter de me ensinar esse truque — falei, encostando o rosto na superfície plana e firme de seu peito nu, ouvindo os novos batimentos de seu coração.
Ficamos assim por vários instantes, até que finalmente me afastei e estendi a mão. Ele a segurou e, juntos, voltamos até onde os outros estavam.
Dois pares de olhos se voltaram para o meu rosto e depois para nossas mãos dadas.
— Ela lembrou — disse-lhes Amon.
Asten assentiu com uma expressão indecifrável.
Ahmose resmungou, virando-se e pegando as coisas que tínhamos trazido. Quando me entregou o arco e a aljava sem fazer contato visual, isso doeu. Ele era importante para mim. Eu o amava. Mas também amava Amon e Asten. Tudo era confuso e eu tinha dificuldade para separar meus sentimentos dos de Tia e Ashleigh, especialmente agora que tínhamos nos unido totalmente para nos tornarmos Wasret.
Amon se recusou a soltar minha mão e ficou feliz em deixar que Ahmose fosse na frente. Ele refez o caminho de volta até o poço aberto por onde tínhamos entrado. Asten passou por nós, me dirigindo um breve sorriso que só levantou um canto da boca. Era como se o restante de sua felicidade tivesse se desinflado e esse pequeno esforço fosse tudo o que ele conseguisse fazer.
Assentiu para mim e depois seguiu ao lado de seu irmão muito maior.
Observei-os enquanto andavam juntos. Asten tentava tirar Ahmose de sua disposição soturna com tentativas desajeitadas de humor, enquanto Ahmose caminhava com as costas rígidas e uma postura silenciosa demais.
Havia uma curva reveladora nos ombros e uma exaustão nos passos dos dois. A tristeza por causa da condição daqueles homens penetrou no meu coração e ali se enterrou profundamente. A felicidade que eu sentia pelo reencontro com Amon se dissipou.
Ver Asten e Amon caminharem pelo terreno rochoso com os pés descalços fazia com que eu me encolhesse. Eu tinha poder para fazer roupas para eles, mas tremia diante dessa ideia. Nenhuma de nós estava ansiosa por abraçar os poderes de Wasret de novo. Pessoalmente meu plano era evitar canalizá-la, assim como a seu poder, a todo custo. Se achasse que meus sapatos caberiam em algum deles, eu os teria cedido de boa vontade.
Chegamos a um trecho de pedras caídas havia pouco e Ahmose parou.
— Foi por aqui que viemos — disse, agachando-se e inspecionando as pedras, à procura de um caminho.
Enquanto ele fazia isso, uma sensação de arrepio se esgueirou pela minha coluna, retesando a pele no couro cabeludo. Alguma coisa estava nos vigiando.
Esfregando os braços, olhei à nossa volta.
Cheira a angústia, alertou Tia.
— Está cheirando assim desde que entramos — respondi.
Sim, mas alguma coisa está nos observando das sombras, disse Ashleigh. Não está sentindo?
Estava. Quando alertei os outros, eles criaram armas a partir da areia e vigiaram as costas de Ahmose enquanto ele trabalhava. Meus sentidos formigaram quando uma sensação de bafo quente no meu pescoço surgiu e depois desapareceu. Levantei a cabeça, farejando e sondando a escuridão com meus olhos de felina, e captei um cheiro novo no ar. Era carne podre, pântano e corrosão.
Dos corredores que nos cercavam uma névoa fria se esgueirou pelo chão, formando uma nuvem densa, fétida. O ar tornou-se pegajoso e úmido. As costas nuas e os braços de Amon e Asten logo estavam brilhando de suor.
— O que é isso? — perguntou Asten.
Eu não sabia se ele estava perguntando a mim ou a Amon. Antes que qualquer um de nós pudesse responder, ficamos paralisados. Estalos, como de garras batendo em pedra, ecoaram nas cavernas ao redor de tal modo que tornava impossível saber de onde vinham.
O ruído penetrou fundo no lugar dentro de mim onde existia o medo. Cada som de garra raspando na pedra esfolava e irritava a apreensão crua que eu já sentia. Era como roupas ásperas sobre a pele queimada de sol. De todos nós, só eu sabia o que se escondia nas cavernas. Verdade, tínhamos passado por eles facilmente antes, mas isso porque Wasret sabia quais deveria evitar. Seus poderes amedrontavam a maioria das criaturas. Agora eles sabiam que ela não estava conosco e vinham para cima de nós.
Por fim Ahmose liberou o caminho. Pedras e entulho saltaram à nossa volta. Estalactites com superfícies lisas como gelo despencaram, espatifando-se no chão, tornando o caminho mais difícil ainda. Assim que a poeira assentou, ele partiu para a ação.
— Vamos — gritou Ahmose, pegando minha mão e me puxando. Nem parou para ver se os irmãos nos seguiam.
— Amon? — chamei, mas ele e Asten corriam atrás de nós com as armas em punho, abrindo caminho pelo entulho, tentando encontrar os locais mais lisos para pisar. — Não posso detê-los como Wasret fez — alertei-o. — Ela escondeu a maioria deles de você. Alguns eram simplesmente horrendos, mas outros eram perigosos.
— Sim — retrucou ele. — Eu sabia que ela estava escondendo coisas de mim.
Senti que eu devia um pedido de desculpas, mas estávamos indo depressa demais para que eu conseguisse falar. Passamos por um fantasma. Era muito brilhante, pensando bem. Sua cabeça se levantou rapidamente à nossa passagem e a boca formou um riso rígido enquanto os olhos relampejavam. Sua capa estava rasgada e surrada e, quando ele a puxou para o lado, vi que estava segurando um crânio na mão, ao estilo de Hamlet.
Ele acariciou o topo liso do crânio e riu enquanto gritava para nós:
— Voltem! Temos perguntas.
Eu tinha me virado para olhá-lo de novo antes de dobrarmos uma esquina e fiquei chocada ao ver que não era o fantasma que falava, e sim o crânio.
Os três homens à minha volta reluziam de poder, a pele cintilando como se estivessem sob um refletor num palco.
— Talvez seja bom diminuírem a luz — alertei. — Vocês dois não estão usando roupas suficientes. Ahmose parece o luar através de uma janela pequena, mas vocês dois brilham como a cidade de Nova York. Dá para vê-los do espaço.
Os lábios de Asten se curvaram para cima, os olhos castanhos brilhando à medida que sua luz se apagava completamente. Amon também reduziu sua luz, mas eu ainda podia sentir seu calor às costas. Era como se a luz tivesse sido meramente um truque para disfarçar o calor verdadeiro que irradiava dele. Agora a única iluminação vinha da luz suave de Ahmose. Nossa respiração áspera e o ruído dos pés abafavam os outros barulhos que eu ouvia enquanto passávamos de uma caverna para outra.
— Estamos perto — disse Ahmose finalmente.
Um sopro de ar mais fresco bateu no meu rosto e sorri enquanto corríamos para a caverna principal. Paramos subitamente no fim da passagem. As pequenas poças de água estagnada nas reentrâncias da rocha tinham aumentado. Agora toda a área estava inundada de água preta que lambia nossos pés. Na verdade, o piso de pedra havia mudado.
Amon levantou uma perna e vi que a passagem antes empoeirada estava esponjosa e macia. Ele sacudiu o pé e blocos densos de lama caíram no chão da caverna. Acima de nós, as luzes das pequenas criaturas mortas piscavam, maliciosas, como se tivessem orquestrado toda aquela coisa lá de cima. A névoa se esgueirou de novo, vinda de dezenas de passagens, e vi uma ondulação na água escura. Isso agitou as criaturas mortas e luminosas que moravam ali. O fedor que eu tinha sentido antes — de pântano e carne podre — voltou e meus nervos formigaram quando a leoa pressentiu um predador totalmente novo.
Ainda assim, alguma coisa parecia familiar a nós duas.
— Não vamos esperar aqui — falei, e apontei para cima. — O poço por onde entramos fica ali.
Ahmose pôs a mão no meu braço.
— Você não pode voar sem o poder de Wasret, não é, Lily?
Mordi o lábio.
— Não.
— Então vou carregar você.
— Você não pode — insisti. — Precisa conservar sua energia.
— Lily, você mal...
O que quer que ele fosse dizer não importava, porque a menos de 3 metros de nós um monstro irrompeu da água. Era o maior crocodilo que eu já tinha visto e investiu contra Amon. Felizmente, em vez de abocanhar a cintura de Amon, o crocodilo gigante bateu em uma pedra e suas pesadas mandíbulas se fecharam a centímetros da barriga de Amon.
Asten segurou meu braço e me puxou para ele. Amon levitou rapidamente para longe do alcance da fera, que tinha deslizado de volta para a água. Asten me pegou nos braços e acompanhou Amon. Ahmose veio atrás, numa ascensão mais lenta que a dos os irmãos. Envolvi o pescoço de Asten com os braços e seu cabelo macio fez cócegas nos meus dedos.
— Aquilo não era um crocodilo qualquer — murmurei.
Olhando para baixo, ofeguei quando a fera saltou da água e mordeu o ar onde as pernas de Ahmose tinham estado. Ele as havia dobrado bem a tempo.
— Ele ficou maior! — gritei.
Nós três subimos. Amon entrou primeiro no poço. Segundos antes de Asten entrar, olhei para baixo. Para meu horror, o crocodilo tinha triplicado de tamanho. Ele tentou pegar Ahmose uma última vez, procurando subir com as garras nas laterais da caverna, antes de cair de volta espirrando água tão alto que nos molhou. Depois de estarmos dentro dos limites mais frescos do poço, eu me permiti respirar um pouco, especialmente quando vi Ahmose nos seguindo.
Asten me pousou na mureta do poço e Amon segurou minha mão e me ajudou a descer. Uma brisa insular agitou a bainha da minha camisa, junto com as folhas das árvores. A lua cheia havia quase se posto. Estava baixa no céu, fria e dura de encontro à flexibilidade da selva escura, encharcando-nos com sua luz exuberante.
Quando Ahmose finalmente pôs os pés na grama densa perto de nós, segurou meus ombros, seus olhos me examinando.
— Cherty deve ter ido embora — alertou.
— Talvez tenha esperado. Se pudermos chegar à praia antes de o sol nascer... — comecei.
Ahmose parecia desconcertado. Passou uma das mãos pelos cabelos ao me interromper:
— Lily, passaram-se três dias.
— O quê? Como assim? — Meu coração despencou no peito, como se eu tivesse sido jogada de volta no poço. — Não é possível.
— Eu posso sentir os caminhos — disse ele. — Não somente as criaturas da ilha estão perdidas, como a ilha também está.
— O que isso tem a ver com a nossa situação?
— Receio que o tempo funcione de modo diferente no poço. Tudo o que sei é que o caminho que nos trouxe aqui ficou mais velho do que seria de esperar.
— Tem certeza?
— Infelizmente tenho — respondeu Ahmose.
Ele tinha acabado de dizer essas palavras quando o chão tremeu e eu cambaleei, colidindo com ele.
— O que foi isso? — perguntei. — Apep voltou?
— Não sei.
O chão tremeu novamente e se moveu. Dessa vez caí junto com Ahmose. Asten me ajudou a ficar de pé. Amon tinha se levantado junto a uma árvore que o impediu de continuar rolando. Antes que eu pudesse fazer outra pergunta, o poço rachou quando algo explodiu lá embaixo.
— Não pode ser — murmurei enquanto Ahmose me entregava a Asten e olhava para baixo.
— É — disse ele, sério, andando de costas. — Precisamos sair deste lugar. Agora!
A terra embaixo dos nossos pés se sacudiu violentamente e nós quatro fomos lançados ao ar. Árvores ali perto foram arrancadas e desabaram ao redor. O Poço das Almas explodiu, disparando pedras como balas de canhão, algumas arrancando galhos.
Amon gritou meu nome:
— Lily! Lily, onde você está?
— Aqui — respondi, empurrando um galho pesado que tinha caído em cima de mim.
Assim que ele veio até mim, procuramos Asten e Ahmose. Asten tinha sido atingido na parte de trás da cabeça por uma pedra. Um calombo estava se formando e ele sangrava muito, mas estava suficientemente alerta para nos acompanhar. Ahmose tinha se levantado, mas não se virou quando chamamos seu nome. Ele fitava o que restara do poço.
— Ahmose? — perguntei. — Você está...
A respiração ficou presa em minha garganta quando as palavras morreram. Eu chegara ao lado de Ahmose e me virara para olhar o que o havia hipnotizado. O chão ribombou novamente e ele, em um gesto automático, estendeu uma das mãos para me firmar. Nós dois ficamos olhando enquanto o focinho e a mandíbula gigante de um crocodilo emergiam do buraco enorme no chão. Agora seus dentes eram do tamanho de cones de trânsito. Quando os olhos apareceram, eu recuei, puxando Ahmose comigo, desesperada para ir embora antes que a criatura se libertasse.
— Achei que as coisas mortas não podiam escapar do poço — falei, mais para mim mesma do que para eles.
— Aquela coisa só está meio morta — disse Amon.
Garras afiadas raspavam o chão de ambos os lados da cabeça e a criatura sacudia o corpo de um lado para outro, para se exumar.
— Como assim, “meio morta”?
— Você não o reconhece? — perguntou Amon.
Nesse momento o crocodilo virou a cabeça de lado, tentando me abocanhar. Eu estava longe demais, mas o réptil gigante não parecia se dar conta disso. Sua mandíbula pesada se abriu, os dentes afiados mostrando-se em detalhes vívidos. O bafo do réptil me envolveu, fedendo a podridão e degradação.
— Não. — Balancei a cabeça. — É impossível.
Diante dos meus olhos, a criatura cresceu ainda mais. Membros pesados irromperam da terra.
— Você pode se transformar? — perguntou Asten a Ahmose com uma expressão intensa no rosto.
— Acho que não — respondeu Ahmose.
Os dois trocaram um olhar carregado de significado.
— Então você vai nas minhas costas — disse Asten.
Com isso seu corpo tremeluziu e a luz se tornou mais intensa, assumindo a forma do íbis estelar. Ao meu lado, Amon também se transformou. Ele me dirigiu um breve sorriso e então suas feições ficaram turvas, os raios dourados que irromperam de seu corpo assumindo a forma de um segundo pássaro: um falcão dourado.
Ahmose correu para me ajudar a montar enquanto o falcão guinchava, o grito ecoando pela ilha. Quando me acomodei nas suas costas, o pássaro correu pelo capim até um ponto onde um número suficiente de árvores havia tombado, oferecendo-lhe acesso livre ao céu. O grande pássaro bateu as asas e, comigo agarrada ao seu pescoço, decolou.
Um instante depois o íbis nos seguiu, com Ahmose montado em suas costas. Voamos em um círculo acima da copa das árvores e olhei para o lugar onde antes ficava o Poço das Almas. O crocodilo tinha saído totalmente do chão e estava ali, de cabeça levantada, nos espiando com olhos pequenos e pretos.
Quando nos afastávamos em direção à praia distante onde Cherty havia nos deixado, uma voz ecoou na minha mente, e era uma voz que eu reconhecia: Estou indo atrás de você, Lilliana Young. Não há como escapar. Então ele gargalhou. Agora sabemos onde você está. E Aquele Que Desfaz me prometeu vingança.
Nem tentei reprimir o tremor que me abalou. O traiçoeiro assistente do Dr. Hassan, Sebak, tinha conseguido voltar. Já era suficientemente ruim saber que Seth e a Devoradora estavam atrás de mim. Agora o maligno necromante/Godzilla/crocodilo tinha voltado dos mortos também.
Abraçando Amon mais forte, enterrei o rosto nas penas douradas de seu pescoço no momento em que o sol irrompeu no horizonte, banhando a Ilha dos Perdidos com sua luz amarela. Apesar da alegria com que a luminosidade preenchia o ar, havia um frio dentro de mim que nem mesmo o sol, nem mesmo Amon, conseguiam afastar.

6 comentários:

  1. Nha... Esperava mais do encontro da Lily e do Amon e-e

    E agora os outros irmãos estão com ciúme u.u Mas que fique claro que quem a conheceu primeiro e por quem ela se apaixonou foi pelo Amon ><"

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  2. Não gostei do Amon nessa parte, ele foi totalmente egoísta e pensou mais nos seus sentimentos ao invés do futuro do universo. Além de ele quase que forçar ela a se lembrar, sei lá. Personagem totalmente distorcido, querendo impôr suas vontades.
    Não gostei. Prefiro a Wasret ainda.

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    1. Mary Gray: conjuradora das trevas, bruxa no último ano em Horgwarts, vampira(melhor amiga do Jacob Black), peculiar, filha de Poseidon,sanguenova, caçadora de sombras, protegida de durga, divergente,tordo, anjo caido,narniana,esfinge ( e outros títulos intermináveis) u.u24 de julho de 2018 23:20

      Wasret? Detestei ela, ela é o de mais, se a mocinha for prática e nada emocional perde a graça de tudo

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  3. Mary Gray: conjuradora das trevas, bruxa no último ano em Horgwarts, vampira(melhor amiga do Jacob Black), peculiar, filha de Poseidon,sanguenova, caçadora de sombras, protegida de durga, divergente,tordo, anjo caido,narniana,esfinge ( e outros títulos intermináveis) u.u24 de julho de 2018 23:26

    Amando a trama! Toda hora fico tensa esperando o próximo desafio, e olha que dá estante da Karina já li 66 entao me deixar tensa é difícil! Sexteto amoroso perfeito! Tomara que alguém consiga parar essa Wasret! Não gosto como ela abafa as outras! Fada... Mais juízo! Toda desesperada pelo seu homem, calmamocinha! Leoa... Perfeita! Não mude nunca... Humana... Bora crescer? Medo de tudo! eu em!!!

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  4. Eu realmente prefiro Lily ela representa muito como ser humana e todas a emoções que sente

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  5. Fiquei tão feliz quando a Wasret se desfez. Prefiro que o mundo se exploda do que a Lily se torna essa mulher. E Amon está sendo o boy perfeito. Prefiro ele do que os outros ♡♡

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Boa leitura, E SEM SPOILER!