9 de março de 2018

13. A Ilha dos Perdidos

Fiquei ali parada, horrorizada, imóvel, boquiaberta. Uma língua comprida e bifurcada saltou da boca do monstro e provou o ar. Meu corpo tremeu descontroladamente ao ver aquilo. Ficamos nos entreolhando, imobilizados, mesmo quando Ahmose e Cherty se puseram entre nós.
Ahmose invocou uma arma reluzente que se materializou a partir de partículas de areia invisíveis presas entre as tábuas do convés do barco. Ele a brandiu num gesto ameaçador, o braço musculoso pronto para golpear.
Cherty pegou duas varas compridas com pontas afiadas, segurando-as frouxamente nas mãos rachadas e nodosas, demonstrando que tinha muita experiência em usá-las.
— Não olhe no olho dele, mocinha — disse Cherty. — O olhar de Apep é hipnótico. Pode convencer você a ir direto para a barriga dele pensando que está caminhando num jardim florido.
A cobra abriu as mandíbulas numa imitação maligna de sorriso, mostrando presas grossas afiadas em pontas mortais e reluzentes à luz das estrelas. Você estraga minha diversão, disse Apep, petulante, a voz penetrando nossa mente. Você sabe que eu gosto de dar à minha presa a chance de lutar. Quase sempre. Não que elas tenham muita capacidade de luta quando vêm parar no seu navio.
Apep balançou a cabeça para a frente e para trás como se tentasse empurrar Cherty e Ahmose para o lado, mas nenhum dos dois se intimidou a ponto de se mexer, o que achei notável. Levando tudo em conta, eu não achava que tínhamos chance contra a criatura. Não com as armas ridículas à nossa disposição. A cobra era grande demais. Podia esmagar o navio com apenas um esforço minúsculo e depois nos pegar, engolindo-nos tranquilamente.
— A garota não falou por mal — disse Cherty, interrompendo meus pensamentos. — Pegue quanto quiser desses aí e deixe os vivos em paz. Há o suficiente para encher sua barriga sem você precisar ser ganancioso.
Achei as palavras de Cherty bem ousadas. Aparentemente sua consciência não sofria muito com a ideia de perder os passageiros. A cobra sibilou e ergueu da água uma espiral do corpo pesado, baixando-o em seguida com violência. Parte do corpo devia ter golpeado o barco com bastante força, porque adernamos para um lado e tivemos dificuldade para manter o equilíbrio.
Ah, disse a cobra. O que você diz é bem verdade. O cheiro dos mortos que você carrega é forte, o que indica que o barco está lotado. Bom, estava, até que terminei meu primeiro prato. Mas, agora que meu apetite foi aberto, estou pronto para o jantar.
Ao ouvir suas palavras, os mortos gemeram e tremeram. Começaram a empurrar uns aos outros até as extremidades do barco, cada um deles tentando desesperadamente se afastar da criatura, que balançava a grande cabeça chifruda para vê-los melhor. Vislumbrei a barriga da cobra, que reluzia como se fosse coberta por rubis polidos. De novo fiquei pasma vendo como minha morte iminente era linda.
Mesmo se eles encherem minha barriga, disse Apep, não posso permitir que uma jovem com tamanho poder entre no meu reino. Você deveria saber, Cherty, que não poderia trazer alguém como ela para este lugar. Faz muito tempo que você não ousa entrar nas minhas águas.
Ahmose falou em seguida:
— Grande Apep, estamos a serviço dos deuses. Seth foi libertado e devemos detê-lo a todo custo. Até mesmo você deve ter consciência do caos que ele engendra. Prometemos que não vamos permanecer muito tempo no seu território. Se deixar que passemos em paz, não vamos lhe causar nenhum mal.
A cobra se empinou, com espasmos nas grandes guelras, expulsando a água salobra que fervia e escorria pelo corpo escamoso, indo cair no convés de madeira, onde fumegou e apodreceu a madeira. Demorei um momento para ver que Apep estava rindo, e não expelindo gosma venenosa numa tentativa de nos sufocar com ela. Ele girou a cabeça com força e então, rápido como um relâmpago, abaixou-a para encarar Ahmose. Seus olhos pretos cintilavam com malícia. Bastaria uma mordida e Ahmose não existiria mais.
Vocês, seus fracotes patéticos, não podem me fazer mal, declarou a cobra, sibilando. A simples ideia é absurda. Quanto a Seth e os outros deuses, não ligo para eles. Por mim eles podem destruir uns aos outros e os seus reinos. Isso só significa mais comida para mim. Agora, por que vocês dois não ficam de lado e me deixam falar com a garotinha que pensa que me conhece?
Apep hesitou apenas por um segundo para ver se seria obedecido. Depois inclinou a cabeça para trás e a chocou contra o convés, rachando-o. Cherty e Ahmose caíram pelo buraco enorme. O instinto tinha feito minhas garras saírem. Cravei-as na amurada do navio, o que me impediu de despencar atrás deles.
Antes que eu pudesse pensar num caminho mais sensato, fui até a borda quebrada do convés e gritei:
— Ahmose? Cherty?
Não houve resposta e não pude ver nenhum dos dois nas entranhas negras do barco. Eles podiam estar empalados num pedaço de madeira ou caídos com os ossos quebrados, incapazes de se levantar. O barco tremeu e gemeu, e então, lentamente, diante dos meus olhos, começou a se consertar.
As lascas e a madeira quebrada se ergueram no ar, indo se posicionar nos lugares certos. Em apenas um momento o convés estava refeito, lacrando os dois dentro do porão escuro do barco.
Ofeguei, chocada, e bati a mão espalmada no convés.
— Não! — gritei. — Ahmose? Está me ouvindo?
De novo não houve resposta, pelo menos até que ouvi um sibilo. Fiquei imóvel, de costas para o predador que me caçava. Senti um sopro de ar quente e úmido levantar os cabelos na minha nuca. Outro sopro me atingiu e eu soube que era o bafo do monstro — fétido e repulsivo. Lentamente me virei para enfrentá-lo sozinha. Peguei as armas por cima do ombro e apertei os botões para transformar as facas em lanças.
Um êxtase odioso iluminou a cara da cobra. Enquanto eu a avaliava, uma curiosidade enojada me dominou. Havia algo partido na criatura. As habilidades de Wasret ainda percorriam meu corpo, e a necessidade de saber o nome do monstro era esmagadora. Apesar de ser poderoso, eu via nele uma fraqueza, uma doença devastadora, uma fome interminável que jamais poderia ser satisfeita. Ele era... malformado. Anormal. Não tinha um propósito no Cosmo. Apep era uma aberração.
Apesar de estar suficientemente perto para me abocanhar, ele parecia tão curioso comigo quanto eu estava com ele.
— O que criou você? — perguntei.
O quê? O que você disse?, perguntou a cobra com incredulidade.
— Perguntei o que criou você. Sei que não foi um quem. Não foi Amon-Rá. Você é mais velho do que Amon-Rá, não é? Isso faria você mais velho do que o Cosmo. Certo?
Uma sensação medonha atravessou meu corpo, uma premonição de que tinha perguntado uma coisa que não deveria. De que o que acontecesse em seguida mancharia o mundo e faria com que o mal brotasse como cogumelos do solo apodrecido. A cobra estremeceu com violência, como se minhas palavras a tivessem cortado fundo a ponto de as sentir no sangue.
Gotas d’água escorriam pela minha têmpora e pelo meu cabelo. Eu não sabia se eram os borrifos do oceano ou suor. De qualquer modo, elas me gelaram até os ossos. Pareciam minúsculos vermes deslizando pelo couro cabeludo. Os fantasmas tinham ficado silenciosos, observando nosso diálogo com a boca tão apertada que nem o ar poderia escapar. Eles se amontoavam nos cantos escuros do barco como baratas se escondendo da luz, os membros pálidos embolados em nós macabros.
Dei um passo na direção da criatura.
— O lugar de onde você veio é profundo. De uma profundidade imensurável. Você engole essas pobres criaturas para que não seja engolido e sugado de volta para o lugar de onde veio.
Quem é você?, perguntou a cobra num sussurro. Como soube dessas coisas?
Retraí uma das minhas lanças e a coloquei de volta na bainha, em seguida empurrei o cabelo embolado pela água do mar para longe do rosto e estendi uma das mãos. A cobra, chocada com minha ação, se afastou, fazendo o barco balançar violentamente, mas não submergiu. Atravessei o convés e encostei a mão em seu corpo preto. Apesar das minhas expectativas, o corpo era quente.
— Sim — falei baixinho, canalizando meu poder com mais facilidade do que jamais tinha acontecido. — Seu caminho foi partido. O sofrimento e o peso do que você perdeu afiaram suas presas.
Quando o toquei, minha mente foi inundada por visões de uma escuridão tão completa que nem mesmo a luz conseguia escapar dela. Ele havia existido num vácuo. Como um buraco negro. A pressão, apesar de terrível, pelo menos era familiar. Até que houve uma ruptura, movimentos bruscos e uma expulsão. Apep tinha sido rasgado em dois. Partido no meio. Parte dele tinha sido cortada e a outra parte fizera seu lar aqui.
A mente da cobra era absolutamente estranha para mim. O lugar em que Apep existia agora era lúgubre e amedrontador — o pior tipo de prisão. Mas o negrume não era o que o amedrontava; ele sentia medo pela parte que havia deixado para trás.
— Agora entendo — eu disse à criatura, acariciando suas escamas pretas e lisas. — Você é a fome, a desolação. É escravo do seu temperamento. A parte que ficou para trás o tornava inteiro. Mais do que qualquer coisa, você anseia por se reunir a ela. Sabe como isso aconteceu?
Não, sibilou a cobra. Fui até a extremidade do Cosmo e voltei. Não encontrei nenhum traço da minha outra metade. Talvez a divisão tenha sido acidental. Talvez tenha sido um corte cirúrgico feito por um vilão no grande teatro do Cosmo. Eu fui a parte indesejada, jogada fora. Não tenho como saber.
— Talvez você possa ser curado. Posso tentar ajudar.
Não existe ajuda para alguém como eu. Minha natureza me torna o que eu sou. E o que sou é a fome.
Seus olhos mudaram. Sua expressão ficou ainda mais negra do que a pele lustrosa.
Venha a mim, jovem, disse ele em tom sedoso, a voz fazendo com que todo o ruído do barco e das águas agitadas à minha volta desaparecesse. Você é o remédio que vai aliviar minha garganta dolorida. Entre na minha boca e vou cobri-la como uma tempestade cobre o mar. Você vai se afogar em mim, mas será uma morte pacífica, como se deitar num tapete de musgo enquanto os raios pálidos da luz drenam lentamente a vida de seu corpo.
Obedeci. Subi na colina cheia de musgo e me deitei, aconchegando a cabeça no leito esponjoso. Era mesmo tranquilo. A voz estava certa. Esse era o meu caminho, meu propósito na vida. Meu corpo alimentaria a fome do Cosmo. Senti uma ferroada horrível, uma pressão na perna. Mas logo esqueci isso e descansei de novo. Minha boca tinha um gosto engraçado, como se eu tivesse mordido um pêssego podre. O gosto amargo, inchado, se transformou numa queimação que lambeu minhas veias com fogo. Gemi. Então uma grande explosão me arrancou violentamente daquela cama.
Estava escuro, com apenas uma faixa de luz na base da porta. Minha perna estava presa à cama e doía muito. De repente a porta se escancarou, mas para o lado errado. A coisa que prendia minha perna se afastou e eu soube exatamente onde estava. Na boca da cobra.
Eu havia entrado na boca de Apep. Sua presa tinha furado minha panturrilha e o veneno já estava atuando. Percorrendo meu organismo e entorpecendo os membros. O corpo da cobra se sacudiu para trás e para a frente, e eu escorreguei para fora de sua boca, pendurada na presa escorregadia, enquanto ela se jogava de um lado para outro.
Meu estômago se revirou quando a cobra mergulhou na direção do barco e avistei um furioso Ahmose pingando, saído do Rio Cósmico. Lindo em sua fúria. Quando passamos por ele, seus olhos se arregalaram e ele fez menção de me pegar, mas a cobra foi mais rápida. Ahmose levantou os braços acima da cabeça e entoou um encantamento. Foi tão alto que, quando a cabeça da cobra se ergueu muito acima do barco, eu ainda podia ouvi-lo. O encantamento de Ahmose fez grandes pedras flamejantes caírem do céu. Pesados meteoros despencavam ao nosso redor, alguns batendo no Rio Cósmico e espirrando água com um chiado, outros acertando as espirais do corpo da cobra, cada um deles provocando uma explosão.
O veneno fez seu trabalho e meus braços não conseguiram mais sustentar meu corpo. Mergulhei na direção do rio, caindo com tanta força quanto um daqueles meteoros de cheiro amargo. Estava alerta o suficiente para esperar não morrer com o impacto. Quando bati na água, ossos se despedaçaram audivelmente, mas a dor desapareceu depressa enquanto eu afundava sob as ondas. O último pensamento que tive antes de apagar foi que a cobra estava certa. Morrer era como se afogar em paz.
Infelizmente a dor retornou. A princípio, como algo irritante fazendo cócegas em minhas costelas, e eu gemi, esperando que parasse. Mas rapidamente piorou. Tentei me livrar daquilo com a mão, como se tivesse esbarrado inadvertidamente numa teia de aranha. Agarrei-me com teimosia à dor, enfiando-a bem fundo e segurando, como um gato faria com um camundongo, não querendo que ela me dominasse.
— Não — falei, a voz engrolada. — Me deixe em paz.
— Preciso curar você, amor.
Meus nervos formigavam, como se ferroados por mil marimbondos. Houve um estalo e a água brotou dos meus olhos, escorrendo pelo pescoço. Foi quando ouvi o som de grilos. Eles cantavam juntos, movendo as pernas em movimento de serra, para trás e para a frente, imaginando se eu estava morta como eles ou ainda entre os vivos. A canção deles era louca e incômoda.
— Parem com isso — gritei.
— Parar o quê, amor? — perguntou o homem reluzente inclinado sobre mim.
— Os insetos. Eles são barulhentos demais.
— Acho que ela está falando dos fantasmas — sugeriu uma voz familiar. — Calem a boca! — ordenou o homem.
O zumbido cessou de repente e eu passei a língua inchada sobre os lábios entorpecidos.
— Obrigada — murmurei, e caí imediatamente no sono.


Quando acordei de novo, fiquei imóvel por um tempo, avaliando meu corpo em busca de danos.
Ahmose nos curou, disse Ashleigh.
Tia?, perguntei.
Estou aqui, Lily.
Vocês estão bem?
Estamos, respondeu Tia. Mas precisamos ter uma conversa séria sobre dar as costas a um caçador.
Eu sei. Vou acrescentar isso à lista. Desculpe ter colocado vocês duas em perigo.
Lentamente abri os olhos e vi Cherty no leme.
— Já não era sem tempo — disse ele. — Estava pensando que você ia dormir até chegarmos à ilha.
— Ahmose? — chamei baixinho.
— Ele está dormindo — respondeu Cherty, indicando com a cabeça alguma coisa atrás de mim.
Virei-me e vi Ahmose com as costas apoiadas na amurada, a cabeça pendendo sobre o peito enquanto dormia.
— Ele precisou fazer um bocado de esforço para trazer você de volta — disse Cherty. — Achei que não ia conseguir.
— Eu estava tão mal assim?
Cherty se inclinou para a frente, as sobrancelhas fartas erguidas.
— Você estava morta, mocinha. Não sei o que ele fez, mas conseguiu. Pescou você do rio pessoalmente.
Assenti e me aproximei um pouco mais de Ahmose. Sua pele dourada tinha uma palidez sombria e as pontas dos dedos estavam azuis como se tivessem congelado. Um hematoma cinza escurecia o maxilar e a bochecha estava ligeiramente inchada. Eu sabia que não devia estar muito melhor.
Minhas roupas continuavam úmidas em alguns lugares e as partes secas estavam ásperas. Não queria nem olhar meus braços e pernas brancos feito ossos nem a ferida na perna, ainda pegajosa de sangue, apesar de cicatrizada.
— Estamos em segurança? — perguntei. — O que aconteceu com Apep?
— As pedras pegando fogo foram demais para ele. Ele foi embora lamber as feridas. Mas não se preocupe. Ele vai voltar. Causou bastante dano antes de ir embora. O Mesektet precisou se curar. Apep, frustrado, o despedaçou antes de ir. Perdi mais da metade dos meus fantasmas.
O barco parecia mesmo consideravelmente menos apinhado.
— Quanto tempo você acha que teremos até ele voltar?
A ideia de que a cobra gigantesca voltaria para o segundo assalto me enchia de horror. Eu não tinha me saído bem antes. Claro, eu a tinha distraído por um curto tempo, mas acabamos perdendo. Não sabia se conseguiria sobreviver a um segundo confronto.
— É difícil dizer. Pode voltar logo ou nos deixar em paz de vez. Depende do humor dele. Se tivermos sorte, poderemos pegar os dois rapazes e dar o fora da ilha antes que ele sequer saiba que estamos lá.
— Esperemos que sim.
Depois de um breve momento de hesitação, estendi a mão e afastei o cabelo denso de Ahmose de sua testa. Seus lábios estavam ligeiramente abertos e as preocupações que ele carregava como uma capa nos ombros tinham sumido enquanto dormia, revelando um leve traço do homem feliz, despreocupado, que tinha passado uma tarde no sonho ensolarado e com gosto de morangos de Ashleigh.
Apesar de tudo, eu o amava. Não era só Ashleigh. Era hora de eu admitir. Queria que Ahmose fosse feliz. Seria uma pena jamais ver de novo aquele sorriso de luar. Jamais sentir o conforto e o calor de seus braços à minha volta. Talvez as outras estivessem certas e devêssemos aproveitar cada momento de felicidade possível. Isso não iria durar. O fim estava chegando. Todas sabíamos.
Pendurei a Estela de Cura de Hórus no pescoço de Ahmose, esperando que ela fizesse sua magia enquanto ele estava dormindo, e me recostei no barco, me ajeitando ao lado dele e apoiando a cabeça em seu ombro. Ele só se mexeu um pouquinho quando segurei sua mão e cruzei os dedos com os dele.
— É melhor descansar enquanto pode — disse Cherty. — Não vai demorar até chegarmos à ilha e você vai precisar estar alerta.
Dei-lhe um sorriso agradecido e fechei os olhos, o corpo balançando junto com o movimento do barco.
Lily. A luz do sol encheu minha mente. Acordei com um susto.
— Amon? — murmurei, grogue, relutante em acordar.
Ahmose se mexeu ao meu lado e esfregou os olhos.
— Que bom. Já ia mesmo acordar vocês — disse Cherty.
— O que foi? — perguntei, ficando de pé, nervosa. — Apep voltou?
— Não. É a ilha. Estamos chegando. Encontrei-a há uma hora, mas ela desapareceu. É a segunda vez que consigo vê-la. Não olhe para ela diretamente, caso contrário ela some de novo na névoa.
— Posso encontrá-la sem olhar, agora que estamos perto — disse Ahmose, me virando para ele.
Depois de inspecionar meus ferimentos, ele tocou meu rosto, um contato fugaz como as asas de uma borboleta, mas mesmo assim minha pele queimou. Eu me perguntei o que ele via quando me olhava. Tia? Ashleigh? Nós três? Talvez isso não tivesse mais importância.
— Como você se sente? — perguntou ele. — Ainda está com dor?
— Eu ia perguntar a mesma coisa a você. Cherty contou que você me trouxe de volta, esgotando toda sua energia para isso.
— Não foi nada.
Cobri sua mão com a minha. Era um gesto ousado da minha parte, mas de algum modo parecia correto.
— Foi muita coisa.
Ele olhou nossas mãos e então seus olhos me fitaram. Por um momento ele me examinou e um canto de sua boca subiu em um breve e esperançoso sorriso. Ahmose apertou minha mão, não dolorosamente, mas de forma possessiva, e cheguei ainda mais perto dele.
— Eu faria de novo, amor — disse ele enquanto se curvava na direção do meu ouvido, seu hálito aquecendo minha face.
Quando assenti, ele deu um beijo suave no meu rosto, perto do lóbulo da orelha, e um arrepio disparou pelo meu corpo. Envolvi sua cintura com os braços, encostei a cabeça no seu peito e disse:
— Obrigada.
Sua mão enorme segurou minha cabeça e acariciou meu cabelo delicadamente. Eu estava tão perdida no momento que fiquei surpresa quando Ahmose disse a Cherty:
— Siga para a direita. — O navio adernou, e eu teria de me agarrar à amurada se Ahmose não tivesse me segurado com firmeza contra seu corpo. — Agora, em frente. É isso. Posso senti-los por perto. Mantenha os olhos bem fechados, Lily.
— É melhor você também fazer isso, rapaz — disse Cherty. — Não olhe direto para ela.
— Você pode sentir a proximidade de seus irmãos? — murmurei contra seu peito, ambos oscilando com o navio.
— Posso.
Depois de outro momento Cherty disse:
— Vocês dois já podem abrir os olhos. Perdi mais alguns fantasmas que olharam para a ilha, mas, agora que estamos ancorados nela, estamos seguros. Foi bom ter você a bordo, rapaz. Foi bem útil.
Com relutância, Ahmose me deixou e foi ajudar Cherty com as velas, e eu esfreguei os braços, sentindo frio depois de ter ficado envolvida em seu calor. Sentia uma combinação de vertigem e culpa por meus sentimentos por Ahmose. Ceder ao desejo de ficar perto dele, mesmo sabendo tudo o que sabia, fazia com que eu me sentisse como uma alcoólatra passando por um bar. Andava com lentidão suficiente para que a tentação escoasse pela janela, me chamando. Meus membros tremiam com o desejo de uma coisa que eu não deveria ter. Fui até Cherty e perguntei:
— A ilha vai se mover agora que estamos aqui?
— Não. Ela não pode se afastar quando estamos ancorados.
Assenti, desviando o olhar da barba áspera de Cherty para a vista além da proa do navio. Inicialmente uma névoa densa obscurecia a ilha, mas depois lanças de luz do sol furaram as nuvens. Vi o topo de uma montanha verde partir os vagalhões cinzentos, como uma barbatana de tubarão no oceano. Quando ela tornou a desaparecer, uma sensação de premonição e perigo me dominou, como se estivéssemos mesmo cercados por um cardume dos perigosos predadores.
Canalizando os poderes de Wasret, criamos roupas novas e levei a mão à cabeça, descobrindo que meu cabelo despenteado pelo vento e cheio de sal estava agora limpo e pendia numa trança frouxa em minhas costas. Eu usava uma camiseta enfiada numa calça cargo cáqui com uma camisa de manga comprida amarrada na cintura. E um par de botas de caminhada flexíveis adornava meus pés.
Ahmose apareceu um instante depois, também de roupa trocada. Seu cabelo, escuro como as águas agitadas do Rio Cósmico, estava penteado para trás. Ele me dirigiu um sorriso cansado e devolveu a Estela.
— Obrigado por me emprestar o presente de Hórus. Ela fez tudo o que podia por mim — acrescentou enigmaticamente.
Pendurei o cordão no pescoço e me perguntei exatamente o que a minha cura teria tirado dele. Fiz uma anotação mental para descobrir.
Cherty segurou minha mão e me ajudou a entrar num bote que havia se formado magicamente no costado do navio.
— Que conveniente! — falei ao entrar no bote e me acomodar em um assento. — Aposto que o capitão do Titanic gostaria de ter tido essa capacidade.
Ele também embarcou e começou a puxar as cordas para nos baixar.
— Eu vi aquilo acontecer, sabe? É terrível ver um belo navio como aquele ir morar no fundo do mar. Carreguei muitas daquelas almas na última viagem que fizeram. Não tive coragem de dizer ao capitão tudo o que ele fez de errado. Pelo menos ele afundou com o navio. É preciso lhe dar o crédito pela bravura.
Quando estávamos balançando no Rio Cósmico, levantei os olhos e vi Ahmose puxando as cordas. Depois ele ergueu as mãos e seu corpo se alçou no ar e desceu flutuando até nós. Ele se acomodou no banco ao meu lado, mas dava para ver como o uso de seu poder o havia exaurido. Segurei sua mão e a apertei entre as minhas. Ele pressionou meus dedos debilmente.
Cherty sentou-se junto ao leme e girou um dedo no ar. Partimos na direção da ilha como se tivéssemos um motor nos impelindo, mas, pelo que dava para ver, atravessávamos as ondas com o poder de Cherty. Peixes-voadores cintilantes corriam ao lado da nossa embarcação e um animal maior, que parecia um cruzamento entre um golfinho preto e um cavalo-marinho, saltou e tornou a mergulhar, espirrando água no ar.
Vislumbrei a ilha, que me acenava com clarões de verde, mas a maior parte estava coberta por nuvens inchadas tão densas que era difícil ter noção do tamanho e da forma dela. Então, quando o barco chegou a terra, a névoa se dissipou diante de nós e a Ilha dos Perdidos se revelou em todo seu esplendor. Um magnífico paraíso verde erguia-se das profundezas do negro Rio Cósmico. Montanhas pairavam acima dele, os topos escondidos pelas nuvens. Árvores de todos os tipos, com copas densas que se balançavam ao sabor de uma brisa quente, chegavam até perto da praia estreita de areias negras.
— É linda — murmurei baixinho.
— É linda mesmo — concordou Cherty. — Linda até você se confundir e se perder na floresta, imaginando se vai voltar a ver a luz do dia.
— Como assim? — perguntei.
Cherty coçou a barba crescendo no queixo enquanto avaliava a selva à sua frente.
— A ilha toda é... bom, ela não gosta de deixar você ir embora depois de pôr os pés nela. Bem, comigo ela não se importa muito. Não pode tirar nada de mim. Mas dois chutadores como vocês? Bom, digamos apenas que não é muito provável que ela os deixe partir facilmente.
— Mas Ahmose pode encontrar um caminho.
— Pode. Claro. Mas, por outro lado, as ilhas são coisas confusas. E tenha em mente que o velho Apep mora aqui. Pode ser que ele esteja esperando que a gente entre em sua goela outra vez. E, se já não é suficientemente ruim que ele possa fazer isso, saiba que a ilha também pode hipnotizá-la. Ela tem meios de prender você.
A ideia de entrar na boca da cobra de novo me paralisou. O medo se esgueirou por minhas veias, formando riachos gelados, e a respiração ficou presa na garganta.
— Você poderia ter dito isso antes de desembarcarmos — disse Ahmose, colocando a mão no meu ombro para me confortar.
Inalei o ar, trêmula.
— Ah, poderia. Mas isso não mudaria o pensamento de vocês — replicou Cherty.
— Ele tem razão — falei, pondo a mão em cima da de Ahmose. Virei-me para encará-lo. — Precisamos salvar seus irmãos. Não temos outra escolha. — E acrescentei, esperançosa: — Mas, se a ilha não se interessa por ele, Cherty pode ir na frente em vez de você.
— Eu gostaria de poder ajudar, mas estou preso ao meu barco. Não posso deixar o Mesektet. Já é bem ruim que os fantasmas a bordo precisem esperar. Só posso lhes dar um dia, mais ou menos, para encontrar os outros dois guardiões. Depois disso a força que atrai os mortos vai pressionar o barco a continuar e eu terei de ir com ele.
Quando viu minha expressão consternada, Cherty se enrijeceu.
— Não vou admitir que me chame de covarde — disse, levantando o queixo.
Balancei a cabeça e fui até ele. Suas mãos ásperas e rachadas se contraíam ao lado do corpo.
— Não acho que você seja covarde, Cherty. Só estou com um pouco de medo do desconhecido.
Cherty me fitou com um olho fechado, depois assentiu com a cabeça, carrancudo, e me puxou de lado.
— Eu também estou. Mas o rapaz é bom — disse, indicando Ahmose, que tinha se agachado na areia e estava agitando as mãos acima dela, à procura de um caminho.
O cabelo denso de Ahmose, preto como a areia, pendia sobre sua testa, escondendo os olhos cinza que brilhavam como o luar.
— Eu o julguei mal antes — continuou Cherty. — Ele claramente ama você e está disposto a se arriscar para salvá-la. Eu achava que os guardiões eram homens frios com coração insensível como couro de crocodilo, mas vê-lo com você mudou meu pensamento.
— Ele não tem o coração nem um pouco frio — peguei-me dizendo. — Ahmose só é contido em relação aos sentimentos, só isso. Você pode pensar que ele é intimidante e sério se olhar apenas por fora, mas, quando consegue chegar ao coração, ele é mole e doce que nem um gatinho recém-nascido no Natal, o pobrezinho.
Fiquei parada, olhando em silêncio para Ahmose, uma expressão patética no rosto. Nem percebi que Cherty ainda estava ali, até que ele pigarreou e cuspiu na areia. Piscando, estremeci e me virei para ele.
— Isso foi desconcertante — disse Cherty. — Você deveria ter vergonha, fada.
— O quê? — perguntei, confusa.
— A sua fada. Ela assumiu o controle e você nem notou. Vocês três estão se fundindo cada vez mais.
Ashleigh começou a soluçar na minha mente.
— Pare com isso — falei para Cherty. — Você magoou Ashleigh. Ela não pode evitar o que está sentindo.
— Talvez não. Só... só tenha cuidado, Lily. Já é bem ruim ficar confusa aqui, onde isso não importa muito. Outra coisa totalmente diferente é ficar atarantada lá. — Ele apontou para a selva, onde galhos e troncos escuros davam lugar a uma folhagem alta que nos chamava para si. — Vocês três vão ter de manter muito controle. Se mostrarem suas fraquezas à ilha, ela vai explorar isso, como um tubarão partindo para cima de um peixe se debatendo.
— Vamos ter cuidado — prometi. — Você vai esperar na praia?
— Sim. Vou ficar aqui enquanto puder, mas, se por algum motivo eu e meu barco tivermos ido embora, não olhem de volta para a ilha quando saírem. Ela vai prender vocês como um martim-pescador. Se Apep voltar, eu... bom... só vamos torcer para que ele não volte. Fique em segurança, Lily — disse ele. — E se apresse.
— Vamos fazer isso — respondi, aparentando mais confiança do que sentia.
Ajustei por cima do ombro o arnês de couro que continha as facas-lanças e a aljava.
— Está pronta? — perguntou Ahmose, aproximando-se por trás de mim e ajeitando meu arco numa posição mais confortável.
Seu rosto parecia grave e sério, os sulcos fundos embaixo dos malares lhe dando um aspecto severo, quase como um animal faminto e desesperado.
— Estou — respondi, ansiando para ver a felicidade e o brilho retornarem aos seus olhos, para vê-lo como ele estava no sonho de Ashleigh.
Abri o que esperava fosse um sorriso tranquilizador e segurei seu rosto com uma das mãos. Ele a puxou para beijar a palma, os lábios leves e macios como pétalas de flores. Fechei os olhos com força por um momento. Depois ele envolveu minha mão com a sua, me guiando adiante.
Juntos caminhamos até o início da selva e, com um último olhar para Cherty, mergulhamos nas sombras sob as árvores da Ilha dos Perdidos.

7 comentários:

  1. Isso ai Cherty bota moral e não deixem pensar besteiras de ti.

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  2. Sério , o Amon ta totalmente esquecido na história. Sexteto amoroso chato pra caramba.

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  3. Amom nem aparece,foi a mesma coisa no ultimo livro.

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  4. Uma história toda e Amon apareceu tão poucas vezes que não da nem pra conhecer ele direito, aff. Só to lendo isso por pura curiosidade, afinal, cheguei tão longe né

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  5. Esse hexágono amoroso já ta dando nos nervos. Só estou lendo pq não tem nada melhor pra fazer msm.

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