9 de março de 2018

15. Presos numa teia

Cruzando os braços, eu disse:
— Parece que o seu Julgamento da Calabaça é igual a morte, morte e... ah, surpresa, mais morte. Acho que não vamos continuar fazendo o seu jogo.
Ahmose não traduziu. Olhou para mim com uma mistura de “Você provavelmente não deveria ter dito isso” e um orgulho sem limites, os olhos cinza se franzindo quando um canto da boca subiu. Quando ergui as sobrancelhas e gesticulei para que fizesse alguma coisa, ele suspirou. Ahmose expressou meu sentimento corretamente, ainda que seu tom não fosse tão irritado quanto o meu. O rei inclinou a cabeça, pensando nas minhas palavras. Não havia dúvida de que ele era inteligente e gostava de nos provocar.
Eu tinha encontrado homens como o rei nas festas do meu pai. Certo, aqueles homens tinham sorrisos de um milhão de dólares e estaturas imponentes, mas o diminuto rei da ilha sentado ao nosso lado mordiscando insetos du jour não era menos astuto do que os sujeitos com ternos caros na cidade de Nova York. Na verdade, provavelmente era mais esperto do que a maioria deles e sem dúvida mais confiante.
O rei bebia de uma tigela com um líquido quente e perfumado. Espirais de vapor subiam, com um cheiro agradável de especiarias frescas. Identifiquei algo que lembrava canela ou talvez anis. Se nos oferecessem, eu ficaria tentada a experimentar. Seu rosto de traços marcados parecia mais jovem, suavizado pelo vapor do chá ou pela alegria de pensar em nossa morte.
— Quando se começa — disse entre goles do chá —, o Julgamento da Calabaça deve ser concluído. O seu homem concordou com o desafio, se me recordo. Vocês devem terminar o que começaram, por mais perigoso que possa ser. Meu povo não gosta de quem volta atrás com a palavra dada.
— Voltar atrás com a palavra? — contrapus. — Nós não tivemos esco...
Ahmose pôs a mão no meu joelho e me interrompeu:
— Então, se você não tem objeção, gostaríamos de encontrar essa Ananse o quanto antes.
— Claro, claro — disse o rei.
— Ahmose — sibilei, segurando seu braço —, não acho que essa seja uma boa ideia. Estamos perdendo tempo aqui entretendo esse sujeito, quando deveríamos procurar seus irmãos.
— Sei que é o que parece, Lily — respondeu ele baixinho. — Mas esse rei e essa aldeia são as únicas coisas que encontrei até agora nesta ilha que não têm o caminho partido.
— O que isso quer dizer?
— Não sei exatamente. Só que, quando estudei os caminhos possíveis depois de ver as cabaças, um deles brilhou. Acho que sei qual pegar, se chegarmos à parte da escolha nesse jogo.
— Certo, mas para chegar lá precisamos derrotar uma aranha gigante. Não é uma coisa que eu gostaria de pôr na minha lista de sonhos de consumo, se você me entende.
— Não sei o que é uma lista de sonhos de consumo, mas enfrentar uma aranha não deve ser diferente de enfrentar as formigas. Na verdade, imagino que seja mais fácil, pois estaremos lidando com uma única criatura.
— Certo, entendo o seu ponto de vista, mas em todo filme com aranhas gigantes que eu vi...
O que é um filme?, perguntou Ashleigh enquanto eu tentava em vão interromper a reprise de Aracnofobia no meu cérebro.
Suspirei.
— Deixe para lá. Sorte de vocês não terem imagens mentais fixas graças às versões de Hollywood daquelas coisas com pernas compridas que aparecem de noite. Talvez essa aranha gigante não seja tão ruim — falei, tentando convencer não somente a elas, mas a mim mesma.
Tia não temia aranhas e Ashleigh até gostava delas. Chegara a ter uma de estimação no mundo dos mortos e havia tecido os fragmentos de sua teia para fazer uma rede de dormir.
Aparentemente eu era a única do grupo apavorada com a ideia de uma aranha gigante querendo consumir minha carne. Joguei as mãos para o alto.
— Ótimo. Mas, se formos comidos, esperem ouvir “Eu não disse?” até nosso fim definitivo nesta ilha da morte.
O grandalhão ao meu lado me dirigiu o que deveria ser um sorriso tranquilizador, mas eu me recusava a me sentir reconfortada numa situação dessas.
Eu não era uma atriz loura e burra que gritava por causa de insetos, mas aranhas gigantes? Eu não era idiota. Quando Godzilla chega a Manhattan, os nova-iorquinos são espertos o suficiente para sair da cidade. Essa parecia uma situação do tipo para sair da cidade. Pelo jeito, eu era a única voz racional no grupo e ninguém estava me dando ouvidos.
O reizinho se levantou e bateu palmas.
— Vocês deixam as armas aqui.
— Acho que não — eu disse, segurando meu arco quando um guerreiro o puxou do meu ombro.
— Vamos manter suas armas em segurança — garantiu o rei.
Como Ahmose não estava me dando escolha, concordei com relutância e fiquei olhando enquanto minhas armas desapareciam dentro da cabana do rei. Dois soldados avançaram e amarraram nossos pulsos com uma corda áspera que arranhava. Levantei os pulsos amarrados para Ahmose e o fulminei com o olhar, depois o acompanhei, a contragosto, com nossos captores, voltando para a selva.
Quando chegamos ao local designado, um alto mastro de madeira numa pequena clareira, um homenzinho me levou direto até ele. Fez um tremendo alarde ao me amarrar ao mastro, no estilo garota sendo sacrificada ao King Kong. A qualquer momento eu provavelmente poderia tê-lo derrubado com um leve empurrão, mas fui em frente atendendo aos desejos de todo mundo.
Resmunguei e tentei chutá-lo na canela quando ele puxou as cordas com força suficiente para doer. Ao se sentir confiante de que eu não poderia escapar, foi ajudar seu colega.
Enquanto isso, Ahmose estava ajudando seu captor a localizar uma árvore à qual poderia ser amarrado.
— Ah, fala sério! — resmunguei. Para mim, esse jogo tinha ido longe demais. Depois de Ahmose estar devidamente amarrado, o cara que me prendeu bateu numa espécie de sino pendurado. — Ótimo — falei assim que ele saiu correndo da clareira. — Tocando a sineta do jantar. Será que não dava para ser mais óbvio? — gritei atrás dele.
A copa das árvores estremeceu e eu fuzilei Ahmose, do outro lado da clareira, com os olhos.
— Só para saber: eu culpo você totalmente por isso — berrei.
— Vai ficar tudo bem, amor — gritou ele de volta.
— Ah, não. Você não deve gritar palavras carinhosas numa hora assim!
— Apenas se concentre. Use seu poder — disse ele, elevando a voz de um modo tranquilizador mas compreensível.
Retorci o corpo tentando partir as amarras, mas as cordas estavam apertadas demais.
Mal posso esperar para ver o bicho, disse Ashleigh.
Eu também estou curiosa, acrescentou Tia.
— Calem a boca — falei, com raiva de todo mundo por causa da nossa situação, e finalmente me acomodei encostada no mastro. — Concentrem-se.
Fechando os olhos, nós três canalizamos o poder. Mas, antes que o elo estivesse completo, um galho de árvore se partiu. Levantei os olhos e ofeguei ao ver uma pata marrom peluda e gigantesca emergir do meio das árvores e baixar delicadamente na clareira. Assim que pousou, o membro grosso pareceu um tronco de árvore fino e eu pisquei, pensando se minha imaginação o teria conjurado. Então outra pata apareceu, e depois outra.
Um medo frio disparou por minhas veias e minha boca ficou seca. Por que as pessoas que eu amava eram tão idiotas? Tia e Ashleigh estavam gritando na minha mente, mas suas vozes pareciam distantes, como se abafadas ou presas atrás de um vidro. Eu não conseguia ultrapassar o medo para ouvi-las. As patas compridas subiram e pousaram de novo. Tudo o que eu conseguia fazer era espiar seu progresso. Não ousava olhar mais para cima. Não queria ver a boca, as presas ou um punhado de olhos refletindo minha imagem.
Ahmose gritou do outro lado da clareira, mas suas palavras também não tiveram efeito. Por fim, as patas pararam de se mover. Duas delas tinham passado por cima de mim. Duas estavam nas bordas da minha visão periférica. Agora que estavam mais perto, vi que terminavam num invólucro duro, pontudo, como uma garra que se cravava no chão. Senti a presença da criatura. Era antiga e, enquanto ela me olhava, minha pele formigava. De novo eu estava perplexa e não podia fazer nada a respeito. O ar se agitou. Senti frio em minha pele suada. Todos os pelos da minha nuca estavam eriçados.
As patas estremeceram e eu não pude me impedir de olhar para cima. O corpo da aranha também era peludo e um pouco mais escuro do que as patas. O abdome era gigantesco, com calombos se projetando atrás, que imaginei que seriam as fiandeiras. Ela se abaixou até que a cabeça e o corpo quase tocaram no chão. À minha esquerda e à direita, longos palpos se contraíam.
Por fim, olhei direto para a criatura.
Meia dúzia de joias pretas, ou mais, piscavam num leito peludo na parte de cima da cabeça. Demorei um momento para perceber que eram olhos. Calombos esverdeados adornavam as costas da aranha. Pareciam um cruzamento entre cogumelos e musgo. Imaginei se aquilo seria natural ou se era só algo que crescera ali, como consequência de Ananse morar na floresta.
Duas mandíbulas grossas, articuladas, grandes como uma porta dupla, se abriram e fecharam como uma tesoura de cozinha, e uma presa comprida e preta pendia de cada uma delas. Uma gota de líquido branco escorreu de uma. Tremi e pressionei as costas no mastro. Nesse ponto King Kong estava parecendo bastante simpático. O gorila gigante não era nada perto daquela aranha.
A criatura moveu os palpos, estendendo-os para me sondar. Precisei de todo o esforço de que era capaz para engolir o grito. Os palpos não doíam, mas eram ásperos e se prenderam no meu cabelo. As pontas pareciam um pouco as almofadas nas patas dos cães, passando por meus braços e subindo pelo pescoço. Os palpos se afastaram de novo e a cabeça se aproximou. Notei que as presas não eram somente pontudas, mas tinham bordas como navalhas de ambos os lados. Engoli em seco quando me ocorreu que essas lâminas poderiam ajudar a criatura a desmembrar as garotas que ela devorava.
Tia?, gaguejei em minha mente. Ashleigh? Mas minhas companheiras interiores não responderam. Em vez disso, uma voz nova penetrou no meu cérebro.
Ora, olá, ouvi nos pensamentos. É muito raro encontrar uma jovem que possa falar com a mente. Você não é uma oferenda típica. Parece que entrou no lugar errado na hora errada, minha cara.
Agora desesperada, tentei bloquear tudo aquilo e acessar Tia e Ashleigh. Mas, por mais que me esforçasse, não conseguia encontrá-las. Um palpo me golpeou de volta contra o mastro. Parecia errado não ter acesso às minhas companheiras interiores, como se uma parte de mim estivesse faltando ou tivesse sido drogada. O palpo me beliscou.
— Ai! — gritei.
Quando olhei para baixo, meu cérebro turvo percebeu que não era um palpo, mas sim uma das presas, que agora estava cravada em minha coxa.
Ora, ora, não se preocupe com sua incapacidade de se comunicar. Meu veneno dificulta um monte de coisas.
As árvores da floresta tinham começado a desaparecer. Uma a uma foram sumindo. As bordas da minha visão estavam ficando brancas. Meu corpo se sacudiu uma vez. Duas. Não era doloroso, mesmo, embora devesse ser. O veneno devia ter me paralisado, porque tudo o que eu sentia era algo me puxando e as ligeiras cócegas dos pelos da aranha enquanto as patas roçavam em mim.
Ah, que chato, disse a voz. Não gosto quando eles amarram tão apertado. Eles sabem que não gosto que minha presa seja danificada.
Senti lágrimas escorrendo pelo rosto, mas não conseguia levantar a mão para enxugá-las. Com um último tremor, meu corpo tombou para a frente, mas fui apanhada pela cintura antes de bater no chão. Pelos ásperos se esfregaram em minhas costas e pernas, e então eu estava me movendo rapidamente pela clareira. A última coisa de que me lembro antes de o mundo ficar escuro foi de ouvir Ahmose gritar.
Quando voltei a mim, estava olhando a luz suave de uma lua cheia. Minha perna latejava ligeiramente, mas a dor parecia opaca e distante, mais como um eco do que qualquer coisa que precisasse de atenção. Eu me balançava suavemente numa confortável rede de acampar, o ar da noite estava fresco e trazia alívio à minha pele. As estrelas piscavam lá em cima. Que sonho estranho eu tinha tido! Queria chamar Ahmose, mas minha língua estava inchada e a boca tinha um gosto esquisito.
Uma mulher cantarolava ali perto.
Ah, bom, você acordou, disse ela. Sua voz era reconfortante. Como uma tia querida. Estou quase terminando sua tapeçaria.
Que legal, pensei, e me acomodei, deixando a mente divagar enquanto pensava em belos cavaleiros, castelos e lindas tapeçarias.
Alguns minutos se passaram, mas alguma coisa me impedia de cair de novo no sono. Uma irritação começou, dizendo que meu sonho agradável estava errado. Pisquei e percebi que meus olhos estavam muito secos. Na verdade, havia terra neles e folhas no meu rosto. Remexendo-me na rede de acampar, tentei levantar a mão, mas meus braços estavam presos. Olhei para baixo sem compreender as fibras brancas em volta do meu corpo. De repente tudo voltou.
A aranha!
— O quuu... — lambi os lábios e tentei de novo: — O que você fez com... comigo?
Houve um movimento à minha esquerda e em seguida o farfalhar de folhas acima. Examinei as sombras através das folhas, que giravam caindo.
Estive ocupada trabalhando na sua tapeçaria. Eu faço uma para todas as minhas meninas.
— O quê? — perguntei, girando a cabeça, agradecida por tirar as folhas de cima do rosto.
Vou mostrar, disse a aranha. Seja paciente.
Enquanto eu ficava ali pendurada, balançando para trás e para a frente, a aranha dançava ao redor, invisível no escuro, e meus membros começaram a formigar. Flexionei os dedos e invoquei as garras. Demorou vários instantes, mas por fim elas apareceram. Agora eu sabia que, mesmo não escutando Tia ou Ashleigh, elas ainda deviam estar comigo, já que conseguia usar o poder da esfinge. O mais silenciosamente que pude, serrei as fibras pegajosas que me prendiam.
— Onde está Ahmose? — perguntei para distrair a aranha enquanto trabalhava.
Quer dizer, o seu homem? Está aqui. Geralmente não como homens. São... duros demais para o meu gosto. Prefiro mulheres. São muito mais macias, sabe? Dissolvem com mais facilidade. É uma refeição tenra e satisfatória. Mas nesse caso vou experimentar o seu homem. Ele parece limpo e pode ser gostoso se eu o amaciar bastante. Claro, ele terá de esperar um tempo. Dois de vocês, tão grandes assim, é demais para comer de uma vez. Minha silhueta ficaria arruinada se eu fosse tão gulosa.
Parei ao ouvir a palavra dissolvem, depois continuei a cortar, mais rápido ainda. Por fim, soltei um braço e depois uma perna.
Pare de se remexer tanto, disse a aranha. Vai arruinar sua tapeçaria.
Ignorando-a, soltei o outro braço e a perna. Então me agarrei à teia, balançando-me loucamente enquanto o casulo que me segurava caía no chão da floresta. O fio da teia era pegajoso e denso. Olhando para baixo, vi dezenas e mais dezenas de cordas translúcidas se cruzando e se enrolando entre galhos grossos. Estendi a mão para o alto e peguei outro fio, e depois, com o máximo de cuidado possível, comecei a ir para o lado, uma das mãos após outra, um pé após outro, na direção da árvore mais próxima.
Meu pé quase escorregou, mas me ajeitei e fui em frente. Quando dois fios se cruzaram, tateei ao longo do fio novo até me sentir confortável. Então passei rapidamente para o fio que os unia a fim de descer pelo novo caminho.
Finalmente vi outro casulo vários níveis abaixo, com uma forma que achei que devia ser a de Ahmose. Mudei de direção.
Demorei vários minutos para alcançá-lo e, embora eu empurrasse seu casulo, desse tapas em seu rosto exposto e chamasse seu nome, não houve reação. Eu não sabia direito o que fazer. Com o poder da esfinge eu era forte. Talvez até o suficiente para carregá-lo. Mas não poderia percorrer a teia e transportá-lo ao mesmo tempo. Decidi que poderia ao menos tentar libertá-lo e esperar que ele acordasse antes que ela acabasse comigo.
Só estava na metade do trabalho de soltá-lo quando a aranha me descobriu.
Aí está você, disse ela. Não adianta fazer isso. Ele não vai acordar antes de pelo menos mais uma hora. Ele é grande. Precisei dar uma dose dupla. Venha cá agora. É hora de ver sua tapeçaria. A aranha, que de algum modo tinha se esgueirado para perto de mim sem que eu a sentisse, o que era um feito incrível considerando meus sentidos aguçados, disparou uma teia que envolveu meu tornozelo.
Antes mesmo que eu pudesse murmurar uma palavra, a aranha saltou para o alto e minha perna foi puxada para cima. Fui sendo arrastada atrás dela. Cada teia vibrava à minha passagem e uma vez ela bateu minha cabeça no galho de uma árvore.
Ah, desculpe, gritou enquanto continuava a subir. Espero não ter esmagado seu cérebro. É a minha parte predileta.
Não me dei ao trabalho de responder e tentei de novo alcançar Tia e Ashleigh. Nenhuma das duas respondia. Como eu poderia acessar o poder de Wasret se Tia e Ashleigh estavam sumidas?, pensei.
Eu bloqueei as outras duas mentes, se é isso que você quer saber, disse a aranha, como se lesse meus pensamentos.
O bicho parou, enrolando a longa teia que prendia meu tornozelo e me puxando para ela. Quando eu estava na posição que ela queria, e que por acaso era no fim de uma teia presa no galho mais alto de uma árvore, ela moveu o corpo gigantesco. Circulou pela teia como um ginasta antes de prender minha perna no lugar. Mudei de posição para conseguir me sentar na forquilha da árvore, que mal suportava meu peso. Por sorte a teia era suficientemente forte para aguentar o peso de um elefante.
— Como assim, bloqueou as outras duas mentes? — perguntei enquanto o sangue que latejava na minha cabeça se espalhava de volta para os membros.
Ananse, a aranha, moveu-se pela teia, as patas andando pelo fio com a delicadeza de uma bailarina. Seus olhos de pedras preciosas refletiam a luz das estrelas.
Elas me distraíam, disse. A tapeçaria ficaria muito complicada se eu incluísse as duas. Além do mais, elas só iriam turvar o tema geral.
— Minha tapeçaria tem um tema?
Ah, sim!, respondeu a aranha com uma leve empolgação. Eu costumava tecer o Cosmo, querida. Fui eu que conectei cada planeta a uma estrela e cada lua orbitando um planeta. Os restos dessas grandes peças ainda podem ser vistos no céu noturno, mas a maioria das pessoas não consegue mais perceber o significado dos fragmentos.
Ela pôs-se a pensar, depois prosseguiu: Nenhuma teia era maior do que a minha. Nenhum território era mais vasto. As histórias que os homens e os deuses teciam ao olhar as estrelas vinham das minhas grandes tapeçarias celestiais. Hoje a maior parte do que fazem é adivinhar. Só eu conheço as histórias verdadeiras. Só eu segui as origens do Cosmo antes de ele nascer. Agora vivo aqui, em obscuridade quase total, tecendo as tapeçarias tediosas e dignas de pena de uma tribo de ilhéus inconsequentes. Mesmo assim, gosto de usar minhas habilidades. Mesmo que o tema seja tremendamente sem graça, ainda faço o trabalho mais lindo que consigo.
— Sei. Mas você não preferiria manter uma pessoa interessante como eu por perto durante um tempo? Sabe, só para o caso de eu inspirar você a criar mais obras de arte?
Ah, não creio que seja necessário. Veja bem, agora que a tribo sacrificou vocês dois, provavelmente vai ignorar minhas necessidades durante alguns anos. Além disso, cada pessoa tem só uma tapeçaria. Agora que vi a sua, não preciso manter você por perto. Claro, também há o fato de que minha teia é venenosa. O veneno já está penetrando em suas veias há muitas horas.
Olhei minha perna e a pele pareceu subitamente quente.
— V... veneno? — perguntei nauseada.
É. Ah, ele levaria dias para matar você. Até mesmo semanas. Você terá morrido muito antes disso, prometo.
— Ah, que bom. Eu odiaria ter de me desfazer aos poucos.
Eu também não quereria isso. Prefiro minhas refeições o mais nutritivas possível, e a teia mina sua energia, deixando menos para mim.
— Certo. Então vejamos essa tapeçaria que você fez para mim.
Paciência, minha cara. Paciência. Não é uma coisa que a gente simplesmente jogue para a pessoa. É uma obra de arte. Precisa ser apreciada como tal.
— Certo, eu conheço arte. Já falei do museu que frequento em Nova York? Tem um monte de obras de arte lá.
Verdade? Eles mantêm a arte à mostra?
— Claro. Às vezes circulam uma exposição por vários museus do mundo. Assim todos têm a chance de apreciar.
Eu gostaria disso. Que as pessoas vissem o que faço e tivessem a chance de falar a respeito.
Dobrando a perna que não estava amarrada à árvore, eu a abracei e disse:
— Então me fale. Não somente sobre minha tapeçaria, mas sobre as outras coisas que você criou. Fico feliz em ouvir. Sou uma ouvinte cativa, por assim dizer — falei com um risinho, apostando que a aranha não entenderia a piada.
Não entendeu. Meu objetivo ao distrair a aranha era duplo. Eu queria adiar minha morte iminente e ganhar tempo para Ahmose acordar. Minha esperança era de ter cortado o suficiente de seu casulo para que ele conseguisse sair sem minha ajuda. Com sorte, ele conseguiria.
Bom, para entender o quê e como eu crio, precisaria começar do início.
— Por mim, tudo bem.
Encolhi-me, sabendo que, se houvesse algum modo de sairmos dali ilesos, teríamos muito pouco tempo para encontrar Amon e Asten antes que Cherty fosse embora. Mas uma coisa de cada vez. Primeiro eu precisava sobreviver à aranha.
Nem sempre fui a melhor tecelã, sabe?, começou ela. Outras da minha espécie eram muito mais talentosas. Mas eu era uma jovem inteligente, vivendo nas sombras dos mais velhos. Era uma imitadora hábil. Isso foi muito útil.
Minha coxa não estava sangrando, o que me incomodava. Talvez alguma coisa no veneno da aranha tivesse feito o sangue coagular. Também não doía, apesar de eu ver claramente o ferimento. A presa não havia atravessado a coxa, mas eu tinha certeza de que o músculo fora muito danificado.
Enquanto isso ela continuou:
Quando era escolhida para tecer as histórias de reis e impérios, observava com atenção para ver como eles ascendiam e tomavam o poder. Pegava sua sabedoria e sua astúcia e, apesar de tecer seus triunfos, de propósito escondia seus meios de ascender à grandeza. Tornei-me aduladora e traidora. Você deve entender que somente um membro da minha espécie pode se tornar Tecelã do Destino, e era a isso que eu aspirava, mais do que a qualquer coisa. Um a um eu manipulava os fios, parecendo dar a meus inimigos o que eles mais queriam. Então puxava a trama de baixo deles, prendendo-os na minha teia. Depois os devorava, e, ao fazer isso, absorvia tudo o que eles eram. Fui ficando cada vez mais poderosa. Logo se tornou claro que nenhum obstáculo poderia impedir meu progresso. Por fim, só restavam dois de nós: eu e meu mestre, Sibriku, o sábio. Passei séculos aprendendo ao lado dele, ficando cada vez mais forte e mais poderosa. Quando estava preparada, desafiei-o a um jogo. Disse que o destino determinaria quem iria triunfar. Se fosse ele, eu me deitaria de costas e deixaria que ele me absorvesse, mas, se eu vencesse, iria me tornar a criatura mais poderosa que já havia existido e aprenderia todos os segredos do Cosmo. Então fiz uma coisa que Sibriku não esperava.
— E o que foi?
Trapaceei. Ele não esperava por isso. Foi assim que o derrotei. Foi como derrotei todos. Mas você se lembra de que ele era chamado de Sibriku, o sábio. Ele reconheceu minha artimanha, mas era tarde demais. Sibriku se deitou de costas e eu dissolvi seu corpo, absorvendo seu conhecimento.
— Mas agora você está sozinha — falei. — Não resta ninguém da sua espécie em todo o Cosmo, a não ser você. Ninguém para registrar seus feitos. Ninguém para ajudá-la a tecer suas tapeçarias celestiais.
Isso mesmo. Logo depois da morte de Sibriku, percebi minha idiotice. Ao ganhar toda a sabedoria do Cosmo, destruí a única coisa que me impelia, já que não restava ninguém para eu superar. Tentei criar um novo caminho para mim e rasguei o tecido da criação. Mas nem mesmo eu, com toda a minha sabedoria, pude remendá-lo. Devaneou e logo continuou: Então os deuses nasceram. Foi o resultado de o Cosmo tentar restaurar o equilíbrio depois do que eu tinha feito. Recuei e observei surgir um poderoso vidente. Nós espiamos nos olhos um do outro e eu não suportei ver meu reflexo, por isso me escondi no lugar mais profundo e escuro do Cosmo. Quando Aquele Que Desfaz assumiu seu poder, eu tremi, sabendo que ele ascendia para que eu pudesse cair. Então criei este lugar onde todas as coisas perdidas e partidas podiam se esconder. Abandonei minha teia celestial e caí. Agora aqui estou. Sozinha. Esquecida. Sem objetivo. Tentei me contentar com o que tenho e com o fato de que ainda existo. Mas tantas eras se passaram que desisti da esperança de algum dia tecer outra teia celestial. Agora só sinto prazer quando como. Por falar nisso, venha, Lily, chegou a hora.

2 comentários:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!