9 de março de 2018

17. O Poço das Almas

— Lily! Quero dizer, Wasret. Espere! — gritou Ahmose.
Ele chegou a tentar me pegar no ar, mas eu já estava longe. O homem parado junto do poço deu um grito frustrado e veio atrás de mim. Seu corpo grande bloqueava o pouco de luz que descia pela abertura cada vez menor lá em cima.
As paredes do poço estavam molhadas pela umidade e o ar foi ficando mais frio à medida que descíamos. As pedras cheiravam a vida e morte, crescimento e deterioração. O que parecia adequado para um lugar daqueles.
Ahmose podia controlar tão bem quanto eu a velocidade com que seu corpo descia, por isso não bateu em mim, mantendo-se logo acima. Um brilho prateado, claro, iluminava as pedras de ambos os lados, e, quando olhei para cima, sorri vendo Ahmose reluzir na escuridão.
Quando o buraco enorme que eu sentia abaixo de nós se abriu, pousamos levemente no chão de uma vasta caverna subterrânea, os pés tocando a pedra.
A luz de Ahmose enchia o espaço como se ele fosse um vaga-lume preso num jarro de vidro. Quando perguntei se estava ferido, sua resposta negativa ecoou em pedras e percorreu passagens escuras. Cada não parecia nos alertar a não ir em frente.
Ele perguntou se deveria usar o poder da Lua para iluminar a caverna e facilitar minha passagem. Corri os olhos ao redor. A pequena abertura por onde tínhamos vindo lançava um facho fraco de luz, mas com meus olhos de felina aquilo era claro como o luar numa planície aberta. Falei para ele preservar a energia. Salvar o corpo de Lily o havia enfraquecido seriamente.
Examinando a superfície da cúpula, vi outros pontos de iluminação. Cada um deles brilhava sobre nós, clareando o Poço das Almas. Sem meu poder eu poderia ter confundido aquilo com buracos no teto que deixassem a luz vir de cima. Mas, com meus sentidos apurados, sabia que cada facho era o remanescente de uma alma, uma luz agonizante que desistira de tudo, sem esperança de prosseguir.
A aranha estava certa ao dizer que essa ilha era um lugar para os perdidos e partidos. O Poço das Almas estava cheio de seres que surgiam e sumiam da minha visão. Ahmose pressentia algo sobrenatural, mas não tinha meu poder de dar nome àquilo. Quando fiz isso, eles surgiram. Eu sabia o que eram e, mais importante, o que tinham sido. Não via motivo para causar inquietação em Ahmose descrevendo a cena em detalhes, por isso deixei que ele aproveitasse as luzes bonitas e guardei o conhecimento para mim mesma. Se ele perguntasse, eu diria. Caso contrário, poderia ser uma jornada mais agradável para ele se não conhecesse a tristeza daquele lugar.
Eu sentia o cheiro da umidade fria do Rio Cósmico que batia contra o poço. Com o passar do tempo ele havia aberto pequenas brechas. Pequenas poças da água escura tinham se juntado aqui e ali, em lugares esburacados, pedregosos. Agachei-me, olhei para uma delas e vi as luzes das centenas de criaturas minúsculas que tinham feito moradia no rio. Não estavam mais vivas.
Era fácil entender como a parte humana de mim as havia confundido com estrelas. Não eram, claro, mas a mente humana era muito limitada. Certamente a leoa, a fada e a humana tinham sido expostas a muito mais do que o ser senciente médio. Mesmo assim, sua percepção do Cosmo era fraturada. Prejudicada por suas visões estreitas.
Os Filhos do Egito não eram muito mais avançados, mas tinham um potencial enorme. Isso me atraía. Eu precisaria de um companheiro capaz de aprender e crescer.
Estendi a mão para Ahmose e, apesar de me olhar com curiosidade, ele a pegou e perguntou:
— Você sabe onde encontrá-los? Não consigo ver o caminho deles. — Seus olhos brilhantes me espiaram na semiescuridão e depois procuraram à frente, absorvendo coisas que os olhos mortais não conseguiriam.
— Não. Você não saberia. Pelo menos aqui embaixo. Nem eu consigo discernir em que câmara eles estão. Pelo menos por enquanto. Posso dizer que esta tumba, já que isto é de fato uma tumba dos perdidos e partidos, contém dezenas de câmaras, cavernas e cisternas, todas ligadas por túneis. Para procurar em todos teríamos de passar por eles, e garanto que nem todos estarão vazios. Algumas coisas que estão aqui foram trancadas há muito tempo. E algumas podem não gostar de ser descobertas. — Parei e olhei meu companheiro. — Você vai conseguir refazer nosso caminho depois de começarmos?
— Sim.
— Então vamos em frente?
Ele assentiu com um ligeiro aceno da cabeça e eu me virei para uma abertura à direita. Não havia motivo específico para ir naquela direção, a não ser porque o sopro de ar na minha pele do lado direito era ligeiramente mais quente do que à esquerda. Pensei no motivo para tê-la escolhido. A leoa era atraída para o calor. A humana conhecia histórias fantásticas de que os fantasmas eram atraídos para lugares frios. Ela estava certa com relação a isso, mas os fantasmas residiam em todos os lugares do Poço das Almas, não só nos frios. A fada que havia em mim acreditava que as primeiras impressões davam sorte, mas eu sabia que não existia essa coisa de sorte. Levando tudo isso em consideração, pensei que seria bom continuarmos pela passagem da direita.
Inicialmente seguimos por uma série de cavernas, sem qualquer problema. Não estavam exatamente vazias, mas os seres que residiam ali não representavam perigo para nós. Eram fantasmas desbotados de criaturas agarradas a ossos mortos muito tempo atrás, provavelmente aldeões perdidos que tinham descido em busca de aventura ou da morte.
Examinei Ahmose enquanto caminhávamos, deixando que ele fosse à frente. Na verdade, qualquer que fosse o caminho que ele escolhesse, precisaríamos prosseguir a busca até encontrarmos seus irmãos, não importando com o que deparássemos. Uma vez ele pôs as mãos na minha cintura e me levantou por cima de um trecho de pedras quebradas. Eu poderia ter levitado facilmente, mas gostei da sensação de suas mãos em minha cintura.
Ele segurou minha mão de modo possessivo e seguimos em frente. Olhei para cima e notei que seu cabelo se encaracolava logo atrás das orelhas reluzentes. Ainda era preto e lustroso como penas de corvo sobre a pele brilhante. O contraste era bem agradável.
As diferentes garotas a cujas mentes eu tinha acesso admiravam Ahmose por vários motivos. Uma gostava da linha rude de seu maxilar. Outra, dos olhos. Ahmose tinha ombros largos e costas fortes. Tinha fala mansa e era gentil. Seus lábios invocavam lembranças agradáveis que faziam cócegas nas bordas da minha mente.
Quando eu o olhava, todos esses sentimentos e pensamentos eram parte de mim. Influenciavam o modo como eu via Ahmose e criavam um alicerce, uma conexão com ele que, se não fosse assim, eu não teria. Os primeiros vislumbres que tive do mundo ao redor tinham vindo pelos olhos de Tia, Lily e Ashleigh. Eu sabia quem eu poderia ser e como era viver como uma delas, olhando seus corações e suas mentes.
A humana, ainda conectada a mim, tinha me rotulado como uma espécie de monstro. Ela achava que eu era um Frankenstein. Uma criatura feita de partes diferentes. Que aterrorizava e destruía. Mas não era assim que eu me definia. Eu tinha vindo a ser não para devastar, e sim para unir. Para ver o que faltava e acrescentar. Para descobrir o que era desnecessário e remover.
Mas, apesar de minha aversão ao seu ponto de vista, de certa forma ela estava certa. Eu era uma espécie de amálgama. Não era totalmente Lily, Tia ou Ashleigh. Tinha pegado as partes mais interessantes de cada uma delas — as melhores partes de uma humana, uma fada e uma leoa — e as enxertado em mim. Certo, meu corpo pertencia a Lily, mas havia mudanças sutis dentro do corpo que a garota humana não poderia ter causado sozinha. Eu tinha alguns traços da fada e da leoa, mas, diferentemente de quando elas faziam parte de Lily, esses traços estavam totalmente integrados ao meu corpo.
Por exemplo, agora eu podia infundir em minhas células humanas a energia das coisas vivas. Essa capacidade se devia em parte à fada, que absorvia energia de árvores da floresta, mas a outra parte, canalizar o poder da luz das estrelas, era algo que nem ela podia fazer. Como Wasret, eu podia me regenerar indefinidamente; a única exceção a isso seria remover a cabeça do meu tronco.
Tia tinha dado suas garras a Lily, mas eu as tornei inquebráveis. As flechas de Ísis não me limitavam mais, porque eu podia forjar minhas flechas, se necessário. Para derrotar um inimigo, eu só precisava sussurrar o nome dele para a flecha emplumada e ela iria procurar o coração cujo nome eu lhe tinha dado, não importando onde ele se escondesse no Cosmo. Mas meu propósito, apesar do que elas acreditavam, não era o de um anjo vingador. Pelo menos isso eu sabia sobre mim.
E havia minha capacidade de me comunicar mentalmente. Eu não estava mais limitada aos meus mecanismos interiores, como tinha acontecido com Lily, Tia e Ashleigh. Se quisesse, poderia conversar mentalmente com Ahmose. Mas, por enquanto, queria praticar a habilidade de compartilhar meus pensamentos verbalmente. Adorava a ideia de finalmente ter uma voz própria, mas agora que tinha não sabia o que falar com ele primeiro. Eu era tão nova e crua que ainda não podia ter certeza de que qualquer coisa que me viesse à mente seria dos meus pensamentos, e não das minhas predecessoras.
Apesar de eu ser poderosa e saber instintivamente coisas que os outros não sabiam, minhas vozes interiores me deixavam cautelosa e em dúvida com relação a Ahmose e seus irmãos. As emoções que eu sentia quando pensava neles eram cruas e voláteis. Eu não experimentava esses sentimentos ao enfrentar outras pessoas.
A ideia de um ou mais dos Filhos do Egito rejeitar a oportunidade de se tornar meu companheiro feria uma parte de mim que eu ainda não entendia. Talvez isso se devesse aos pedaços de cada garota que eu carregava. Mesmo sabendo que eu era única, não podia negar meus mecanismos mais profundos. Meu modo de ver o Cosmo e os seres que residiam nele era afetado pela visão delas, e no entanto eu sabia que era capaz de formar minhas opiniões, que poderiam ou não ser muito diferentes das delas.
Eu não sabia de onde vinha a coisa que me tornava Wasret. De fato, essa era a primeira vez que tomava consciência de mim mesma como uma entidade distinta e separada. Era quase como se antes eu estivesse dormindo, à deriva num espaço semelhante a um útero. As três jovens tinham me invocado, me trazido mais para a superfície cada vez que se juntavam. A cada conexão, eu ganhava mais consciência. A princípio, eu era simplesmente uma fonte de poder. Uma fusão das três e de suas capacidades.
Mas agora eu também era algo mais.
Chegamos a uma caverna que abrigava o que Ashleigh acreditaria que era uma banshee. A criatura uivava, cantando a morte de Ahmose. Tanto seu falecimento como um humano da antiguidade quanto cada morte que ele havia experimentado desde então e as que teria no futuro. Pude perceber o momento em que Ahmose ouviu a linda canção.
— Ela canta sobre a morte — expliquei.
— É estranho que um canto sobre a morte possa ser tão lindo.
— Seu pós-morte não é a morte, você sabe. A morte verdadeira é uma transição instantânea. É lindo para além de qualquer coisa que você já experimentou. É azul de geleira e ouro encharcado de sol. É harmonia, contentamento e perfeição. Veja, a morte é um despertar, e não um fim, como a maioria dos seres acredita. A canção dela é apenas um breve vislumbre do que o espera.
— A ideia de paz me atrai. Você... você acredita que a morte verdadeira ainda é possível para mim? Para meus irmãos?
— É. Ainda está ao seu alcance. Uma morte verdadeira é possível até mesmo para mim.
— Wasret? — perguntou ele.
— Sim, Ahmose?
— Ashleigh, Tia ou Lily... alguma delas está morta?
Franzi testa pensando na pergunta. Não me doía o fato de ele perguntar. Realmente. A fada veio à frente diante de sua indagação, abrindo-se como uma flor agonizante, e as palavras de Ahmose eram o sustento de que ela precisava. Ela queria se separar, livrar-se do elo. Mas agora eu era mais forte. Podia segurá-la e permanecer no controle.
— Não. Elas não estão mortas. Elas residem em mim. São parte de mim.
Não o enganei. As três jovens ainda estavam comigo e estariam até que meus passos neste reino fossem seguros e eu não precisasse me apoiar nelas. Mesmo depois, suas vozes permaneceriam como ecos na minha mente, me influenciando para sempre.
— Sei.
— Isso incomoda você?
— Não. Fico feliz que elas não estejam mortas.
— Mas você gostaria que elas estivessem aqui, em meu lugar.
Eu não sabia por que tinha falado isso. Havia algo dentro de mim que queria desesperadamente saber a resposta para essa pergunta, ainda que, em um nível racional, eu soubesse que a resposta não fazia diferença. Não com o futuro que estava à nossa frente, pairando como uma grande pedra sobre nossa cabeça. Ela cairia muito antes de estarmos preparados.
Ahmose pensou na resposta durante um longo minuto.
— Eu me sinto feliz por estar aqui com você. Mas também fico feliz por saber que elas não se foram para sempre. Você deve saber que tive vislumbres de nós dois juntos quando estudei meu caminho.
— É. Eu sei. Isso amedrontou as três que estavam aqui antes de mim.
— Isso as incomodou particularmente porque achavam que poderia significar que iriam desaparecer.
Franzi a testa.
— Seus irmãos talvez não aceitem a mim e o que eu sou com tanta facilidade quanto você. Quanto às três jovens, elas não desapareceram. Ainda estão aqui — expliquei com paciência.
Senti que ele demoraria para entender esse conceito.
— Elas estão — disse ele. — Mas não têm nenhum controle. Não podem decidir aonde vão nem o que farão. Agora a existência delas é limitada.
— Limitada? Como são limitadas quando serão testemunhas de maravilhas para além da imaginação? Quando sua força emprestada irá clarear os cantos escuros do Cosmo?
Ahmose parecia disposto a continuar a conversa, mas se conteve e me ofereceu um sorriso e seu braço.
— Por falar nos meus irmãos, deveríamos procurá-los, não acha?
— Sim — respondi, aceitando seu braço.
O homem ao meu lado desviou o olhar e em resultado um incômodo tumulto interior irrompeu. Ele se manteve calado enquanto passávamos por uma série de cavernas vazias. Mordi o lábio, preocupada com a possibilidade de que algo que eu dissera o tivesse aborrecido. Não queria que ele me entendesse mal. A parte humana de mim tinha lido sua linguagem corporal e sabia que algo estava errado.
Estranhamente, a fada estava atormentada pela tristeza. A leoa não se sentia muito preocupada com a reação dele ao que eu tinha dito ou feito. Uma leoa não se incomodava com emoções. Contava com o instinto e se concentrava na tarefa adiante sem deixar que a mente se desviasse para outras coisas.
Avaliando minhas opções, decidi adotar a reação da leoa nesse caso e, assim que tomei essa decisão, o choro da fada e a preocupação da humana se dissolveram rapidamente, como a luz das estrelas passando entre dedos abertos. Era um alívio não ter uma cacofonia de opiniões tentando influenciar a minha, cada uma delas dotada de uma ilusão de controle.
Seguimos por um grande corredor e chegamos a uma bifurcação.
— Para onde? — perguntou Ahmose, mais para si mesmo do que para mim, pesando as opções.
Enquanto eu olhava para o caminho da esquerda, meus olhos ficaram vítreos e algo sussurrou para mim, vindo das profundezas. Minha mente se agitou, pressionando como uma pedra de moinho sobre o trigo; no entanto, a coisa que me hipnotizava permanecia esquiva. Chamava, movendo-se por buracos na rocha e mergulhava ainda mais no escuro, ofegando e expelindo seu bafo quente no ar.
— Está ouvindo? — perguntei a Ahmose, fitando o negrume adiante.
— Não. Você está ouvindo meus irmãos?
— Não são eles que me chamam. É uma coisa antiga. Não é deste lugar.
— O que é? — perguntou Ahmose, passando à minha frente e adotando postura de batalha.
Numa voz cantarolada, entoei:
— Serpenteando por caminhos e rios, escondendo o sol e as estrelas, a picada que causa arrepios, nós perdemos o que já foi nosso.
Não sei quanto tempo fiquei ali, cantando baixinho para mim mesma, mas só voltei ao estado de alerta quando Ahmose me sacudiu com força.
— O que há nesse caminho, Wasret?
Seus olhos cinza relampejavam como trovões no deserto.
— Está com raiva de mim? — perguntei, encostando a mão em seu peito sólido.
Ele soltou um suspiro trêmulo.
— Não. Só... não quero perder você também.
— Me perder? — questionei, inclinando a cabeça. — Isso não é possível. Eu não posso ser perdida. — Sua expressão não mostrou o alívio que presumi que mostraria. — Ah — falei, supondo que sua preocupação não era somente por mim —, você deveria saber que no fim desse caminho estão seus irmãos. Seus irmãos e... e outra coisa. Esperemos encontrá-los antes que a coisa nos encontre.
Ahmose levou a mão ao pescoço e o esfregou, depois assentiu:
— De acordo.
Passamos por uma caverna onde havia um fantasma usando uma capa feita de folhas secas e gastas como uma floresta de outono pouco antes da chegada da neve. Quando ele nos viu, veio arrastando os pés rapidamente na nossa direção, perdendo várias folhas no caminho. Desesperado, começou a catá-las, apertando-as contra o peito, e implorou que o ajudássemos a costurá-las de volta. Eu sabia que, quando elas se desintegrassem, ele teria de enfrentar o que estava por baixo — um esqueleto. Não era dele, mas representava uma pessoa que ele tinha assassinado e enterrado embaixo de uma pilha de folhas num lugar e num tempo muito antigos.
Enojada, empurrei Ahmose adiante.
A caverna seguinte tinha uma criatura vestida de mulher, usando um velho vestido de noiva feito de renda. Ela nunca havia sido mortal, mas tinha enganado um mortal para se casar com ela. Quisera amá-lo, mas desejara mais a carne humana. Na lua de mel, perdeu o controle e o consumiu, começando pelos dedos dos pés. Agora se balançava para a frente e para trás no vestido sujo, cantando baixinho para o noivo que sempre estaria com ela, só não como ela havia esperado, e beliscando os dedos dos próprios pés até eles sangrarem.
Passamos por uma caverna com algo que parecia um cavalo, mas na verdade era um mortal que tinha espancado seu cavalo até a morte. Ele corria e corria no terreno pedregoso que feria seus pés macios, mas na verdade não ia a lugar nenhum. Depois devorava sem parar brotos de plantas e densos montes de capim que cresciam no chão pedregoso, comendo até que sua barriga se distendia e rachava, abrindo-se.
Felizmente Ahmose tinha apenas pequenos vislumbres dessas coisas, porque eram os seres mais antigos da tumba. Os que estavam quase desprovidos de energia. Da minha parte, era necessário um esforço monumental para passar pelos que ainda mereciam seus castigos, mas de algum modo consegui fazer isso, agarrando-me a Ahmose e fechando os olhos quando a visão era mais pavorosa.
Havia outros. Os que ficavam sentados em silêncio, com a vitalidade havia muito exaurida. Os que estavam prontos, bastava simplesmente lhes dar permissão para se soltar e eles podiam prosseguir para a morte verdadeira. Eu encontrava uma espécie de satisfação em ajudá-los a se soltar da coisa que os prendia àquele local.
Então chegamos a uma câmara grande bloqueada por uma pedra. Uma energia pulsava do outro lado. Pus a mão na barreira e fechei os olhos.
— Eles estão aí? — sussurrou Ahmose.
— Estão. Mas há outra coisa com eles. — Soltando um suspiro sibilante, falei: — Não posso mover a pedra. Infelizmente gastei muita energia lutando com a aranha e lidando com os seres pelos quais passamos. Meu corpo físico está fraco e minha alma é como a de um recém-nascido perplexo. Não há muita coisa viva de onde eu possa pegar energia, além de você, e não quero debilitá-lo mais ainda. Você já sacrificou mais do que deveria para nos manter vivos.
Se ele ficou surpreso com minhas palavras, não demonstrou.
— Posso tentar encontrar um caminho através da pedra — disse baixinho.
Assenti e fiquei de lado. Ahmose encontrou uma rachadura minúscula na pedra e a acompanhou com a ponta do dedo, murmurando um encantamento. A pedra se moveu e rachou. Um raio de luz prateada atravessou a fenda e, enquanto eu olhava, foi se alargando. Ahmose me puxou vários passos para trás e se posicionou na minha frente. Por fim, com um estrondo sonoro, a pedra se partiu em vários pedaços grandes e um deles se despedaçou, disparando fragmentos e entulho pela passagem. A poeira caiu suavemente sobre nossa cabeça.
Houve um gemido alto e um sopro de ar quente jogou meus cabelos para trás. Ahmose avançou e invocou da poeira sua arma predileta, uma maça. Ela reluzia na escuridão, brilhando com uma luz fantasmagórica que só era suplantada pela claridade da pele dele.
— Vamos prosseguir com cautela — sussurrou ele, me puxando para perto enquanto levantava a arma com a outra mão.
Eu também tinha armas, mas não peguei o arco. Se precisasse das facas-lanças, poderia acessá-las rapidamente. Mas alguma coisa me dizia que minha mente era a arma de que eu precisava mais do que qualquer outra. A caverna onde entramos era maior do que todas as formações por onde tínhamos passado. Não havia dúvida de que os irmãos dele estavam aqui, em algum lugar. Ahmose poderia tê-los chamado, se eu deixasse, mas alertei-o a não fazer isso. Não queríamos atrair a atenção do outro ser que residia ali.
Contornamos afloramentos rochosos e passamos por baixo de arcos de pedra até finalmente chegarmos a dois cavaleiros imobilizados. Era como se guardassem a entrada para um fosso atrás deles. O chão ribombou à nossa aproximação e nos detivemos. Quando os tremores cessaram, avançamos com cautela.
Ahmose ergueu a viseira do primeiro cavaleiro.
— É Asten — sussurrou, empolgado.
Enquanto ia até o segundo, eu lutava com a leoa. Ela ficara perturbada ao ver o Filho do Egito daquele modo. Também fiquei inquieta com a aparência dele. Parecia morto. Quando Ahmose verificou que o segundo cavaleiro era mesmo Amon, deu um passo para trás e fez a pergunta para a qual eu não tinha resposta:
— Por que eles estão assim? Não reagem a nada e não posso senti-los, mesmo estando ao lado deles.
— Eles estão aqui, disso não há dúvida. No entanto, também não consigo acessar a mente deles — admiti. — O que aconteceu com eles deve ter ocorrido depois de Lily trazer você para o seu corpo. Mesmo que eu tentasse acordá-los agora, não conseguiria. Eles não iriam me escutar.
A caverna estremeceu furiosamente, nós cambaleamos e quase caímos. Os dois cavaleiros permaneceram rígidos, sem sair do lugar. Inclinei a cabeça, refletindo, e fui com cuidado até a beira do fosso que eles guardavam. Olhei para a escuridão procurando a criatura, o ser antigo que eu sabia que compartilhava esse lugar de repouso com os Filhos do Egito. Era poderoso e se ressentia de nossa intromissão. Seu nome me escapava e me lembrava de alguma coisa. Algo que eu já havia enfrentado. A coisa me olhava de seu abismo sombrio com seus olhos amarelos ressentidos e mortais.
— Venha a mim, Sinuoso — chamei. — Venha e diga por que mantém esses homens prisioneiros.
Caí apoiada em um dos joelhos enquanto a grande criatura deslizava para fora das sombras, fazendo o chão se mover embaixo de mim. A língua foi a primeira a disparar para fora do abismo, provando o ar. Então uma cabeça gigante apareceu. Eu soube imediatamente que não era Apep. Não. Essa era a outra metade dele, seu gêmeo polar. Tentei desesperadamente captar seu nome, mas, como o de Apep, ele me escapava. O nome quase atravessou meus lábios, mas recuou de volta a reinos sombrios.
Por que me incomoda? A grande cobra abriu as mandíbulas, as presas brilhando à luz lançada pelo corpo de Ahmose enquanto levantava a cabeça e a pousava na borda do fosso. Você não tem nada que fazer no meu domínio, deusa, sibilou ela, aproximando-se ainda mais.
— Eu não pretendia incomodar você. Viemos por causa dos Filhos do Egito, os dois guardiões que você prendeu em sua tumba.
Você não pode tê-los, disse a cobra. Eles são meus.
— Você não os consumiu. Então por que os mantém aqui?
A cobra fez uma pausa. Eu sabia o que a criatura astuciosa pretendia. Queria que eu e Ahmose ficássemos presos ali como os outros dois. Mas eu não permitiria isso.
A minha existência é solitária, eles são meus companheiros.
— Mas nesse estado eles não podem falar com você.
Verdade. Mas também não podem me deixar. A cobra voltou a se mover, chegando cada vez mais perto de mim e Ahmose, que levantou a maça em alerta mas a baixou quando balancei a cabeça.
— Sei por que você está sozinho — falei. — Sei onde encontrar sua outra metade. A que sente fome.
Deusa tola, sibilou ele. Eu sei onde minha outra metade está. Só não posso escapar desta prisão. Mesmo se pudesse, nós só rasgaríamos o Cosmo em dois na tentativa de consumir um ao outro.
— Sim. E agora entendo por quê. — Dei um passo em sua direção e levantei a mão com a palma para cima. — Posso dar o que deseja, se você entregar seus dois companheiros.
Como, pequena deusa? Como posso confiar em você quando o último em quem confiei fez isso comigo?
— Certamente você pode encontrar força para isso. Prometo que não só vou reunir você ao seu gêmeo e restaurar o que foi partido dentro de você como também vou castigar quem o colocou aqui.
O que você pode oferecer para provar que diz a verdade?
— Vou sussurrar o nome de quem o arrancou de seu lar. Você vai sentir a verdade disso nos ossos. Chegue mais perto, grande criatura.
A cobra tirou mais uma parte do corpo de dentro do fosso e deslizou a cabeça ao meu lado. Tremi mesmo contra a vontade quando as grandes presas passaram por mim. Uma lembrança nítida do seu gêmeo empalando minha perna e me enchendo de veneno nublou minha visão por um breve momento. Inclinando-me para ela, sussurrei:
— Aquela que lhe fez mal recebeu um nome. É Abjeta Antropófaga.
A cobra levantou a cabeça e um grito enfurecido ecoou na câmara, fazendo grandes pedras caírem e se partirem no chão ao nosso lado. Quando ela finalmente se acalmou, disse: Muito bem, deusa. Pode levar meus companheiros. Mas, se não cumprir integralmente sua promessa, vou assombrá-la em seus sonhos e consumir cada uma das almas que residem em seu corpo.
A cobra tornou a erguer a cabeça e mordeu uma pedra, bombeando dois poços de líquido branco das presas. Pegue um pouco do meu veneno e esfregue nos ferimentos dos dois. Eles vão acordar logo. Mas saiba que estão presos aqui em espírito, tanto quanto eu. Sem os corpos, infelizmente eles também não poderão ir embora.
— Obrigada — eu disse à cobra quando ela descia de novo para seu fosso solitário.
Ahmose usou cuidadosamente a borda de sua capa para colher o veneno. Quando retirei a armadura de Asten para localizar o ferimento deixado pela cobra, Ahmose esfregou o líquido branco. A ferida se curou diante dos nossos olhos e a cor voltou ao rosto de Asten.
A leoa se empolgou ao ver Asten piscar os olhos. Ele estendeu a mão e me envolveu com os braços. Ahmose deu-lhe tapinhas nas costas e nós três fomos até Amon. O veneno atuou rapidamente, mas Amon não acordou do mesmo modo que Asten. Ele se sacudiu e gemeu como se estivesse lutando contra um pesadelo. Quando finalmente abriu os olhos, segurou meus ombros e gritou um nome, mas não era o meu:
— Lily!
Meu lado humano deu uma guinada violenta. As partes que faziam de mim o que eu era se romperam nas costuras, me rasgando. Soltei um grito e o Cosmo ouviu. Uma grande tempestade se formou sobre a Ilha dos Perdidos no momento exato em que meus olhos se reviraram e desabei nos braços de Amon.

5 comentários:

  1. Gente, eu amei a Wasret, sério mesmo.
    Prefiro mil vezes elas como Wasret, do que envolvidas em romanceszinhos fracos (sinceramente). Seria mais interessante.

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  2. Eu acho a Lily muito fraca! Ela tem medo de tudo, eh dramática . Ui prefiro ela como wasret

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  3. Até que enfim tiraram o Amon da reserva.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!