9 de março de 2018

10. Lá vem o sol

A rua onde eu estava me era tão familiar quanto meu quarto. Eu conhecia cada loja, cada prédio, até os nomes dos cavalos que puxavam as carroças do outro lado da rua, no Central Park. Mas a cidade vibrante que eu chamava de lar estava vazia. Os enormes edifícios que se estendiam para o céu oscilavam ligeiramente e me olhavam com suas janelas escuras.
Pela primeira vez nessa nova segunda vida que eu experimentava, desde que tinha acordado na fazenda de vovó, eu estava sozinha. Ashleigh tinha ido embora. Tia também. Estremeci e esfreguei as mãos nos braços quando um vento invernal soprou na cidade sombria. Eu me perguntei por que minha paisagem de sonho em particular seria tão horrível, tão lúgubre, tão sem vida.
Os sonhos de Tia e Ashleigh tinham feito sentido. Eram vazios de pessoas também, mas eram pacíficos. Essa paisagem não era nem um pouco pacífica. Na verdade, era tremendamente assustadora, até mesmo apocalíptica.
Enquanto eu percorria o quarteirão procurando alguém, qualquer pessoa, notei a neve cinza amontoada nas laterais dos prédios. Ela se agarrava às sombras como se temesse que o sol significasse a sua morte. Com neve no chão, eu esperaria que a cidade parecesse feliz e esperançosa como acontecia na época do Dia de Ação de Graças, do Natal e do Ano-novo. Mas, se o Natal estava chegando, não havia sinal disso. Nenhuma luz enfeitava as vitrines. Não havia nenhum dos habituais mostruários de presentes, brilhos e guirlandas. Na verdade, as lojas cujas mercadorias estavam expostas pareciam não receber clientes havia mais de uma década. A poeira cobria tudo.
Quando testei a porta do hotel luxuoso onde eu morava, descobri que estava trancada. Toquei a campainha repetidamente, mas ninguém atendeu. Suspirei, enevoando a vidraça, e olhei meu reflexo no vidro sujo. A imagem da garota refletida ali era familiar. Era a que mamãe havia moldado, uma jovem meticulosa e perfeita em todos os sentidos possíveis. Meus cabelos castanhos e compridos pendiam lisos e lustrosos, tão domados que mal se mexiam ao vento. Minha postura era ereta e segura, como a do meu pai. Minhas roupas eram de grife — calças de alfaiataria, um cinto de couro fino, camisa de seda com botões na frente — até as sandálias de salto alto de onde os dedos com unhas pintadas com perfeição se projetavam. Apesar de estar vestida como eu mesma, não estava vestida de acordo com o clima.
Meus pobres dedos dos pés estavam ficando azuis de frio. Mudando de posição, desconfortável, bati os pés, em parte por frustração e em parte para trazer um pouco de sensação a eles. Soprei no meu reflexo.
A confiante e inabalável socialite de Nova York em vias de se tornar conhecida estava nesse sonho. A pessoa que todo mundo esperava que eu fosse. O tipo de garota que pertenceria a essa cidade. Uma jovem petulante, privilegiada, pronta para ir para a faculdade e começar a viver.
Mas nada que eu sentia se encaixava nesse molde. O fino verniz que cobria meu exterior escondia algo muito diferente por dentro; franzi a testa para a garota que me olhava da vidraça e decidi que era hora de ir em frente e deixá-la para trás.
Pensando em tentar o quarteirão seguinte, fui andando rapidamente pela paisagem vazia e cheguei a uma banca de jornais abandonada, equilibrada de modo precário com uma das rodas sobre o meio-fio. Ela oscilava na brisa como se um bêbado tivesse jogado todo o seu conteúdo na rua. O lixo cobria a pista e a calçada.
Jornais e um toldo rasgado se grudavam nas laterais como se cobrissem a banca para protegê-la de mais danos, enquanto anúncios e pedaços de lixo se encontravam presos embaixo dela. A rua oscilou feito louca, tentando desesperadamente escapar. Peguei uma folha de jornal rasgada pelo vento e olhei a data. No lugar onde ela deveria estar, o jornal mostrava-se curiosamente em branco. As palavras nos artigos eram simples amontoados de letras e símbolos que não faziam sentido.
Será que eu estava ficando louca? Poderia ter inventado tudo o que estava na minha mente? Egito? Múmias? Meus poderes?
A ideia de que eu não estava numa paisagem de sonho, afinal, e sim em alguma instituição mental, enlouquecendo cada vez mais, não bateu bem.
Joguei o jornal fora e continuei andando, passando por carrocinhas de cachorro-quente com salsichas derramadas na calçada, a carne fria e cinzenta como tripas, e uma feira cheia de frutas e verduras podres. Uma loja vazia depois da outra.
Cada quarteirão parecia fantasmagoricamente semelhante ao anterior. Sem pessoas. Não existiam nem mesmo carros vazios. Os prédios grandes e desocupados pareciam assombrados. Enquanto o vento passava assobiando por eles, imaginei que cada cortina ou persiana balançando escondia alguma coisa maligna.
O lixo se empilhava em grandes montes, os sacos rasgados com o conteúdo espalhado por toda parte, como se uma matilha de cachorros selvagens os tivesse atacado. E mais estranha do que qualquer outra coisa era a ausência dos sons de Nova York. A única coisa que se movia na minha cidade de pesadelo era o lixo espalhado. Ele rolava e ia de um lugar para outro, como se também quisesse escapar.
Pensando que o parque poderia ser um porto seguro, ou pelo menos uma mudança de cenário, atravessei a rua e entrei ali. A princípio me senti mais segura. O parque parecia limpo. Deveria ser tranquilo, de modo que o fato de não haver ninguém por perto não fazia meus nervos formigarem tanto quanto na cidade.
A neve cobria o chão e a vegetação, mas os caminhos estavam livres. Fui por um deles e penetrei mais fundo no parque até que o calçamento terminou abruptamente. Uma grande rachadura o atravessava e a neve cobria o chão à frente dela. Das profundezas da rachadura saía vapor. Só demorei um momento para decidir que não queria investigar mais. Vi outro caminho e atravessei pela neve, os pés queimando de frio, até que pisei nele e imediatamente me senti melhor de novo.
Quando, depois de algumas dezenas de passos, esse caminho terminou num bloco de cimento meio desmoronado, parei e olhei em volta. Até onde a vista alcançava havia caminhos. Eram irregulares e quebrados, e alguns estavam... mudando. Quando se conectavam, mantinham a forma por um breve tempo e depois, se eu prestasse atenção, ouvia um gemido e um estalo, enquanto se moviam e se acomodavam em um novo lugar.
De repente percebi que estava de novo na rua. De algum modo o caminho tinha me levado para o lugar onde eu havia começado. Era como estar presa numa pintura de Escher. Se antes eu não tinha ficado apavorada, definitivamente estava agora.
Dei meia-volta e comecei a correr, pulando por cima de uma rachadura depois de outra, seguindo pelo labirinto de calçadas e sabendo que precisava continuar, independentemente de qualquer coisa. Alguém estava brincando comigo. Sentia olhares fixos em mim, não importando para onde me virasse. Sombras espreitavam por trás das árvores, mas, quando eu olhava diretamente para elas, não conseguia ver nada.
Minha respiração arfava nos pulmões. Eu estava congelada e exausta. Lágrimas enchiam meus olhos e eu me agachei, envolvendo os joelhos com os braços, quando cheguei ao fim de outro caminho. Como poderia ir em frente se nem sabia para onde ia? Eu era como uma ponte construída sem fundações. Bastaria um terremoto minúsculo e eu tombaria, carregando tudo para dentro do rio.
Então ouvi o riso de uma mulher. Não era um som agradável. Não havia nada de quente ou doce, de canela ou açúcar, naquela voz. Era fria e cheia de rancor, atrevida e plena de um ódio feroz, envolto numa lisa cobertura de chocolate escuro. E sabe o que era pior? Eu a reconheci, e o som provocou um tremor no meu corpo que eu não conseguia controlar.
Eu não sabia seu nome nem tinha certeza de onde a havia encontrado antes, mas sabia que ela representava tudo o que eu odiava. Ela é que pertencia a um lugar como esse. Ele combinava perfeitamente com ela. Senti o aperto de uma mão gelada no ombro, ouvi o estalo de unhas compridas batendo num vidro e o som de sapatos de salto alto golpeando a calçada coberta de gelo. Quando me levantei abruptamente e me virei, não vi nada.
Eu teria gritado se achasse que haveria alguém para escutar.
Tentei invocar meu poder, mas nada aconteceu.
Então escutei a voz: Corra, jovem Lily. Corra até o centro do parque. Você pode me encontrar lá. A voz era calorosa e familiar, diferente da voz da mulher. Confiei nela.
E corri.
Quando o caminho se partiu e se moveu embaixo de mim, tropecei e caí, ralando as mãos e os joelhos. Os ferimentos doíam, mas me levantei e continuei correndo. As árvores despidas à minha volta mudavam de posição, bloqueando o caminho, e centenas de pássaros escuros saltaram para o céu.
Eu não os tinha visto nas árvores antes. Eles circularam no ar e vieram na minha direção, me perseguindo como se eu fosse um espantalho inimigo de quem eles quisessem se vingar.
Continuei correndo entre as árvores apesar de os galhos agarrarem meus cabelos e minhas roupas. A camisa se soltou da calça e esvoaçava atrás de mim enquanto eu corria. Logo os caminhos partidos desapareceram completamente e as árvores foram arrancadas do chão. Elas se rasgavam ao meio antes de sumir da paisagem em buracos negros no céu, que se abriam para engoli-las. Eu me encolhi esperando que o monstro devorador de árvores tentasse provar minha carne.
Não demorou para que os arranha-céus cinzentos também fossem sumindo, como se cobertos por uma névoa densa. Agora todas as árvores tinham desaparecido. Com o campo coberto de neve interrompido somente por pinhas e galhos arrancados que se espalhavam no chão como ossos, com o vento guinchando ao redor deles, eu soube que minha paisagem de sonho havia se transformado em meu pior pesadelo. Continuei correndo, com a luz da uma lua fina me perseguindo por trás de um véu de nuvens até se pôr completamente.
Quando a lua desapareceu, o horizonte ficou escuro e agourento. Uma chuva gelada misturada com neve começou a cair, me atingindo como agulhas afiadas. Tossi e enxuguei as gotas geladas do rosto. Joguei para trás o cabelo encharcado. Minhas pernas ardiam e a respiração formava nuvens no ar à minha frente enquanto eu corria e escorregava. Não dava mais para sentir os pés, o nariz, as orelhas nem os dedos, mas eu sentia as batidas fortes do coração no peito.
Nunca tinha me sentido tão aterrorizada. Meu coração estava num aperto tão grande que arquejei e levei as mãos ao peito. A risada da mulher retornou.
Uma claridade verde tomou conta da minha visão, eclipsando a luz de antes do alvorecer que se refletia no chão coberto de neve, e a respiração foi roubada do meu corpo. Lutei, mas não conseguia me soltar da fera invisível que me mantinha no mesmo lugar.
Então uma luz rasgou a tempestade e o aperto no meu coração desapareceu. Um único raio de sol pousou em mim e num templo dourado que tinha aparecido de repente na paisagem branca. A luz mostrava um caminho que levava diretamente à porta do templo. Que eu soubesse, não existia um templo assim no meio do Central Park, mas ainda assim fiquei agradecida por ver alguma coisa, qualquer coisa, que me oferecesse abrigo da tempestade e proteção contra o demônio que queria me consumir. Com toda a energia que me restava, fui na direção dele.
Quando me aproximei, a porta dupla dourada se abriu subitamente e, assim que entrei, ela se fechou com um estrondo. A tempestade lá fora foi silenciada de imediato. Dobrando o corpo, ofeguei e passei a mão trêmula no rosto, tirando a chuva dos olhos. Quando recuperei o fôlego, avancei pelo amplo salão, deixando pegadas de neve e lama. Fiquei maravilhada com os relevos belíssimos nas paredes de mármore. Mostravam pirâmides e deuses, batalhas, monstros e guerreiros.
Cheguei a outra porta dupla, esta com um relevo dourado do sol. Depois de passar os dedos sobre ele, empurrei a porta e entrei numa sala com teto abobadado e arcos entre colunas. Um tablado com uma estátua de mármore de três mulheres era o ponto focal da sala. Elas estendiam os braços para cima, com as pontas dos dedos se tocando, e estavam banhadas por uma luz pura e branca que descia do teto.
Contornei a estátua, examinando-a de vários ângulos. Os rostos das mulheres estavam levantados, como se olhassem para o céu e tentassem alcançar alguma coisa. Pareciam familiares.
— É o nascimento de Wasret — disse uma voz atrás de mim.
Girei e vi uma alcova escondida por uma cortina de tecido suntuoso. Uma luz se moveu ali atrás.
— Quem é você? — perguntei, chegando mais perto. A voz era a mesma que tinha me guiado quando eu estava perdida. — Por que está escondido?
— Não estou me escondendo de você, jovem Lily. — Uma mão reluzente empurrou a cortina de lado e um homem que reluzia tão forte que eu mal conseguia olhá-lo passou e se aproximou de mim. — E você já sabe quem sou.
— Não, não sei — respondi, dando um passo para trás, a perna batendo na estátua.
— Sabe, sim.
O homem chegou mais perto. Olhá-lo era como olhar o coração do Sol.
Meu corpo se aqueceu enquanto ele se aproximava e me inclinei em sua direção, sem pensar. Começou a subir vapor da minha roupa que pingava. Imaginei que queimaria a mão caso tocasse sua pele vibrante. Apesar das minhas reservas, eu sabia que era seguro. Que tocá-lo seria uma espécie de cura. Que sua luz afastaria toda a escuridão.
Estendi a mão e encostei a palma em seu peito. Fiquei surpresa ao descobrir não somente que a sensibilidade voltou rapidamente aos meus dedos, mas que uma sensação de calor disparou por todo o meu corpo. Não, não era só calor. Era paz, felicidade, pertencimento.
— Você está com frio e machucada — disse o homem, estendendo os dedos reluzentes para meu cabelo. — Deixe-me ajudá-la, Nehabet. — Ele sussurrou algumas palavras, algum tipo de encantamento, e a luz banhou meu corpo.
Quando ela retornou para ele, eu estava envolta num suntuoso roupão de seda e em pantufas. Os cortes que ardiam na palma das mãos e nos joelhos tinham desaparecido. Meu corpo e meus cabelos estavam secos, mas alguns fios, agora dourados, continuavam enrolados nos dedos dele.
Lentamente ele baixou a mão e se afastou. Apesar de eu não poder ver seu rosto, havia algo triste em sua postura, nos ombros encurvados. Apertei o cinto e gostei da sensação de estar quente e segura, embora preferisse estar usando um pouquinho mais de roupa.
— Você... Você é Amon, não é? — perguntei ao homem.
— Sou — respondeu ele baixinho.
— Por que não consigo ver você? Por que não me lembro de você? — Girei, olhando ao redor. — Onde estamos? Como você pode estar aqui? Por que não estou num sonho? E onde está Ahmose?
Ele riu.
— Você ainda faz muitas perguntas. Pelo menos isso não mudou. — O homem reluzente estendeu um braço, indicando sua alcova. — Gostaria de se sentar e ficar confortável enquanto esperamos? Ahmose virá, talvez cedo demais para mim e não tanto para você.
— O... obrigada — falei rigidamente, sem saber como me sentir.
Acompanhei-o até um sofá aveludado com almofadas macias em ricos tons brilhantes.
Delicadamente me sentei na outra extremidade do sofá. Ele pareceu me avaliar por um momento antes de optar por sentar-se no meio. Apesar de eu tentar ser discreta enquanto afastava o corpo do dele, tive a sensação de que ele não somente notou como também ficou magoado. O roupão escorregou para cima, em volta das minhas coxas, e me apressei em ajeitá-lo, a vergonha colorindo minhas bochechas. Como eu não podia ver as feições dele, não sabia se ele tinha visto ou não. Se tinha, não disse nada.
— Acho que a maior parte das suas perguntas pode ser respondida com um segredo — começou ele.
— Um segredo?
— Sim. Um segredo que só nós dois sabemos.
— E qual seria ele? — perguntei, me remexendo desconfortavelmente e puxando uma almofada para os braços, para ter algum espaço a mais.
— Você se lembra do que é um escaravelho do coração?
Confirmei com a cabeça, encolhendo-me ligeiramente ao pensar na joia brilhante que tinha sido dele, a que eu tinha removido e guardado na aljava.
— Lembro.
— No momento estamos dentro do seu.
— O quê? — exclamei, boquiaberta. — Como isso é possível? Achei que eu deveria estar no meu mundo dos sonhos.
— Seu mundo dos sonhos foi tomado pela Devoradora. Na verdade, ela não pode lhe causar mal enquanto você está nele, mas pode prender você lá, confundi-la. Asten precisou tecer alguns sonhos novos para distraí-la enquanto eu ajudava você a escapar até aqui. Agora que você está em segurança, ele vai encontrar Ahmose no reino dos sonhos e guiá-lo até onde nós estamos.
— Como ela pôde me encontrar?
— Foi minha culpa, infelizmente. A Devoradora provou do meu coração e por causa disso pôde entrar no mundo dos meus sonhos e acessar o seu.
— Entendo. Então eu sei que Asten tem o poder de entrar nos sonhos e Ahmose deve me encontrar nos meus. Isso não explica por que você está aqui agora nem como ela pôde me encontrar através de você.
— Estou aqui porque nós continuamos unidos. E... e porque eu estou de posse do seu escaravelho do coração.
— O que isso quer dizer exatamente? Nós estamos, bem... noivos ou algo assim? — Eu sentia um certo medo de ouvir a resposta, mas precisava saber. Entender o que acontecia.
— Você me deu o seu escaravelho do coração logo antes de voltar ao reino mortal. Você queria que eu pudesse encontrá-la, assim como poderia me encontrar. — Ele inclinou a cabeça. — O que você quer dizer exatamente com estar noivos?
— Planejando nos casar.
— Ah. — Ele parou como se pensasse com cuidado nas palavras seguintes. — O que você se lembra de nós?
— Hã... nada. Realmente. Só sei o que os outros me contaram.
Ele pôs a mão reluzente no sofá entre nós, e havia uma parte de mim que desejava cobri-la com a minha. Em vez disso, apertei a almofada com mais força contra o peito.
— Lily, isso só significa o que você quiser que signifique.
— Mas o que significa para você?
— Não sei bem se deveríamos estar falando sobre isso agora — disse ele, melancólico.
— Então sobre o que você acha que deveríamos estar falando?
— Deveríamos falar de questões mais importantes. Como o motivo para você não conseguir se lembrar.
— Você sabe qual é?
— O escaravelho do coração era só uma parte do segredo. Há mais coisas. Você teve um vislumbre do seu futuro quando lutou contra a Devoradora. Você canalizou o poder de Wasret por um tempo, apesar de não se lembrar disso. A transformação a deixou amedrontada. — Ele se recostou e pôs o braço ao longo do encosto do sofá. Se eu me inclinasse dois centímetros na direção dele, seus dedos reluzentes iriam me tocar. Afastei-me um pouco e dessa vez vi que ele reconheceu que eu o estava evitando.
Amon suspirou.
— Você tem a tendência de esconder seus sentimentos, jovem Lily. Às vezes, quando preferiria fugir, você adota um ar de confiança. Em vez de ficar em paz com seu caminho e com as duas que residem na sua mente, você rompeu esse caminho e se afastou delas. — Ele hesitou e depois acrescentou: — E de mim.
Fiquei sentada imóvel, ouvindo suas palavras. Sabia que eram verdadeiras, mas queria tapar os ouvidos com as mãos e negá-las. Como pude ser tão covarde? Fraca a ponto de preferir desistir e fugir em vez de lutar? Talvez haja mais nessa história, coisas que ele não sabe, pensei, esperançosa. Talvez eu tenha outros motivos para fugir, motivos que ele não conhece.
Amon esperou um instante e continuou:
— Pouco antes de voltar ao reino mortal, você canalizou o poder do ovo de serpente para tirar as lembranças da sua mente, depois as escondeu aqui, no seu escaravelho do coração, e me deu para que eu guardasse. Nem mesmo Tia e Ashleigh sabem o que você fez.
— Espere aí. Você está dizendo que minhas lembranças estão trancadas aqui dentro? Então por que não posso acessá-las?
— Essa é só uma versão de sonho. Apesar de haver pedaços armazenados nos murais e nas esculturas. Seus pensamentos perdidos vão retornar quando eu lhe devolver pessoalmente o escaravelho.
— Então — falei com tristeza — eu sou uma desertora. Preferi fugir e me esconder dos meus problemas.
— Eu não chamaria Seth e os lacaios dele simplesmente de problemas, Lily.
— Mesmo assim. Eu desisti. Fugi para o outro lado do Cosmo quando os deuses precisavam de mim. Quando Tia e Ashleigh precisavam de mim. Quando... — engoli em seco e olhei para ele — quando você precisava de mim.
— Eu sempre vou precisar de você. Não há nada vergonhoso em temer um inimigo. Qualquer herói seria um tolo se não levasse o inimigo a sério. Especialmente um inimigo poderoso como Seth. Além disso, você se subestima. Gosto de pensar que conheço seu coração melhor do que ninguém. Não é um homem que você teme, nem mesmo um homem poderoso como ele. — Amon baixou a cabeça. — Também não é o amor que você teme. Isso você deu e ainda dá livremente.
Mordi o lábio, pensando em Ahmose. Seria possível que Amon soubesse o que havia acontecido entre mim e seu irmão?
— O que você teme é se perder — disse ele.
— Me perder como? — Engoli em seco, maravilhada ao ver como suas palavras pareciam verdadeiras para meu eu mais profundo, que eu vinha tentando ignorar.
Ele olhou para a estátua. Tinha se referido a ela como o Nascimento de Wasret.
— Ah — falei. — Isso.
Antes de eu perceber que ele havia se mexido, Amon estendeu a mão reluzente e tocou na minha. O calor penetrou minha pele, preenchendo meu corpo com a luz do sol. O contato foi breve, mas por algum motivo trouxe lágrimas aos meus olhos.
— Eu não... — começou ele, depois recomeçou: — Nós não culpamos você por isso. Houve um tempo em que eu também fugi do meu destino. Talvez, se eu não tivesse feito isso, você não estivesse na situação em que se encontra agora. Mas é tarde demais para mudar o passado. Só podemos nos preparar para o futuro. E, como meus irmãos, há partes do seu futuro que eu não consigo ver, mesmo com o Olho de Hórus.
Baixinho, ele admitiu:
— Na verdade, uma parte de mim ficou satisfeita quando soube que você não conseguia lembrar. Eu preferiria perder você para uma vida mortal a perdê-la para que outra coisa, outro alguém possa nascer. Meu am... meus sentimentos por você não estão vinculados ao fato de você salvar ou não o Cosmo. Não importa o que você escolher, seja qual for o caminho que você decidir trilhar, vou apoiá-la e estar do seu lado enquanto você permitir. Entendeu, jovem Lily?
Não havia como negar que esse homem me conhecia e se preocupava comigo. De algum modo ele discernia o que eu temia nas partes mais profundas da alma e não achava que eu era fraca por causa disso. Era o que eu precisava escutar. Eu não sabia se Asten ou mesmo Ahmose diriam a mesma coisa. Que não havia problema em eu não ser heroína. Nem mesmo vovó tinha dito isso. Eu era bastante eficiente em reconhecer a desaprovação, mesmo nas formas mais sutis. Esse cara não iria me julgar. Ele via quem eu era, quem eu podia ser e quem eu queria ser. Porém, mais importante, ele me dava liberdade para simplesmente... ser.
— Eu... acho que entendo. Mas ainda há uma coisa que você não me disse.
— O que é?
Peguei sua mão e a envolvi com as minhas. Ele olhou nossas mãos unidas e eu o ouvi inspirar. O rubi frio e duro que era meu coração pareceu se dissolver em areia. Eu me senti fraca por dentro. Vulnerável.
— Por que não consigo ver você? Quero dizer, eu consigo ver Asten e Ahmose, e até mesmo Tia e Ashleigh nos sonhos delas. Por que não consigo ver você? Não faz sentido.
Lentamente ele levantou a outra mão e tocou meu queixo. Virei-me para olhar seu rosto reluzente, saboreando o calor de seu toque.
— Quando duas pessoas estão ligadas, como nós — começou ele baixinho —, não há nada na Terra ou no céu que possa separá-las. Só existe um motivo para você não me ver, e, apesar de esse motivo partir meu coração, eu o entendo e aceito.
— Qual é? — sussurrei.
— O motivo para você não conseguir me ver, meu amor, é porque não quer.
— Não. — Neguei com a cabeça, meus olhos se enchendo de lágrimas. — Você está enganado. Não pode ser.
— Shh, Nehabet, fique calma. — Ele me envolveu em seus braços luminosos e me apertou.
Eu podia sentir seu coração batendo contra o meu rosto. Amon acariciou minhas costas e meus cabelos, os dedos escorrendo pelos fios soltos como água, enquanto as lágrimas desciam por meu rosto.
— Por quê? Por que eu faria isso com você? — perguntei, com uma emoção inesperada e intensa borbulhando dentro de mim como uma fonte quente. Eu estava com raiva. Não dele, mas de mim mesma. Meu coração batia forte, furioso e tenso, como um lobo perseguindo a presa. Eu queria arrancar o que quer que estivesse causando aquela dor, mas sabia que, se fizesse isso, destruiria algo precioso.
— Não importa — murmurou ele no meu ouvido.
— Importa, sim, Amon — falei, e em seguida envolvi seu pescoço com os braços e fechei os olhos. — Não — comecei, e beijei seu rosto reluzente.
— Não o quê? — perguntou ele com ternura, afastando-se um pouco.
Era quase doloroso olhá-lo e saber que era por minha culpa que suas feições estavam escondidas. Mas forcei os olhos a abrir e disse com sinceridade:
— Não me deixe esquecer.
Ele fez uma pausa momentânea antes de baixar a cabeça e tocar meus lábios com os seus. A princípio o beijo foi leve e suave, como uma pena roçando minha pele. Eu queria mais.
Amon pareceu sentir minha disposição e fui rapidamente envolvida pela luz do sol. Eu podia senti-la à minha volta — protegendo e acalmando, mas, ao mesmo tempo, provocando e hipnotizando. Eu poderia ter ficado para sempre na condição de sonho que era Amon, mas ele se afastou. Quando fez isso, fiquei consternada ao ver que ele ainda era somente um ser dourado, feito de luz, sentado comigo no sofá. Ele acariciou meu rosto.
— Você vai me ver quando for a hora certa.
Envolvi seu pulso com a mão e olhei o ponto em que sabia que seus olhos estariam.
— Vou resolver isso. Prometo.
— Eu sei que vai. E vou esperar. Até a morte do Cosmo, vou esperar por você. Não duvide.
— Não vou duvidar.
Uma voz entoando ecoou na sala e uma luz atravessou o centro da porta dupla dourada. Com um estrondo, ela se escancarou e Amon se levantou, pronto para me proteger.
— Lily! — exclamou uma voz que eu conhecia bem.
Rapidamente fiquei de pé.
— Ahmose!
O grandalhão olhou para nós dois. Se achava estranho Amon aparecer na forma de uma figura reluzente, não disse nada. Ou talvez Amon tivesse a aparência normal para outras pessoas e só eu o visse daquele jeito.
Amon se virou para mim e estendeu a mão. Segurei-a e ele me puxou para ele. Seu calor me envolveu uma última vez e eu quis ficar ali, me aquecendo.
— Vá com Ahmose, meu amor. Fique em segurança. — Ele deu um beijo na minha testa.
— Eu virei encontrar você — falei.
Pelo seu rosto não dava para ver que ele sorria, mas percebi isso em sua voz:
— Esperarei sua chegada com ansiedade — disse ele, depois olhou para trás de mim. — Hakenew, Ahmose. Tome conta dela.
— Farei isso, claro, irmão — respondeu Ahmose.
Dei um sorriso torto para Amon, depois olhei para Ahmose, que não estava nem um pouco sorridente.
— Está pronta, Lily? — perguntou ele, sério e educado como um cão faminto esperando a comida.
— Estou. Vamos.
Fui até Ahmose e, olhando para trás, na direção de Amon, estendi a mão.
Ahmose a tomou e um vórtice se abriu acima de nós, erguendo-nos no ar. O templo dourado desapareceu, junto com o rapaz dourado que eu tinha deixado para trás.

5 comentários:

  1. Jê tá enchendo o saco esse Ahmose, eu acho q ele e o cara do mau

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    1. Ele não é do mal rsrsrs Nenhum deles são.

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  2. Tadinho do Amon. Tomara que a Lily enxergue agora que é ele que ela ama e não o Ahmose. Até por que, ele quer a Ashleigh e não a Lily!

    Flavia

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  3. Capítulo tenso, triste e fofo *--*

    "Não é um homem que você teme, nem mesmo um homem poderoso como ele. — Amon baixou a cabeça. — Também não é o amor que você teme. Isso você deu e ainda dá livremente." >>>>>>>Impressão minha ou foi uma forma bonita e educada de ele dizer "Muié, tu deixa de ser pireguete"

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Boa leitura, E SEM SPOILER!