9 de março de 2018

12. Pelo buraco de minhoca

— Olá — respondi, hesitante. — É um prazer conhecê-lo.
As sobrancelhas fartas do sujeito se encontraram na pequena ruga que se formou entre seus olhos.
— Me conhecer? Do que você está falando, mocinha? Não acredito que já me esqueceu.
— Já. Bom, parece que eu removi todas as minhas memórias de antes. Tranquei todas elas, por motivos que não consigo lembrar.
O sujeito grunhiu e me olhou de testa franzida, um dos olhos quase fechado e outro arregalado enquanto ele inclinava a cabeça.
— Foi, é? — Ele coçou a barba crescida no queixo, produzindo um som de lixa. — Bom, não posso dizer que culpo você. Parece que ignorou meu conselho e continuou andando com os sem alma — disse, apontando o dedo por cima do ombro para indicar Ahmose. — Por favor, diga que não fez nada imprudente e não largou o namorado anterior só para arranjar outro da mesma laia. Um deles já é bastante ruim.
Fiz uma careta. A suposição dele estava um pouco perto demais da verdade.
— Os sem alma? — perguntei, desejando que ele mudasse de assunto.
— Sim. Os guardiões. — O homem fungou e cuspiu por cima da amurada. Enquanto Tia esclarecia que ele estava falando de Asten, Ahmose e Amon, o barqueiro continuou: — Parece que ultimamente eles não estão fazendo um trabalho de guarda muito bom. Estão sumidos há um tempo, e os mortos são tantos que não têm outro jeito a não ser se agarrar nos costados do barco.
Confirmei com a cabeça.
— O além foi invadido. Maat escondeu os... os guardiões para protegê-los de Seth.
— Creio que isso explique a situação. Cada vez que largo uma nova carga, o cais está tão apinhado de almas implorando para ser levadas de volta que meu navio quase emborcou algumas vezes. A coisa ficou tão ruim que agora eu simplesmente jogo os mortos por cima da amurada quando chegamos perto.
Um pequeno lampejo de alarme cresceu dentro de mim e olhei nervosa de um lado para outro.
— Não estou vendo ninguém.
— Vai ver, assim que a gente decolar e passar pelo portal. As almas dos mortos não podem ser vistas à luz do dia, a não ser que tenham alguma ligação especial com um mortal.
— Ah. — Esfreguei os braços e olhei para Ahmose, que estava fazendo algum tipo de encantamento para verificar de novo nosso caminho.
— Tem certeza de que quer seguir esse daí? — perguntou o barqueiro. — O caminho que ele aponta leva a gente por águas perigosas. Não há muita probabilidade de chegar intacto do outro lado.
Soltei o ar num meio riso.
— Isso não é novidade.
O homem chegou mais perto, com uma expressão séria. Cheirava a especiarias, cera de vela e mar.
— Se quiser que eu jogue esse sujeito por cima da amurada, é só fazer um sinal — disse, batendo com o polegar no nariz. — Isso não vai matá-lo. Pelo menos acho que não. É só dizer.
Ele baixou uma pálpebra grossa numa piscadela discreta e eu quase ri, mas Ashleigh veio à superfície, eriçada de indignação:
— Seu urso velho cheio de cracas! Não vai fazer uma coisa dessas com o meu Ahmose!
O sujeito piscou, os olhos redondos de surpresa. O vermelho pintalgado subiu por seu pescoço e ele apontou um dedo grosso na minha cara.
— E quem lhe deu licença para abrir a boca no lugar de Lily? — argumentou de volta. — Estou vendo você aí. Saia agora e volte para o seu lugar, agarrada ao costado do barco, sua fada maligna. Você não tem nada que ficar assombrando essa moça adorável.
Não sou maligna — declarou Ashleigh com minha voz. — E também não estou assombrando ninguém. Sou tão parte de Lily quanto Tia.
O homem cruzou os braços grossos.
— É mesmo?
— É. E tem mais...
— Parem com isso! — disse Ahmose. Nós nem tínhamos percebido sua aproximação. Ele se pôs entre mim e o capitão corpulento. — Agradeço se você tratar Ashleigh com respeito, barqueiro. Acho que já gastou tempo demais reatando o contato com Lily, portanto, por gentileza, faça o seu serviço e nos leve. — A expressão de Ahmose era inflamada e perigosa como a de um cão do inferno. — Imediatamente — acrescentou.
Ashleigh retirou-se, um tanto presunçosa depois da atitude de Ahmose.
Subi lentamente à superfície, assumindo de novo o controle do meu corpo. Olhei irritada para Ahmose, nem um pouco feliz com sua demonstração de força. O capitão não tinha falado por mal. Pelo menos eu achei que não.
Ahmose viu meu olhar e se virou, voltando para a proa do barco, sem dizer nada. Ver o grande capitão recuar e baixar a cabeça me incomodou por alguns motivos. O primeiro, para minha surpresa, foi que eu gostava do barqueiro. O segundo era que Ahmose parecia proteger demais Ashleigh, o que me irritava, e sua abordagem grosseira foi desnecessária. Além disso, eu queria ouvir mais sobre a ideia da assombração que o capitão tinha mencionado.
Roí a unha do polegar. Seria possível que eu estivesse mesmo sendo assombrada por dois espíritos? Será que estava possuída? Eu sabia que todas as outras pessoas acreditavam que éramos destinadas a nos tornarmos Wasret ou sei lá o quê, mas eu não queria afastar nenhuma possibilidade.
Especialmente porque o capitão parecia indicar que havia um modo de a alma de Ashleigh ser removida de minha pessoa viva.
Parecia traição sequer pensar em me livrar de minhas duas companhias constantes. Eu realmente gostava delas. Ao mesmo tempo, o corpo era meu, não era? Eu não merecia ter uma vida? Se havia uma possibilidade de ser eu mesma de novo, inteira, completa e normal, seria errado abrigar esse desejo? Tentar descobrir um modo de fazer com que isso acontecesse?
O barqueiro murmurou baixinho seu descontentamento enquanto puxava várias cordas e içava a âncora, que aparentemente ele havia prendido no topo de uma montanha. Ahmose ficou na proa do barco olhando nosso progresso durante um tempo, depois se virou para olhar o oceano. Dava para ver que ele queria que eu fosse ficar ao seu lado, mas decidi permanecer junto do capitão. Quando ele me pediu para ajudar, fiquei feliz em fazer isso. Parecia normal que ele pedisse para eu trabalhar ao seu lado. Nesse aspecto, ele me fez lembrar vovó.
— A oferta continua de pé — disse ele num sussurro teatral enquanto me ajudava a enrolar uma corda. — Seria um prazer ajudar um dos andarilhos a viajar por cima da amurada.
Dessa vez eu ri e, ainda que Ashleigh quisesse partir para cima dele de novo, segurei-a à força. Ela não gostou disso e ficou carrancuda no fundo da minha mente.
— Acho que vamos deixá-lo ficar. Por enquanto — respondi também num sussurro, levantando as sobrancelhas significativamente e rindo para mostrar que estava de brincadeira. — Pode me dizer seu nome de novo? — perguntei um pouco mais alto. — Tia falou algumas vezes, mas não consigo lembrar. Sei que você é Caronte, o barqueiro da mitologia, mas você não parece muito o mito.
— É. Um monte de gente diz isso. Meu nome é Cherty. Os três viajantes sempre me chamaram de “Barqueiro”. Esses três não demonstram muito respeito a mim.
— É uma pena. Na verdade, eles não são tão ruins quanto parecem, Cherty. Talvez só não conheçam você suficientemente bem.
— Nossos caminhos se cruzam um bocado, eles deveriam pelo menos me tratar de modo cordial. Não é minha culpa eles estarem empacados com isso. Não que eu também tenha escolhido meu trabalho.
Eu ia perguntar mais sobre o trabalho deles, mas Cherty apontou com a cabeça um caixote, indicando que eu deveria ficar confortável e me segurar. Tia disse para eu envolver com os braços a corda na amurada e que mais tarde responderia às minhas perguntas do melhor modo que pudesse. Fiz o que ela pediu e um vento forte enfunou as velas até que elas se encheram como grandes balões.
O oceano, anteriormente calmo, cresceu lá embaixo. Ondas gigantes corriam na direção da praia, com os topos roçando o casco do barco, apesar de estarmos muito acima da terra. Quando uma onda grande espirrou espuma por cima da amurada, Cherty gritou:
— Segure-se!
O barco adernou num ângulo profundo, descendo pelas costas de uma onda numa velocidade de montanha-russa, e então subiu por outra e por outra, cada uma maior do que a anterior, até que senti medo de virarmos.
Gritei um alerta para Ahmose, achando que ele iria cair, mas ele permaneceu olhando direto em frente, me ignorando, os pés firmes, como se estivessem presos em alças de aço. O único sinal de que se esforçava para manter o equilíbrio foi quando segurou a grade com uma das mãos. Então, assim que chegamos à crista de uma onda de tamanho suficiente para afundar um cargueiro, decolamos de novo, subindo numa velocidade incrível.
Quando o mar estava longe, embaixo de nós, o navio se equilibrou e se firmou num balanço confortável. Logo finos fiapos de nuvem passavam por nós. Antes que eu pudesse desenrolar o braço da corda, estávamos no interior de uma nuvem. Pus a mão na frente dos olhos e não pude vê-la. O orvalho pousava nos meus braços e no rosto e o ar que eu respirava era molhado e frio.
Subimos ainda mais e rompemos o topo das nuvens. Um oceano delas se estendia embaixo de nós. O sol queimava os topos macios, fazendo parecer uma paisagem de algodão-doce fofo e cor-de-rosa. Eram tão densas e de aparência tão sólida que eu queria puxar uma para perto e tirar um cochilo em cima. Prosseguimos e o ar ficou mais frio. Minhas bochechas e as orelhas ficaram entorpecidas e eu tremi.
— Estamos quase lá — disse Cherty. — Segure-se.
A princípio o azul mudou sutilmente e então a escuridão dominou o céu. O ar era rarefeito demais. Eu inspirava fundo, com uma dor oca ferroando meus pulmões, mas Cherty pôs a mão no meu ombro e minha respiração ficou mais fácil.
— Você vai ficar bem assim que entrarmos no portal — prometeu.
Em seguida apontou à frente, para uma coisa escura e serrilhada que bocejava como uma boca aberta ansiosa por nos engolir.
— O que é aquilo? — perguntei.
— Um rasgo no tecido do universo. Bom, é mais uma brecha do que um rasgo — resmungou Cherty, coçando o queixo. — É como um canal que leva desta esfera específica para o Rio Cósmico. — Ele moveu o leme e as velas se mexeram. O barco gemeu e rangeu ao mudarmos de rumo. — Firme, agora — disse ele, falando com o barco e dando um tapinha na amurada. — Firme.
A proa bateu na abertura e o barco inteiro estremeceu. Eu perdi o equilíbrio e bati contra a amurada. Imediatamente meus pulmões se apertaram. Tossi e segurei o pescoço, tentando inutilmente abrir as vias respiratórias. À nossa frente, Ahmose e toda a proa do navio desapareceram.
Ahmose!, gritei sem som, aterrorizada e pensando que ele teria caído. Cherty agarrou meu braço e o ar abençoado entrou novamente no meu corpo.
— Ele está bem, mocinha. Você vai vê-lo num instante.
Só tive tempo de piscar uma vez antes que o negrume nos envolvesse também; agora eu não só não podia ver Ahmose nem Cherty, como também não podia ouvi-los. A única coisa que meus sentidos diziam era que eu continuava no barco. Mesmo quando tentei ativar a visão noturna de leoa, continuei completamente cega. Agarrei-me ao corrimão e gritei quando o barco mergulhou subitamente. Caímos depressa, como se descêssemos uma montanha, depois adernamos para um lado e para outro. Se eu não estivesse me segurando, teria despencado para fora.
Por fim o barco se equilibrou e Cherty soltou meu braço enquanto eu olhava ao redor. Minha visão noturna finalmente funcionou, e com toda a intensidade. Redemoinhos negros iluminados por estrelas giravam em volta do navio como um rio de tinta nanquim e acima de nós as estrelas brilhavam como tinham feito em meu sonho. Eu podia ouvir o sussurro de suas vozes como juncos farfalhando ao longo de um rio. Era reconfortante e pacífico.
— É lindo! — falei.
— Esta é a melhor parte do rio — disse Cherty. — É por isso que Apep mora nesta parte do Cosmo.
— E Apep é...?
Cherty abriu a boca para responder, mas, antes que pudesse falar, soltei um grito capaz de gelar o sangue. À nossa volta, fantasmas diáfanos começaram a aparecer. Alguns estavam de pé em silêncio, olhando por cima da amurada. Outros se enrolavam no convés como pequenas bolas, soluçando com amargura. Uma menininha chupava os dedos, me encarando com olhos grandes. Um homem que era parte cavalo e parte humano se remexia, desconfortável, enquanto outros fantasmas se comprimiam junto a seu corpo. Ele abanou a cauda fantasmagórica, irritado.
Quando gritei, todos me olharam. Mais e mais fantasmas se materializaram. Tantos que eu me senti presa. Cercada pelos mortos. Suas bocas escuras se abriram num grito silencioso que ecoou o meu, enquanto os que estavam perto apertavam as bochechas e copiavam meus movimentos.
Girei várias vezes, minhas garras emergindo enquanto eu golpeava o ar para mantê-los longe. As pontas dos meus dedos em forma de adagas simplesmente atravessavam suas formas como se eles fossem compostos apenas de ar.
Quando percebi que minhas garras de esfinge não funcionavam, recuei até bater na amurada do navio e segurei o corrimão, desesperada, querendo escapar. Eles chegaram mais e mais perto, me olhando com curiosidade. Talvez fosse meu corpo mortal que os surpreendesse, mas eles estendiam a mão e me tocavam. Gemi e fechei os olhos, tentando ignorar o frio que se esgueirava em minhas veias sempre que uma daquelas mãos espectrais atravessava meu corpo.
Só abri os olhos quando escutei Cherty gritando:
— Para trás. Para trás, seus fantasmas desgraçados!
Os seres reluzentes no convés se afastaram um pouco, os corpos se fundindo uns nos outros.
O barqueiro não brincara ao dizer que os fantasmas eram tantos que não havia espaço para eles no navio. Eles se apinhavam em todas as formas e todos os tamanhos, tão apertados que não havia espaço para enfiar uma folha de papel entre eles. A maioria se encontrava de pé com os braços e os troncos se sobrepondo, e dava para ver que não gostavam disso. Parecia algo doloroso. Como se a fusão, ainda que possível, não fosse confortável. Eu também não gostaria. Olhei por cima da amurada outra vez e vi não dezenas de fantasmas pendurados ali, mas centenas deles.
Os que não conseguiam segurar a trave de madeira se agarravam de algum modo aos outros fantasmas, formando uma corrente medonha que desaparecia na água negra. Cabeças balançavam flutuando na nossa esteira como esquiadores caídos, mas, em vez de se segurar a uma corda, eles se prendiam aos membros descorados de seus companheiros. Era nauseabundo e horrível. Eu não podia imaginar um meio de transporte pior. O barco de Cherty era uma noiva infernal andando por um corredor escuro arrastando um longo véu de mortos.
Quando Cherty se aproximou, empurrando para o lado um fantasma depois de outro, até mesmo jogando alguns por cima da amurada, segurei seu braço, precisando de alguma coisa sólida em que me concentrar.
— Eles não vão... — Engoli em seco. — Se afogar lá embaixo?
Ele fez que não com a cabeça.
— Já estão mortos. Provavelmente vão ser comidos. Então estarão mortos mortos.
— Comidos? — A situação estava ficando pior. — Que tipo de monstro come fantasmas?
— A Devoradora, por exemplo. — Ahmose chegou perto e me senti grata por sua presença. Ele pôs a mão possessivamente no meu braço e deu uma bronca em Cherty: — Você deveria ter alertado que estava superlotado.
— E de quem é a culpa? Vocês me invocaram num momento de muito trabalho. Além disso, se você e seus irmãos estivessem fazendo seu serviço, eu não teria tantos passageiros agora! — gritou o barqueiro, o rosto ficando roxo.
Reuni coragem, toda que eu tinha, e me afastei de Ahmose, que franziu a testa.
— Está... está tudo bem — falei, dando um tapinha no braço de Cherty com uma imitação de sorriso. — Vou me acostumar com eles.
Não havia a menor indicação de que me acostumaria, mas eu não queria ser considerada covarde. Tia disse que tínhamos visto coisa semelhante no mundo dos mortos e havíamos sobrevivido. Enrijeci as costas, apesar da incômoda sensação de insetos se arrastando em minha pele, e tentei reagir do melhor modo possível.
Cherty baixou a cabeça.
— É melhor assim, mocinha. Apep vai ficar distraído com tantas opções para encher a barriga. Talvez a gente até tenha uma chance.
— Tem certeza de que este é o caminho certo? — perguntei a Ahmose, esperando que ele dissesse que não e que poderíamos ir para outro lugar. De preferência um lugar onde pudéssemos desembarcar os passageiros.
— Sim. Até onde eu sei, a oubliette onde Maat escondeu nós três fica na Ilha dos Perdidos, bem além da extremidade mais distante das Águas do Caos, depois das fronteiras dos deuses. Nem eles se aventuram tão longe.
— Se é tão perigoso, por que Maat os prendeu lá? — perguntei, a curiosidade instigada apesar da plateia.
— Maat não é tão boa em encantamentos quanto Ísis. É provável que ela tenha usado um encantamento específico que os mandou para um lugar aonde Seth não iria. Os encantamentos são complicados de se verbalizar. O fato de ela nos mandar para um lugar tão remoto e inacessível é sinal de quanto estava desesperada.
— Se é perigoso para os deuses, como esperam que sobrevivamos? — perguntei.
— Vai dar tudo certo, meu amor. Vou ficar de olho no caminho.
Franzi a testa.
— Não me chame de amor. Você não pode mais fazer isso.
Cherty deu um risinho enquanto movia o leme, mas não olhou na nossa direção.
Ahmose deu um passo em minha direção.
— Nem todas vocês pensam assim — murmurou baixinho.
— Não? Bom, as outras não estão no comando agora. Infelizmente você terá de lidar comigo.
— Não me importo de lidar com você, Lily — disse Ahmose com voz suave, então levantou a mão e deslizou os nós dos dedos por meu maxilar.
Pequenos arrepios dispararam por meus braços apesar da minha decisão de ficar com raiva dele. Ele pareceu sentir minha fraqueza e se curvou para me beijar de leve na têmpora.
— Preciso ficar de olho no caminho para que Cherty nos guie na direção certa. Quer ficar comigo na proa? Vou tentar manter os fantasmas afastados.
Eu queria. De verdade. A vontade que Ashleigh tinha de ficar perto dele me chegava em ondas de desejo tão pungentes que resistir a elas quase trouxe lágrimas aos meus olhos, mas de algum modo consegui. Balancei a cabeça.
— Prefiro ficar com Cherty, se você não se importa — falei, imaginando se isso significava que eu estava resignada a me aconchegar com aqueles mortos assustadores.
Ahmose olhou para o barqueiro e respirou fundo, com resignação.
— Tenha cuidado — alertou. — Cherty vai manter os mortos longe de você, mas há problemas à frente e quero você perto de mim quando eles chegarem. Promete ir para perto de mim nesse momento?
Fitei seus olhos de luar e assenti:
— Prometo.
Satisfeito, Ahmose voltou para a proa, passando pela numerosa horda de mortos como se nem os visse. Estremeci e encontrei um caixote para me sentar ao lado de Cherty. Parecia que Ahmose estava certo. Havia um círculo em volta do barqueiro que os fantasmas não atravessavam, por isso puxei meu caixote para o mais perto dele que pude e tentei ignorar as sensações arrepiantes de dedos invisíveis passando pelas minhas costas e deixando meu cabelo eriçado.
— Você está se metendo numa tremenda encrenca com esse aí — disse Cherty, estalando a língua. — A fada gosta do sujeito, você sabe. Acho que você não vai se livrar da influência dele até que ela vá embora. Eu posso livrá-la dos fantasmas delas, mocinha, se isso ajudar.
— Está tudo bem, Cherty — falei. — As garotas agora fazem parte de mim. Vamos nos manter juntas, as três, até o fim.
— E o que acontece depois do fim? — indagou Cherty.
— Não... não sabemos — respondi baixinho, depois dei um sorriso débil. — Provavelmente vamos terminar como fantasmas em seu navio. — Olhei meus companheiros de viagem ao redor e não consegui me imaginar perdendo meu corpo mortal. — Pode me falar sobre Apep agora? — perguntei, esperando que a distração me ajudasse a ignorar a sensação horripilante de estar cercada pelos mortos.
O velho barqueiro me olhou com olhos afiados, perspicazes, depois levantou de novo a cabeça, ajustando ligeiramente o curso em resposta a um sinal de Ahmose.
— A ilha — começou ele — é chamada de Ilha dos Perdidos por um motivo. Quando você vai naquela direção, ela se torna visível, chamando para lá. E que paisagem! É um lugar lindo, parece uma terra de utopia. Muito tranquilo. Mas o truque é que ela se esquiva. Quando você se aproxima, ela desaparece. Isso deixa os barqueiros loucos. Os que a veem a perseguem pelo resto de seus dias.
— Então você já viu?
— Já estive nas proximidades. Mas não foi planejado. Apep me impeliu para lá. É o lar dela, sabe?
— Você ficou louco quando a viu?
— Não. Fui esperto e pus uma venda nos olhos quando cheguei perto. Mas meus passageiros enlouqueceram. Os fantasmas não podem cobrir os olhos.
— O que aconteceu?
— Eles pularam. Absolutamente todos pularam do navio e nadaram para ela. Viraram presas fáceis para Apep. Eu fiquei com a venda até o barco chegar a águas mais calmas.
Engoli em seco.
— Então vamos precisar colocar vendas?
— Acho que sim.
— E todos esses fantasmas vão...
— Vão virar comida para o monstro.
Olhei os fantasmas ao redor, concentrando-me na menininha que estava sentada na borda do círculo de Cherty, me espiando com os olhos arregalados. De repente senti pena deles. Não pareciam mais assustadores. Não depois que eu soube que iam para um segundo tipo de fatalidade. Eram apenas sombras das pessoas que tinham sido. Em algum lugar, alguém chorava por eles. Eram pais, avós, médicos, crianças, professores. Alguns não eram totalmente humanos, mas imaginei que tivessem famílias também. Era horrível pensar que sua vida após a morte terminasse de modo tão medonho.
Então Tia me contou tudo sobre a segunda morte. Eu sabia o básico do que a Devoradora era capaz de fazer, mas, quando elas haviam me contado, na fazenda, eu estava tentando ignorá-las. Fingir que não era real. A ideia de que Asten, Ahmose e Amon podiam passar por essa segunda morte não me caía bem. Se nós morrêssemos, Tia e Ashleigh teriam uma segunda morte. Desapareceriam da existência. Talvez eu também. Eu não tinha certeza se seria assim, já que tecnicamente eu ainda estava viva. Pelo menos achava que estava.
Um grupo de fantasmas se agarrava aos mastros, os corpos balançando à brisa como bandeiras rasgadas. Seus rostos tinham várias expressões, mas a mais comum era de resignação. Um arrepio premonitório percorreu meu corpo, uma sensação tão inquietante quanto insetos se arrastando na pele.
Ahmose tinha dito que alguma coisa perigosa estava chegando. Ele sabia.
— Então Apep come os mortos? — perguntei.
— Ah, Apep come praticamente qualquer coisa. Nos últimos séculos ele ficou meio gordo e preguiçoso. Não precisa trabalhar tanto quanto na juventude.
— Sei. E o que, exatamente, ele é? — continuei, sem querer ouvir a resposta de verdade.
— Eu não disse? Achei que tinha dito.
Balancei a cabeça.
— Não.
— Ah, bom, Apep é uma cobra gigante. A cobra original. Alguns o chamam de diabo. Outros dizem que é um dragão. Mas eu o vi bem de perto. E ele é uma cobra, sem dúvida. Uma cobra especial, claro. Maior do que qualquer coisa que você já viu. Desliza pelo meio das estrelas. Faz do rio sua área de caça. Mas seu lar, seu ninho, é naquela ilha. Ele se sente atraído por ela. Só se aventura fora dela quando está com fome. O que acontece com bastante frequência.
— E Asten e Amon estão presos lá?
— É o que parece.
— Estão em segurança?
— Se eles estão numa oubliette, devem estar bem seguros. Apep vai deixá-los em paz desde que não possa vê-los nem sentir o cheiro deles.
— Não é de espantar que nada possa chegar até eles — falei. — Estão protegidos por uma cobra cósmica gigante.
— Eu não diria “protegidos”. Provavelmente ele não sabe que eles estão lá.


Mais tarde, depois de recusar a oferta de Cherty de jantar uma enguia preta que ele descreveu como um filhote de Apep, fui dormir. Então, aparentemente horas depois, o navio se sacudiu e acordei com um susto. Os murmúrios suaves dos fantasmas tinham se transformado num trinado frenético, como o zumbido agourento de asas de cigarras multiplicado por mil.
— O que há de errado? — gritei, saltando de pé.
Cherty fazia força puxando cordas e amarrando-as.
— Apep nos encontrou! — gritou ele. — Está pegando os fantasmas presos atrás de nós.
Olhei para trás, espiando a água na esteira do navio. Os fantasmas se debatiam, tentando desesperadamente se agarrar aos companheiros. Cherty apontou para um volume sob as ondas e eu vi uma ondulação gigantesca subir e descer embaixo d’água. Aquilo cintilava. As escamas eram lindas como um arco-íris. Quando olhei com mais atenção, vi que na verdade o corpo era preto, mas brilhava tanto que as estrelas se refletiam nele, tornando as escamas verdes, azuis e douradas.
Se eu não estivesse morrendo de medo, teria adorado ver o animal de perto. Observei uma ondulação do corpo depois da outra, mas não pude vislumbrar a cabeça. Puxei o arco das costas, ajustei uma flecha e apontei para um calombo que emergiu da água.
— Não adianta, mocinha— disse Cherty, pondo a mão no meu braço. — Suas flechas não vão funcionar com ele.
— Nem as de Ísis?
— Nem as dela.
— Então como lutamos contra ele?
— Não lutamos. O melhor que podemos esperar é que ele encha a barriga e vá para casa dormir.
— Então não podemos fazer nada para protegê-los?
— Não. Tente ignorar.
— Ignorar? — ecoei, incrédula. — Eles estão gritando lá atrás.
— É. Você também gritaria se estivesse sendo devorada por ele.
Os gritos dignos de pena dos fantasmas ressoavam acima da água.
Vislumbrei a cauda do bicho, mais grossa do que uma caminhonete. Se aquilo era o último vagão, eu odiaria ver a locomotiva. Tentei seguir as instruções de Cherty. Eu não tinha interesse nos fantasmas. Não havia obrigação de salvá-los, mas algo me dilacerava e eu sabia que precisava agir.
Primeiro Tia se juntou a mim, depois Ashleigh acrescentou seu poder ao nosso. Invocamos Wasret. Um grande vento surgiu à nossa volta e o poder percorreu minhas veias. Minha voz era um trovão quando tentei descobrir o verdadeiro nome da criatura e mandei vendavais uivantes para golpear a fera.
— Serpente Oca — gritei, mas nós três sabíamos que aquele não era o nome — venha a mim.
A agitação na água cessou e os seis calombos visíveis afundaram embaixo das ondas. Eu não sabia se tinha evocado o poder de Wasret com intensidade suficiente para usá-lo com eficácia. Era uma coisa da qual eu ainda sentia medo. Pensava que, se me entregasse cem por cento a ele, a ela, iria me perder. Por isso me contive. Todas nós fizemos isso. Nenhuma queria perder a identidade. Torcemos para que isso bastasse.
Nada aconteceu durante vários minutos, mas então as águas se abriram perto do barco e uma cabeça enorme subiu do Rio Cósmico e oscilou no ar acima de nós. Gotas pretas choveram sobre nossa cabeça. Inclinando o corpo, Apep me encarou com olhos de opala do tamanho de um caldeirão de bruxa.
Tola mortal, disse ele em minha mente. Os que perturbam meu jantar se tornam o meu jantar.

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