9 de março de 2018

16. A tapeçaria fatídica

16. A tapeçaria fatídica
Eu não estava pronta para morrer. Aparentemente meu grande destino era ser o jantar de uma aranha cósmica. Não era assim que eu pensava que iria acabar. Mas, por outro lado, mil maneiras estranhas de morrer tinham me passado pela cabeça desde que eu ficara sabendo o que eu era. O que tinha acontecido comigo. Acho que ser devorada por uma aranha não era a pior delas.
Ananse aproximou-se e passou uma presa afiada pela teia que prendia minha perna, me libertando.
Se você quiser, pode vir por vontade própria, disse ela. Vou lhe mostrar o caminho até a sua tapeçaria. Não é longe. Se você não for muito melindrosa, pode montar nas minhas costas. Ah, e não pense em usar suas garras minúsculas em mim. Elas se quebrariam em minha pele. Meu couro é mais velho do que o seu sol e é feito de material muito mais duro.
— Bom, acho que vou estar mais segura montada em você.
Isso é sensato. Pode subir pela minha pata. Há um lugar atrás da minha cabeça onde você deve ficar confortável.
Fiquei em pé com alguma dificuldade. Minha perna ferida estava rígida e inchada, mas eu ainda tinha força suficiente nos braços para subir pela pata articulada da aranha. Agarrei os pelos rígidos e, quando sentei confortavelmente nas costas de Ananse, ela partiu.
A aranha gigante movia-se rapidamente entre as árvores, o corpo se retorcendo e girando agilmente nas teias fortes. Quando chegou ao fim de uma teia, saltou no ar, o corpo enorme quase flutuando como uma pipa enquanto ela tecia uma nova teia em seu rastro. Então pousou num galho e depois saltou para outro. E começou a subir, enquanto eu me segurava com força às suas costas.
Ela seguiu para uma árvore grande. Na realidade, a maior que eu tinha visto na selva. Abaixando-se sob os galhos, ela circundou o tronco. Comecei a notar minúsculos volumes na teia. Acho que não eram só pessoas que ela comia, se bem que a maior parte dos animais da selva era provavelmente pequena demais para alimentar uma criatura do tamanho de Ananse. Por fim, no topo da árvore, que oscilou ligeiramente sob seu peso, ela se virou e me mostrou seu trabalho.
Aí está, falou, quase com reverência. Diga, você acha que está exata?
Arquejei baixinho. Ali, reluzindo ao luar, estava a teia mais intricada que eu já vira. O orvalho brilhava ao longo dos fios translúcidos, fazendo-os cintilar, e havia um leve tom esverdeado no material. Demorou um tempo para que meus olhos se acostumassem, até que eu pudesse ver a profundidade daquilo e identificar as formas. Quando finalmente entrou em foco, percebi que era uma peça de arte tridimensional e que o que eu estava vendo era só a superfície.
— Ela tem luz própria? — perguntei, perplexa com a luz que pulsava na teia.
Mais ou menos. Antigamente eu controlava todas as cores do Cosmo, mas agora só disponho desta.
— É linda — falei, absolutamente pasma com o que ela havia criado.
É, mas está exata?
— Eu... eu não sei bem o que você quer dizer.
Olhe com mais atenção, Lily. O que você vê?
A aranha desceu pelo tronco da árvore, as patas compridas se agarrando aos galhos, e, com isso, a teia foi se modificando, revelando uma série de imagens, como cenas num grande mosaico magistral. Formas explodiam diante dos meus olhos. Vi todo o horizonte de Nova York. Um pôr do sol brilhante que lançava sombras compridas. O Central Park tinha sido recriado com grande detalhamento. Até as carruagens com cavalos cintilavam ao luar. Na forquilha de uma árvore, identifiquei pirâmides e explosões estelares que pareciam minúsculos fogos de artifício.
Ananse começou a andar por um galho comprido e fiquei maravilhada vendo como o desenho da teia era grande. Pensei que a totalidade dela estava contida entre duas árvores grandes, mas, quando ela se virou, havia outra seção, esta uma recriação da fazenda da minha avó. Era ligeiramente diferente do que eu lembrava. No cemitério não havia apenas uma lápide, mas três. Eu quis chegar mais perto para ver se a aranha sabia que nomes poderiam estar gravados nelas, mas o ângulo em que estávamos me impedia de enxergar com foco. Descemos mais um tronco e, em cada nível, enquanto baixávamos até o solo da floresta, havia outra cena. Uma era uma igrejinha rural com uma noiva e um noivo junto à porta, ele descendo os degraus com ela no colo enquanto alguns espectadores aplaudiam. Outra mostrava um vasto deserto com platôs e um vale coberto com uma plantação que estremecia com luz pulsante.
Havia um crocodilo monstruoso cercado por criaturas demoníacas e uma mulher com pássaros horríveis pousados no ombro. Vi um velho sentado numa cadeira de balanço cercado por um grupo de crianças, três no colo, a cabeça dele jogada para trás no momento em que dava uma risada. E havia um homem e uma mulher estudando hieróglifos dentro de uma tumba.
Em outra parte vi um morto sobre uma laje, com uma faca enterrada no peito. Uma mulher debruçava-se sobre ele, chorando, enquanto um deus egípcio montava guarda. Uma garota estava parada junto de um unicórnio, a mão segurando o chifre do animal, que baixava a cabeça. Uma luz irradiava-se do chifre. A mesma garota, agora com asas, voava até um sol agonizante e o trazia de volta à vida. Havia um velho colocando uma velha num sarcófago enquanto um deus egípcio contemplava, seu cão erguendo a cabeça num uivo. Outras pessoas, essas mais jovens, observavam. A mulher ainda estava viva. Estremeci.
A aranha saltou para outra árvore, deixando à vista toda uma nova teia. Nessa um dragão pairava sobre um cavaleiro morto, com fogo e fumaça brotando de sua boca, enquanto a menina se ajoelhava ao lado do cavaleiro. A aranha se virou e vi uma enorme cidade sendo reconstruída. Era diferente de qualquer uma que eu já vira. Os prédios eram conectados por passarelas e pontes. A cena seguinte mostrava uma garota voando pelo espaço nas costas de um unicórnio, à frente de um exército de cavaleiros da mesma estirpe. Ela brandia armas familiares e seu rosto estava iluminado pela determinação.
Apontei para ela no momento em que a aranha parou.
— Aquela não sou eu — falei. — Se isso deveria ser minha vida, meu destino ou sei lá o quê, acho que você errou algumas coisas. Não posso me lembrar exatamente de tudo por que passei, mas algumas dessas imagens não são minhas.
Tenha em mente que a tapeçaria inclui imagens não somente do seu passado, mas também do seu futuro. Essas cenas representam todas as coisas que você vai fazer na vida.
— Eu entendi, mas como posso fazer essas coisas no futuro se você vai me comer?
Ah, muitas pessoas se enganam aqui. Suponho que eu não deveria esperar mais de você do que das garotas nativas, apesar de você ser tão especial. Lembre-se de que, apesar de eu ter a capacidade de tecer o seu destino, esse destino é o que você conheceria se não tivesse posto os pés na Ilha dos Perdidos. Uma vez tendo chegado aqui, seu caminho se parte. Eu só lhe dou um pequeno vislumbre do que poderia ter sido. É uma gentileza, acho, poder ver sua vida assim antes de ela terminar abruptamente.
— Bom, isso é questionável. Mas mesmo assim você errou.
É? Como?
— Bom, veja isso, por exemplo — falei, apontando para a garota alada voando na direção de uma estrela agonizante. — Isso não é possível. Não posso fazer isso. Não tenho asas. Não sou uma deusa nem nada.
Tem certeza? Você não pode fazer com que elas brotem?
— Não. Talvez Ashleigh. Ela foi fada em outra vida.
Não. Não. Eu bloqueei as outras.
— Certo, mas elas fazem parte de mim. Não estou vendo uma leoa aqui nem o bando do qual ela veio, na África. Você deixou de fora um grande pedaço da minha vida ao ignorá-las.
Certamente não são pedaços importantes.
— Eu diria que são. Não me lembro de como elas passaram a fazer parte de mim, mas causaram um impacto gigantesco. Não há como deixá-las de fora. Você terá de acrescentá-las se quiser que a tapeçaria esteja certa. A não ser que a precisão não tenha muita importância para você. Eu imaginaria que um ser poderoso como você seria capaz de discernir esses detalhes. Talvez você não seja uma tecelã tão boa ou tão cheia de sabedoria como acha que é.
Certo. Bom, veja só, a questão é que eu não posso acrescentar simplesmente as formas como elas influenciam sua vida. Precisaria tecer uma tapeçaria completa para cada uma delas. Seria muito complicado. As teias delas teriam de fazer interseção com a sua em muitos pontos diferentes. É o único modo de ser completamente exata.
— Entendo. Bom, acho que, se é difícil demais, terei de aceitar uma tapeçaria incompleta. É uma pena, de verdade. Não me entenda mal. É um trabalho lindo. E posso viver com a discrepância... bom, viver pelo pouco tempo que me resta... se você também puder. Claro, como uma criatura imortal, você teria de viver com a imprecisão durante um bom tempo. Talvez não seja uma coisa que você possa realizar neste ponto da sua vida, de qualquer modo.
O que você quer dizer com isso?
— Só quero dizer que você não é mais tão jovem. Não é vergonhoso perder a prática. Quero dizer, veja o que você pôde fazer depois de ficar presa aqui na ilha por tanto tempo — falei, estendendo o braço num gesto amplo. Não sabia se seus olhos de pedras preciosas podiam me ver ou não, por isso não corri nenhum risco com minha expressão.
A aranha esfregou as duas patas da frente uma na outra enquanto pensava no que iria fazer. Forcei os ouvidos, tentando escutar Ahmose, mas o único som que chegava a mim era o farfalhar das folhas à brisa noturna.
Posso estar destreinada, disse Ananse, mas certamente ainda possuo as habilidades necessárias para criar tapeçarias múltiplas. Já teci as tapeçarias de populações inteiras. Três garotas não devem ser um problema, não importa a complexidade com que estejam conectadas. A aranha estalou as presas. Muito bem. Vou precisar de acesso aos pensamentos das outras duas que residem na sua mente para ver como elas moldaram e influenciaram seu destino.
— Acho que seria melhor — eu disse. — Tia já será um acréscimo muito interessante. Ela teve uma trajetória de vida bem complicada. Creio que você vai achar a tapeçaria dela muito instigante.
Então está decidido.
Uma pressão, a que eu não tinha atentado, deixou a minha mente e escutei as vozes familiares, agora muito confusas, de Tia e Ashleigh. Em voz alta eu disse:
— Tia, Ashleigh, gostaria de apresentar vocês a Ananse. Ela vai tecer suas tapeçarias. Vocês devem ficar bem quietas para que ela possa trabalhar.
As duas ficaram imediatamente em silêncio.
Ananse correu por um fio e saltou rapidamente de árvore em árvore. Assim que se afastou o suficiente da minha tapeçaria, parou. Eu desci de suas costas e me sentei na forquilha de uma árvore alta.
— Quer amarrar minha perna de novo? — perguntei, afável. — Não me importo. Quanto tempo você acha que vai demorar para terminar? Estou tão empolgada para as garotas verem o trabalho glorioso que você faz!
Sim, disse Ananse distraída. Quero dizer, não. Você está num lugar bem alto e o veneno provavelmente a enfraqueceu o suficiente para que você não consiga descer sozinha. Provavelmente vou demorar quase dois dias. Claro, terei de tecer noite e dia para terminar nesse tempo.
— Perfeito. Vamos ficar esperando aqui.
A aranha se virou, pegando uma teia mais alta, e içou o corpo. Desceu rapidamente pelo fio e acrescentou, como se falasse consigo mesma: Terei de consumir o rapaz primeiro, para ter energia suficiente para a tarefa. Nunca fiz uma tapeçaria tão complicada.
— Não! — gritou Ashleigh usando minha voz.
Pressionei as mãos sobre a boca enquanto a aranha voltava correndo até mim, rápida como um raio. Ananse se abaixou até onde eu estava, as patas traseiras firmando a teia nova de onde ela pendia. Virando a cabeça de modo a manter as presas a uma distância em que poderiam se cravar em mim, ela me sondou com os palpos.
O que foi isso?, perguntou a aranha, com um gume de malícia na voz.
— Ah, é só que, antes de comê-lo, você deveria saber que Ahmose também tem um importante lugar na minha tapeçaria.
Ananse inclinou a cabeça.
Seja como for, não posso construir uma coisa tão grande sem energia. Você acha que meu corpo pode gerar fios a partir do ar?
— Ah... não pode?
“Não” é a resposta correta. Olhei as mentes de suas companheiras, e os destinos potenciais delas são vastos. Na verdade, as tapeçarias resultantes podem acabar cobrindo toda a ilha.
— Mas...
Ela me interrompeu: Garanto que estou à altura da tarefa, mas isso vai exigir muita energia e estou exaurida. Sinto muito se seu homem é importante na sua trama, mas terei de deixá-lo de fora.
— Tudo bem — garanti. — Nós entendemos. Não é, garotas?
Claro, respondeu Tia mentalmente.
A princípio Ashleigh não respondeu. Eu quase podia sentir sua contrariedade por ter de bancar a boazinha.
Faça o que tem de fazer, criaturinha, disse ela por fim.
Aparentemente isso bastou, porque a aranha se afastou de novo, voltando para a parte da floresta onde tinha deixado Ahmose num casulo. Quando achei que a aranha estava suficientemente longe, falei mentalmente: Agora!
Então nos concentramos, unindo nossas mentes como Wasret. Eu sabia que o medo era uma barreira para mim. Precisava me soltar e confiar absolutamente nas minhas companheiras interiores.
— Depressa! — gritei em voz alta.
Ouvi os estalos e o farfalhar de árvores enquanto a aranha voltava correndo a toda a velocidade. Uma bolha de pressão cresceu na minha mente de novo quando Ananse tentou nos bloquear, mas era tarde demais. Nós nos conectamos completamente pela primeira vez, instigadas pelo desespero de salvar Ahmose, e nos enchemos de poder.
Com toda a calma abri os olhos e ergui os braços. A luz das estrelas se dividiu e escoou para o meu corpo. Olhei a minha perna inchada e tirei energia das árvores, dos animais e do próprio Cosmo, sorrindo enquanto o ferimento se fechava e o veneno era retirado do meu corpo. A aranha pousou no meu galho com uma pancada forte, as mandíbulas estalando e as presas pingando veneno.
O que você fez?, perguntou.
Ignorei-a e torci as mãos. Meu corpo ficou sem peso como o luar. Lentamente ele subiu por vontade própria. Quando minhas pernas pareceram retas e fortes, pousei os pés no galho. A parte de mim que era fada sabia como se equilibrar instintivamente. A parte de mim que era leoa sabia que eu precisava de água, por isso invoquei a água até mim. Ela veio do ar e subiu do rio. Quando pus as mãos em concha ela se empoçou no centro. Bebi até a leoa se saciar.
Lily, você foi longe demais, começou a aranha.
— Não, Ananse — falei, a voz baixa como um trovão distante. — Você é que foi longe demais.
A aranha recuou, os palpos estremecendo no ar. Eu sabia que ela estava desesperada para me tocar. Sabia que era com os palpos que ela lia a mente das presas. Quando baixei as mãos, seus palpos imitaram minha ação e se tornaram inúteis.
— Mas você não é realmente Ananse, é? — falei. — Esse é o nome que os mortais lhe deram.
Como você sabe?, perguntou a aranha. Por que fala comigo assim?
— Eu sei de muitas coisas, decaída. Sei que você já foi brilhante e linda. Que nasceu uma megaraneae, uma tecelã cósmica, a quem foi confiada a tarefa mais importante: criar equilíbrio e documentar a história. Mas você buscava o poder e violou as leis fundamentais que governavam sua espécie. Quando o Cosmo não pôde mais ignorar seu crime, a justiça veio acertar as contas, mas você se escondeu dela. Assim como se esconde de seu nome verdadeiro.
Você não sabe do que está falando.
— Ah, claro que sei. Não é o nome com o qual você começou. Não, esse nome é um que você criou para si mesma. É o seu nome verdadeiro. Ele está gravado no seu coração. Não é, Abjeta Antropófaga?
Na minha mente a aranha gritou. Suas patas compridas tremeram e ela despencou do galho, indo cair vários metros abaixo, numa teia que segurou seu corpo trêmulo. A humana que havia em mim achou que a aranha parecia ter sido atingida por uma lata gigantesca de inseticida.
Inclinei-me sobre o galho, olhando-a.
— Você ouve esse nome ecoar no oceano de vazio em que vive? Apesar de sua voracidade, você não vai comer. — A humana que havia em mim advertiu que eu deveria verbalizar as palavras do modo exato. — E quando a justiça chegar para você — inclinei-me para a frente, fitando seus olhos que pareciam joias —, e eu garanto que vai chegar, você vai aceitar seu destino de braços abertos. Ou patas, no seu caso.
Quando cheguei mais perto, a aranha recuou, apavorada, os palpos frouxos se arrastando, pendendo de ambos os lados da cabeça.
— Eu sugeriria que você usasse o tempo entre agora e esse momento para pensar nas escolhas egoístas que fez em sua vida longa demais. Aproveite a oportunidade para tecer a sua tapeçaria introspectiva. Certifique-se de colocar seu fim. Se serve de consolo, será o trabalho mais grandioso que você já fez.
A aranha tremeu ao responder:
Sim, senhora.
— Muito bem. Agora sugiro que você me leve ao meu companheiro de viagem e o liberte de sua teia. Temos muito trabalho a fazer.
Como quiser. Ananse endireitou o corpo debilmente e, com as patas trêmulas, desceu, parando apenas para se certificar de que eu a seguia.
Ela me levou por um caminho sinuoso através das árvores da selva, descendo por fios de teias e criando novas teias onde elas haviam enfraquecido. Fui atrás dela, pisando leve e confiante, em equilíbrio perfeito, a mente e o espírito harmoniosos e concentrados. Na verdade, só quando nos aproximamos de Ahmose e a aranha passou a presa pela lateral do casulo que o segurava, senti meu controle como Wasret diminuindo.
Minha parte fada lutava para se soltar, mas mantive poder suficiente para pôr a mão no rosto dele e direcionar o luar para o seu corpo. Havia algo errado com ele. Algo por dentro que eu não conseguia consertar rapidamente, e o tempo era fundamental. Pude, porém, erradicar o veneno. Ahmose respirou fundo e abriu os olhos.
— Lily? — disse ele.
Balancei a cabeça.
— Agora você fala com Wasret, Filho do Egito.
Se eu quisesse usar meu poder nele, poderia, mas recuei diante dessa ideia. Não queria controlá-lo e, além disso, Ahmose ainda não tinha chegado ao momento em que um nome final deveria ser designado. Seu nome verdadeiro seria revelado mais tarde. Fechei os olhos. Algo iria acontecer com relação àquele homem e seus irmãos, e tinha a ver com o meu futuro. Pensei em virar meu poder para mim mesma, com o objetivo de descobrir meu nome verdadeiro. Wasret era o nome que me fora dado pelo Cosmo, mas eu era mais. Sentia isso no âmago.
A aranha tinha tecido o destino de Lilliana Young, pelo menos em parte. Imaginei o que ela veria se tivesse a capacidade de tecer o meu destino. Mas eu percebia que ninguém no Cosmo, nem mesmo a última megaraneae que restava, sabia o que eu iria me tornar. Eu teria de esperar e descobrir sozinha.
A fada continuou fazendo força, arrancando partes de sua consciência, enquanto Ahmose se mexia e se libertava do casulo. Alarmada com a força e a determinação da fada, e fraca demais para impedi-la, ordenei à aranha que nos deixasse e disse para Ahmose me seguir. Saí da teia e baixei suavemente até o chão. Apesar da distância, meu corpo absorveu o impacto facilmente.
Ahmose me acompanhou de volta à clareira. Ali, virei-me para olhar o domínio da aranha. Fechei os olhos e senti que ela nos observava, mas, enquanto eu fosse Wasret, ela não poderia agir contra mim. Não enquanto eu usasse seu nome verdadeiro.
— Venha — eu disse a Ahmose. — Precisamos voltar rapidamente à aldeia. Seus irmãos esperam.
A fada se sacudiu contra mim quando Ahmose segurou minha mão.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz preocupada. Em seguida, tirou uma folha do meu cabelo e segurou meu pescoço. — Vi a aranha morder você.
— É. Ela mordeu. Mas eu me curei.
— Você pode curar?
— É uma coisa simples — respondi, inclinando a cabeça. — Você também tem essa capacidade.
— Sim. Mas não sabia que Wasret tinha.
Assenti, pronta para ir em frente, mas depois parei e segurei a nuca de Ahmose, trazendo seus lábios para os meus. Ele me puxou contra seu corpo e correu as mãos pelas minhas costas até envolver minha cintura.
Depois de um beijo demorado, ele ergueu a cabeça.
— Por que isso? — perguntou, com um sorriso levantando os cantos da boca.
— Eu só estava tentando aplacar a fada. Ela quer dissolver nossa conexão, mas precisamos mantê-la pelo menos por mais um tempo. Meus elos com seu reino ainda são frágeis demais. Venha, Ahmose.
Segurei a mão dele e fui puxando-o atrás de mim. Ele mudou a posição das mãos para poder andar ao meu lado. A fada se acalmou e eu pensei que um companheiro como ele era uma peça importante no quebra-cabeça para determinar o que eu era, o que viria a me tornar. Quando entramos na aldeia os guardas nos olharam chocados. Obviamente não esperavam que retornássemos.
Levantando a mão quando a multidão se juntou à nossa volta, falei:
— Não precisam mais fazer sacrifícios à aranha. O tempo dela nesta ilha é curto. Mesmo assim, seria sensato evitarem o domínio dela. Se forem apanhados na teia, o veneno ainda irá afetá-los.
Se estavam surpresos porque de repente eu podia falar com fluência sua língua, eles não demonstraram.
— O que vocês fizeram? — perguntou o rei minúsculo enquanto a multidão abria caminho para ele passar. — Se deixaram Ananse com raiva... — ameaçou, sacudindo um dedo para mim.
— Pérfido imperador, você trará as cabaças imediatamente. Se quisesse, eu o teria rastejando aos meus pés, mas temos pouco tempo. Passamos por suas provas. Sobrevivemos à aranha. Faça o que eu digo antes que você sofra as consequências.
Os homens correram, mesmo enquanto o rei me encarava, carrancudo. Eu sabia que ele estava tentando encontrar uma falha. Algum modo de me punir para instilar medo em seus seguidores. Mostrar que estava no comando. Meus dedos pinicavam de vontade de humilhá-lo, mas não foi necessário. O rei deu um passo para trás e fez uma reverência; ainda que não fosse sincera, pelo menos era óbvia. Seus soldados seguiram o exemplo e três deles avançaram apresentando as cabaças.
Sorri, fitando o rei com os olhos estreitados. Tinha adivinhado seu jogo. Ele jamais pretendera nos dar o que queríamos. Numa cabaça havia uma cobra. Venenosa e mortal. Em outra, uma fruta podre cheia de insetos minúsculos. Uma picada deles causaria uma doença terrível. A terceira cabaça deveria conter um mapa. Continha, mas o que Ahmose não pudera discernir era que o mapa era desenhado na teia de Ananse. Ele envenenaria qualquer um que o tocasse, também trazendo a morte.
— Que rei esperto você é! — falei. — Gostaria de lhe propor uma barganha.
— Uma barganha? — perguntou ele com os dedos se remexendo, cobiçosos.
— Sim. Se escolhermos o mapa, você vai pegá-lo e nos levar pessoalmente ao nosso destino.
Seus olhos se tornaram fendas estreitas.
— E se vocês escolherem outra coisa?
— Se escolhermos uma cabaça diferente, Ahmose lhe dará o poder de invocar a chuva. E — acrescentei — você pode ficar com minhas armas.
O rei franziu a testa. Eu sabia que ele pretendia ficar com minhas armas de qualquer jeito, mas ele coçou o queixo pensando na possibilidade de ganhar o poder de Ahmose.
A multidão reagiu, empolgada. Era uma coisa que o rei não poderia negar. O fato de que as pessoas não demonstravam medo de perder seu rei significava que não sabiam o que ele havia feito. Imaginei como ele teria conseguido aquilo. Será que tinha feito um trato com Ananse enquanto estávamos pensando num modo de derrubar uma árvore usando formigas?
Eu sabia que os aldeões ansiavam pela capacidade de Ahmose e iriam pressioná-lo para fazer o que pedíamos.
Com relutância, ele concordou, provavelmente achando que eu escolheria a cabaça errada, de qualquer modo. Não querendo perder tempo, fingi dúvida enquanto escolhia, mais para satisfazer as pessoas do que o rei. Vi os olhos dele se iluminarem quando pus a mão na cabaça que continha a cobra. Sussurrei o nome verdadeiro dela e a pobre criatura se acomodou e dormiu.
Pairando sobre a cabaça que continha a doença, fiz uma pausa. Depois fui para a do mapa, parei e olhei de uma para outra, finalmente pousando a mão sobre a que continha o mapa mortal.
Enfiei a mão dentro dela, peguei o mapa e o levantei em triunfo. O povo gritou, comemorando. Com um sorriso no rosto, inclinei a cabeça e o entreguei ao rei. Ele franziu o nariz com repulsa e tentou imediatamente chamar seu melhor rastreador para me guiar.
— Não, grande rei — repreendi. — Você prometeu nos guiar pessoalmente.
Empurrei o mapa contra seu peito nu e ele saltou para longe, como se eu tivesse lhe atirado uma tocha acesa. O mapa já havia tocado sua pele, mas ele o pegou com cuidado usando as bordas da saia colorida e gritou para seu povo abrir caminho. Quando o lembrei das minhas armas, um guerreiro rapidamente as apresentou e eu as prendi às costas.
O rei abandonou todos os fingimentos de civilidade assim que nos vimos cercados pelas árvores.
— Eu posso curá-lo, sabe? — falei, seguindo-o. — Se nos levar rapidamente e sem trapaças, vou remover o veneno do seu corpo.
— Como você sabia? — perguntou ele.
Dei de ombros.
— Eu simplesmente sabia.
Desesperado pelo presente que eu tinha oferecido, o rei descartou o mapa e nos levou direto ao lugar aonde queríamos ir. Quando chegamos à pedra escondida no bosque, ele disse:
— Pronto. Eu trouxe vocês. Agora faça o que prometeu.
— Você não nos enganou, não é? É o mínimo que espero de sua parte.
— Não. Este é o Poço das Almas. Assim que alguém entra, não há como sair, pelo menos que eu saiba. Por isso vou agradecer se você me curar antes de descer.
Fui até a borda do poço e olhei para baixo. Não havia um balde ou uma corda indicando que fosse usado para pegar água. Era só uma abertura que parecia... vazia. Como se as profundezas do poço existissem para além da borda do Cosmo. Mesmo com meus poderes, eu não podia ouvir nem ver nada. Ahmose pegou uma pedrinha e a jogou lá dentro. Não houve som.
Mesmo assim, parecia o lugar certo. O rei estava suando e esfregando as mãos uma na outra.
— Muito bem — falei e fechei os olhos. Pensei em deixar o veneno. Com o pouco contato que ele tivera, demoraria anos para matá-lo, mas esses anos seriam longos e dolorosos. Com a decisão tomada, só levei um instante para limpar os efeitos do veneno da aranha de seu organismo. — Está feito. Tente liderar seu povo com sabedoria, e não com medo.
— Fico feliz por me livrar de vocês dois — disse ele, afastando-se rapidamente do poço e desaparecendo entre as árvores.
Saltei para a borda, com a fada que havia em mim adorando o modo como meu corpo se movia. A leoa hesitou em saltar para o desconhecido, assim como a humana; eu, porém, as ignorei. Minha intenção era pular dentro do poço, mas Ahmose segurou meu braço.
— Não deveríamos providenciar uma corda? — perguntou. — Como vamos sair?
— Voando, acho — respondi, e lhe dirigi um sorriso atrevido antes de pular.

4 comentários:

  1. Espero que eles finalmente tenham de fato alcançado os irmãos, essa encheção de linguíça já deu ¬¬

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  2. Isso lembra tanto Annabeth e Aracne ♥

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Boa leitura, E SEM SPOILER!