9 de março de 2018

11. Ó capitão! Meu capitão!

Giramos com a luz dourada numa velocidade estonteante, mas deixamos rapidamente essa luz para trás e me senti triste ao perdê-la. Ahmose me apertava com força e encostei o rosto em seu peito, fechando os olhos.
Quando finalmente diminuímos a velocidade, ele levantou meu queixo.
Pairávamos acima de uma praia escura. Uma pequena fogueira crepitava baixinho e vi os unicórnios montando guarda junto a dois corpos que dormiam ao lado do fogo.
Ahmose murmurou um encantamento e um dos corpos se alçou no ar. Era o meu. Um arrepio me percorreu enquanto eu me via naquela experiência extracorpórea. Minha cabeça estava abaixada e o cabelo pendia em volta do rosto em mechas úmidas e murchas. Quase sem pensar, meu eu do sonho foi se aproximando cada vez mais do meu corpo até que minha mão tocou um ombro e então havia somente... eu.
Abri os olhos e fui baixando lentamente até o chão, os pés nus afundando na areia preta e molhada. Fiquei surpresa ao ver que ainda usava o roupão fino que Amon tinha criado para mim, e não as roupas que meu corpo de verdade usava quando caí das costas de Nebu. Ahmose retornou rapidamente ao seu corpo e parou atrás de mim.
Tremendo, esfreguei os braços e me afastei dele para ver onde estávamos.
A paisagem noturna era linda. Uma fina lua crescente roçava a superfície do oceano com fagulhas prateadas. As ondas eram suaves e calmas e se quebravam nas pedras e nos troncos de árvores trazidos pela maré com um ruído suave que me deixava sonolenta. Eu estava cansada demais. Exausta no corpo e na mente.
Ahmose postou-se diante de mim, preenchendo meu campo de visão. Segurou meus ombros e perguntou:
— Você está bem? — Seu rosto estava tenso, com uma emoção que acentuava suas feições.
A cumplicidade que tínhamos compartilhado antes, a emoção que havia feito com que eu me sentisse feliz e livre como um espírito da floresta dançando no equinócio de outono, havia sumido. Eu sabia disso, e Ahmose também.
O sol tinha sido eclipsado pela lua durante um tempo. Agora que eu sabia que o sol estava lá, não podia mais ignorá-lo nem o calor que ele fornecia. Sem Ashleigh e Tia na mente, minhas emoções eram minhas. Eu tinha uma perspectiva nova e diversa. E, pelo que eu podia ver, parecia que Ahmose também.
Apesar de me segurar com gentileza, ele estava distante. Duro. Ahmose tinha se transformado num penhasco imponente, íngreme demais para eu sequer pensar em escalar. O calor de seu olhar havia se esvaído.
— Vou ficar bem — consegui dizer.
Seus olhos cinzentos revelavam muito, mas eu não conseguia interpretá-lo.
O ar estava cheio de tensão e comecei a retorcer as mãos na altura da cintura. Em seguida parei e comecei a brincar com a faixa do roupão, incapaz de manter o contato visual. O espaço entre nós estava cheio de lâminas e cada segundo que passávamos sem falar me cortava profundamente. Quando por fim ele falou, foi para chamar Ashleigh e Tia.
— Está na hora, senhoras — disse, dando-me as costas e olhando o espaço ao redor. — Sua hospedeira retornou.
Minha respiração ficou presa na garganta. Hospedeira? Era isso que eu era para ele? Só um corpo que abrigava a garota que ele amava de verdade? Como podia ser tão cruel? Isso não parecia coisa dele. Pelo menos eu achava que não. Mas até que ponto eu o conhecia de verdade?
Ahmose devia estar com raiva. Principalmente porque tinha visto Tia com Asten, assim como Amon e eu. Qualquer homem ficaria chateado com isso. Mas eu não tinha direito de estar chateada também? Ele sabia que vê-lo com Ashleigh havia me magoado. Até admitiu isso para ela no sonho. Achei que tinha havido alguma coisa especial entre nós. O nós que era Ahmose e Lily. Uma coisa nova e preciosa. Eu havia contado com ele. Precisara dele.
Acreditara que estava começando a... começando a amá-lo.
Por um momento eu estava sozinha, se não com alegria, pelo menos em paz. No instante seguinte minhas duas vozes interiores voltaram. De súbito minha mente pareceu apinhada demais, os pensamentos confusos. De algum modo consegui me esticar para acomodar as duas garotas e depois me senti melhor por ter feito isso. Fiquei surpresa ao descobrir que tinha sentido falta delas.
Ah, Lily, disse Ashleigh, com um toque de pesar na voz. Eu sinto muito.
Eu também, respondi.
Tenho certeza de que esse garoto bobo não quis falar daquele jeito, comentou ela.
Tia não disse nada, mas logo um rom-rom relaxante ressoou no espaço onde ela estava confortavelmente enroscada.
Era como ter duas melhores amigas vindo me consolar depois de uma experiência devastadora. Enquanto eu sofria na mente e no coração, as duas lamentavam junto comigo. Lágrimas escorreram pelos meus olhos quando pensei no que tinha perdido. No que nós tínhamos perdido — pois todas nós tínhamos perdido alguma coisa.
Então nos afastamos de Ahmose, deixando-o para trás com seus olhos cinzentos penetrantes, e fomos andando pela praia. Nebu veio atrás, em silêncio. Todo mundo parecia sentir que precisávamos de um tempo para nos reajustar. Para reaprender quais partes da nossa experiência pertenciam a nós como indivíduos e quais nós compartilhávamos.
A areia molhada grudava em meus pés. Cada passo deixava uma pegada com pelo menos 2 centímetros de profundidade. A água que lambia os dedos dos meus pés era morna e reconfortante. Tive a sensação de que era uma rocha porosa e que cada passagem da água me preenchia. Quando a onda recuava, eu me sentia de novo vazia, descorada e ressecada. A verdade havia aberto buracos em mim, de dentro para fora, e eu não sabia se podia consertá-los.
Quando estávamos suficientemente longe, nós três nos fundimos e usamos o poder para fazer roupas novas. A areia subiu e girou ao meu redor, golpeando minha pele quase tão dolorosamente quanto as palavras de Ahmose tinham golpeado meu coração. Fiquei surpresa quando olhei para baixo depois e me vi usando uma camisa de flanela confortável e quente sobre uma camiseta macia e jeans por dentro de botas robustas mas elegantes.
— Obrigada, garotas — murmurei, depois me virei para retornar ao pequeno acampamento de Ahmose.
Dei um tapinha nas costas de Nebu e caminhei junto dele enquanto voltávamos. Quando cheguei, estava tão cansada em espírito que tinha a sensação de que nenhuma conversa consertaria o que estava errado. Deitei-me numa capa e apoiei a cabeça no braço.
— Gostaria de dormir um pouco, Ahmose. Você também deveria dormir.
Ele se sentou do outro lado da fogueira e respondeu:
— Pode dormir. Eu tenho dormido um bocado ultimamente.
Quando fechei os olhos, apaguei rapidamente, mas sonhei que escutava a voz de Ashleigh. Ela estava dando bronca em alguém. Percebi que não gostaria de ser o alvo de sua fúria e senti pena de quem a tinha irritado. Por fim, nem mesmo seus gritos conseguiram afastar meu sono e o mundo escureceu.
Acordei ao som das ondas e das aves marinhas. Meu corpo estava rígido e as juntas, doloridas. Sentei-me com um gemido e encontrei uma vara para revirar as brasas da fogueira, mas não tinha como fazê-la acender de novo. Ahmose não estava ali, Nebu também não, mas Zahra continuava perto.
— Onde estão os outros? — perguntei.
Estão providenciando o desjejum, respondeu o unicórnio.
Ahmose não demorou a retornar e pôs vários peixes numa pedra, depois se ajoelhou e acendeu o fogo de novo. Olhou para mim brevemente, mas logo desviou o olhar, com os lábios franzidos, como se quisesse falar mas não conseguisse encontrar as palavras certas. Observei-o abertamente enquanto ele limpava os peixes e os cozinhava. Uma ave marinha ali perto ficou feliz em pegar as vísceras e guinchou, empolgada, enquanto espiava Ahmose com os olhos de contas pretas.
Quando a refeição ficou pronta, ele me deu minha parte e depois se sentou e ficou remexendo na dele, sem comer. Mastiguei alguns pedaços, mas a comida se prendia no fundo da garganta, como se minha língua tivesse inchado demais para permitir que eu engolisse. Por fim, deixei-a de lado e cutuquei o pé dele com minha bota.
— Diga logo, Ahmose. Estou vendo que você quer falar.
Um arrepio de nervosismo percorreu minha pele quando ele me olhou. Meus olhos pareciam quentes e feridos. Ele tornou a voltar a atenção para seu peixe.
— Não sei o que você quer que eu diga, Lily.
— Diga que está desapontado comigo. Que era tudo mentira. Que você nunca me amou. Que nossos caminhos não se fundem como você pensou. Qualquer coisa assim. Todas essas coisas. Mas... diga.
Dobrei os joelhos e abracei as pernas. Apesar de Ahmose ainda não ter dito nada, eu tinha a sensação de que ele havia me dado um soco na barriga.
Pensei na maneira como Ahmose tinha beijado Ashleigh. Os dois cercados por trevos, o zumbido das abelhas preguiçosas e a brisa com cheiro de flor de maçã. O modo como os olhos dele se franziam e as bochechas se arredondavam em pequenas luas quando olhava para ela. A maneira como Ashleigh adorou sentir os lábios dele na pele e a respiração quente fazendo cócegas em seu pescoço nu.
Ahmose franziu a testa.
— Não posso falar nada disso, Lily.
— Por quê? — perguntei, a raiva tingindo as bordas das palavras.
— Porque nenhuma dessas coisas é verdade. Meus sentimentos não são mentira. Eu amo você, sim. Nossos caminhos se cruzam. Eu vi. — Quando lhe lancei um olhar de dúvida, ele acrescentou: — Por que não pergunta o que quer de fato saber?
Do que ele estava falando? Será que queria que eu o acusasse abertamente de amar Ashleigh mais do que a mim? Isso tinha importância? Para Ashleigh, tinha. Ela estava silenciosa, mas eu podia sentir sua tristeza, sua resignação e sua preocupação com meus sentimentos. Ao mesmo tempo, o amor que ela sentia por Ahmose era uma coisa palpável que alterava minha percepção, independentemente de eu querer ou não. Esses sentimentos cresciam ao meu redor e eu reagia a eles. Queria que Ahmose me tomasse nos braços, que ele me confortasse e acariciasse meus cabelos. Mas eu também era eu mesma. Seu afeto por Ashleigh não era a coisa que mais atormentava minha mente.
— Por que não me falou sobre ele? — perguntei por fim em voz baixa.
Ahmose assentiu rigidamente, indicando que essa era a pergunta que ele vinha esperando, mas seus lábios estavam contraídos, como se ele não quisesse responder.
Continuei pressionando:
— Você sabia que eu tinha perdido a memória com relação a ele. Você se aproveitou disso.
— Sim — disse ele simplesmente. — Isso não quer dizer que o que eu vi e o que sinto são errados.
— Então por que parece errado para mim? — murmurei. — Na verdade, tudo nesta situação parece errado.
— Não diga isso.
— Por quê? Magoa você? Que bom. Fico feliz que magoe você, porque você me magoou. Eu fui testemunha do sonho de Ashleigh e sua ligação com ela é óbvia.
— Isso não quer dizer que eu não sinta nada por você.
Levantei-me e fui até a beira d’água.
— Não é a mesma coisa. Nem de longe — falei, a voz erguendo-se acima do ruído do oceano.
Ahmose aproximou-se por trás e passou os braços em volta dos meus. Sua boca roçou minha orelha e percebi que ainda queria que ele me amasse, que me beijasse e abraçasse como antes.
— Eu respeito você — murmurou ele. — E a admiro. Seu rosto, seu corpo são lindos para mim. Quero manter você perto e protegê-la do mal, cuidar de você pelo resto dos meus dias. Poderíamos ser felizes juntos, Lily. Tranquilos e contentes. Isso não basta?
Girei e ele então envolveu minha cintura com as mãos, tentando me puxar para um abraço, mas eu pressionei a palma das mãos contra seu peito, mantendo-nos separados.
— Uma parte de mim gostaria que isso bastasse — falei com tristeza. — Mas talvez isso não tenha importância.
Dei um sorriso pesaroso. A ânsia de chegar mais perto, de me perder em seus beijos, era intensa. Ashleigh não era a única que desejava isso, mas alguma coisa havia mudado para mim, para todos nós, no mundo dos sonhos. Não sabíamos o que o futuro iria trazer, mas, mesmo que houvesse um final feliz para uma de nós, isso significaria um final frustrante para as outras duas. Nenhuma de nós queria pensar nisso agora.
— Acho que seria melhor se puséssemos nossos sentimentos de lado por enquanto e nos concentrássemos na tarefa em questão — falei.
— Se é isso que você quer... — disse Ahmose com formalidade, e afastou-se lentamente, as costas rígidas.
Você o magoou, disse Ashleigh. Precisava ser tão dura? Ele é do tipo sensível.
Ele me magoou primeiro, respondi. Além disso, que diferença isso faz agora? Nós temos um trabalho a fazer, e já vivemos dramas suficientes com relação a homens. Deveríamos estar nos concentrando em Seth.
Concordo, disse Tia. Não faz sentido ficar desejando coisas. Elas vão acontecer ou não. As chances são de que Wasret escolha nosso parceiro e que não tenhamos direito a opinar.
Wasret. Maravilhoso. Eu tinha quase esquecido. Compartilhei rapidamente com elas as coisas que tinha visto no sonho com Amon e as duas ficaram chocadas com a infiltração da Devoradora. Quando mencionei isso a Ahmose, ele assentiu e disse que Asten havia contado a ele. O fato de Wasret ter recuperado poder suficiente para assumir o controle daquele modo não era um bom augúrio para nós.
— Há mais notícias ruins, infelizmente — disse Ahmose. — Examinei nosso caminho e a rota mais curta até meus irmãos é ao longo do Rio Cósmico. Os unicórnios não se dão bem por lá. O voo é longo demais. Eles se cansam e não há lugar seguro para descansarem.
— Então o que podemos fazer? Como vamos chegar aos seus irmãos?
Por que não invocamos Cherty?, sugeriu Tia.
— Cherty? Quem é Cherty? — perguntei em voz alta.
Ahmose levantou a cabeça com uma fagulha de interesse nos olhos.
— Você acha que ele nos levaria? — perguntou, coçando o queixo. — Parece que ele gostou de vocês.
É claro que ele gostou de nós, disse Tia. Podemos invocá-lo com a moeda que ele nos deu.
— Que moeda?
A que Hassan escondeu na aljava. Está ao lado do escaravelho do coração de Amon.
Meu coração parou por um momento ao ouvir essas palavras. Sem explicar meus atos a Ahmose, fui até a fogueira e encontrei o arnês de couro com as facas-lanças ainda embainhadas e a aljava com as flechas e o arco. Enfiei a mão no fundo da aljava, envolvi o escaravelho do coração com a mão e o tirei dali.
Fiquei olhando aquele objeto por um longo tempo. Meus dedos o apertaram e, quando ergui os olhos, encontrei Ahmose me observando. Mantendo-o apertado na palma da mão, continuei procurando e encontrei uma moeda com a imagem de um pássaro. Entreguei-a a Ahmose. Quando ele não estava olhando, enfiei o escaravelho do coração de Amon no bolso do jeans.
— O pássaro Benu — disse ele com reverência enquanto virava a moeda na palma da mão e passava os dedos pelo outro lado. Mostrou-me a imagem de um barco e um homem encurvado sobre uma vara. — Nunca tinha visto uma destas, mas ouvi histórias sobre elas. A moeda tem dois lados. Isso significa que vocês têm a proteção do pássaro Benu e do barqueiro. Sabe como isso é raro?
Dei de ombros. Nós vimos o pássaro em Heliópolis, explicou Tia. Essa moeda é parecida com a que o pássaro usou para pagar nossa primeira viagem. Na verdade, pode até ser a mesma.
Quando repassei a mensagem dela a Ahmose, ele nos olhou boquiaberto.
— Vocês viram o pássaro? Ele pagou a sua viagem?
— Sim. Pelo menos Tia diz que sim.
Ahmose nos encarou, o olhar quase me atravessando, como se procurasse respostas que eu não podia dar.
— Isso vai funcionar? Podemos chamar esse tal de Cherty com a moeda? — perguntei.
— Ah, sim — respondeu ele. — Acho que vai funcionar muito bem. — Pôs a moeda na minha mão e chamou: — Venha comigo.
Acompanhei-o até a beira d’água e ele me disse o que fazer. Levando o braço às costas, gritei em voz alta:
— Barqueiro! Com esta moeda eu reivindico passagem! — Lancei o braço à frente, atirando a moeda o mais longe possível na água.
Ao sol da manhã, vi o lampejo de ouro enquanto ela girava no ar e, quando caiu na água, um facho de luz disparou para o céu, desaparecendo lá em cima.
— O que acontece agora? — perguntei.
— Ele virá até nós, se puder.
— Por que não poderia?
— Cherty deve estar ocupado transportando os mortos, especialmente num tempo de guerra como este em que estamos.
— Mas Maat não disse que o além foi invadido? Para onde ele está levando os mortos, então?
— Não sei. É possível que ainda os esteja levando para lá. Deixando-os lá para que se virem até que a ordem retorne. Isso acontece ocasionalmente quando nós estamos no reino mortal. Os mortos esperam nossa chegada. Em geral há grandes grupos para serem levados ao julgamento depois de nossas duas semanas na Terra. Alguns se desgarram, mas acabam devorados pelas várias feras que impedem os mortos de ir embora. Não há um modo seguro de escapar do além. A não ser que você seja um deus. Eles podem ir e vir quanto quiserem.
— Ah... e, hã, vocês têm licença de ir e vir como os deuses?
Ahmose me olhou.
— Não. Devemos permanecer no além até sermos chamados aos nossos corpos para cumprir o nosso propósito. Se bem que, agora que Seth está livre, não há mais motivo para nos conceder uma estadia no reino mortal.
— Então você está dizendo que, quando tudo isso tiver acabado, presumindo que a gente sobreviva, você, Asten e Amon vão... vão terminar no além, permanecendo... mortos? — Tentei engolir o nó que se formou de repente no fundo da minha garganta, mas isso não ajudou.
— É o resultado provável.
Vocês sabiam disso?, perguntei, acusadora, a Ashleigh e Tia.
Sabíamos, respondeu Tia.
Então... então de que adianta Ashleigh amar Ahmose ou você amar Asten? Que diferença faz quando não há maneira de ficarem juntos? Nem ao menos para uma de nós?, perguntei a elas.
Ashleigh respondeu: Ah, querida, é por isso que esses raros momentos roubados são preciosos.
Cruzei os braços.
— Bom, eu não aceito isso — falei em voz alta.
— Não aceita o quê? — perguntou Ahmose.
— Tem de haver algum benefício. — Sacudi os braços, num gesto louco. — Algum tipo de recompensa por salvar o Cosmo. Certo? Não é assim que as coisas devem funcionar? Você disse que nos viu juntos. Quando? Onde? Em Nova York? No além? Onde você viu nosso final feliz? Nós estávamos vivos ou mortos?
— Eu disse que o final estava oculto para mim. Não conheço o onde nem o quando. Só sei das emoções que senti. Tudo o que vi foram momentos de felicidade. De contentamento. De amor. Esses são os vislumbres que me foram concedidos.
— E seus vislumbres incluem a mim, Ashleigh ou Tia? Qual de nós vai ficar com você?
— Eu vi as três.
— Certo. Bom, isso é conveniente, não é?
— Você está com raiva.
— Claro que estou. Já é bastante ruim que eu tenha de sacrificar minha identidade e me tornar essa tal Wasret para poder salvar o Cosmo. Eu estava começando a descobrir quem Lilliana Young ia ser. Escolher uma faculdade parece bem idiota agora, não é? E aqui estava eu, preocupada em saber por qual cara poderia estar apaixonada, quando na verdade isso não importa nem um pouco. Vocês todos estão mortos. Não há como ter uma vida com qualquer um de vocês. Então, sabe de uma coisa? — Cutuquei seu peito com o dedo. — Por que você não guarda essas suas visões para si mesmo? E, já que estamos falando sobre isso, por que não deixa Ashleigh em paz também? Nenhuma de nós precisa nutrir esperanças de ter algo com alguém num futuro que não existe.
Meu queixo tremia enquanto eu o encarava com olhos gelados. Queria que ele me dissesse que eu estava errada. Que tudo daria certo e que eu teria um final feliz. Que pelo menos uma de nós sobreviveria e teria uma vida boa.
Em vez disso, meu corpo trêmulo queimava com uma angústia interior. Ele tocou meu rosto de leve e disse:
— Se é isso que você quer, Lily, farei o que pede.
Antes que as lágrimas que tinham surgido nos meus olhos tivessem chance de se derramar, dei meia-volta e retornei para a fogueira, pisando firme, obstinadamente puxando o arnês de couro, o arco e a aljava. Não quero ouvir, alertei Ashleigh e Tia antes que elas dissessem qualquer coisa.
Zahra me cutucou com a cabeça e passei os dedos pela sua crina, soltando os emaranhados e alisando os fios por cima do pelo brilhante. Meus pensamentos pareciam tão embolados quanto a crina. Ouvi Ahmose gritar:
— Ele está se aproximando!
Virei-me para olhar por cima do ombro, com uma das mãos ainda no unicórnio. Protegi os olhos e espiei por cima da água.
— Não estou vendo nada! — gritei de volta.
— Ele não está lá — disse Ahmose, indicando o oceano enquanto eu ia na sua direção. — Está lá! — concluiu, apontando para o céu.
Um grande objeto escuro surgiu numa camada de nuvens. Só dava para ver algumas partes enquanto a coisa ia baixando. Não sei direito o que eu esperava, mas não era um barco voador. Ele desceu fazendo círculos, até que por fim alcançou o oceano espirrando água ruidosamente. Estava muito longe. Teríamos de nadar até ele.
Ahmose se virou para os unicórnios.
— Obrigado. Vocês se arriscaram muito para nos ajudar.
Zahra encostou o focinho no braço dele e eu abracei seu pescoço sedoso.
— Cuide-se — sussurrei em sua orelha, que se contraía.
Ela relinchou em resposta, depois girou e galopou rapidamente pela praia. Quando seu corpo bateu numa onda, dissolveu-se em areia e desapareceu.
Quando me virei para Nebu, ele disse: Monte nas minhas costas, jovem esfinge. Vou levá-la ao barco.
— E Ahmose?
Ele pode chegar lá sozinho.
Ahmose me ajudou e, assim que montei, Nebu desdobrou as grandes asas e correu pela areia, batendo-as até que elas captaram o vento. Olhei para Ahmose e arquejei ao vê-lo se transformar num lindo pássaro prateado, a maior criatura alada que eu já vira, depois de Nebu. Nós sabíamos que ele era capaz de fazer isso?, perguntei, olhando-o voar.
Uma vez você me disse que eles tinham esse poder, afirmou Tia, mas que não tinham acesso a ele no mundo dos mortos.
Ele... ele é lindo, falei. E era mesmo. Ahmose em sua forma de pássaro era uma visão digna de ser contemplada. O sol cintilava nas asas brilhantes e prateadas. Ele se aproximou e voou ao nosso lado, as longas pernas estendidas para trás e o pescoço esticado à frente. Ahmose inclinou a cabeça, me olhando com uma expressão que eu não entendia. Quando se aproximou do barco, ele bateu asas várias vezes para reduzir a velocidade e então voltou à forma humana, caindo com leveza no convés.
Nebu girou em volta do barco, sem diminuir a velocidade como eu esperava.
Quero me despedir, disse ele.
Obrigada, respondi. Obrigada por tudo.
Não fiz grande coisa.
Mesmo assim, não teríamos chegado tão longe sem você. Você é muito corajoso.
Não sou, não. Não quando se trata de arriscar os meus.
Senti o olhar de Ahmose em mim, mas Nebu continuou girando acima do barco.
O que foi?, perguntei ao unicórnio.
Se pudesse, eu gostaria de dar um conselho e um alerta antes de ir embora.
Pode dizer, consenti.
Então meu alerta é para Ashleigh. Tenha cuidado, jovem fada. Não deixe que um novo amor a afaste do que é melhor para todas vocês. Lily poderia ter lutado contra o ferrão do peixe alado se você não tivesse exaurido o corpo dela a cada noite. Ela caiu e prendeu todas vocês no mundo dos sonhos porque você a estava usando, de modo egoísta, para alimentar seus desejos.
Ressentida com a repreensão, Ashleigh recuou para um canto da minha mente e toldou seus pensamentos para nós.
Vamos conversar sobre isso mais tarde, eu disse gentilmente a ela. E qual é o seu conselho?, perguntei a Nebu.
Não acabe com a esperança delas. Você está magoada e com medo do futuro. Entendo isso, mas lembre-se de que, sem você, elas não têm nada. Pense nisso.
Como posso ter esperança quando não posso convencer nem um unicórnio poderoso como você a se juntar à nossa causa?, perguntei.
Talvez, quando você perguntar de novo, eu esteja pronto para ficar ao lado de vocês e permanecer lá.
Vou querer que você prove o que está falando, alertei.
Espero que sim. Boa sorte, jovem esfinge. E adeus. Por enquanto.
— Adeus — falei enquanto ele descia na direção do barco.
Ergui a perna e avaliei a distância. Quando achei que estava preparada, escorreguei das costas do unicórnio e pousei com a leveza de um gato no convés. Nebu relinchou alto, dobrou as asas e mergulhou no oceano. Corri para a amurada do barco, mas o único sinal do unicórnio era uma camada de areia brilhante, que afundou lentamente entre as ondas.
Virando-me, deparei com Ahmose discutindo veementemente com o capitão, que presumi fosse o barqueiro. Manchas de um vermelho raivoso tinham brotado no pescoço do sujeito. Seu rosto era ao mesmo tempo curtido pelo mar e atemporal, os olhos tão inescrutáveis quanto as profundezas abaixo.
— Estou dizendo! — gritou o homem. — Vocês não podem viajar por esse caminho, Desbravador. Não é seguro. Apep vai engolir a garota antes que você possa piscar!
— E eu estou dizendo que nós vamos por aquele caminho. Se Apep nos encontrar, que seja. Vamos lutar juntos contra ela.
— Você só diz isso porque nunca viu a fera. Se tivesse visto, saberia que não dá para lutar contra ela. Só dá para evitar. Qualquer outra coisa só mostra que seu lugar não é o rio, para começo de conversa.
Ahmose apenas cruzou os braços e encarou o sujeito de cima para baixo. O capitão levantou as mãos com um resmungo frustrado e se virou, como se esperasse que Ahmose sumisse quando não estivesse mais sendo visto.
O homem fixou o olhar em mim, as sobrancelhas fartas erguidas e um grande sorriso no rosto.
— Olá, mocinha. Que bom ver você ainda inteira. Por assim dizer.

3 comentários:

  1. Ahmose ta MUITO estraho... Ama a Ash, mas quer ficar com a Lily?????????? Como assim??????
    Eu espero que tenha alguma coisa errada com ele (magicamente falando), pq esse não é o comportamento habitual dele, a não ser que a autora tenha distorcido o personagem :(

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    1. não tem nada de errado ,acho que é porque todas estão apaixonada pelos irmãos e frustradas por não poder amar que quiser pois estão em um mesmo corpo.

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  2. eu acho que no final talvez a lily se sacrifique para que todas possam ficar com seus amores

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Boa leitura, E SEM SPOILER!