9 de março de 2018

14. Problema com os nativos

A selva se fechou à nossa volta. Em instantes eu já não conseguia ouvir o som das ondas quebrando na praia. Ahmose tinha se mostrado confiante antes de entrarmos, mas, assim que nos vimos sob as árvores, seu sorriso desapareceu e os passos ficaram menos firmes. Nem dez minutos haviam se passado quando ele parou e girou num círculo vagaroso.
Então se agachou e abriu os dedos, procurando uma direção. Depois de várias tentativas, bufou, frustrado.
— O caminho até meus irmãos não está claro. Quando canalizo meu poder, não aparece um caminho, e sim muitos, e logo que sigo um deles descubro que está partido. Não podem estar todos certos. Tenho medo de levar você pelo errado.
— Algum parece mais forte do que os outros? Você ainda consegue sentir a proximidade de seus irmãos?
— Sim e não. Sei que eles estão perto, mas não posso identificar o local exato.
— Cherty disse que só iria nos esperar um dia. O que vamos fazer?
Um grupo de pássaros grandes grasnou ruidosamente acima. Levantei os olhos e um tremor me atravessou ao perceber que eles estavam nos olhando. Os bicos grandes se fechavam numa série de estalos, fazendo parecer que se comunicavam. Eles me lembravam pterodáctilos em miniatura querendo uma refeição fácil.
Ahmose estudou os caminhos por um instante, resmungou frustrado e disse:
— Independentemente de qualquer coisa, não devíamos ficar aqui.
— Concordo.
Seguimos adiante pela selva. O suor escorria das minhas têmporas até o pescoço. Eu o enxuguei, distraída. Quando a trilha chegou a um final sem saída, Ahmose murmurou um encantamento e um par de facões dourados de aspecto maligno se materializou em suas mãos. Ele cortou o matagal para podermos passar, mas, assim que fazíamos isso, a selva se fechava de novo às nossas costas. Ao que tudo indicava, sair seria tão difícil quanto entrar.
Apesar do calor, o poder da esfinge me dava energia e a capacidade de regular minha temperatura. Poderia ter andado durante horas na floresta sem me cansar. Já com Ahmose a história era outra. Para nos distrair, perguntei-lhe:
— O que significa quando um caminho está partido?
— Um caminho partido é uma aberração. Não é natural. Cada objeto no Cosmo tem um caminho que começa nas Águas do Caos e se expande dali. Um caminho partido significa que algo danificou fisicamente ou moveu esse objeto antes de ele chegar a um fim natural.
— Quer dizer, como Seth desfazendo alguma coisa?
— Sim.
— É por isso que esta ilha estava escondida? Ela foi desfeita?
— Não. Seth não tocou nesta ilha. Se tivesse feito isso, ela não existiria. — Ahmose coçou o queixo com o facão, errando por pouco sua jugular. — Pelo que dá para perceber, eu diria que esta ilha é anterior a Seth.
— Interessante. Então é como Apep.
— Apep?
— Sim. Ele também está partido. Parte dele foi cortada. Ele não sabe o que fez isso, mas anseia por se reunir à sua outra metade — expliquei, empurrando para o lado uma folha verde e grossa e passando pelo buraco que Ahmose tinha acabado de abrir. — A parte que vemos é a parte faminta. O triste é que não importa quantos fantasmas ele coma, nunca vai ficar saciado. Pelo menos até que esteja outra vez inteiro.
Ahmose ergueu a arma e golpeou. Um cipó grosso e com folhas caiu aos seus pés.
— Apep sozinho já é bastante ruim. Detestaria encontrar sua outra metade também — disse ele, liberando o caminho para eu seguir.
— Verdade.
Ofereci ajuda, mas Ahmose balançou a cabeça, teimoso. Cuidou para que eu me mantivesse a uma distância suficiente para que seus facões não me acertassem acidentalmente. Segui-lo me dava a oportunidade de admirar-lhe as costas e os braços esculpidos. Os músculos não eram resultado de barras de proteína e de malhação em uma academia, como os da maioria dos caras fortes que eu conhecia. O trabalho duro e as batalhas de verdade tinham moldado Ahmose.
Dava para ver isso em cada movimento dos braços, no ângulo das armas e na postura ao enfrentar o inimigo — nesse caso, um denso trecho de mato. O corpo musculoso que brilhava de suor não se destinava a impressionar mulheres ou o cara que estava no aparelho ao lado nem a conseguir um papel pequeno num filme ainda menor. Ahmose tinha merecido cada centímetro daqueles músculos. Olhá-lo em ação era como ver Hércules em seus trabalhos. Eu não admirava somente a visão; admirava também o homem. E mais: eu o respeitava. Ahmose era simplesmente de tirar o fôlego. Minhas duas outras vozes interiores concordavam.
Seguimos por uma hora e depois outra e mais outra. A selva era quente e minha pele foi ficando febril e pegajosa. Eu estava pensando em minha banheira de hidromassagem em Nova York quando Ahmose parou e se inclinou à frente, ofegando. Estava obviamente exausto, mas continuava se recusando a me deixar ajudar. Pensava na idiotice de não ter trazido um cantil quando ele se levantou e ficou imóvel. Seus olhos estavam voltados para alguma coisa além do meu ombro.
Girei, mas a princípio não consegui ver o que tinha capturado a atenção dele. Só notei uma árvore. Pelo menos achei que era o tronco de uma árvore. Olhando mais demoradamente, descobri que era um poste grosso com um rosto esculpido de modo intricado. Pedaços de tecido rasgado flutuavam à sua volta como um adereço fantasmagórico e colares de conchas do mar pendiam em torno do sulco no local onde deveria haver um pescoço.
— O que é isso? — perguntei, a respiração quente contra o braço suado enquanto limpava o rosto.
Cheguei mais perto para examinar.
— Um totem. É um alerta. Se passarmos por ele, estaremos avisados de que nossa vida corre perigo.
— Parece perfeito — falei em tom casual. — Já é bastante ruim que aqui more uma cobra que quer comer a gente no café da manhã.
Ahmose aproximou-se por trás de mim e examinou a escultura. Sem ao menos me consultar, passou ousadamente por ela e disse:
— Não creio que devamos nos preocupar muito com isso.
Alguma coisa se mexeu. Estendi a mão e puxei seu braço para detê-lo.
— Você está falando besteira, garoto bonito — falei com sotaque irlandês, pondo as mãos nos quadris. — Não acha que a gente devia ter um pouquinho mais de cuidado?
Ahmose voltou para o meu lado do totem, o que me fez suspirar de alívio, e segurou meus ombros, fitando meus olhos.
— Ashleigh?
Sim? — respondi com um sorriso maroto.
— Onde está Lily?
— Está bem aqui. Mas Lily confia mais nos outros do que eu. Achei melhor garantir que você saiba o que vai fazer antes de sair saracoteando por aí numa selva assombrada.
— Está dizendo que não confia em mim? — Um brilho malicioso surgiu nos olhos dele.
O calor subiu no espaço que separava nossos corpos e, apesar de Ahmose não ter se mexido, eu poderia jurar que a distância entre nós diminuiu.
Levantei as mãos para mantê-lo longe, mas em vez disso acabei pressionando as mãos contra ele. Quando senti os contornos de seu peito, toda a percepção das dores que eu experimentava se dissolveu como neve no deserto. Santo Deus, seu corpo parecia esculpido em pedra.
Ah, bem — falei, tentando pôr os neurônios para funcionar —, a confiança é uma estrada de mão dupla. Eu achava que você ia demonstrar um tiquinho de gratidão por eu trazer você de volta.
Ele tirou uma das mãos pousadas em meus ombros e segurou uma mecha de cabelos entre os dedos reluzentes, mudando a cor deles para um prata brilhante.
— E como eu deveria demonstrar minha gratidão, Ash?
— Tenho certeza de que eu conseguiria pensar numa coisa, se me esforçasse — falei com um sorriso.
Ergui o rosto, à espera de um beijo.
A respiração dele ficou presa, eu fechei os olhos e aguardei, mas o beijo não veio. Abri os olhos com as sobrancelhas franzidas, confusa, e a expressão dele era de tristeza misturada à sua familiar obstinação.
— No nosso caso, Ash, a confiança é uma estrada de quatro pistas. Seis, se você contar os meus irmãos. E, para salvar meu orgulho, eu preferiria deixá-los fora da equação. Não vou me aproveitar de Lily e Tia desse jeito.
Dei um soco no peito dele, o temperamento explosivo tomando conta de mim, esquentando o corpo já superaquecido.
Você é um rapaz perverso, isso sim! — gritei. — Eu vou...
Minhas palavras foram cortadas quando Ahmose colou os lábios aos meus. Ele me puxou com tanta força contra o seu corpo que o calor que emanava dele me envolveu e uma espécie de vulcão entrou em erupção entre nós. As batidas do seu coração se fundiram com as minhas até soarem como loucos tambores de floresta. Um pequeno gemido escapou dos meus lábios e eu não era mais Tia, Ashleigh ou Lily. Era só uma garota sendo beijada pelo homem que ela amava. As mãos dele estavam na minha cintura, depois no pescoço, depois se enroscando em meus cabelos, soltando minha trança.
Quando nos separamos, eu só conseguia olhar seus olhos cinzentos cheios de paixão tempestuosa e tentar respirar. Ele beijou docemente minha testa úmida.
— Agora pare de me provocar, mulher. Caso contrário, vou ter de beijá-la até você perder os sentidos e não poder mais discutir comigo. E não quero ouvir nenhuma de vocês dizendo que preferiria beijar Asten ou Amon. Eu posso ser do tipo quieto, mas sou ciumento.
Ele pegou minha mão e me puxou, passando pelo totem.


Uma hora depois estávamos agachados no meio do mato, olhando um pequeno povoado. Quando uma pessoa muito baixinha emergiu de uma cabana vestindo apenas uma saia de folhas, Ashleigh sussurrou, agitada, usando minha voz:
— É um duende!
Não, falei com ela mentalmente. Não creio que seja um elemental. Você está vendo algum pote de ouro?
Ahmose levou um dedo aos lábios. Examinou os poucos aldeões que vimos por um tempo longo o bastante para que minhas pernas começassem a ter cãibras. Ashleigh recuou, relutante, e assumi o controle. Inclinei-me para ele e perguntei:
— O que você está procurando?
Ahmose se virou para me olhar, os olhos estreitados.
— Lily?
Confirmei com a cabeça.
— Estou procurando armas, soldados, alguma sugestão de que eles tenham magia.
— Você viu alguma dessas coisas?
— Não. Mas há algo esquisito.
— É verdade — concordei.
— Tia? — perguntou ele. — O que você está sentindo?
Tia ficou surpresa por ele ter se dirigido a ela. Mas gostou. Pus-me de lado mentalmente e deixei que ela assumisse o controle. Minha cabeça se inclinou de lado e as narinas inflaram.
Há mais aldeões do que podemos ver — disse ela. — Muito mais.
— Era com isso que eu estava preocupado. Onde eles estão?
Tia respirou fundo e, quando o ar circulou por nossos pulmões, ela se imobilizou. Arrepios subiram pela minha espinha e todos os meus nervos se aguçaram.
— Acima de nós! — sibilou ela.
Nesse exato momento gritos ululantes ecoaram a toda volta e pequenos corpos saltaram das copas das árvores, deslizando por cipós. Antes que pudéssemos sequer nos levantar, eles nos cercaram, as lanças cutucando nossos corpos e dezenas de flechas apontadas na nossa direção. O guerreiro mais alto chegava à altura do meu umbigo, mas isso não os tornava menos ferozes ou formidáveis. Os rostos e os corpos escuros estavam pintados e cobertos de cinzas, dando-lhes uma aparência fantasmagórica.
Falavam numa língua que eu não entendia, mas Ahmose e Tia, sim. Acessando os pensamentos dela, pude discernir o significado.
— Vocês invadiram nossa área de caça! — disse o guerreiro maior, avançando.
Apesar de Tia captar o significado das palavras, não conseguia responder.
Ahmose, que tinha levantado as mãos para mostrar que não pretendia fazer-lhes nenhum mal, falou por nós. Tia traduziu mentalmente: Não queremos ofender. Estou procurando meus irmãos perdidos. Vocês os viram? Estão escondidos num lugar escuro.
Os guerreiros se entreolharam e falaram brevemente, até que um deles sibilou e todos ficaram quietos:
— Nós não vamos ao lugar escuro. É proibido. Quem vai lá não volta.
— Não temos escolha. Precisamos encontrar meus irmãos. Vocês podem nos guiar?
Os homens sacudiam as lanças com raiva enquanto discutiam entre si.
— Não ajudamos quem invade! — gritou para Ahmose o que falara antes, sem se importar com o fato de que seriam necessários dois ou três deles, de pé nos ombros um do outro, para chegar à altura do invasor.
Ahmose cruzou os braços diante do peito.
— Então talvez possamos fazer uma petição ao seu rei. Temos muita coisa para oferecer em troca.
Ergui os olhos, alarmada. Não tínhamos nada para oferecer em troca. Nem água tínhamos. Passei a língua pelos lábios rachados e engoli em seco. A expressão de Ahmose era fria e confiante. Até mesmo Tia estava preocupada, e, se ela estava preocupada, eu estava praticamente petrificada.
O homem mais alto mudou de posição enquanto pensava na proposta. Então, finalmente, assentiu com a cabeça, rígido, e gritou instruções para seus homens, que nos cutucaram com as lanças. Ahmose me puxou para perto, para me proteger, e deixamos que eles nos conduzissem sem cerimônia até a aldeia. As poucas mulheres que estavam por ali gritaram e pegaram as crianças no colo, desaparecendo em cabanas feitas de folhas, pedaços de pano e galhos de árvores.
Fizeram com que nos sentássemos perto de uma grande fogueira onde havia vários caldeirões com o conteúdo borbulhando.
— Fiquem aqui — alertou o guerreiro maior. — Vou trazer o rei. Talvez ele ajude vocês. — Ele me olhou com um sorriso maligno, mostrando os dentes afiados e manchados. — Talvez cozinhe vocês para o jantar.
O sujeito gargalhou de sua própria piada. Pelo menos eu esperava que fosse piada.
Ele se aproximou de mim e fechou os olhos, farejando meu pescoço e o cabelo.
— Você tem carne boa e macia — disse com outro riso escancarado antes de desaparecer na maior cabana.
Talvez não fosse piada. Não tivemos de esperar muito, mas senti cada minuto. A náusea me dominou enquanto eu pensava no motivo de existirem tão poucas mulheres e crianças na aldeia. Será que aquelas pessoas eram mesmo canibais? Será que comiam os mais fracos da tribo? Fiz uma careta, ouvindo as borbulhas do jantar cozinhando no fogo.
Tia achou a ideia fascinante. Ela me regalou com a história de uma leoa que comeu o filhote quando ele morreu. Tenho certeza de que meu rosto era uma máscara de horror, mas Tia falava em tom de reverência, explicando que era algo natural e instintivo. A mãe estava reabsorvendo a energia do filhote perdido para continuar a alimentar os outros, mais saudáveis. Mesmo assim, todas concordamos que nenhuma de nós queria fazer parte do cardápio.
Logo o pano que cobria a entrada da cabana se agitou e o guerreiro saiu. Atrás veio outro homem. Vestia uma saia de tecido colorido, mas o peito estava nu. Em vez do rosto pintado, ele usava uma máscara elaborada, semelhante ao totem esculpido que tínhamos visto. O rei era ligeiramente mais alto do que os outros homens, devia ter pouco mais de 1,20 metro, e me perguntei se esse simples fato fora o que o havia qualificado para a liderança.
Ele caminhou com ousadia em nossa direção, mas, em vez de nos olhar ou falar conosco, dirigiu-se ao seu povo:
— Esses intrusos vêm pedir favores. Vamos concedê-los?
— Não! — gritaram as pessoas ao mesmo tempo.
O homem descalço andou à nossa volta sacudindo um pedaço de pau, as conchas em seus tornozelos e no pedaço de pau chacoalhando ruidosamente.
— Eles procuram o lugar proibido — disse ele. — Ignoram nossos avisos. Vieram roubar nossa comida ou virar nossa comida?
Tudo o que Tia escutou foi a palavra “comida”, repetida várias vezes pela multidão. Não sabíamos para que lado o vento soprava.
— Talvez tenham sido mandados pelos deuses. Meu trabalho, como rei de vocês, é descobrir por quê.
Gritos de concordância percorreram o acampamento. Estendi a mão para a me Ahmose e ele entrelaçou os dedos nos meus, apertando-os para me tranquilizar, enquanto fazia um imperceptível gesto de cabeça em minha direção.
— Tragam os adivinhadores! — gritou o rei, e um homem correu até a cabana principal, onde pegou uma sacola e algo que parecia a cabeça de um daqueles pássaros de bico comprido.
Fitei as órbitas vazias do pássaro enquanto o homem jogava o conteúdo da sacola dentro do crânio, tapava as aberturas e o sacudia. Por fim ele o ergueu acima da cabeça, segurando-o pela base. Quando o bico se abriu, caíram seis pedras com símbolos pintados. Elas rolaram pelo chão e uma delas veio parar perto da minha bota. Examinando mais de perto, notei que não eram pedras.
Coquinhos, disse Tia na minha mente. Algumas tribos na África os usam com objetivo semelhante.
Apesar desse conhecimento, ela não conseguiu discernir o que os coquinhos poderiam estar prevendo para nós. O homem se curvou sobre eles, virando-os com os dedos compridos e ossudos enquanto ia soltando grunhidos. Quando ficou satisfeito, levantou-se. Um sorriso largo, sinistro, apareceu sob a máscara. Por favor, não nos mate, pensei.
Tia emitiu a versão mental do rugido de uma leoa. Ela considerava nossos captores fáceis de ser dominados. Eu queria me deixar tranquilizar por sua confiança, mas meu lado prático não permitia. Em vez disso, repassei todos os filmes de aventura que tinha visto em que os heróis da história tinham sido dominados e amarrados. A coisa nunca terminava bem. Claro, nós não estávamos amarrados. Pelo menos por enquanto.
Erguendo as mãos com expressão de triunfo, o homem silenciou a multidão. A selva também pareceu ficar sinistramente quieta enquanto ele proclamava o que havia descoberto. Com um drama digno de qualquer vencedor do Emmy, disse com um floreio:
— Os dois intrusos vão enfrentar... o Julgamento da Calabaça!
Os guerreiros que nos cercavam bateram os pés e gritaram, empolgados.
— O que é calabaça? — perguntei a Ahmose, falando em seu ouvido.
— Uma cabaça, uma cuia.
— Ah. Isso não parece tão ruim. Como um julgamento feito por uma cabaça pode ser perigoso?
Como se para responder à minha pergunta, três pequenos guerreiros se aproximaram, cada um carregando uma cabaça marrom enfeitada, de pescoço curto e com um buraco escuro na parte de cima. Eles as sacudiram de modo agourento, dançando à nossa volta, depois as colocaram diante do rei, que então se ajoelhou em um tapete trançado.
— Primeiro comemoramos, depois o julgamento começa!
Alguns instrumentos de corda foram trazidos, além de uma variedade de tambores. Os guerreiros se enfileiraram e começaram a bater os pés e a cantar, as vozes se fundindo com uma série de estalos e assobios enquanto se moviam ao redor da fogueira. Uma das mulheres começou a bater num cocho d’água, produzindo um ritmo que reverberava nos meus ossos. A comida que borbulhava acima do fogo foi tirada com conchas e distribuída, junto com cabaças de água compartilhadas entre várias pessoas.
Uma tigela perfumada do cozido fervente foi passada quase embaixo do meu nariz, mas nada foi oferecido a mim nem a Ahmose. O cheiro era amargo e terroso, como carne queimada misturada com algum material vegetal meio apodrecido e coberto por especiarias exóticas. Ashleigh resmungou: Queria que fosse um mingau. Adoro. Eles podiam nos oferecer alguma coisa. Pelo menos água.
Eu preferiria isso a qualquer coisa que eles estejam comendo, falei para não pensar na sede que sentia.
Nós podemos caçar assim que mostrarmos as garras a essas pessoas, disse Tia. Não entendo por que não estamos agindo.
Ahmose sabe que não podemos encontrar os outros sozinhos, falei. Provavelmente está esperando para ver se eles vão nos ajudar. Vamos continuar com o jogo até vermos o que vai acontecer.
As leoas não fazem jogos. Elas partem para a matança ou vão embora, respondeu Tia.
Bem, os humanos aprenderam a tentar tirar o máximo de proveito de uma situação, tentar matar dois coelhos com uma cajadada só, eu disse.
Um coelho me parece algo muito apetitoso neste momento, grunhiu minha leoa interior.
Suspirei.
Bom, o que o instinto de vocês diz?
Para confiar em Ahmose, admitiu Tia.
O meu também, acrescentou Ashleigh.
Então vamos esperar.
Tentei ser paciente, ficar imóvel como Ahmose. Seus braços estavam apoiados nos joelhos e ele permanecia sentado em silêncio, descansando e observando como se fosse um convidado na festa e não estivesse morrendo de fome e sede como nós. Para passar o tempo, tentei ajeitar meu cabelo desgrenhado. A tira que o amarrava havia sumido. Eu não queria revelar todas as nossas cartas invocando meu poder só para prendê-lo de novo. Em vez disso, afofei-o, sabendo que provavelmente parecia um monte de palha embolada projetando-se em todas as direções.
Quase uma hora se passou antes que os aldeões se acomodassem e a música e a dança parassem. A tigela vazia do rei foi retirada, ele limpou as mãos e se levantou, gesticulando para que fizéssemos a mesma coisa. Depois chamou os três homens que seguravam as cabaças e eles se aproximaram, fazendo reverências e estendendo a oferenda.
— Antes que vocês tenham o privilégio de escolher a cabaça — disse o rei —, devem passar por três provas.
— Três? — ecoei com uma careta.
O homem franziu a testa diante da minha interrupção.
— Mas saibam que, mesmo que passem pelas três provas, só uma cabaça esconde o tesouro que vocês procuram. Numa delas vocês vão encontrar um mapa do lugar proibido. Em outra, vão encontrar doença. E, na terceira, vão encontrar a morte.
Levantei a mão.
— Espere um minuto. Está dizendo que precisamos passar por três provas e que depois nosso prêmio por isso ainda pode ser a morte?
O homem apenas me olhou em silêncio. Ahmose “traduziu” minhas palavras, mas modificou-as para servir a seus propósitos.
— Nós aceitamos o desafio da calabaça e entendemos que o resultado pode ser diferente do que esperamos.
Dei-lhe uma cotovelada nas costelas, mas ele me ignorou. Limitou-se a pegar minha mão e entrelaçar os dedos nos meus.
— Muito bem — disse o rei. — Então vamos começar.
Ele levantou os dedos e assobiou. Um menino pequeno, cuja saia de folhas mal se segurava em seus quadris, correu e pôs uma cabaça vazia em forma de tigela nas mãos do rei. O rei a entregou a Ahmose.
— Sua primeira tarefa — disse ele — é encher a cabaça até a borda com água. — Ele levantou um cajado e o sacudiu na nossa cara. — Mas não podem enchê-la usando nosso poço, nem o lago, o rio ou uma poça. Se tiverem sucesso, podem beber dela.
Fiquei parada, perplexa, pensando que aquilo deveria ser algum tipo de charada, como a da esfinge. Tia, Ashleigh e eu sussurramos mentalmente entre nós, tentando pensar em alguma coisa. Nem notamos o que Ahmose estava fazendo até que sua voz ressoou ao nosso redor em um encantamento.
Os guerreiros se agacharam, as mãos cobrindo os ouvidos, tremendo de medo. Seu rei manteve-se de pé, com um brilho de interesse nos olhos. Ahmose teceu seu encantamento e nuvens se juntaram no céu. Quando ergueu os braços, pude vê-los tremendo com o esforço. As nuvens escureceram e então uma chuva pesada começou a cair. Em alguns instantes eu estava completamente encharcada. A chuva quente era revigorante, lavando o suor e a sujeira de nossa caminhada pela selva. Abri a boca para deixar a água escorrer pela garganta, aliviando a sede.
Enquanto os minutos passavam, a tigela foi se enchendo lentamente, os aldeões observando curiosos. Assim que a tigela ficou cheia, a chuva parou e as nuvens se separaram. O sol brilhou e o vapor subiu do chão em espirais.
Agora a terra batida estava preta como a casca das árvores. A pintura facial e a cinza que adornavam os corpos dos guerreiros tinham sido parcialmente lavadas, fazendo com que o resto da pintura formasse feios borrões compactos.
— Bom! — O rei gargalhou, deliciado. — Agora podem beber!
Ahmose me ofereceu a tigela e eu a aceitei, agradecida. Bebi pela borda, com sofreguidão. O conteúdo transbordou pelos lados e molhou ainda mais minha camisa, mas não me importei. Quando fiquei saciada, devolvi-a a Ahmose, que bebeu o que restava. A água escorria de sua boca pelo pescoço, desaparecendo no vale do peito. Quando acabou, ele entregou a tigela vazia ao rei.
— Muito bem — disse o rei. — Agora a segunda prova.
Ele fez sinal para que o acompanhássemos. Em pouco tempo tínhamos saído da aldeia e andamos pela selva até chegarmos a uma determinada árvore.
— A tarefa seguinte é cortar esta árvore para fazer lenha sem usar nenhuma ferramenta. Mas tenham cuidado com as formigas — disse o rei, indicando uma massa pulsante marrom e vermelha que agora eu reconhecia como um aglomerado de criaturas vivas. — Elas não vão ficar muito felizes quando vocês perturbarem a área.
Com isso, os aldeões se foram, passando longe das formigas. Ahmose e eu circundamos a árvore, empurrando-a e procurando seus pontos fracos. Ela era grossa, forte e com raízes profundas. Demoraria muito para ser derrubada, mesmo se tivéssemos um machado. Ahmose imediatamente invocou uma arma da areia, mas parou, lembrando-se de que isso não era permitido.
— Minhas garras contariam como armas? — perguntei.
— Eu não arriscaria — respondeu ele, deixando sua arma se dissipar. — Ai! — disse, dando um tapa no pescoço. Então sapateou um pouco e bateu nos braços, tentando se livrar das formigas. — Para trás — alertou. — Elas são perigosas. São do tipo que pode matar organismos vivos e arrancar a carne dos ossos.
Tia assumiu:
Já tive muita experiência com essas. Vi formigas dominarem leões velhos e filhotes que não podiam ser mais rápidos do que elas. Na manhã seguinte não resta nada e até os esqueletos são quase irreconhecíveis.
Verdade?, perguntei. Como elas se chamam?
Esperem um minuto, disse Ashleigh. Podemos descobrir como elas se chamam. Vamos usar as formigas!, disse, empolgada.
Ashleigh tem uma ideia — disse Tia.
Sem nem sequer explicar a Ahmose o que íamos fazer, nós três nos fundimos e invocamos nosso poder. A voz de Wasret ecoou:
— Ouçam, pequeninas.
A massa de formigas se desfez, como numa explosão, e veio em nossa direção. Como indivíduos, começamos a entrar em pânico, mas nos agarramos umas às outras com força, apesar das formigas subindo por minhas pernas e meu tronco.
Ashleigh tentou romper a conexão quando elas começaram a picar.
São muitas!, gritou. Não podemos descobrir o nome de todas!
Mas Tia a encurralou, teimosa, trazendo-a de volta: Precisamos descobrir o que é comum a todas, encorajou. Temos de dar o nome da colônia!
Não, gritei mentalmente. O nome da rainha! Ela controla as outras.
Então nos forçamos até o limite, finalmente nos livrando da dor infligida pelas formigas, que picavam e se enfiavam embaixo das roupas. Numa voz carregada pelo vento, gritamos em uníssono:
— Abissínia, a Feroz! Aquela Que Traz a Morte e a Vida! Rainha do Mel e do Fogo! Ouça nossos comandos!
Sentimos a rainha se dobrando ao nos ouvir e num instante suas formigas se moveram, obedecendo às instruções dela.
A colônia cercou a árvore e começou a trabalhar. Fiquei surpresa ao ver a rapidez com que conseguiram enfraquecer o tronco. Depois de uma hora, ouvimos o estalo e o estrondo do tronco se rachando. Ahmose me puxou para o lado quando ele desabou na selva, levando junto vários galhos de árvores próximas. O poder de Wasret nos deixou de imediato.
Logo apareceu um guerreiro solitário e nos guiou de volta à aldeia. O rei saiu de sua cabana, a máscara levantada no topo da cabeça, coçando o queixo. Sentou-se em seu tapete, indicando que deveríamos fazer o mesmo. Fez sinal para uma mulher, que se sentou ao nosso lado. Ela trouxe uma tigela cheia de uma pasta branca com um cheiro ligeiramente medicinal mas muito pungente.
Esfregou aquilo nas picadas das formigas e, apesar de eu franzir o nariz por causa do cheiro, senti-me imediatamente agradecida porque o unguento esfriou as picadas e aliviou a ardência. Enquanto ela trabalhava, o rei exigiu:
— Digam como fizeram isso! Um feiticeiro pode provocar a chuva, mas até hoje ninguém sobreviveu às formigas, muito menos derrubou a árvore.
Ahmose deu de ombros.
— Se completarmos as tarefas e obtivermos sua ajuda para encontrar meus irmãos, talvez possamos lhe dar uma demonstração do nosso poder.
O rei, que estivera ajoelhado, sentou-se abruptamente enquanto pensava nas palavras de Ahmose.
— Ah. Não importa — disse, com um gesto de dispensa da mão. — Ninguém pode sobreviver à terceira prova.
— Qual é a terceira prova? — perguntei.
Ahmose traduziu fielmente. O rei respondeu:
— Primeiro, vocês precisam comer. Considerem sua última refeição.
Dessa vez uma refeição totalmente diferente nos foi servida. O sol estava se pondo, esticando as sombras longas das árvores. Os aldeões saíam das cabanas, amontoando-se diante de nós com pratos cheios de peixe defumado, algum tipo de carne assada com cogumelos, ovos cozidos, o ensopado de um legume que parecia cenoura com um tempero perfumado, inhame com mel, uma fruta que não reconheci e uma tigela de cupins. O rei pegou um punhado daqueles insetos se remexendo e enfiou na boca, mastigando feliz. Alguns escaparam de seus lábios, mas ele os enfiou de volta, lambendo os dedos.
Evitando os cupins e a carne misteriosa, peguei o inhame e a cenoura e mordisquei a fruta, enquanto Ahmose erguia o prato inteiro de peixe e começava a devorá-lo. Os músicos voltaram, dessa vez dançando em um frenesi que me deixou nervosa. Fez com que eu lembrasse da louca dança sob o efeito de drogas dos nativos antes de sacrificarem a garota loura a King Kong.
Depois de limpar as mãos na calça cáqui, perguntei de novo:
— Qual é a terceira prova?
O rei, animado, sem afastar o olhar dos dançarinos, respondeu à pergunta, traduzida por Ahmose:
— Não é nada de mais. Só precisam derrotar Ananse.
— E Ananse é...? — perguntou Ahmose.
— Ananse tem muita fome. Nada tão ruim quanto a cobra, mas chega perto. No entanto, ela não gosta de fantasmas. Não. O que ela quer é carne.
O rei finalmente olhou na nossa direção e riu, os dentes afiados brilhando à luz da fogueira.
— Ananse mora do outro lado da selva. Quando ela se agita, a gente sacrifica uma mulher. Ela gosta mais de carne de mulher.
Engoli em seco.
— Carne de mulher?
Ahmose insistiu:
— O que, exatamente, é Ananse?
O rei piscou.
— Ananse é uma aranha gigante.

9 comentários:

  1. Só tenho uma comentário a fazer: QUANTA PERDA DE TEMPOOO, VAMOS VOLTAR PRA ESTÓRIA???

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  2. Por que diacho tinha que ter uma aranha i.i?

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  3. Concordo BrendAR
    Sdds foco no enredo eim
    A batalha dos cosmos torando lá com os Deuses e a gente aqui acompanhando a bonita levar meio livro só pra encontrar os 3 irmãos

    Isso que a Maat ficou falando que não tinham muito tempo pra fazer as coisas e derrotar Seth
    Imagina se eles falam pra sósia da Kelsey que tem todo o tempo que precisar

    DEUZOLIVREEEEEEE

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  4. Já ta ficando chato esses capítulos com esses contos sem graça vix

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  5. To gostando de ler, mas tenho q concordar, cade o foco? Ta enrolado demais. Quando chegar no final da historia vai ser totalmente sem graça, qer apostar??

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  6. O segundo livro foi bem inferior ao primeiro. Tinha esperança que esse fosse resgatar a historia. Fiquei na vontade 😒

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  7. Olha só o deus contador de histórias Anase mitologia Africana em ação

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  8. Essa autora só pode estar de brincadeira. É a segunda saga de livros que eu leio dessa mulher e é sempre isso: Enrolação, triângulos amorosos ridículos e desfoque da estória principal. Sem falar da protagonista feminina que é sempre pau mandado. As protagonistas dos livros dela só fazem o que os outros mandam e nunca se impõem de verdade.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!